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O Metallica não gravou nada decente após o Black Album (1991)?


Existe uma narrativa bastante difundida entre fãs de metal que afirma que o Metallica “acabou” depois do Black Album (1991). Essa visão, embora compreensível dentro de um recorte geracional ligado ao auge do thrash metal nos anos 1980, é simplista e ignora a complexidade da trajetória artística da banda nas décadas seguintes.

Até o Black Album, o grupo construiu uma sequência quase irrepreensível dentro do heavy metal. Kill 'Em All (1983) e Ride the Lightning (1984) ajudaram a estabelecer a linguagem do thrash ao combinar a velocidade punk com o peso do metal tradicional. Master of Puppets (1986) levou essa fórmula a um nível composicional raro no gênero, equilibrando agressividade e sofisticação estrutural. ...And Justice for All (1988) expandiu ainda mais esse caminho, com músicas longas, arranjos complexos e uma abordagem quase progressiva. O Black Album, por sua vez, representou uma virada estratégica: simplificou estruturas, privilegiou grooves e refrães memoráveis e transformou o Metallica em um fenômeno global.

O ponto central é que o próprio Black Album já indicava uma mudança de direção. A banda estava claramente interessada em comunicação mais ampla, em canções diretas e em um peso menos dependente da velocidade. Ainda assim, parte do público esperava que o Metallica continuasse produzindo variações do thrash técnico que marcou os anos 1980. Quando isso não aconteceu, a reação foi de rejeição.

Load (1996) e Reload (1997) representam talvez a ruptura mais radical da carreira da banda. Musicalmente, esses discos incorporam hard rock setentista, blues, southern rock e até elementos alternativos que dialogavam com o rock dos anos 1990. A influência de tradições musicais americanas sempre esteve presente na escrita de James Hetfield, e esses álbuns apenas tornaram isso mais explícito. O problema foi menos musical e mais simbólico: visual renovado, abandono da estética thrash e uma sonoridade distante daquilo que parte do público considerava a “identidade verdadeira” da banda. Com o tempo, no entanto, muitas faixas desses discos passaram a ser reavaliadas com mais generosidade.


St. Anger (2003) ocupa um lugar singular na discografia do Metallica. Gravado em meio a uma crise profunda marcada pela saída de Jason Newsted, tensões internas e pelo processo de reabilitação de James Hetfield, o álbum acabou se tornando um registro bruto daquele momento turbulento. O processo foi amplamente documentado em Metallica: Some Kind of Monster. O resultado é um disco cru, abrasivo e deliberadamente imperfeito, com produção polêmica e ausência de solos de guitarra. Mais do que um trabalho pensado para agradar, ele soa como um exercício de sobrevivência artística.

A partir de Death Magnetic (2008), o Metallica iniciou um processo de reconciliação com elementos de sua própria história. O álbum recupera riffs rápidos, estruturas mais extensas e uma abordagem que remete ao espírito da fase clássica, ainda que com produção contemporânea. Hardwired... to Self-Destruct (2016) consolidou essa retomada ao equilibrar agressividade, melodias acessíveis e uma consciência clara do legado da banda. Com 72 Seasons (2023), o quarteto parece ter alcançado uma fase de maturidade tranquila. O disco não busca reinventar o Metallica nem competir diretamente com o passado, mas sim trabalhar dentro de uma identidade já estabelecida. Há peso, groove e uma abordagem que soa confortável para músicos que não precisam mais provar nada a ninguém.

No fundo, o Metallica pós-Black Album não deve ser visto como uma continuação direta da fase clássica, mas como outra etapa de uma trajetória longa e marcada por transformações. O sucesso gigantesco, as mudanças culturais no rock e o próprio envelhecimento artístico dos integrantes inevitavelmente alteraram o caminho da banda.

Há discos irregulares, decisões discutíveis e momentos brilhantes. Mas afirmar que o Metallica “só foi bom até 1991” ignora que poucas bandas de metal tiveram coragem de se reinventar tantas vezes, mesmo correndo o risco de alienar parte do próprio público. E essa disposição para mudar, goste-se ou não de cada fase, é justamente uma das razões pelas quais o Metallica continua sendo uma das bandas mais relevantes da história do heavy metal.


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