Por que o mercado de CDs ainda é gigante no Japão?


Em um país conhecido por obsessões bizarras, existe uma que confunde a maioria das cabeças. Não, não é a dedicação do Japão a máquinas de venda automática que têm praticamente tudo, desde café em lata até roupas íntimas e produtos de beleza bizarros, mas o amor do país pelos CDs. Há dois anos, a Forbes informou que as compras de CD representavam 85% de todas as vendas de músicas no Japão.

 

Nos últimos anos, muito foi escrito sobre o atual caso de amor do Japão com o disco de plástico. Mas enquanto os CDs se tornaram essencialmente uma relíquia da cultura pop em qualquer outro lugar, por que os japoneses ainda compram esses pequenos pedaços de nostalgia dos anos 1990?

 


Ascensão e queda (e ascensão) da Tower Records

 

Faça um curto passeio a partir da estação de Shibuya e você tropeçará na loja monolítica da Tower Records, que se ergue de forma imponente em sua glória em vermelho e dourado. Em 2002, a Tower Records Japan se separou preventivamente da cadeia internacional da Tower Records, o que salvou a loja de um túmulo precoce, porque em 2006 a Internacional Tower Records Company entrou com um pedido de falência.

 

Enquanto a maioria das lojas de CDs estava fechando as portas em 2012, a Tower Records Shibuya se tornou uma anomalia na indústria da música, aumentando de tamanho, adicionando uma livraria, um espaço ao vivo e um café para preencher o enorme bloco de 5.000 metros quadrados de área de venda. Foi uma jogada ousada, que essencialmente restabeleceu a confiança da loja na vida do CD.

 


O lado do negócio

 

Uma razão por trás da vitalidade do CD no Japão pode girar em torno do licenciamento. Enquanto outros países adotaram totalmente a noção de baixar e transmitir músicas, o Japão é reticente em mergulhar. Isso acontece potencialmente devido à lenta implantação de serviços de streaming online e à falta de opções, graças às grandes gravadoras, que tornam os acordos de licenciamento e gerenciamento bastante confusos.

 

A editora e compositora Noemi (24) diz que usa o Spotify, mas suas restrições são um problema. "Eu tenho o Spotify, mas mal uso por causa de sua limitação de tempo”.  O professor e amante obstinado da música Yuta (28) se enquadra em uma categoria semelhante quando perguntado se ele usa serviços de streaming. "Meio que sim. Não pago para ser um membro premium, mas tenho o Spotify no meu telefone".

 

Portanto, se o streaming é difícil, por que não seguir a rota questionável, mas frequentemente bem trilhada, dos downloads ilegais, como tantas outras nações? Bem, os dilemas éticos da pirataria também entram em jogo. “Download ilegal é difícil aqui. A maioria dos sites de download está em inglês e, se você não entende inglês, isso pode ser complicado. Além disso, o povo japonês é tão sério que o download 'ilegal' é considerado ruim”, explica Noemi.

 


A experiência dos fãs japoneses

 

Além dos aspectos práticos, o Japão possui uma rica cultura de colecionadores. A propensão japonesa de transformar o amor em obsessão total ajudou a manter a música no mundo físico.

 

É uma característica peculiar que conseguiu manipular a indústria fonográfica (para melhor ou para pior) há décadas. Edições especiais, reedições, prêmios e outros truques de marketing continuam alimentando o que Noemi explica como uma “mentalidade groupie”. "Mais do que tudo, eu acho que os japoneses têm uma mentalidade de groupie, em um bom sentido. Então, se seus artistas favoritos lançam um álbum, você o quer fisicamente para mostrar que os apoia. Sem mencionar que às vezes você pode conseguir um ingresso para conhecer as bandas comprando o CD”. Totalmente consciente do fenômeno, Noemi às vezes se enquadra na categoria. “Eu compro CDs quando meus artistas favoritos lançam material novo ou quando o visual é tão bom que eu os quero pela estética”, diz ela.

 

A estética também desempenha um papel fundamental na experiência musical japonesa. “Prefiro CDs a downloads porque tenho o desejo de possuir fisicamente o que os artistas fazem. E há essa inexplicável sensação de alegria e emoção que sinto ao abrir a embalagem e sentir o cheiro do livreto de letras. Eu gosto de ver toda a minha coleção de CDs na estante às vezes. Curto os CDs com obras de arte legais e interessantes ”, explica Yuta.

 


O futuro

 

Então, qual é o futuro dos CDs no Japão? Bem, assim como o resto do mundo, Yuta prevê que os CDs estejam morrendo lentamente. "Honestamente, acho que os CDs não são muito populares nem no Japão. Mas se parece que eles ainda são populares aos olhos estrangeiros, provavelmente é porque eles foram um enorme fenômeno de popularidade nos anos 1990 e já estão na metade do caminho. Mas eles definitivamente estão morrendo".

 

A mudança para o vinil parece ser uma evolução potencial: "Anteriormente, não comprei discos de vinil porque não tinha um toca-discos até muito recentemente, mas vou começar a comprá-los a partir de agora", diz Noemi. "Definitivamente, pretendo começar a comprar LPs  no futuro, quando puder comprar um toca-discos decente, alto-falantes e outras coisas", concorda Yuta.

 

No entanto, como o amor à cultura do Japão realmente marcha ao ritmo de seu próprio tempo, fazer previsões sobre se o futuro do consumo de música será através de CDs, LPs ou downloads digitais ainda é uma incógnita. Mas, por enquanto, os CDs estão aqui e seguem responsáveis pela imensa maioria das vendas em terras nipônicas, então vamos tentar apreciar essa nostalgia da década de 1990.

 

Por Lucy Dayman, do Metropolis Japan

Tradução: Ricardo Seelig


Comentários

  1. Talvez o espaço das residência expliquem muito a cultura do cd, lá quase não se tem espaço para armazenar ou guardar nada, é tudo minúsculo. E os cds por serem práticos no tamanho e podendo comprar vários títulos, o cd seja o tamanho ideal. Bem, lógico que uma edição ou outra vem vinil cabe, mas até para se ter um som para cd e vinil exigem equipamento diferente explique isso. Também existe a cultura da moral social, quem consegue músicas ilegais nem sempre mostra, tenta conseguir o lega. Aqui nosso país é muito imoral, as pessoas são bastante imorais, inclusive as gravadoras, que vendem cds com preço bem salgados para o padrões econômicas da população. Os governos colocam impostos absurdo, onde poderia ter um imposto único de 10% nas vendas, sendo rateado para o governo do município 5%, o Estado 3% e Federal 2%. seria bem melhor. Lembro que a dez anos vi cds a venda em magazines por 50 reais, é como hoje custasse 120 reais, um cd nacional simples com este valor! não vai.

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  2. Parabéns excelente matéria. Sou colecionador aqui no Brasil, pelo mesmo motivo. Apoio ao artista e gosto de ter a obra física, mídias digitais te privam desse prazer.

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  3. Por essa razão explicitada pelos dois entrevistado é que compro cds e lps e, as vezes, quando é um disco que gosto além da conta a compra é feita nos dois formatos. Eu sei que em cada país é uma questão cultural e de renda, mas sempre reservo uma quantia certa para comprar os meus todo mês. Não há prazer maior do que escutar o plástico rasgar e sentir o cheio de novo tanto do acrílico quando do encarte, a música que tem melhor qualdade do que o streaming que na verdade serve como vitrine ou walkman digital.

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  4. OS JAPONESES E OS CDS
    ELES SAO CORRETOS, DOWNLOAD E DESONESTO PARA COM O TRABALHO DO ARTISTA.

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  5. Acho que um dos motivos que levou a queda da venda dos cds no mundo (com bem menos impacto no Japão) e o aumento dos downloads ilegais foi a falta de estratégia das gravadoras que lançavam edições pobres dos lançamentos.
    Lembro que pagava uma grana pra ter um cd que só me dava acesso às músicas. O encarte era pobre, não vinham às vezes nem com a letra, não te dava acesso a mais nada, nem de ser um membro de algum fã clube, ter acesso a coisas legais no site da banda, desconto em merchandise, um brinde junto, sei lá... poderia ser feito muita coisa. Isso vale até mesmo para os dvds, que nem vem legenda nos shows.
    Então, pra que pagar caro "somente pela música", se ela já estava ali de graça? Sei que algumas pessoas não pensam assim, mas a maioria pensa e foi assim que a história aconteceu.
    Em contrapartida, as edições dos cds japoneses sempre foram luxuosas e bacanas, tanto que são disputadas por boa parte dos colecionadores. Talvez esse seja um outro motivo que os cds ainda tem uma grande relevância, não só aos downloads ilegais, mas ao serviço de streaming.

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  6. Que matéria bacana!!!! Estive em Tóquio seis meses atrás. Nas ruas de Shibuya e Shinjuku rodavam caminhões com letreiros enormes promovendo o Metal Galaxy do Babymetal. Além dos clubes e bares de jazz e rock, tem a onipresente Tower Records. Visitei quatro lojas em bairros diferentes. Catálogos excelentes de rock, jazz e heavy metal. Discos japoneses, europeus, americanos. Atendentes educados e que conhecem a profissão. Além de cds dá para comprar de tudo ligado à musica: headphones, cd players, camisas, posteres, bugingangas, o diabo. Preços razoáveis para o padrão japonês (porém mais caros que a média mundial) e procurando dá para achar boas promoções (comprei uma caixa de 10 cds do Cannonball Adderley por uns 20 dólares). Voltei para casa com carteirinha de sócio, cd player bluetooth, headphones e um monte de cds na mala... tudo bem que dá para comprar pela Amazon ou qualquer outro site/loja virtual, mas quem frequenta a Galeria do Rock sabe: a atmosfera é incomparável. Ver, escolher, tocar, conversar, ouvir... a música em meio físico sempre existirá para mim, pelo menos

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  7. Flavio Custódio5 de julho de 2020 00:46

    Amo comprar cd's, e recentemente, adquiri os novíssimos discos do Pearl Jam e dos Strokes, e é triste saber que nessa joça aqui, chamada Brasil, ninguém mais compra discos, como no Japão e Europa....fazer o quê ??!!

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