Stone Sour: crítica de House of Gold & Bones Part 2 (2013)

O ser humano é saudosista por natureza. É comum a sensação de que o que foi feito no passado é, invariavelmente, melhor do que aquilo que é produzido agora, no nosso tempo. Explicar as razões que nos levam a sentir isso não é tarefa fácil. Elas envolvem, na maioria das vezes, muito mais a emoção do que a razão. Construímos histórias, relacionamentos, durante todas as nossas vidas, e, ao olhar para trás, a saudade e o distanciamento muitas vezes nos causam a falsa sensação de que o que vivemos antes nunca encontrará parâmetro no que ainda temos para viver, por melhor que sejam as perspectivas.

Divagações à parte, em relação à música esse raciocínio é aplicado de maneira cada vez mais frequente. Ouvintes mais conservadores, ou com uma visão mais ortodoxa, muitas vezes afirmam com certeza absoluta que nada do que é feito hoje em dia no rock, no metal, na música de um modo geral, chega aos pés do que já foi produzido antes. Uma grande bobagem, muitas vezes defendida por mentes sem conhecimento do que está acontecendo. Cada época teve os seus artistas importantes, que fizeram história e mudaram o curso das coisas. E a comparação entre esses períodos distintos não passa de um exercício inútil. O motivo nos leva de volta ao primeiro parágrafo, e se chama identificação. A geração que consome música hoje em dia é diferente daquela que vivia em lojas de discos há vinte anos atrás. A realidade é diferente. Os gostos são diferentes. O mundo é diferente. Os ídolos são outros.

Corey Taylor é um dos personagens centrais do rock contemporâneo. Seja à frente do Slipknot ou liderando o Stone Sour, o vocalista tem a mesma importância, para as gerações mais novas, que um Ozzy Osbourne, um Bruce Dickinson, tiveram para mim e para você, que já passamos dos 30 e, muitas vezes, dos 40 anos. Sua trajetória o transformou em um ícone, e com justiça. Frontman carismático, compositor talentoso, letrista inspirado, Taylor é a voz de uma geração, o principal rosto do heavy metal produzido nos últimos 15 anos.

Todo esse status faz com que, como acontecia em épocas passadas a cada novo lançamento de seus principais nomes, o mundo parasse e prestasse atenção naquilo que lhe era entregue. Corey Taylor faz isso. Cada movimento seu é acompanhado com atenção, e inevitavelmente recompensa seus discípulos.

É o caso de House of Gold & Bones Part 2, quinto álbum do Stone Sour, sucessor e segunda parte da história iniciada no disco lançado em 2012. Novamente produzido por David Bottrill, traz Taylor, James Root (guitarra), Josh Rand (guitarra) e Roy Mayorga (bateria) mais uma vez acompanhados por Rachel Bolan, do Skid Row, dando uma força no baixo. Com doze faixas, conclui a trama do trabalho anterior e soa como seu irmão siamês.

O estilo, o modo de fazer som pesado do Stone Sour, alcançou em ambas as partes de House of Gold & Bones o seu ápice. Grandes melodias, agressividade andando lado a lado em canções que poderiam tocar perfeitamente em qualquer rádio, riffs bem construídos e os vocais carregados de sentimento de Taylor colocam a banda no topo, acima da maioria dos demais grupos de sua geração.

Em relação ao CD anterior, este soa um pouco mais denso e emocional, levando o ouvinte em uma jornada repleta de momentos sombrios. A abertura, com a climática “Red City”, já deixa clara essa característica através de sua estrutura crescente. “Black John”, a seguir, inscreve-se fácil na lista de melhores músicas gravadas pela banda. “Peckinpah”, “Gravesend” e “Do Me a Favor” mantém o nível no alto, com grandes doses de energia e adrenalina sendo injetadas sem dó. Há, no entanto, um aspecto mais contemplativo aqui, com diversas baladas e faixas mais calmas que dão ao trabalho o desejado ar de conclusão de uma saga. História essa que chega ao seu fim com a primorosa faixa-título, daquelas composições que, ao ouvir, você já imagina o gigantesco impacto e estrago que causarão ao vivo.

Tão bom ou até melhor que o disco anterior, House of Gold & Bones Part 2 é um álbum excelente, que dará ainda mais espaço e popularidade ao Stone Sour. A banda fez um belo trabalho outra vez, mostrando o porque de toda celebração à sua volta.

Daqui há alguns anos, quando você estiver mais velho e seus filhos estiverem mexendo na sua há muito tempo ultrapassada coleção de CDs e encontrarem House of Gold & Bones Part 2, vão pegá-lo na mão e o manusear como muito mais do que apenas um CD. Irão abrir a sua embalagem, ler o seu encarte, sentir o seu cheiro. E, ao colocá-lo para tocar, irão se sentir como você se sente hoje ao pegar um LP antigo do Sabbath, do Maiden, do Metallica.

Mais do que apenas música, o Stone Sour segue fazendo história.

Nota 9



Faixas:
1 Red City
2 Black John
3 Sadist
4 Peckinpah
5 Stalemate
6 Gravesend
7 ’82
8 The Uncanny Valley
9 Blue Smoke
10 Do Me a Favor
11 The Conflagration
12 The House of Gold & Bones


Por Ricardo Seelig

Comentários

  1. Exagerou só um pouco

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  2. Talvez não seja tanto exagero...
    No Youtube a pt1 está com mais de 500.000 views...

    Os dois discos são realmente muito bons... bem interessantes...

    Infelizmente existe muito preconceito ainda contra tudo que possa a ser relacionado com o "nu metal" mesmo que o som do Stone Sour se afaste cada vez mais deste rótulo ... e pelo menos pra mim conta pontos pro cara fazer parte do Slipnotik .... pode estar longe de ser uma banda perfeita...mas são um furacão ao vivo e são sem dúvida muito relevantes (no bom sentido do termo)

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  3. Eu gosto do Stone Sour, e achei um álbum sensacional... mas está longe de "fazer historia" como foi dito

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  4. Sugestão de pauta: o novo do Shining.

    Shining - One One One (2013)

    Essas duas antigas são ótimas:

    Shining - The Madness and the Damage Done
    http://www.youtube.com/watch?v=UQ7Fh_Y2Lkg

    Shining - Fisheye
    http://www.youtube.com/watch?v=xlRAJErqK4A

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  5. O disco é realmente bom. Mas eu preferia que Corey Taylor e James Root concentrassem suas forças em mais um disco do Slipknot.

    Em relação a entrar para a história como álbuns do Sabbath, Maiden e Metallica, eu acho bem exagerado. Hoje em dia, as bandas realmente boas são ouvidas por poucas pessoas e o grande público não houve mais discos, ouve músicas. Baixa um monte de álbuns diariamente, vai no YouTube procurar alguma coisa, etc. "Entrar para a história" é mais difícil atualmente.

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  6. Concordo bastante com o texto, apenas tenho uma visão um pouco mais, digamos, triste da realidade... Antigamente o que chegava ao brasil como "importado" eram grandes bandas de rock que era o diferente, o novo, o desconhecido. Hoje em dia o som do rock já é comodato para a maioria dos novos ouvintes, nos anos 90 as coisas começaram a crescer muito para o eletrônico, resumindo, a influência muda de geração em geração, o significado do rock antigamente era um, hoje é outro, não há como comparar o significado do woodstock com um rock in rio, os dois são bons mas convenhamos, o significado é completamente outro, fora as influências da cultura local, no Brasil de hoje é quase impossível se ter uma banda de rock com qualidade e visibilidade, a mídia quer mover a massa, hoje basta fazer alguns acordes com um arranjo meia boca, fazer uma letra cretina e sair fazendo show de sertanejo universitário, sem preconceito, mas sertanejo mesmo era outros 500.
    Enfim, a atitude do rock realmente contagia quem se abre a isso, la fora o mercado é muito mais aberto para tudo, inclusive a música, espero que um dia o Brasil tenha um cenário descente de Rock como se tinha nos anos 80...

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