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Enslaved (2012): brutalidade direta na fase mais extrema do Soulfly


Enslaved
(2012) representa um dos momentos mais agressivos da trajetória do Soulfly. O oitavo álbum da banda de Max Cavalera veio em um período de consolidação estética: depois de anos alternando entre metal extremo, groove metal e experimentações tribais, o grupo chega aqui com uma identidade mais definida e focada na brutalidade direta.

Produzido por Max ao lado de Chris 'Zeuss' Harris, o disco também marca mudanças na formação, com Tony Campos (Fear Factory) assumindo o baixo e David Kinkade (Borknagar) na bateria, enquanto Marc Rizzo permanece como principal parceiro criativo nas guitarras. Essa combinação resulta em um álbum de sonoridade compacta e extremamente pesada, que se aproxima mais do thrash e do death metal do que de qualquer outra fase anterior do Soulfly.

Logo na abertura, “World Scum” estabelece a estética do disco: riffs velozes, bateria explosiva e vocais rasgados que flertam abertamente com o death metal moderno. A participação de Travis Ryan, vocalista do Cattle Decapitation, reforça essa direção mais extrema e deixa claro que Enslaved pretende soar mais brutal do que a maior parte da discografia da banda. A produção de Zeuss contribui para isso ao privilegiar um som seco e agressivo, em que guitarras e bateria aparecem com enorme presença.

O álbum se apoia em dois pilares principais. O primeiro é o riff pesado e direto, herdeiro tanto do thrash metal clássico quanto do groove metal que marcou a carreira de Max desde os tempos de Sepultura. Faixas como “Gladiator”, “Legions” e “Chains” são construídas sobre grooves sólidos e refrões simples, pensados claramente para funcionar ao vivo. O segundo pilar é a abordagem mais extrema, que aparece em momentos de velocidade elevada e em passagens que flertam com o death metal contemporâneo. Nesses trechos, o trabalho de Marc Rizzo se destaca especialmente. Seu estilo combina riffs cortantes com solos técnicos e rápidos, criando um contraste interessante com a abordagem mais primitiva e rítmica de Max.


Entretanto, o álbum não abandona completamente algumas marcas registradas do Soulfly. Elementos de “world metal” e pequenas referências rítmicas a sonoridades tribais aparecem aqui e ali, embora de forma bem mais discreta do que nos primeiros discos da banda. A prioridade em Enslaved é claramente o peso.

Um dos momentos mais intensos é “Revengeance”, faixa que carrega forte carga emocional ao abordar o assassinato de Dana Wells, enteado de Max Cavalera. A música conta com participações de membros da família do músico, o que reforça o caráter pessoal da composição. O resultado é uma das faixas mais sombrias e catárticas do disco, na qual a violência sonora dialoga diretamente com o peso emocional do tema.

Dentro da discografia do Soulfly, Enslaved funciona quase como um manifesto de peso. É um disco que não busca retomar a faceta mais agressiva de Max Cavalera e dialoga, em alguns momentos, com os primeiros e mais extremos discos do Sepultura. Nesse sentido, o álbum fala diretamente com a tradição do metal extremo e reafirma a permanência de Max Cavalera como uma figura que continua apostando na intensidade e na visceralidade como motores criativos.

O resultado final é um álbum sólido, pesado e coerente. Mesmo sem grandes surpresas, Enslaved entrega exatamente aquilo que se espera do melhor Soulfly: riffs brutais, energia constante e uma abordagem musical que privilegia a força direta do metal. Para quem acompanha a trajetória de Max Cavalera, o disco funciona como mais uma prova de que, décadas depois do início de sua carreira, o músico segue profundamente conectado ao lado mais agressivo do gênero.


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