100 Discos para Conhecer Aguardela: uma carta de amor à musicologia do imaginário e ao espírito do colecionismo musical (2024, Pipoca & Nanquim)
A força de 100 Discos para Conhecer Aguardela está na forma como ele compreende e subverte a lógica da historiografia musical. Daniel Lopes e Raphael Salimena não apenas criam discos fictícios: eles constroem um ecossistema cultural completo, onde cada álbum funciona como documento histórico, vestígio emocional e peça de um mosaico maior. É um livro que pensa a música como linguagem social, não como produto isolado.
Ao optar por cem discos fictícios, os autores eliminam qualquer fetiche nostálgico por títulos consagrados e deslocam o foco para aquilo que realmente sustenta a cultura fonográfica: contexto, circulação, conflitos, cenas locais e memória coletiva. Aguardela não é apenas um cenário, mas um organismo vivo, moldado por transformações políticas, mudanças de gosto, crises de mercado, disputas artísticas e reinvenções estéticas, exatamente como qualquer cidade real com tradição musical.
O leitor mais atento percebe que o livro opera em várias camadas simultâneas. Na superfície, há o prazer imediato do design: capas que dialogam com diferentes épocas da história da música, referências visuais sutis e escolhas gráficas que evocam desde selos independentes até grandes gravadoras. Em um segundo nível, surgem os textos como sinopses, letras e fichas técnicas, que simulam com precisão o discurso crítico, promocional e memorialístico que cerca a música gravada. Tudo soa verossímil porque respeita os códigos da cultura musical.
Mas é na camada mais profunda que Aguardela se revela plenamente. As recorrências de nomes, estúdios, produtores, tragédias pessoais e mudanças de rumo criam uma sensação de continuidade histórica rara em projetos desse tipo. Há discos que parecem respostas a outros, movimentos que surgem como reação estética ou política, artistas que amadurecem, fracassam ou se tornam mitos locais. O livro exige um tipo de leitura ativa, quase investigativa, recompensando quem se dispõe a conectar pontos e reconhecer padrões.
Esse método fragmentado dialoga diretamente com a experiência do colecionador. Assim como acontece ao garimpar discos usados, nem tudo é explicado de forma didática. Algumas histórias ficam incompletas, outras são contraditórias, e certas lacunas permanecem abertas. E isso não é uma falha, mas uma escolha consciente que reproduz a maneira como a história da música é, de fato, construída: por relatos parciais, memórias falhas e narrativas concorrentes.
Outro aspecto relevante é como o livro reflete sobre a materialidade do disco. Em tempos de streaming e desmaterialização da escuta, Aguardela reafirma a importância da capa, do encarte, da ficha técnica e da contextualização. O som não está ali, mas tudo ao redor dele está, e isso basta para que o leitor “ouça” mentalmente cada álbum. Poucas obras entendem tão bem que a experiência musical vai muito além da audição.
No final, 100 Discos para Conhecer Aguardela é menos sobre discos fictícios e mais sobre como construímos sentido a partir da música. É um livro que fala de pertencimento, memória e imaginação, mas também de crítica cultural e amor profundo pela mídia física. Para leitores da Collectors Room, acostumados a buscar contexto, histórias e camadas além da superfície sonora, trata-se de uma obra que dialoga diretamente com o espírito do colecionismo: aquele desejo quase obsessivo de entender não só o que foi gravado, mas por que foi gravado e o que isso diz sobre o mundo ao redor.
A edição da Pipoca & Nanquim é belíssima, como de costume nos títulos da editora, com capa dura no formato exato de um disco de vinil e 228 páginas impressas em papel couchê. Leia a todo volume!




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