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Túneis: humor, arqueologia e conflito por Rutu Modan (2024, WMF Martins Fontes)


A caçada à Arca da Aliança já rendeu histórias épicas, religiosas ou conspiratórias aos montes, mas Rutu Modan escolhe um caminho bem diferente em Túneis. Publicada no Brasil pela WMF Martins Fontes, que já havia lançado A Propriedade, também da autora, a graphic novel usa esse artefato lendário menos como motor de aventura clássica e mais como pretexto para uma sátira afiada sobre identidade, obsessão histórica e convivência em um território marcado por conflitos reais.

A trama acompanha Nili, filha de um arqueólogo desacreditado que dedicou a vida à busca pela Arca. Determinada a restaurar o legado do pai, ela se envolve em uma escavação clandestina que cruza fronteiras físicas e simbólicas, reunindo personagens israelenses e palestinos movidos por interesses muitas vezes incompatíveis. O que poderia facilmente descambar para um discurso pesado ou didático é conduzido por Modan com humor seco e ironia constante.

Um dos grandes méritos de Túneis está justamente nessa abordagem. A autora evita julgamentos fáceis e transforma a arqueologia, frequentemente usada como instrumento político, em metáfora para vaidades pessoais, disputas de poder e narrativas históricas convenientemente moldadas. A busca pelo passado, aqui, revela mais sobre as fragilidades do presente do que sobre qualquer verdade absoluta enterrada no subsolo.



Modan mantém seu estilo característico: traço limpo, claro e aparentemente simples, quase cartunesco, que contrasta com a densidade dos temas abordados. As expressões faciais e a linguagem corporal dos personagens são essenciais para a narrativa, reforçando o tom tragicômico da obra. Há ecos claros da tradição da linha clara europeia, mas filtrados por uma sensibilidade contemporânea e pessoal.

A edição brasileira de Túneis traz um posfácio assinado pela própria autora, no qual Modan reflete sobre convivência, esperança e a possibilidade de alianças humanas mesmo em cenários marcados por divisões profundas, um complemento que enriquece a leitura e reforça o caráter reflexivo da obra.

Mais do que uma história de aventura ou um comentário político direto, Túneis é uma graphic novel sobre pessoas, suas crenças, contradições e pequenas obsessões. Inteligente, provocadora e surpreendentemente divertida, a obra confirma Rutu Modan como uma das vozes mais interessantes dos quadrinhos contemporâneos e é uma leitura essencial para quem busca narrativas gráficas adultas, críticas e cheias de camadas.


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