Review: Kiss My Ass – Classic Kiss Regrooved (1994)


Um dos primeiros e mais legais discos tributo foi Kiss My Ass: Classic Kiss Regrooved. O álbum foi lançado em junho de 1994, alguns meses antes de outro título com a mesma proposta e também adorado pelos fãs, o ótimo Nativity in Black: A Tribute to Black Sabbath. A ideia da gravadora Mercury foi celebrar os vinte anos do primeiro álbum do Kiss, que surgiu em Nova York em 1973 e teve a sua estreia autointitulada lançada em 18 de fevereiro de 1974.

Uma curiosidade interessante é que a banda não conseguiu se acertar a tempo com Ace Frehley sobre os direitos da sua maquiagem – que mais tarde seriam adquiridos pelo grupo e passaria a ser usada por Tommy Thayer -, e a solução foi utilizar uma variação da maquiagem original de Paul Stanley, conhecida como Bandit, no rosto do menino que estampa a capa. E pra quem curte essas minúcias, por pressão de lojistas mais conservadores o título de algumas edições foi alterado para uma variação menos agressiva, utilizando a grafia Kiss My A**. Para os colecionadores, é importante mencionar que as edições canadense, japonesa e australiana tiveram a bandeira norte-americana substituída pela dos respectivos países.

A banda fez uma turnê promovendo o tributo, chamada Kiss My Ass Tour, que teve uma data no Brasil em 27 de agosto de 1994, com o Kiss sendo o headliner da primeira edição do festival Monsters of Rock, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, e que contou também com Slayer, Black Sabbath, Suicidal Tendencies, Viper, Angra, Dr. Sin e Raimundos. Em uma entrevista para a MTV promovendo o show, o repórter mostrou a edição nacional de Kiss My Ass para Gene Simmons, que ficou p... da vida com a gravadora nacional, a Polygram, que não lançou a versão nacional com o mesmo encarte da original norte-americana, muito mais completo.

Musicalmente, o que temos é uma celebração ao legado do Kiss, com onze releituras para clássicos do quarteto feitas por nomes como Lenny Kravitz, Garth Brooks, Anthrax, Gin Blossoms, Dinousaur Jr., Extreme, The Lemonheads e outros, além de uma faixa bônus com a versão em alemão para “Unholy” tocada pelo Die Arzte. O resultado é um dos mais convincentes em se tratando de discos tributo, que possuem a tendência a serem irregulares.

O álbum já abre com uma releitura sensacional e pra lá de funkeada (ou “regroovada”, fazendo uma alusão ao título) de Lenny Kravitz para “Deuce”, com direito a Stevie Wonder na harmônica. Garth Brooks intensifica o acento country que sempre esteve presente em “Hard Luck Woman” e leva a canção de vez para o interior dos Estados Unidos em uma versão excelente. O Anthrax, na época com John Bush no vocal, pesa a mão – no bom sentido – em “She”, enquanto o Gim Blossoms entrega uma competente interpretação para “Christine Sixteen”, com direito a harmonias de guitarra que remetem diretamente ao southern rock.

Uma das grandes surpresas de Kiss My Ass é a inesperada versão country para “Rock and Roll All Nite” feita pelo Toad The Wet Sprocket, banda alternativa californiana que aqui explora um caminho inusitado e alcança um excelente resultado. Já o Shandi’s Addiction - supergrupo formado por Maynard James Keenan (vocalista do Tool), Tom Morello (guitarrista do Rage Against the Machine), Billy Gould (baixista do Faith No More) e Brad Wilk (baterista do Rage Against the Machine) – se destaca não apenas pelos nomes envolvidos, mas também pela competente versão para “Calling Dr. Love”.

Um dos momentos mais altos do tracklist é a ótima releitura de “Goin’ Blind” pelo Dinosaur Jr., com os característicos vocais manhosos de J Mascis dando um ar todo especial para a versão. O Extreme vem a seguir com uma desconstruída interpretação para “Strutter”, com citação da clássica “Shout It Out Loud”. O The Lemonheads, outro grande nome do rock alternativo da década de 1990, faz bonito em “Plaster Caster”. E o The Mighty Mighty Bosstones, combo ska punk de Boston, turbina “Detroit Rock City” com um naipe de metais e dá a sua cara própria a um dos maiores clássicos do Kiss. O disco se encerra com uma bela releitura sinfônica de “Black Diamond” feita por Yoshiki Hayashi, compositor e produtor japonês e que também é líder, fundador, tecladista, pianista e baterista do X Japan, uma das maiores bandas do país do sol nascente. A música bônus, com o trio alemão Die Ärzte cantado “Unholy” em sua língua natal, funciona mais como uma curiosidade do que como algo que agregue ao tracklist principal.

Kiss My Ass ganhou Disco de Ouro nos Estados Unidos e chegou à posição 19 do Billboard 200. O álbum é não apenas um dos grandes discos tributo da história, mas também uma das pérolas perdidas da década de 1990.

Tá prontinho pra ser redescoberto nos streamings, é só apertar o play.


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