Balance (1995) é frequentemente rotulado como um disco irregular, mas essa definição simplifica demais o que ele realmente é. Mais do que um conjunto de músicas com altos e baixos, o álbum funciona como um retrato cru de um Van Halen em estado de esgotamento criativo e emocional, tentando manter sua identidade enquanto o mundo ao redor, e dentro da própria banda, mudava rapidamente.
A começar pelo contexto: o início dos anos 1990 já não era mais um terreno naturalmente favorável ao hard rock clássico. O grunge havia deslocado o eixo do mainstream, e bandas associadas ao virtuosismo e ao excesso precisavam se reinventar. Em Balance, essa pressão externa se soma a conflitos internos bem documentados, especialmente entre Eddie Van Halen e Sammy Hagar. O resultado é um disco que soa menos confiante, mais introspectivo e, em muitos momentos, tenso.
Eddie assume um papel ainda mais central. Seu trabalho de guitarras e teclados é elaborado, por vezes quase obsessivo, e revela um músico mais interessado em texturas e atmosferas do que em exibições puramente técnicas. “The Seventh Seal” já deixa isso claro logo na abertura: riffs pesados, clima quase ritualístico e um senso de gravidade raro na discografia da banda. “Aftershock” segue a mesma linha, com uma urgência que parece traduzir frustração acumulada.
As letras de Sammy Hagar, frequentemente subestimadas, ganham aqui um tom mais sério e reflexivo. “Don’t Tell Me (What Love Can Do)” e “Not Enough” abordam desgaste emocional, limites e desencanto, temas que dialogam diretamente com a fase vivida pelo grupo. Mesmo nas faixas mais acessíveis, há uma melancolia latente que diferencia Balance de seus antecessores imediatos.
Ao mesmo tempo, o álbum ainda tenta cumprir seu papel dentro da lógica comercial. “Can’t Stop Lovin’ You” é uma power ballad cuidadosamente construída para o rádio, enquanto “Amsterdam” e “Big Fat Money” resgatam o hard rock mais direto. Essa tentativa de conciliar introspecção artística e expectativas de mercado é justamente um dos pontos que comprometem a coesão do disco: Balance parece constantemente dividido entre o que a banda queria dizer e o que precisava entregar.
Os três instrumentais reforçam essa sensação. “Strung Out” e “Doin’ Time” funcionam mais como interlúdios experimentais do que como composições completas, enquanto “Baluchitherium” remete a exercícios de estúdio e ideias não totalmente desenvolvidas. São momentos interessantes para quem aprecia o processo criativo de Eddie, mas que interrompem o fluxo narrativo do álbum.
Com o distanciamento do tempo, Balance se revela menos um álbum falho e mais um disco honesto até demais. Ele não mascara conflitos nem tenta soar confortável. É o som de uma banda que ainda era gigante, capaz de liderar paradas, mas que já não conseguia esconder suas rachaduras internas. Pouco depois, a saída de Sammy Hagar confirmaria que o equilíbrio sugerido ironicamente pelo título já havia se rompido.
Balance não é um clássico incontestável do Van Halen, mas é um dos seus trabalhos mais reveladores. Um álbum que ganha força justamente quando ouvido como aquilo que ele realmente é: o registro de um fim anunciado.


Comentários
Postar um comentário
Você pode, e deve, manifestar a sua opinião nos comentários. O debate com os leitores, a troca de ideias entre quem escreve e lê, é que torna o nosso trabalho gratificante e recompensador. Porém, assim como respeitamos opiniões diferentes, é vital que você respeite os pensamentos diferentes dos seus.