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A Própria Carne – Escrito com Sangue: o horror como herança e consequência (2026, Pipoca & Nanquim)


A Própria Carne – Escrito com Sangue
 reúne duas das principais referências da cultura pop brasileira: o portal Jovem Nerd e o canal e editora Pipoca & Nanquim. A HQ não é apenas um produto derivado do filme produzido pelo portal: é uma expansão conceitual que entende o terror como algo múltiplo, fragmentado e profundamente humano. O quadrinho assume desde o início sua natureza de antologia e transforma essa característica em virtude, não em limitação.

A obra reúne seis histórias curtas que orbitam o universo do filme A Própria Carne, mas evita a armadilha do simples “material complementar”. Cada capítulo funciona como um recorte específico de trauma, obsessão ou ruptura moral, explorando personagens e situações que antecedem ou tangenciam os eventos centrais da narrativa cinematográfica. O resultado é menos explicativo e mais atmosférico, algo que dialoga muito bem com a tradição do horror psicológico.

A HQ aposta na diversidade. Os roteiros variam entre o horror ritualístico, o delírio psicológico e a violência simbólica, enquanto a arte acompanha essa pluralidade com estilos visuais distintos, às vezes contrastantes. Essa irregularidade estética não enfraquece o conjunto, ao contrário, reforça a ideia de que o horror se manifesta de formas diferentes conforme o olhar, a cultura e o passado de cada personagem.



A edição da Pipoca & Nanquim vem em capa dura, 116 páginas em papel couchê e uma impactante arte de capa assinada por Rafael Albuquerque, o que ajuda a consolidar a HQ como um objeto pensado para colecionadores, algo que vai além da leitura rápida. Há uma clara preocupação editorial em posicionar a obra como um marco dentro do terror nacional contemporâneo, tanto no cinema quanto nos quadrinhos.

Como toda antologia, A Própria Carne – Escrito com Sangue pode causar reações desiguais: algumas histórias são mais imediatas, outras exigem maior entrega do leitor. Mas essa assimetria faz parte da proposta. Não se trata de uma narrativa fechada ou confortável, e sim de um mosaico de sensações, onde o desconforto e a ambiguidade são elementos centrais.

O quadrinho se destaca por tratar o horror não como espetáculo, mas como consequência de escolhas, contextos históricos, culpas herdadas e feridas que não cicatrizam. É uma leitura densa, incômoda e, justamente por isso, recomendada especialmente para quem vê nos quadrinhos um espaço legítimo para explorar os limites entre entretenimento, arte e inquietação.


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