Em um mercado cada vez mais saturado de fórmulas repetidas, Gone – Nada é Mais Distante Que Um Lar surge como um daqueles projetos que chamam atenção antes mesmo da leitura começar. Não apenas pelo nome de Jock, já consolidado por trabalhos com o Batman e outras séries de peso, mas pelo contexto: esta é a sua primeira obra totalmente autoral, assumindo roteiro, arte e cores.
Publicada originalmente pela DSTLRY, a HQ chega ao Brasil pela Editora Poptopia em uma edição que deixa clara a proposta desde o primeiro contato: capa dura, formato grande e acabamento de alto padrão. É um livro que se impõe como objeto, algo que dialoga diretamente com o leitor que valoriza não apenas a história, mas também a materialidade da obra.
A história acompanha Abi, uma jovem que cresce em um planeta miserável, reduzido a ponto de abastecimento para naves de elite. A fuga desse ambiente, escondida dentro de uma dessas naves, desencadeia uma narrativa que mistura sobrevivência, conflito social e amadurecimento em um cenário de ficção científica. A premissa é sólida e funciona, mas nunca chega a ser o centro da experiência.
O que realmente conduz Gone é a forma como Jock constrói o mundo visualmente. Seu traço continua inconfundível: sombras pesadas, figuras recortadas quase como silhuetas e uma sensação constante de opressão. Há uma clara oposição estética entre o planeta de origem de Abi, sempre sujo, denso, sufocante, e os ambientes internos da nave, mais limpos, porém frios e igualmente hostis.
Em muitos momentos, a HQ praticamente abandona a necessidade de explicação. A narrativa se torna sensorial, quase intuitiva. Isso pode ser fascinante ou frustrante, dependendo do que se espera da leitura. Isso gera uma percepção ambígua: Gone é uma obra de grandes ideias, mas de desenvolvimento irregular. Temas como desigualdade social, radicalização e luta de classes estão ali, mas raramente são aprofundados. O universo apresentado sugere complexidade, mas oferece poucos detalhes concretos. Os conflitos existem mais como atmosfera do que como estrutura dramática sólida. Isso não é necessariamente um erro, mas uma escolha que distancia o leitor que busca uma construção narrativa mais robusta. Ao mesmo tempo, há um mérito indiscutível: Abi funciona muito bem como protagonista. Sua jornada e evolução mantêm um eixo emocional que impede a história de se perder completamente em abstrações.
Outro ponto importante é que Gone se recusa em ser didática. Não há uma explicação maior sobre como a realidade chegou ao ponto que é apresentado no quadrinho. Essa abordagem aproxima a HQ muito mais de uma experiência visual e atmosférica do que de uma narrativa tradicional de ficção científica. Em certos momentos, lembra mais o cinema contemplativo do que o storytelling clássico dos quadrinhos.
A edição brasileira da Poptopia entrega um quadrinho com um belo projeto gráfico, formato grande 22x32 cm, com 176 páginas em papel couchê com excelente impressão e material extra no final. O formato valoriza a arte cinematográfica de Jock. E um ponto importante: este é apenas o segundo título da editora americana DSTLRY publicado no Brasil, editora essa que vem lançando um excelente catálogo nos Estados Unidos, mas que permanece em sua quase totalidade inédito no Brasil. Somna, publicado pela Comix Zone em 2025, marcou a estreia das HQs da DSTLRY por aqui.
Gone não é uma HQ que se impõe pelo roteiro, mas sim pela atmosfera. É uma obra que funciona melhor quando lida como experiência sensorial do que como narrativa estruturada. Quem entrar esperando um sci-fi denso e detalhado pode sair frustrado. Quem estiver aberto a uma abordagem mais livre, guiada pela arte, provavelmente encontrará algo único. E isso não é exatamente um problema. A história não se preocupa tanto em explicar, mas em fazer sentir. E dá a impressão de que essa sempre foi a intenção do Jock.



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