Solace (2026): EP marca a transição criativa de Jéssica Falchi após passagem da guitarrista pela Crypta
A transição de músicos entre diferentes vertentes do metal frequentemente revela facetas criativas pouco exploradas ao longo de suas carreiras. Solace, EP de estreia da banda Falchi, liderada pela guitarrista brasileira Jéssica Falchi, representa exatamente esse tipo de virada artística. Conhecida por integrar a Crypta em uma fase importante da trajetória do grupo, Jéssica apresenta aqui um trabalho que evidencia um lado bastante distinto de sua musicalidade, afastando-se do death metal para mergulhar em uma abordagem instrumental que prioriza atmosfera, narrativa e sensibilidade melódica.
Lançado em janeiro de 2026, o EP reúne quatro faixas que funcionam como capítulos interligados de uma proposta sonora coesa. Ao lado de João Pedro Castro (baixo) e Luigi Paraventi (bateria), a guitarrista constrói um repertório que equilibra peso, refinamento técnico e influências do metal progressivo contemporâneo, sem abrir mão de uma forte preocupação estética e emocional.
A abertura com “Moonlace” já estabelece o tom do trabalho. A faixa aposta em melodias marcantes e estruturas dinâmicas que demonstram a intenção clara de dialogar com um público mais amplo, indo além do nicho instrumental tradicional. Percebe-se uma abordagem composicional em que a guitarra assume papel narrativo em vez de se limitar à exibição técnica.
“Sunflare” amplia essa proposta ao explorar climas mais introspectivos e texturas que se desenvolvem gradualmente. A interação entre guitarra, baixo e bateria evidencia maturidade nos arranjos, com espaço para respiração e desenvolvimento orgânico das ideias musicais. O trio demonstra sintonia ao evitar exageros e priorizar a fluidez sonora.
O momento de maior complexidade estrutural surge em “Sweetchasm, Pt. 1”, que conta com participação especial de Aaron Marshall, guitarrista do Intervals. A faixa incorpora mudanças de andamento, passagens rítmicas intrincadas e camadas harmônicas que dialogam diretamente com o metal progressivo moderno. Ainda assim, o protagonismo criativo de Jéssica permanece evidente.
Encerrando o EP, “Sweetchasm, Pt. 2” apresenta uma abordagem mais direta e agressiva, incorporando elementos que flertam com o metal mais extremo e criando um contraste interessante com as atmosferas mais contemplativas presentes nas demais faixas. Essa alternância reforça a diversidade estilística do EP sem comprometer sua identidade sonora.
A produção assinada por Jean Patton contribui para a clareza e equilíbrio dos arranjos, valorizando tanto o peso quanto as nuances melódicas das composições. O resultado evidencia um cuidado especial na construção do som, permitindo que cada instrumento tenha presença e função narrativa dentro das músicas.
Solace surge como uma afirmação artística que revela uma nova fase criativa para Jéssica Falchi. O EP mostra uma compositora interessada em explorar texturas, emoções e estruturas progressivas que contrastam diretamente com a agressividade e a densidade do death metal que marcou sua passagem pela Crypta.
Ao apresentar essa faceta mais atmosférica e narrativa, Falchi amplia sua identidade musical e sinaliza um caminho promissor dentro do cenário instrumental contemporâneo. Se este EP funciona como ponto de partida, ele também sugere que ainda há muito espaço para evolução e aprofundamento dessa proposta sonora.


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