A Little Ain’t Enough (1991) é um álbum que pede escuta atenta e distanciamento histórico. Quando observado além do rótulo de “disco lançado na hora errada”, ele se revela como um retrato bastante preciso e até mesmo inconsciente do esgotamento de uma estética e da tentativa de reafirmação de uma identidade artística em meio a um cenário que mudava rapidamente.
Do ponto de vista sonoro, a produção de Bob Rock é central para entender o álbum. Diferente do brilho quase hedonista de Eat ’Em and Smile (1986) ou da abordagem mais arejada de Skyscraper (1988), aqui David Lee Roth entrega um som mais pesado, comprimido e musculoso, antecipando a estética hard rock que dominaria os primeiros anos da década de 1990. As guitarras são espessas, os grooves têm peso físico e a mixagem privilegia impacto em detrimento de leveza. É um disco que soa “grande”, mas não exatamente expansivo. Há uma sensação de densidade constante, quase claustrofóbica.
Nesse ambiente, a guitarra de Jason Becker assume um papel decisivo. Diferente de Steve Vai, cuja presença nos discos anteriores frequentemente chamava atenção para si mesma, Becker trabalha de forma mais integrada às canções. Seus solos são menos acrobáticos e mais narrativos, frequentemente melódicos, com uma expressividade que ganha ainda mais força quando se considera o contexto pessoal do guitarrista naquele momento: um dos músicos mais promissores e talentosos de sua geração, Becker já havia sido diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica e enfrentava os primeiros sintomas da doença. Há algo de contido e até trágico em sua abordagem, o que cria um contraste fascinante com a postura expansiva de Roth. Essa tensão entre exuberância e contenção é um dos motores emocionais do álbum.
As composições, por sua vez, revelam um David Lee Roth mais pragmático do que costuma ser lembrado. Muitas faixas seguem estruturas clássicas de hard rock, com riffs diretos e refrães imediatos, mas sem a despreocupação quase carnavalesca que marcava seus trabalhos anteriores. Canções como “Sensible Shoes” e “Drop in the Bucket” flertam com o blues rock e com um certo cinismo adulto, enquanto “It’s Showtime!” funciona quase como uma metalinguagem: Roth reafirmando seu papel de entertainer em um mundo que já começava a questionar esse tipo de figura.
Liricamente, o álbum é menos escapista do que aparenta à primeira vista. Ainda que o humor, a ironia e a sexualidade estejam presentes, há uma sensação recorrente de excesso vazio, de que nunca é suficiente, ideia já sugerida no próprio título. Isso dá ao disco um tom curioso: ao mesmo tempo confiante e defensivo, festivo e levemente amargo. Roth parece consciente de que precisa provar algo, mas sem saber exatamente a quem.
O grande problema de A Little Ain’t Enough nunca foi interno, mas contextual. Em 1991, o rock começava a valorizar crueza, introspecção e despojamento, enquanto Roth ainda operava dentro de uma lógica de espetáculo, personagem e excesso. O choque era inevitável. No entanto, revisitado hoje, o álbum soa menos como um anacronismo e mais como o canto do cisne de uma era, registrado com competência, personalidade e, sobretudo, coerência artística.
Não é o álbum mais revolucionário da carreira de David Lee Roth, nem o mais celebrado, mas talvez seja um dos mais reveladores. A Little Ain’t Enough captura o momento exato em que o hard rock de arena percebe que seu reinado está acabando e, em vez de se reinventar completamente, decide tocar mais alto, mais pesado e com ainda mais convicção. Por isso mesmo, permanece um disco digno de reavaliação, especialmente para quem se interessa pelos momentos de transição na história do rock, quando estilos não morrem de imediato, mas resistem com intensidade.
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