A Turma do Arrepio: humor, monstros e a cultura pop brasileira resgatados em uma edição histórica (2025, Comix Zone)
Nos anos 1980, o Brasil vivia um boom dos quadrinhos infantis. A Turma da Mônica dominava as bancas, mas outros personagens tentavam encontrar espaço no imaginário das crianças. Foi nesse cenário que surgiu A Turma do Arrepio, criação de Cesar Sandoval, lançada originalmente em 1989 pela Editora Globo. A proposta era simples e genial: pegar arquétipos clássicos do terror — vampiros, múmias, lobisomens, bruxas e monstros — e transformá-los em protagonistas de histórias leves, bem-humoradas e cheias de situações cotidianas. Era como se o universo de Scooby-Doo se encontrasse com a comédia infantil brasileira, resultando em quadrinhos divertidos e com forte apelo visual.
Sandoval, que já havia trabalhado como ilustrador em agências de publicidade e editoras, criou A Turma do Arrepio inspirado pelo sucesso dos personagens de Maurício de Sousa e pelas produções de terror que povoavam a TV da época. Os anos 1980 estavam recheados de filmes de monstros e de aventura voltados ao público jovem — pense em Os Goonies, Gremlins ou mesmo a febre do Castelo Rá-Tim-Bum que surgiria pouco depois na televisão brasileira. Com um traço caricato e cheio de personalidade, Sandoval criou figuras como Draky (um vampiro atrapalhado), Stein (um monstro bonachão), Luby (um lobisomem divertido), Tuty (uma múmia alérgica a pó) e Medeia (a bruxa que nunca acerta seus feitiços), além de outros personagens que equilibravam humor e leveza. A identificação com o público foi imediata.
A Turma do Arrepio ajudou a expandir o mercado de quadrinhos infantis no Brasil, mostrando que havia espaço para além da Turma da Mônica. A série trouxe a estética do terror para as crianças de forma amigável, sem sustos, mas sempre com muito carisma. As revistinhas circularam com regularidade, chegaram a ser uma das atrações mais populares do Playcenter e ganharam uma série na Rede Manchete, marcando presença no imaginário de toda uma geração. Não era raro ver crianças nos anos 1980 e 1990 lendo os gibis da Turma do Arrepio ao lado dos títulos de Maurício de Sousa e Disney. Mais do que isso: Cesar Sandoval abriu caminho para uma geração de artistas independentes, provando que era possível criar um universo próprio, distante da sombra dos grandes conglomerados, e ainda assim alcançar sucesso nacional. Com o tempo, a série perdeu espaço nas bancas, vítima da retração do mercado de quadrinhos infantis no Brasil. No entanto, o carinho dos leitores nunca desapareceu, mostrando a força da marca e a lembrança afetiva que ela carrega.
Hoje, A Turma do Arrepio é lembrada como um dos projetos mais criativos da história dos quadrinhos brasileiros. Não apenas porque apresentava monstros clássicos em roupagem infantil, mas porque trazia uma identidade visual única, diferente de tudo que se fazia na época. É um pedaço fundamental da cultura pop brasileira — e revisitar suas histórias é como abrir um álbum de memórias da infância, quando monstros não davam medo, mas rendiam boas gargalhadas.Tudo isso foi reunido pela Comix Zone em A Turma do Arrepio – Edição Histórica, HQ em capa dura com 304 páginas em papel couchê e formato grande que traz as melhores histórias da série, escolhidas pelo pessoal da CZ. A HQ promove um resgate histórico importantíssimo, com tratamento das imagens originais e uma edição primorosa, que inclui textos extras, artes originais e uma ótima entrevista com Cesar Sandoval na parte final, além de uma cartela com tazos dos personagens.
Que esse seja apenas o primeiro volume de A Turma do Arrepio pela Comix Zone – e, a julgar pelo sucesso junto ao público, novas edições certamente chegarão em breve.
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