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Sofrência, sexo e algoritmos: o novo lugar-comum da música brasileira


Ao longo de toda a sua história, a música popular brasileira sempre soube equilibrar acessibilidade e sofisticação. Mesmo nos momentos mais comerciais, nunca foi exigido que o público “pensasse pouco”. Pelo contrário: canções populares frequentemente carregavam camadas poéticas, sociais, políticas e afetivas que iam muito além do entretenimento imediato.

A ideia de que “música pop sempre foi simples” é, portanto, apenas meia verdade. Sim, a música popular sempre dialogou com o grande público, mas isso nunca significou empobrecimento temático. Basta lembrar que artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, Zeca Pagodinho e Rita Lee, ou mesmo nomes mais populares do rádio dos anos 80 e 90 como Barão Vermelho, Cazuza, Legião Urbana, Titãs, Engenheiros do Hawaii e Skank, conseguiam unir refrões memoráveis a letras que falavam de amor, cotidiano, identidade, política, desejo e contradição humana com inteligência e sensibilidade.

O contraste com boa parte da música brasileira mais popular da atualidade chama atenção. O sertanejo contemporâneo e o funk pop, hoje dominantes nas paradas, no streaming e nas playlists algorítmicas, parecem presos a um tripé temático extremamente limitado: a sofrência amorosa reciclada à exaustão, a objetificação sexual e a exaltação do corpo reduzida quase sempre a bundas, bebidas e ostentação.

Não se trata de moralismo, nem de negar o valor da música como espaço de prazer, dança ou catarse. Sexo, dor de cotovelo e excessos sempre fizeram parte da música popular, tanto no Brasil como no mundo. A diferença está na ausência de variação, de subtexto e de elaboração poética. Onde antes havia metáfora, ironia, ambiguidade e narrativa, hoje frequentemente há literalidade crua, repetição de fórmulas e um vocabulário cada vez mais restrito.

No sertanejo atual, a dor amorosa virou produto industrial: histórias quase intercambiáveis, personagens genéricos e emoções pasteurizadas. Já no funk pop, a transgressão, que em outros momentos foi força criativa e política, muitas vezes se reduz a um erotismo automático, sem contexto, crítica ou invenção, funcionando mais como engrenagem de engajamento do que como expressão artística. E pior: em ambos os estilos, os padrões rítmicos e de arranjo quase não apresentam variações, transmitindo a sensação de estarmos ouvindo uma enorme e infinita mesma canção.

Esse empobrecimento não nasceu do nada. Ele é resultado de um ecossistema musical moldado por algoritmos, planejamentos de marketing, estratégias virais e consumo acelerado. Quanto mais simples, direta e repetitiva a mensagem, maior a chance de funcionar nas plataformas. A canção deixa de ser um espaço de expressão e passa a ser um ativo de desempenho.

O problema não é a existência desses gêneros, afinal eles têm seu lugar, sua história e sua importância social como qualquer outro. O problema é a hegemonia quase absoluta desse tipo de abordagem, que acaba apagando do grande público outras formas de fazer música popular: mais líricas, mais diversas, mais inventivas. A riqueza da tradição musical do país segue viva, mas cada vez mais empurrada para nichos, longe do centro do debate cultural.

No fim das contas, a questão não é nostalgia nem elitismo. É perguntar por que um país que sempre produziu letras capazes de dialogar com a complexidade da vida parece hoje satisfeito com canções que raramente vão além do óbvio. A música brasileira não perdeu talento: perdeu espaço para ousar, variar e dizer mais.

E isso, mais do que qualquer refrão chiclete, deveria nos incomodar.


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