Days of Ash chegou de surpresa na Quarta-feira de Cinzas de 2026, gesto simbólico que já aponta para seu eixo central: luto, memória e reconstrução. Em vez de um simples EP, o novo trabalho do U2 funciona como um documento artístico sobre um mundo em combustão, e cada faixa parte de histórias reais.
“American Obituary” é inspirada em Renée Good, mãe de família morta em confronto com agentes do serviço de imigração dos Estados Unidos (ICE). A letra questiona a narrativa oficial que rotula vítimas como ameaças e transforma o lamento em denúncia. Musicalmente, a faixa resgata o U2 mais direto: guitarras incisivas de The Edge, batida firme e um Bono inflamado, operando no território clássico das canções de protesto.
“The Tears of Things” dialoga com o pensamento do frade Richard Rohr e constrói uma reflexão espiritual sobre sofrimento coletivo. A canção utiliza imagens simbólicas como a metáfora envolvendo o Davi de Michelangelo para discutir poder, vulnerabilidade e compaixão. É um dos momentos mais densos do EP, aproximando fé e crise contemporânea sem soar panfletária.
Já “Song of the Future” presta homenagem a Sarina Esmailzadeh, jovem iraniana morta durante os protestos do movimento Woman, Life, Freedom, desencadeado após a morte de Mahsa Amini, jovem morta pela “polícia da moralidade” do Irã por supostamente não usar o hijab corretamente. A música transforma a tragédia em afirmação de legado: o futuro pertence àqueles que ousam desafiar o medo.
“Wildpeace” traz o quarteto musicando um poema de Yehuda Amichai, poeta e autor israelense, e atua como interlúdio contemplativo. A faixa amplia o alcance temático ao tratar dos traumas gerados por conflitos históricos, reforçando a dimensão poética do projeto. Já “One Life at a Time” é dedicada a Awdah Hathaleen, ativista palestino morto na Cisjordânia. O título resume a mensagem: a mudança não ocorre por slogans grandiosos, mas pela preservação concreta de cada vida. O U2 evita simplificações e aposta em uma abordagem humanista.
O EP se encerra com “Yours Eternally”, parceria com Ed Sheeran e Taras Topolia, vocalista da banda ucraniana Antytila que serviu como soldado na guerra contra a Rússia. Estruturada como uma carta íntima escrita em meio ao conflito, a canção combina fragilidade emocional e resistência.
Produzido por Jacknife Lee, Days of Ash é coeso e urgente. Ao ancorar suas composições em pessoas reais vítimas de violência institucional, repressão política e guerra, o U2 reafirma sua vocação histórica para transformar acontecimentos contemporâneos em arte engajada. Pode dividir opiniões, mas dificilmente será ignorado. E, para uma banda com mais de quatro décadas de trajetória, isso diz muito.
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