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The Sisters of Mercy em Floodland (1987): ruptura, excesso e o nascimento de um clássico gótico


Poucos álbuns carregam uma aura tão singular quanto Floodland (1987), segundo disco do The Sisters of Mercy. O álbum soa como uma obra de reconstrução e, em muitos sentidos, de isolamento. Após o colapso da formação responsável por First and Last and Always (1985), Andrew Eldritch assumiu o controle quase absoluto do projeto, transformando o que antes era uma banda em um veículo para sua visão artística.

Esse contexto é decisivo para entender o disco. Floodland nasceu de um momento de ruptura, disputas e reinvenção, e isso se reflete diretamente em sua estética. Se o debut era marcado por uma crueza típica do pós-punk, aqui tudo é amplificado: a bateria eletrônica Doktor Avalanche ganha protagonismo, os sintetizadores constroem camadas densas e a produção assume uma grandiosidade pouco comum ao gênero. Há um senso quase cinematográfico atravessando o álbum, reforçado pela participação de Jim Steinman, cujo toque dramático é especialmente evidente em “This Corrosion”.

O disco se afasta do formato tradicional e se aproxima de uma experiência contínua. Faixas como “Dominion/Mother Russia” estabelecem um clima expansivo e político, enquanto “Lucretia My Reflection” equilibra pulsação rítmica e melodia com precisão. Já “This Corrosion”, com seu coral massivo, sintetiza a proposta do álbum: exagerado, teatral e, ainda assim, estranhamente hipnótico.


Essa mudança de direção não passou despercebida. Parte da crítica enxerga Floodland como o ápice criativo de Eldritch, um trabalho ambicioso que ampliou os limites do rock gótico ao incorporar elementos épicos e acessíveis sem perder identidade. Outros apontam justamente esse excesso como um fator de distanciamento em relação à urgência do primeiro disco. Ainda assim, mesmo entre os olhares mais críticos, há um reconhecimento difícil de ignorar: trata-se de um álbum com personalidade forte, coeso em sua proposta e marcado por canções que atravessaram décadas.

O tempo acabou sendo generoso com Floodland. O que poderia soar como pretensão se consolidou como assinatura estética. A grandiosidade que inicialmente dividiu opiniões hoje é parte essencial de seu legado, influenciando gerações dentro e fora do gothic rock.

Floodland é a própria reconstrução em forma de música. Um trabalho em que o excesso não é um desvio, mas o caminho escolhido. E que, justamente por isso, permanece único.

O álbum só havia sido lançado em vinil no Brasil em 1988, e ganhou em 2026 a sua primeira edição em CD nacional em uma versão caprichada disponibilizada pela Wikimetal com quatro músicas bônus e encarte de vinte páginas. Vale lembrar que a gravadora já havia relançado anteriormente a estreia do The Sisters of Mercy, First and Last and Always (1985), também em uma edição com faixas extras.


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