Após dois discos que ajudaram a redefinir os limites do death metal no início dos anos 1990, o Deicide chegou ao seu terceiro álbum cercado por expectativas altas. Lançado em 1995, Once Upon the Cross não tenta repetir exatamente a brutalidade caótica de Legion (1992), mas também não rompe com a identidade construída até ali. O que se ouve é uma banda ajustando o próprio som e, ao fazer isso, inevitavelmente dividindo opiniões.
Gravado no Morrisound Studios sob a produção de Scott Burns, o disco mantém intactos os pilares do Deicide: riffs rápidos e cortantes, bateria precisa e agressiva de Steve Asheim e os vocais cavernosos de Glen Benton, ainda carregados de sua conhecida obsessão temática anticristã. No entanto, há uma mudança perceptível na forma como esses elementos são organizados.
As músicas são mais diretas, com estruturas menos labirínticas e uma preocupação maior com impacto instantâneo. Faixas como “Once Upon the Cross”, “Kill the Christian” e “Trick or Betrayed” evidenciam uma banda que continua agressiva, mas que parece interessada em tornar sua violência sonora mais inteligível. O resultado é um álbum mais “controlado”, em que o caos dá lugar a uma abordagem mais calculada.
Parte dessa sensação vem de uma curiosidade de bastidores: as composições foram inicialmente executadas em velocidade muito mais alta, o que teria resultado em um disco extremamente curto. A decisão de desacelerar o material acabou influenciando diretamente a percepção geral do álbum, tornando-o mais cadenciado e, para alguns ouvintes, menos impactante do que seus antecessores.
Isso não significa falta de peso. Pelo contrário: a afinação mais grave das guitarras e a produção limpa dentro dos padrões do gênero garantem um som denso, ainda que menos sufocante do que antes. Os irmãos Hoffman seguem entregando riffs sólidos e solos que equilibram técnica e agressividade, mas sem o mesmo senso de urgência quase incontrolável que marcou os primeiros trabalhos.
É justamente nesse ponto que Once Upon the Cross se torna um disco tão debatido. Para parte do público, ele representa um passo atrás, soando menos brutal, menos extremo e mais previsível. Para outros, é um álbum subestimado, que evidencia maturidade e um senso mais apurado de composição, sem abrir mão da identidade do Deicide. O uso de trechos do filme A Última Tentação de Cristo em algumas faixas reforça o caráter provocativo da banda, algo que nunca deixou de ser central em sua proposta.
Com o passar dos anos, Once Upon the Cross acabou se consolidando como um registro de transição. Não possui o mesmo status quase mítico dos dois primeiros álbuns, mas também está longe de ser um ponto fraco. É, antes, o momento em que o Deicide começa a moldar uma fórmula própria, algo que garantiria longevidade, ainda que ao custo de parte da espontaneidade inicial.
Once Upon the Cross soa como o trabalho de uma banda tentando se firmar sem precisar reinventar tudo de novo. Não tem o impacto quase assustador dos primeiros discos, mas também passa longe de ser um passo em falso. É o Deicide encontrando um caminho próprio talvez menos imprevisível, mas ainda sólido o suficiente para sustentar o peso do nome que construiu.

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