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Entre o pântano e o horror: Voodoo (1998) e a maturidade sombria de King Diamond


Voodoo
(1998) representa um momento particularmente interessante na trajetória de King Diamond. Distante do impacto revolucionário de Abigail (1987), mas igualmente comprometido com a narrativa conceitual, o álbum mostra um artista maduro, consciente de sua estética e disposto a aprofundar sua linguagem teatral dentro de uma moldura mais sombria e densa.

A história ambientada na Louisiana de 1932 não é apenas pano de fundo exótico. O uso do vodu como elemento central permite a King explorar atmosferas pantanosas, quase sufocantes, que se refletem na construção musical. Há menos ênfase em refrões imediatos e mais investimento em climas prolongados, interlúdios narrativos e transições dramáticas. A abertura com “LOA House” já apresenta riffs cortantes e uma tensão constante, enquanto “Life After Death” desacelera para criar uma sensação espectral que dialoga diretamente com o enredo.

O disco é guiado pelo trabalho refinado de Andy LaRocque, cujos riffs equilibram peso tradicional e melodias sinuosas. Os solos são menos exibicionistas e mais funcionais à narrativa, servindo como extensão emocional das cenas descritas nas letras. A participação de Dimebag Darrell, do Pantera, na faixa-título adiciona um contraste interessante: seu fraseado mais agressivo e moderno injeta energia em um álbum predominantemente atmosférico, criando um dos momentos mais memoráveis do trabalho.


A interpretação vocal é, como sempre, elemento central. King Diamond alterna falsetes agudos, vozes sussurradas e registros graves para encarnar diferentes personagens. Em Voodoo, essa teatralidade é menos caricatural do que em alguns discos anteriores. Há uma contenção maior, o que contribui para um clima mais sério e sombrio. O resultado é uma narrativa que flui quase como um audiolivro musicalizado.

A produção, por outro lado, permanece como ponto de debate. A bateria soa seca e por vezes rígida, o que pode comprometer a dinâmica em determinadas passagens. Ainda assim, essa secura também reforça a frieza do ambiente descrito, criando uma sensação de isolamento que combina com o tema.

Se não figura automaticamente entre os títulos mais celebrados da discografia do vocalista, Voodoo se destaca como um álbum coeso, cinematográfico e fiel à proposta artística de King Diamond. É um trabalho que exige audição atenta e preferência por narrativas densas. Para quem valoriza o heavy metal como forma de contar histórias com atmosfera, personagens e tensão dramática, trata-se de uma obra que merece ser redescoberta.


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