Maratona Collectors Room: três textos sobre Tommy Bolin



Pra enfrentar a quarentena, resgatamos três textos sobre Tommy Bolin publicados originalmente em 2009, outro de 2009 e em 2016. Divirta-se!

Gravado antes de Tommy Bolin assumir o posto de Ritchie Blackmore no Deep Purple, Teaser (1975) é um disco brilhante, obrigatório em toda coleção de qualquer fã de uma guitarra bem tocada.

Bolin exibe toda a sua técnica e o seu talento como compositor nas nove faixas do disco. Teaser começa a nos conquistar já pela faixa de abertura, "The Grind", dona de um groove contagiante. Com bom gosto e classe acima da média, Tommy Bolin mostra, de forma clara e inquestionável, o porque de ter sido escolhido como o substituto do até então insubstituível Ritchie Blackmore no Purple.

"Homeward Strut" é uma faixa instrumental repleta de balanço, enquanto os pouco mais de cinco minutos de "Dreamer" e a bela "Savannah Woman" mantém o LP no mais alto nível. Outros pontos altos são as ótimas "Teaser", "People, People" e "Wild Dogs", exemplos extremamente bem acabados da capacidade de Bolin como compositor e de sua criatividade como instrumentista.

Somos brindados ainda com mais uma faixa instrumental, "Marching Powder", bastante influenciada pela fase jazz rock de Jeff Beck, e que conta com a participação do tecladista Jan Hammer, ex-Mahavishnu Orchestra.


Teaser se encerra com "Lotus", uma excelente composição que inicia suavemente e aos poucos vai ganhando elementos introduzidos por Bolin, que toca e sola de maneira primorosa, além de cantar de forma apaixonada, fechando o disco com chave de ouro.

Com grande competência e talento, Tommy Bolin trilhou diversos caminhos musicais em sua breve carreira, seja em seus álbuns solo, ao lado do James Gang, Moxy e Deep Purple, ou em participações mais que especiais em trabalhos como Spectrum (1973) de Billy Cobham e Mind Transplant (1974) de Alphonse Mouzon.

Sua música é a prova de sua imensa capacidade criativa e talento. Sua morte, em 4 de dezembro de 1976 por overdose de heroína, deixou inacabada uma grande trajetória que certamente nos brindaria ainda com vários grandes discos.

Ouvir um álbum com Teaser nos causa duas reações: a primeira é imaginar para quais caminhos a música de Tommy Bolin seguiria, e a segunda é agradecer a esse músico único, que mesmo com uma breve e atribulada carreira nos presenteou com trabalhos sublimes como esse.
  

Este Whips and Roses (2006) é um discaço. Trazendo out-takes de Teaser, álbum solo que Tommy Bolin lançou pouco antes de entrar no Deep Purple, além de algumas canções inéditas, mostra todo o talento deste jovem guitarrista que, na mesma proporção em que compunha músicas incendiárias e tocava de forma única, vivia de forma autodestrutiva e flagelante, o que acabou lhe custando a própria vida.

O CD possui dez faixas. Nelas, Tommy passeia pelo hard rock de “Teaser”, pelo jazz rock de “Fandango”, pela jam pura e simples de “Cookoo”, pela sensualidade bruta de “Savannah Woman”, pela latinidade de “Marching Powder” e pela sua própria loucura em “Flyin' Fingers”. Em todos estes estilos, apresenta uma classe acima da média, com generosas doses de talento em cada nota.

Além de solar magnificamente (ouça “Flyin' Fingers”), Bolin ainda era um cantor muito bom. As baladas “Wild Dogs” e “Dreamer” confirmam isso. Lindas, arrepiam até quem nunca foi fã do cara.

Todo o material foi compilado pelo produtor Greg Hampton e por John Bolin, irmão do guitarrista. Completando o pacote, o álbum vem com um generoso encarte de 24 páginas repleto de fotos de diversas fases da carreira de Tommy Bolin.

Whips and Roses é um prato cheio para os fãs deste músico ímpar, para os apreciadores do Deep Purple e para quem curte hard rock setentista.


Tommy Bolin ficou conhecido do grande público por ser o substituto de Ritchie Blackmore no Deep Purple. Ao lado da lendária banda inglesa, o guitarrista norte-americano gravou o subestimado Come Taste the Band, lançado em 1975 e o canto do cisne da primeira fase do grupo. O fim da trajetória do Purple na década de 1970 deve-se muito à morte de Bolin, ocorrida em 6 de dezembro de 1976 devido a uma overdose envolvendo heroína, cocaína, álcool e barbitúricos.

Antes de entrar no Deep Purple, Tommy Bolin já tinha uma carreira estabelecida. Com passagens por James Gang e Moxy, grupos com os quais gravou bons discos, o guitarrista alcançou o seu auge musical em dois trabalhos de jazz, ambos ao lado de bateristas emblemáticos do gênero: o panamenho Billy Cobham (Miles Davis, Mahavishnu Orchestra) e o norte-americano Alphonse Mouzon (Herbie Hancock, McCoy Tyner, Wayne Shorter).

A primeira experiência de Tommy Bolin pelo jazz está registrada no clássico Spectrum, disco de estreia de Billy Cobham como band leader. A banda que gravou o álbum contava ainda com Jan Hammer (teclado, também do Mahavishnu Orchestra) e Lee Sklar (baixo, músico de estúdio presente em inúmeros títulos), além da participação de outros instrumentistas. Spectrum é um trabalho emblemático, um dos mais conhecidos e bem sucedidos discos de fusion da história, fato comprovado pela ótima performance nas paradas - 26º posto no Billboard 200 em 1974 e o primeiro lugar na parada de jazz da mesma Billboard, em 1973. 


Colocando em prática a sua experiência com Miles Davis - com quem gravou clássicos do nível de Bitches Brew (1970), A Tribute to Jack Johnson (1970) e On the Corner (1972), além de Get Up With It (1974) - e a passagem pela Mahavishnu Orchestra - Cobham é o baterista original do grupo e está nos álbuns Inner Mounting Flame (1971), Birds of Fire (1973) e Between Nothingness and Eternity (1973) -, Cobham compôs todas as canções do disco, criando uma sonoridade que mescla requinte e técnica instrumental com melodias que facilitam a acessibilidade. O maior exemplo dessa alquimia está em “Stratus”, principal e mais conhecida faixa de Spectrum, um clássico instantâneo do fusion e que foi regravada por um sem número de artistas. 

Neste álbum, é possível ouvir um outro lado de Tommy Bolin, em contraste com a agressividade e o peso do Deep Purple. Com notas elegantes e uma performance equilibrada, o guitarrista coloca-se no mesmo nível dos demais integrantes da banda de Cobham, tocando de maneira limpa e sublime. Econômico e usando as notas de maneira sutil, Bolin alcançou em Spectrum aquela que pode ser considerada, sem exageros, como a melhor performance de sua breve carreira.

No ano seguinte, Tommy fez parte da banda que gravou o terceiro trabalho de Alphonse Mouzon, o também excepcional Mind Transplant, cujas sessões aconteceram em dezembro de 1974. Além de Mouzon e Bolin, a banda contava com Jerry Peters (piano elétrico e órgão), Jay Graydon (guitarra, músico de estúdio que está em discos de nomes como Don Ellis, Alice Cooper, Diana Ross, Ray Charles, Joe Cocker, Marvin Gaye e inúmeros outros artistas) e Henry Davis (baixo).


Em comparação a SpectrumMind Transplant é um trabalho bem mais agressivo. A mão pesada de Alphonse Mouzon marca o ritmo durante todo o disco - ouça a absurda introducão de “Ascorbic Acid” pra ter ideia do que estou falando -, que em suas oito faixas (todas compostas pela baterista) insere doses generosas de rock na mistura. O resultado passa pelo trabalho brilhante das guitarras de Bolin e Graydon (muitas vezes soando como gêmeas), em uma performance com poder de cativar, por exemplo, aquele seu amigo fã de rock e que sempre passou longe de toda e qualquer coisa que soasse minimamente próxima ao jazz. Faixas como “Snow Bound” e “Happiness is Loving You” deixam claro o talento e a classe de Bolin, com solos belíssimos.

As parcerias com Billy Cobham e Alphonse Mouzon influenciaram Tommy Bolin, e isso ficou claro em Teaser, estreia solo do guitarrista, que chegou às lojas em 17 de novembro de 1975, pouco mais de um mês após o lançamento de Come Taste the Band (o disco do Deep Purple saiu dia 10 de outubro daquele ano). Podemos ouvir o que Bolin aprendeu e assimilou ao lado de Cobham e Mouzon em “Homeward Strut”, a faixa mais conhecida de Teaser. Instrumental, é um jazz-rock que traz o guitarrista transitando por paisagens melódicas e harmônicas similares às presentes, principalmente, em Spectrum.

Dono de um talento enorme e de uma musicalidade rara, Tommy Bolin foi uma grande perda não só para o rock, mas para a música de modo geral. Ouvir seus discos e as parcerias experimentando outros gêneros dá uma amostra da capacidade do norte-americano, e também demonstra o quanto ele era aventureiro em sua trajetória. 

Comentários

  1. Se ouço jazz hoje, agradeço Tommy Bolin. Discordo de que "Come Taste... seja uma álbum subestimado. A crítica é que não entendeu o disco. Jon Lord, ex-tecladista do DP, afirmou que o disco estava muito além do seu tempo. É verdade. Trata-se de um trabalho incrível, com jazz, hard rock e funk. Nenhuma banda de rock fez nada parecido.
    Se não tivesse morrido tão precocemente, talvez se tornasse o melhor do mundo.
    Conheci recentemente o trabalho de Bolin no Moxy. Sensacional! Uma pena que esse fenomenal guitarrista tenha partido tão cedo.

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