18/10/2008

On the Road: Dave Matthews Band - US Tour 2008 - Parte 1


Essa sessão da Collector´s Room irá contar histórias fascinantes de fãs viajando o mundo atrás de seus ídolos. Pra começar, vamos acompanhar a saga de Rodrigo Simas, crítico musical, webmaster do site oficial da Dave Matthews Band no Brasil e provavelmente o maior fã da DMB no nosso país, em sua viagem anual para acompanhar alguns shows do grupo nos Estados Unidos. Sim, viagem anual, porque o Simas vai todo o ano para a América bater um papo e tomar um cafezinho com Dave e sua banda.

Então, apertem os cintos e vamos nessa!


Por Rodrigo Simas
DMBrasil

É estranho tentar passar com um simples texto o que acontece em uma semana como essa. Para quem é fã da banda como eu, mesmo tendo que muitas vezes respirar fundo e se mostrar profissional, são tantas emoções (como já diria o mestre Roberto) que é difícil conseguir traduzir isso em palavras. Nossa viagem esse ano foi bem diferente do que estávamos acostumados. Por problemas de férias e por querer conhecer lugares novos, resolvemos mudar nossos planos e não ir para a Florida. Foram 5 shows em 10 dias (praticamente viajando todos os dias sem shows): Woodlands (15/08), Dallas (16/08), Los Angeles (19 e 20/08) e Chula Vista (22/08). Uma viagem bastante cansativa, mas extremamente prazerosa.

Chegamos em Houston dia 14 e fomos direto para Woodlands (menos de 1 hora de carro) para descansar, dar uma volta na cidade e se preparar para o dia seguinte. O Cynthia Woods Pavillion é lindo! Toda a área que cerca o anfiteatro é com certeza o lugar mais bonito que vimos na cidade. Chegamos, entramos na fila do Will Call e retiramos (sempre uma hora de tensão) nossos ingressos, passes e tickets de comida. Logo fomos recebidos por Daryl, o segurança da banda e grande amigo, que quebrou vários galhos durante nossa estadia por lá. Alguém do management já me esperava e fomos discutir algumas questões dos shows brasileiros e a venda antecipada de ingressos – que, aliás, foi um sucesso.

Quando a família não está viajando, encontrar Dave Matthews andando de bobeira pelos corredores é uma das tarefas mais fáceis do mundo. Na verdade, como nesse ano, geralmente ele encontra você – e não o contrário. Em menos de meia-hora nos esbarramos umas 4 ou 5 vezes e em todas ele se mostra muito atencioso, fica sempre feliz por nos ver e agradece nossa presença. Cheguei a brincar, dizendo que estava nos seguindo. Além dele, Tim Reynolds, Jeff Coffin, Rashawn Ross e Stefan Lessard geralmente andam por todo o backstage sem parecer ter muito o que fazer (só Tim que passa sempre correndo e falando no celular). Todos param, falam do Brasil, dizem estar ansiosos e fazem algumas perguntas sobre nosso país. Como não queremos passar como chatos – e hoje em dia somos tratados como praticamente da equipe da banda – só falamos com alguém quando o primeiro contato parte deles.


Tinha como primeira missão entregar o novo CD e uma camisa do Hamilton de Holanda para o Jeff Coffin. Amigos há alguns anos, Coffin adora a música do Hamilton. Entreguei o CD e a camisa, e ele fez questão de vesti-la para tirar uma foto (que já enviei para o Hamilton). Confirmou a presença na turnê brasileira da Dave Matthews Band e que volta praticamente dois meses depois com os companheiros de Flecktones. O ano ainda promete. Muito sorridente, ele não esconde a satisfação de tocar com a DMB e de mostrar seu belíssimo trabalho para uma grande quantidade de pessoas. No palco ele é um monstro. Interage com todos da banda, já tem uma química impressionante com Carter e toca muito. Muito mesmo. Quem conhece os Flecktones já sade disso faz tempo, mas todos vão se impressionar com sua performance na DMB.

O primeiro show é sempre um tapa na cara. Nunca sabemos muito o que esperar. É sempre emocionante ver a banda entrando no palco e geralmente a primeira música funciona como um transe pra você se ligar que está realmente em um show da Dave Matthews Band. Alguns ficam só sorrindo, outros choram, outros pulam. Eu fico meio atônito. Não tenho muitas reações até a terceira ou quarta música. O mais legal é que esse foi quase meu vigésimo show e a ansiedade poucos minutos antes de começar ainda é a mesma. A banda não decepcionou e fez um set excelente, com direito a Bartender abrindo, #41, Ants Marching, Dancing Nancies e uma das que eu mais esperava ver, So Damn Lucky.


No final da primeira música do bis era a hora de correr pra trás do palco pra tentar falar com Carter na saída do show – já que ele passou o dia inteiro em entrevistas e nos avisaram que seria impossível falar com o baterista até o final da apresentação. Poucos segundos antes de acabar Stay saímos correndo para o backstage e a escolta policial já estava de prontidão para partir. Por isso, infelizmente a banda entrou correndo em seus respectivos ônibus e começaram a sair um atrás do outro.

Um dos momentos mais emocionantes da viagem aconteceu nessa hora. Carter saiu do palco e foi direto pro ônibus. Estávamos em um canto e, como expliquei anteriormente, não tentamos falar com nenhum deles a não ser que eles venham falar com a gente. Ficamos – eu e minha mulher – parados do lado contrário dos ônibus só pra ver todos indo embora. Ele entrou, falou com o motorista (Daryl, o segurança, também já estava lá dentro) e quando o ônibus começou a andar ele olhou pra fora e finalmente viu a gente. E sua reação foi – para nós – emocionante. Começou a abanar sem parar e pedir pra parar o ônibus que ele queria descer de qualquer maneira. Depois de receber um não (já que realmente não havia condições da polícia ficar esperando) ele fez sinais para que no dia seguinte, em Dallas, nos encontrássemos.

Com um sorriso no rosto fomos para o hotel descansar. Até porque no dia seguinte tínhamos que acordar e pegar um avião para Dallas. Era apenas o começo da viagem.




The Who with London Symphony Orchestra -Tommy (1972)


Por Gustavo Guideroli
Colecionador

A saída da infância e entrada na adolescência é sempre um período muito complicado na vida das pessoas. Nessa época da minha vida, lá pelos meus 11/12 anos, eu estabeleci duas metas que levaria comigo pelo resto da minha vida:

1° - Encontrar alguma maneira de emagrecer;
2° - Tentar, de todas as maneiras, conhecer e aprender sobre as bandas de rock, metal e subgêneros das quais eu era (e sou) fã.

Se por um lado eu nunca me dediquei como deveria ao primeiro, por outro concentrei todas as minhas forças no segundo.

Como todos neste blog, eu também sempre fui destas pessoas que ficam horas e horas dentro de lojas de discos procurando e conhecendo sobre esse mundo maravilhoso do qual fazemos parte. Foi numa bela tarde de sol, depois de economizar vários dias o dinheiro do lanche, que eu, meu irmão e mais alguns amigos saímos da escola e fomos para a única loja especializada em rock e metal da nossa cidade naquela época.

Ao chegarmos, me deparei com um vinil duplo que vinha em um box com uma bola de pinball na capa. Por dentro, uma bela capa dupla que, ao abrir, se transformava em uma mesa de pinball em alto relevo. E, dentro da capa dupla, o vinil protegido por mais uma capa de papel bem fino e em tom prateado. Era nada mais nada menos do que o álbum “Tommy” do The Who, gravado ao lado da Orquestra Sinfônica de Londres, e ainda por cima importado...

Mesmo sabendo que minhas economias não iriam nem chegar perto do valor do disco, tomei coragem e perguntei para o vendedor:

- Quanto custa este “Tommy” do The Who?

E ele:

- Um real, porque ele esta com um pequeno quebradinho aqui no começo da primeira música.


É claro que eu nem liguei pro tal quebradinho. Comprei o álbum e fui correndo pra casa. Essa foi a primeira vez que escutei o disco inteiro em toda minha vida. E devo dizer que, a partir daí, o Who sempre foi mais do que uma banda para mim. Ouvindo todas as canções, que além da participação do grupo continham artistas convidados e a Orquestra Sinfônica de Londres, percebi quer as composições haviam sido elevadas a um nível extraordinário. Todas as letras do disco sempre me pareceram conter algo mais, como orações no meio das músicas.

Algumas faixas, como “I’m Free” e “Sensation” ficaram com uma cara ainda mais apoteótica com a participação da orquestra. A impressão é que a única coisa que importa no mundo é a história do garoto cego, surdo e mudo que arrasta legiões de pessoas para assistir a seus jogos de pinball.

A participação da Sinfônica de Londres fez com que a obra do The Who ficasse ainda mais messiânica do que a original. Os artistas convidados que interpretam os personagem aqui são outros, diferentes da versão do filme que a maioria das pessoas conhece. Por exemplo: em “Pinball Wizard” quem aparece é um ainda jovem Rod Stewart. Steve Winwood também comparece em várias faixas, e uma participação mais que especial é a de Ringo Starr em “Tommy’s Holiday Camp”.

O álbum foi produzido por Lou Reizner e lançado em 1972. Entre todas as versões de “Tommy” lançadas até hoje (e não são poucas), essa continua sendo a minha preferida. O tal quebradinho não fez diferença alguma para mim!

Não sei se pelo impacto da descoberta ou pelo álbum em si, mas posso dizer que até hoje a sensação de ouvi-lo continua a mesa: maravilhosa!

Participações especiais:

Orquestra Sinfônica de Londres
Narrator: Pete Townshend
Nurse: Sandy Denny
Lover: Graham Bell
Father:Steve Winwood
Mother: Maggie Bell
Hawker: Richie Havens
Acid Queen: Merry Clayton
Tommy: Roger Daltrey
Cousin Kevin: John Entwistle
Uncle Ernie: Ringo Starr
Local Lad: Rod Stewart
Doctor: Richard Harris

Faixas

Lado 1
Overture
Its a Boy
1921
Amazing Journey
Sparks
Eyesight to the Blind
Christmas

Lado 2
Cousin Kevin
The Acid Queen
Underture
Do You Think It’s Alright
Fiddle About
Pinball Wizard

Lado 3
There’s a Doctor I’ve Found
Go to the Mirror Boy
Tommy Can You Her Me?
Smash the Mirror
I’m Free
Miracle Cure
Sensation

Lado 4
Sally Simpson
Welcome
Tommy’s Holiday Camp
We’re Not Gonna Take It



Sexy Cover Arts#2

Fantastic Plastic Machine - Why Not? (2002)


Johnny Sax - Liscio Parade (1974)


Helen Vita - Charmante Frechheiten mit Helen Vita (1970)


Leroy Daniels - Sexmouth (1979)


Club Squisito - Miss You (2006)


Você já sabe: diga qual a sua capa preferida nos comentários.



T. Rex - The Slider (1972)


Por Ben Ami Scopinho
Whiplash
Marca de Caim


Marc Bolan, T. Rex e seu álbum “The Slider” são os responsáveis diretos pelo surgimento do que se convencionou chamar de glam rock, tendo influenciado artistas considerados estrelas do gênero, como o camaleão David Bowie, Sweet e Slade, conseguindo ainda imenso respeito entre punks, o pessoal da new wave e do hard rock norte-americano oitentista, numa lista de personalidades que se estende até os dias de hoje.

A carreira artística de Marc Feld começa como modelo, mas logo parte para a música e, sendo amante do folk, resolve usar o nome artístico Marc Bolan em homenagem a seu ídolo Bob Dylan. Desde meados dos anos 60 coloca bons registros no mercado, até formar parceria com Steve Took e formar o Tyranossaurus Rex, com sonoridade acústica e bem folk, muito místico e poético. A partir daí se apresenta com regularidade por toda a Inglaterra, conseguindo admiração de algumas pessoas que viam na proposta musical de Bolan algo com mais substância intelectual.

Porém o espírito criativo de Marc Bolan desejava transformações. Decidido a deixar de lado sua veia acústica e investir na eletricidade do rock, Bolan dispensa quase todos os membros do Tyranossaurus Rex e adota o nome simplificado de “T. Rex”, escrevendo temas mais diretos, pops e rock n´roll.

Somente em parceria com o velho companheiro Mickey Finn, Marc Bolan lança o homônimo “T. Rex” (1970), onde ainda existiam elementos acústicos mesclados a rock, e a partir daí realmente começa a fazer sucesso com as grandes massas inglesas e norte-americanas. 

Incentivado pelos resultados, Bolan procura novos membros condizentes com sua nova linha rock n´roll, adicionando o baixista Steve Currie e o baterista Bill Lagend ao T. Rex. Com uma banda de verdade, Bolan e o T. Rex lançam “Eletric Warrior” em 1971, mantendo seu sucesso intacto. Porém, foi com “The Slider”, de 1972, que tudo explodiu para o grupo, vendendo 100.000 cópias em apenas quatro dias.

A estranha fotografia desfocada de Marc Bolan na capa de “The Slider” foi clicada por seu bom amigo Ringo Starr. A música deste disco é uma continuação do álbum anterior, porém mais direta. A voz trêmula de Bolan, as guitarras simples com alguma distorção e sujeira, vocais de apoio fantasmagóricos, a inocência de seu pop rock aliado a melodias cheias de orquestrações, sem contar nas grandes baladas viajantes e quase hippies, deixaram seus fãs em êxtase.

Mas não foi somente sua música que cativou o público. Ela estava aliada uma nova maneira de expressão vinculada à imagem e à sexualidade, fazendo uso de roupas extravagantes, botas plataforma e muita maquiagem, de resultado bem andrógino, porém sem nunca deixar a música em segundo plano. Transformou-se em superstar na Grã Bretanha, gerando um fenômeno tão intenso nesta época que ficou conhecido como “T. Rextasy”.

A carreira do T. Rex segue em alta ainda com o mais variado e não menos espetacular álbum “Tanx” de 1973, e a partir daí começa seu declínio comercial. Sem se abater, segue sempre colocando seus discos no mercado, até sua fatídica morte num acidente automobilístico, num carro dirigido pela sua esposa Glória Jones em 19 de setembro de 1977.

“Eletric Warrior”, juntamente com “The Slider” e “Tanx”, são registros históricos e cultuados em todo o mundo, imprescindíveis na coleção de qualquer amante do rock que queira entender o desenvolvimento da música aliada à imagem. Verdadeiros clássicos.

Faixas:
1. Metal Guru - 2:25
2. Mystic Lady - 3:09
3. Rock On - 3:26
4. The Slider - 3:22
5. Baby Boomerang - 2:17
6. Spaceball Ricochet - 3:37
7. Buick Mackane - 3:31
8. Telegram Sam - 3:42
9. Rabbit Fighter - 3:55
10. Baby Strange - 3:03
11. Ballrooms of Mars - 4:09
12. Chariot Choogie - 2:45
13. Main Man - 4:14

 


17/10/2008

O Jazz e sua Formação - Parte 1


Por Fábio Pires
Colecionador e Pesquisador Musical
Música como Arte
Fabio´s Little Journal

Como mesmo diz Augusto Pelegrini (um dos homens fortes da divulgação do jazz no Brasil, com programas de rádio em São Luís do Maranhão e autor de “Jazz: das Raízes ao Pós-Bop”): "a melhor maneira de entender o significado do jazz é simplesmente ouvir jazz”. Essa frase é um tanto quanto contundente e simples. 

O jazz, como muitos de nós o conhecemos, tem e talvez tenha adquirido (de cinquenta anos para cá) um status de música para “ouvidos apurados”, ou até mesmo “música da elite”. Vemos a música jazz tocada em lugares mais “bacanas” (como restaurantes e bares da classe alta de grandes capitais mundo afora), em comerciais de TV (pelo menos muitas quando eu era garoto, naquelas propagandas de mulheres bonitas e cigarros), em bares pouco freqüentados ou freqüentados apenas por músicos profissionais atualizados com os mais recentes lançamentos. 

Minha visão é a de que o jazz, nos últimos tempos, tem se desviado para uma aparência mais elitista de música, repelindo a atenção de muitos que dele poderiam se aproveitar, gerando desconfiança do público adulto e, principalmente, dos jovens, gerando a idéia de que é um estilo musical para a terceira idade. Bem, pelo menos é essa a visão que o jazz criou através de seu, um tanto quanto, poder de se isolar do restante dos outros gêneros musicais.

O jazz tem em suas raízes o sofrimento, o lamento, o choro (assim como o blues, seu primo) de um povo angustiado que tentava, através da distorção da música clássica e do som das bandas militares, fazer-se entender e ser valorizado, o que realmente aconteceu muitos anos depois de sua origem (muita incerta e contraditória quanto ao termo “jazz”, bem no final do século 19 com as raízes do ragtime).

Vou deixar nesse primeiro encontro algumas referências de músicos dos primórdios do jazz. Recomendo que ouçam qualquer material desses artistas, já que suas gravações não foram álbuns freqüentes, mas um conjunto de obras reunidas posteriormente em álbuns que acabariam se tranformando em referência aos grandes que surgiriam depois.

Jerry Roll Morton (pianista)


Scott Joplin (pianista)


Buddy Bolden (líder de banda)


Dominick James La Rocca (cornetista)


Nos próximos posts quero tratar da grande cidade-mãe do jazz: Nova Orleans. 

Abraço a todos.



Discos Fundamentais: Crimson Glory – Transcendence (1988)


Por Luiz Fernando M. Fustini
Colecionado
r

O Crimson Glory é uma banda estadunidense formada nos anos 80 e praticamente “cult” hoje em dia, já que não há muita divulgação na mídia e seus clássicos primeiros álbuns (pelo selo Roadrunner) estão fora de catálogo. Uma pena, pois o conteúdo aqui apresentado é mais do que suficiente para deixar empolgado qualquer fã do Queensryche dos tempos áureos (de “Warning” e “Operation Mindcrime”). Trata-se de um heavy metal com fortes influências progressivas, muitíssimo bem tocado e com inegável destaque para o vocalista Midnight (seu nome real é John Patrick McDonald), que possui um gogó privilegiado, deixando Geoff Tate com coceira na cabeça de tanta preocupação.

Este é o segundo álbum do grupo, de 1988. A abertura fica por conta da clássica e épica “Lady of Winter”, um heavy metal tradicionalíssimo muito bem executado pela banda. O disco todo é maravilhoso, mas vale destacar a poderosa “Red Sharks”, com excelentes riffs e guitarras gêmeas, um grandioso power metal das antigas. Se eu encontrasse esta música no “Ram it Down” do Judas Priest não ficaria nem um pouco surpreso! Quando digo isso estou falando sério mesmo, pois o instrumental do Crimson Glory é de deixar o Dream Theater de hoje em dia passando vergonha. E que vocal, meu Deus!

É deste trabalho também uma das baladas mais lindas que já ouvi na vida, “Painted Skies”, que começa com um dedilhado de violão acústico e então nosso amigo Midnight assume a encrenca e canta com a empolgação e maestria de poucos. Quando você menos espera já está possuído pela música (no bom sentido) e não há como não cantar junto o refrão
“spread your wings you can fly”. Emocionante!

Em frente temos a ótima “Masque of the Red Death”, que logo abre espaço para uma das minhas prediletas, a épica, cadenciada, pesada e ao mesmo tempo progressiva “In Dark Places”. Cara, que música do cacete! Indescritível o clima que pode ser absorvido durante a execução dessa maravilha. Impossível não ficar cantarolando
“in dark places we will be forever beyond the light”.

E para continuar a saga proposta pelo grupo, ou seja, deixar o ouvinte de queixo caído, eis que surge “Where Dragons Rule” (minha favorita) com uma linha de bateria simplesmente fenomenal. Este é outro destaque à parte (em um disco que só tem destaques), pois essa música cresce em você de uma forma incrível. Mais guitarras gêmeas e solos dobrados. Simplesmente absurda, e mais uma vez aplausos para nosso herói Midnight, que aqui debulha e dá uma aula de vocalização.

Mas vamos em frente porque ainda temos outras duas belas baladas com “Lonely” e “Burning Bridges”. Se você acha as baladinhas melosas do Aerosmith (fase 90´s em diante) bonitas, então está na hora de rever os seus conceitos e conferir o que o grupo aprontou aqui.

Para fechar a obra ainda temos “Eternal World” e a faixa-título (“Transcendence”), ambas impecáveis. Na segunda citada, bem no início, se tem até a impressão de que o imortal Robert Plant está comandando os vocais.

Enfim, para quem gosta de nomes como Geoff Tate, Rob Halford e Bruce Dickinson, além de heavy metal extremamente bem tocado com influências progressivas (sem soar sonolento) e setentistas, eis aqui um prato cheio.

Se você gostar desse álbum então corra atrás do primeiro (auto-intitulado, de 1986), que não fica muito atrás. E se a Roadrunner soltar uma versão especial desse disco no mercado eu compro também. Inclusive, uma capa linda dessas merece uma versão digipack, não?

Nota 10 – discaço!

Formação:
Midnight – vocal
Jon Drenning – guitarras
Ben Jackson – guitarras
Jeff Lords – baixo
Dana Burnell – bateria

Faixas:
1. Lady of Winter
2. Red Sharks
3. Painted Skies
4. Masque of the Red Death
5. In Dark Places
6. Where Dragons Rule
7. Lonely
8. Burning Bridges
9. Eternal World
10. Transcendence


16/10/2008

Sexy Cover Arts: todo colecionador é um fetichista

Por Ricardo Seelig

Não dizem por aí que todo colecionador é um fetichista?  Essa frase não está longe da verdade. Discos são fetiches, nos dão prazer, e não só pela música que contém. Vários artistas perceberam isso, e lançaram álbuns com capas sensuais, e, muitas vezes, também sexuais. 

Nessa sessão vamos mostar alguns desses trabalhos. E aí vai uma dica: clicando em toda e qualquer imagem publicada aqui no site ela fica em seu tamanho normal, geralmente muito maior do que a que está no post. Portanto, aproveitem.

P.s.: vote na sua capa favorita nos comentários!


Johnny Guitar Watson - Gettin´Down With (1989)

Fausto Papetti - Sexy Slow Mood (1979)

Joey Heatherton - The Joey Heatherton Album (2004)



Vader - The Art of War (2005)


O Glauco é um dos caras que mais entende de metal extremo no Brasil. Seus textos esbanjam conhecimento de causa, transportando o ouvinte para um universo próprio, repleto de cores sombrias, vocais insanos e blast beats à velocidade da luz. Além disso, se esguela à frente do Laconist, grupo de death metal onde também é baixista. Por isso, por ser também músico, suas resenhas transbordam informações preciosas aos leitores, ao mesmo tempo em que deixam clara a sua enorme paixão pelo heavy metal.

Por Glauco Silva
www.myspace.com/laconist
www.whiplash.net

Esse EP, que saiu por aqui via Hellion Records, serviu mais como aperitivo ao ótimo "Impressions in Blood" e também inesperada despedida/tributo ao saudoso Doc, que falecera pouco antes. O baterista inicialmente seria substituído de forma temporária, apenas nesse lançamento, pelo competentíssimo Daray - mas todos já sabemos o que rolou de água embaixo da ponte desde então.

Mas chega a ser engraçado como algumas pouquíssimas bandas de qualidade excepcional, tal qual a turma de Peter Wiwczarek, conseguem transformar um pequeno capítulo de sua história em algo de conteúdo forte e condensado. Das seis faixas desse CD (sem contar o vídeo bônus "This is the War"), duas são instrumentais orquestradas que, apesar de não possuírem um único acorde de guitarra, são lindíssimas e se encaixam perfeitamente à temática do trabalho. O leitor que joga mais videogame vai achar tanto "Para Bellum" como "Banners on the Wind" muito parecidas com a trilha sonora da série de guerra "Medal Of Honour".

Quando se liga o amp, então, temos aquele Vader traçando o caminho usado com mais freqüência a partir do "Black to the Blind": a técnica é deixada um pouco de lado para dar mais espaço a construções menos complexas, ficando tudo mais na cara mesmo. Muuuuuitos blastbeats, quebradas de tempo inusitadas, trêmolos dementes e produção cristalina. Confesso que sou mais fã da fase inicial da banda, com muita dissonância e investimento mais no peso e velocidade, digamos, controlada - mas o grupo continua ditando um estilo muito próprio e naturalmente evoluído.

Isso fica ainda mais evidente nas duas últimas faixas deste CD, que talvez por terem um pouco mais de cadência se afixam mais fácil na memória do ouvinte, com uma pegada bem contagiante e concisa. Tanto que essa boa integração se espelha na formação, que agora completa três anos de estabilização. Para estes experientes guerreiros poloneses, o velho ditado de "quem é rei nunca perde a majestade" felizmente se aplica com saudável freqüência, e pauladas como "Lead Us!!!" garantem tranqüilamente a satisfação dos deathbangers.

Uma nobre homenagem a um companheiro que partiu, e fortes sementes para a perpetuação de seu death metal personalíssimo, no que poderíamos chamar de uma nova fase em sua gloriosa carreira. 

Salve Peter, Doc (R.I.P.) e o grande Vader!

Faixas:
1. Para Bellum
2. This is the War
3. Lead Us!!!
4. Banners on the Wind
5. What Colour is Your Blood?
6. Death in Silence
7. This is the War (vídeo bônus)



Capas Gêmeas: Lynyrd Skynyrd - Pronounced 'lĕh-'nérd 'skin-'nérd (1973)


Por Ricardo Seelig

Essa será mais uma das sessões fixas do blog. Nela vamos mostrar capas de artistas diferentes, mas muito similares entre si. Às vezes isso rola por pura coincidência, em outras na forma de uma homenagem do grupo aos seus ídolos, mas o que interessa é que dá um ótimo papo de bar movido a muito rock and roll.

Lynyrd Skynyrd - Pronounced 'lĕh-'nérd 'skin-'nérd (1973)

Lançado dia 13 de agosto de 1973, a estréia do grupo norte-americano Lynyrd Skynyrd é obrigatória em qualquer coleção que se preze. São desse disco faixas como "Tuesday´s Gone", "Simple Man" e a mais do que clássica "Freebird". Na capa, uma simples foto da banda em uma cidadezinha qualquer do sul dos Estados Unidos, em uma das imagens mais marcantes do grupo.

Raging Slab - Pronounced Eat Shït (2002)

A capa do sétimo álbum da banda nova-iorquina Raging Slab homenageia os pais do southern rock. O Raging Slab, que faz um simpático e competente boogie influenciado por grupos como Black Crowes e ZZ Top, paga tributo ao Skynyrd tanto no uso de uma tipologia similar quanto no próprio nome do play, deixando evidente a admiração dos caras pelo grupo de Gary Rossington e dos irmãos Van Zant.

Sabe mais curiosidades a respeito de capas gêmeas?  Deixe uma mensagem nos comentários e participe.



Discos Fundamentais: Testament - The New Order (1988)


Por Luiz Fernando M. Fustini
Colecionador

Hoje cedo eu vim trabalhar, mas antes de sair de casa carreguei meu iPod com alguns álbuns que eu encontrei pela frente em meu quarto. Até que não dá muito trabalho converter os CDs para MP3, porém é uma tarefa meio “massante”, mas ao mesmo tempo necessária, para alegrar o árduo expediente. Um dos discos escolhidos foi este “The New Order” do Testament, que é considerado um grande clássico do thrash metal. Méritos? Todos!

Sou meio suspeito para falar do Testament, pois tenho e gosto de todos os álbuns de estúdio do grupo (inclusive o mal-falado “Demonic”), porém este daqui se destaca pela quantidade de clássicos existentes em um único registro. Parece até coletânea.

O Testament sempre me lembrou muito o Metallica dos primórdios (fase Cliff Burton), principalmente no que diz respeito às melodias muito bem trabalhadas pela dupla de guitarristas Alex Skolnick e Eric Peterson. Vale destacar que em momento algum se perde o peso, pelo contrário, tem pancadaria de sobra aqui para deixar a molecada fã do “Master of Puppets” de queixo caído. E claro, foram diretamente influenciados pelo Metallica, até porque eles são da mesma região da California, a famosa “Bay Area”, de onde surgiram também Exodus, Megadeth, Heathen, Forbidden, Vio-lence, Death Angel e uma infinidade de outras bandas. Aliás, considero o movimento thrash da Bay Area tão importante e influente quanto a New Wave of British Heavy Metal.

Voltando ao assunto, ou seja, a pedrada “The New Order”, o arregaço já começa pela clássica capa com uma espécie de alma em forma de caveira saindo do planeta Terra, deixando a mensagem de que nosso habitat natural está cada vez mais com os dias contados.

Quanto às faixas eu destacaria ... todas!!! O disco inicia com “Eerie Inhabitants”, com uma introdução sutil, um dedilhado à la “Fight Fire With Fire” (lembram de quem?) que logo em seguida dá espaço a uma rifferama de entortar o pescoço do mais cético dos fãs de metal. Na seqüência, o vocalista Chuck Billy emenda “A world of chaos! A world of fear! A world of anger and curruption...”, que já dá uma idéia que o papo aqui não é sobre amor nem dragões e sim sobre um mundo injusto e consumido pelo caos e pela ganância desenfreada de seus governantes.

Logo em seguida o pau come solto com uma das trincas mais fodidas da história do thrash: “The New Order”, “Trial by Fire” e “Into the Pit”. Sem palavras para descrever o impacto disso tudo na cabeça do ouvinte. São riffs imortais, imorais, assassinos. Sair vivo de um show do Testament após ouvir essa trinca é uma tarefa para o Rambo. É riff atrás de riff, palhetada atrás de palhetada, solos magníficos, refrãos grudentos (ou você nunca ficou berrando “Hey! This is what the people say!” enquanto ouvia “Trial by Fire”?), ou seja, é thrash metal em sua mais pura essência, feito por quem realmente manja do assunto.

Para acalmar os ânimos vem a bela instrumental “Hypnosis”, com excelentes solos de Alex Skolnick. E quando você imagina que irá continuar respirando a coisa pega fogo novamente com “Disciples of the Watch” e “The Preacher” (minha favorita). Se você ainda tinha pescoço, bem ... nesse momento eu garanto que você não terá mais! Muito cuidado para não enfiar a cabeça na parede ao ouvir essas pérolas.

Com muita personalidade e talento vem “Nobody’s Fault”, um excelente cover do Aerosmith (da época em que eles tocavam hard rock de qualidade e não essas baladas melosas e chatíssimas compostas para a MTV). E, para fechar com chave de diamante essa obra-prima (porra, tem mais?!), ainda há tempo para mais um mosh em “A Day of Reckoning” e o direito ao descanso eterno na linda instrumental “Musical Death (A Dirge)”. O nome da última faixa é bem apropriado, já que nesse momento você provavelmente se encontrará sem pulso.

Em suma, “The New Order” é uma aula completa de thrash metal, talento que transborda, principalmente do monstro das seis cordas Alex Skolnick (o que esse cara toca é sacanagem). Se você ainda não tem esse petardo, então está esperando o quê?! Compre logo, ouça e fique com os bagos doloridos durante dias. E, quando pararem de doer, castigue-os novamente com outros clássicos como “The Legacy”, “Practice What You Preach” e “The Gathering” (a formação deste parece o “dream team” do thrash).

Ah, não deixe de conferir também “The Formation of Damnation”, novo lançamento do grupo, de 2008, com a volta da formação original, exceto o batera, mas calma que o Paul Bostaph (ex-Forbidden, ex-Slayer) está aí surrando o instrumento. Chuck Billy não só se curou do maldito câncer como também produziu um dos álbuns mais espetaculares do ano.

Quem é rei nunca perde a majestade. Long Live Testament!

”Listen to these words I preach. Catastrophic lessons they shall teach.” – The Preacher

Formação:
Chuck Billy – vocal
Eric Peterson – guitarra
Alex Skolnick – guitarra
Greg Christian – baixo
Louie Clemente – bateria

Faixas:
1. Eerie Inhabitants
2. The New Order
3. Trial by Fire
4. Into the Pit
5. Hypnosis
6. Disciples of the Watch
7. The Preacher
8. Nobody’s Fault (Aerosmith cover)
9. A Day of Reckoning
10. Musical Death (A Dirge)



Discos Fundamentais: Exodus – Impact is Imminent (1990)


Por Luiz Fernando M. Fustini
Colecionador


Decidi resenhar este álbum pois ele ficou fora de catálogo durante anos e era objeto de desejo de muitos aficcionados por thrash metal (eu incluso), até que em 2008 uma boa alma da Caroline Records (USA) decidiu relançá-lo em formato mini LP (assim como o seu sucessor, “Force of Habit”) com a arte gráfica idêntica ao vinil, inclusive as letras, que não ficam no encarte e sim na contra-capa do disco.

Aliás, a capa desse disco é um atrativo a parte, com os membros da banda dirigindo um antigo (e luxuoso) “lowrider”, sendo que uma bola gigante vem rolando logo atrás deles. Daí o nome “o impacto é iminente”. E o impacto do murro no seu estômago é mais iminente ainda!

O único contra aqui é que as letras ficaram em um tamanho tão minúsculo que não é possível ler com facilidade. Bom, mas vamos deixar esse contra “minúsculo” pra lá e voltar ao assunto principal, ou seja, falar um pouco sobre esta verdadeira pedrada que Gary Holt e companhia produziram em 1990. Ah, também vale mencionar que não há faixas bônus, mas nem precisava.

Muitos dizem que este é um trabalho fraco do Exodus se comparado aos ultra-clássicos “Bonded by Blood” (1985) e “Fabulous Disaster” (1989), o que eu discordo totalmente. Todos os elementos que tornaram o Exodus uma lenda do metal estão aqui, inclusive o nosso velho amigo “Bon Scott from thrash”, Steve “Zetro” Souza! É impressionante como o vocal desse cara é foda (com o perdão da palavra) e deixa as músicas ainda mais empolgantes! E Gary Holt?! Não preciso dizer nada, além de que se trata de um dos guitarristas mais “shreders” de todos os tempos!

O pau já começa a comer na primeira faixa, a própria “Impact is Imminent”, com um riff de tirar o fôlego! É um verdadeiro soco no estômago, uma música que se fosse tocada ao vivo iria provocar muitos moshs e stage dives na platéia. Vale também mencionar que John Tempesta, que aqui substituiu o seminal Tom Hunting, fez um excelente trabalho na bateria, com excelentes levadas cadenciadas, além de distribuir muita pancadaria (com muita classe, é claro).

Todas as faixas são matadoras, mas vale destacar “The Lunatic Parade” (fantástica!), “Within the Walls of Chaos” (bicho, que rifferama dos infernos!), “Objection Overruled” (por um instante me lembrou “Verbal Razors”) e “Thrash Under Pressure”, uma verdadeira coronhada na nuca!

Minha favorita é “Only Death Decides”, pois essa traduz tudo o que o Exodus significa para o thrash. Tem um riff assassino de Gary Holt, capaz de fazer até aquele seu vizinho evangélico dar um mosh, abrir uma lata de cerveja e ir parar no hospital com fortes dores no corpo todo! É riff, palhetada, riff, palhetada, solo, riff – sem parar! Uma estupidez que eu nem sei como consigo escrever ouvindo isso!

Portanto meu amigo fã do “Fabulous Disaster”, de clássicos como “The Toxic Waltz”, “Corruption” e “Verbal Razors”, não deixe de adquirir essa cacetada nos bagos cometida pelos mestres estadunidenses da Bay Area!

Gostei bastante do novo vocalista Rob Dukes e dos trabalhos mais recentes do grupo, porém eu ainda torço muito para o “Zetro” Souza retornar e gravar mais um álbum maravilhoso como foi “Tempo of the Damned”, de 2004.

“Only death decides where you go?
Can't you see what death decides for me?
You'll never know until death decides!”


MOSH!!!

Formação:
Steve “Zetro” Souza – vocal
Gary Holt – guitarra
Rick Hunolt – guitarra
Rob McKillop – baixo
John Tempesta – bateria

Faixas:
1. Impact is Imminent
2. A.W.O.L.
3. The Lunatic Parade
4. Within the Walls of Chaos
5. Objection Overruled
6. Only Death Decides
7. Heads They Win (Tails You Lose)
8. Changing of the Guard
9. Thrash Under Pressure


15/10/2008

John Mayall & Eric Clapton, uma parceria que mudou a música


Por Ugo Medeiros

Em 1966, a união entre o pioneiro do blues inglês, John Mayall, e um guitarrista de rock que começava a ganhar notoriedade em Londres, Eric Clapton, resultaria em um dos discos mais importantes da história. “Bluesbreakers with Eric Clapton” é considerado por muitos o grande marco do blues rock.

Dois anos antes da lendária gravação, Clapton já tinha o respeito do público roqueiro. Seu primeiro grande grupo, o The Yardbirds, mostrava ter grande potencial dentre as bandas da invasão inglesa. The Kinks, The Spencer Davis Group, The Troggs e outros estouravam nas rádios britânicas e começavam a conquistar fãs pelos EUA. Os Yardbirds ganhavam, gradativamente, seguidores ingleses, ainda mais após o single “For Your Love” e o LP “Five Live Yardbirds”. Porém, o guitarrista não estava satisfeito com o som demasiadamente pop que o grupo estava produzindo. A solução encontrada por ele foi o abrupto abandono, já que seu desejo era tocar blues sem a pressão de empresários e gravadoras.

Por intermédio de um amigo músico, Robert Palmer, em abril de 1965 Eric entrava em contato com John Mayall, líder dos Bluesbreakers, um inglês apaixonado por blues americano e um dos responsáveis pela formação da cena do então nascente blues inglês. Doze anos mais velho, Mayall era mais experiente e grande conhecedor do estilo americano. Apesar de enorme talento (liderava os vocais, tocava teclado, gaita e guitarra base), seu primeiro disco, “John Mayall Plays John Mayall”, não fora bem recebido pela crítica e a banda acabou demitida pela gravadora.


Clapton sabia que a música do seu futuro parceiro era baseada num blues com fortes influências do jazz e R&B, já que conhecia dois singles de Mayall, “Crawling Up a Hill” e “Crocodile Walk”. Naquele momento, o som apresentado pelos Bluesbreakers não o atraía, entretanto sentia que o certo era iniciar um novo projeto ao lado de John Mayall, pois o amor ao blues tradicional era comum a ambos. Aos poucos, ele pensava, o som da nova banda se adequaria ao seu gosto, o blues de Chicago. Assim, estava selada uma poderosa parceria. A banda ainda contava com John McVie, baixo, e Mick Fleetwood, que mais tarde formariam o Fleetwood Mac.

A partir de abril de 1965 Clapton mudou-se para a casa de Mayall, e lá pôde entrar em contato com diversos bluesmen americanos, expandindo suas influências. Passava grande parte do dia em seu quarto acompanhando e aperfeiçoando sua pegada na guitarra a partir da música de artistas como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Otis Rush, Buddy Guy e Earl Hooker.

Com um cachê de 35 libras por semana, o grupo rodava o norte da Inglaterra atrás de shows. A adesão de Clapton aos Bluesbreakers resultou em um fiel público e no crescimento da fama do guitarrista. A prova da sua enorme popularidade seria um grafite com os dizeres “Clapton is God” em uma estação de metrô. Os ingleses entravam em contato com um estilo musical novo.

Se na casa de Mayall Clapton vivia em um ambiente sério e familiar, o mesmo não podia ser dito sobre a casa de seus amigos. A vida era corrida e colorida pela experimentação das drogas, pela literatura beat e pelo cinema estrangeiro. Era um período de descobertas para o guitarrista e ele queria expandir seus conhecimentos, queria conhecer o mundo.

Tudo ia bem até que Eric e seus amigos de boemia decidem formar uma banda, o Glands. O plano dos seis companheiros era financiar uma grande viagem pela Europa com os cachês de shows em bares e pequenas casas ao longo da estrada. Evidentemente, Mayall foi pego de surpresa e teve que procurar um substituto para o guitarrista.


Os Glands passaram pela Alemanha e Iugoslávia, até chegar na Grécia, onde abriam o show de uma banda local, Juniors, que tocava covers de Kinks e Beatles. Poucos dias depois do começo desse trabalho alguns membros do Juniors morreram em um acidente de carro e Clapton passou a tocar com o grupo grego. Como ele era, de longe, o músico com mais experiência e técnica e, além disso, tinha o inglês evidentemente fluente, logo foi agregado ao conjunto e passou a tocar seis horas diárias, alternando com a sua banda original, Glands. Em pouco tempo os Juniors tinham shows cheios e eram requisitados em diversas cidades. Para aflição do guitarrista os sentimentos da época do Yardbirds voltavam. Novamente, Eric questionava-se: sucesso comercial ou satisfação pessoal?

Depois de passar alguns meses longe, desejava retornar. Entretanto, o empresário da “banda emprestada” não aceitou a saída. O chefão tinha uma péssima reputação e tratava seus músicos como escravos. Clapton havia sido alertado sobre o preço de sua desistência: perder os braços! Felizmente, após um minucioso plano, conseguiu voltar de trem para Londres com o tecladista do Glands, Robert Palmer. Saldo da viagem: uma Gibson Les Paul, que fora deixada para trás durante a fuga, e a ameaça de perder sua ferramenta de trabalho, seus braços.

Ao retornar à capital inglesa, em outubro de 1965, os Bluesbreakers tinha um novo guitarrista, o talentoso Peter Green, e um novo baixista, Jack Bruce. Para o azar de Green, Clapton tinha lugar cativo no grupo e, logo, Peter foi demitido. Essa formação durou pouco tempo, mas, para a sorte do rock, a química entre Bruce e Clapton foi imediata e explosiva. Se Jack Bruce sairia precocemente dos Bluesbreakers, ocasionando o retorno de McVie, mais tarde a dupla formaria o Cream, uma das mega bandas do rock.

Após um período de pequenos shows, em abril de 1966 a banda entrava nos estúdios da Decca. O entrosamento era perfeito e Clapton estava com uma nova guitarra, uma Gibson Les Paul em vez da velha Gibson ES 335, além de um amplificador Marshall novo, produzindo um som estridente e distorcido. A gravação fora arranjada de forma que alcançasse uma sonoridade de show ao vivo. Em apenas três dias “Bluesbreakers with Eric Clapton” estava pronto.


Também conhecido como “Beano” devido a foto da capa em que Clapton lê uma revista em quadrinhos, o disco mudou o conceito do blues. Unindo o blues americano, mais denso, com uma pegada roqueira tipicamente inglesa, Mayall e Clapton foram os responsáveis por uma obra-prima. Enquanto Mayall liderava o grupo com experiência, cantava e tocava teclado e gaita, Clapton tinha liberdade para tocar de forma semelhante aos seus grande ídolos, como Freddie King. Composto por covers, como “All Your Love” (Otis Rush/Willie Dixon), “Hideaway” (Freddie King) e “What’d I Say” (Ray Charles), canções autorais, casos de “Little Girl”, “Double Crossing Time” e “Key to Love”, e uma work song rearranjada, “Another Man”, o álbum é perfeito do início ao fim. O disco ainda guarda uma surpresa: Clapton nos vocais de “Ramblin’on My Mind”, de Robert Johnson (e pensar que naquela época o músico não gostava de sua voz, demasiadamente aguda).

A partir de 1966 o blues rock passaria por experimentações diversas e grandes discos seriam gravados, casos de “Revolver” (Beatles) e “Pet Sounds” (Beach Boys). Contudo, “Bluesbreakers with Eric Clapton” mudou a trajetória do blues e do rock e tornou-se uma obra atemporal, obrigatória a todos os amantes da música. Se a parceria entre Mayall e Clapton acabaria logo após o lançamento do primeiro e único disco, já que ele formaria o Cream com Jack Bruce e Ginger Baker, o mesmo não pode ser dito sobre seu legado, que é eterno.

Você pode conferir uma entrevista exclusiva com John Mayall, o pai do blues inglês, na edição #21 da Poeira Zine (www.poeirazine.com.br).



Discos Fundamentais: Exciter - Heavy Metal Maniac (1983)


Por Luiz Fernando M. Fustini
Colecionador


O que torna um álbum clássico? Pioneirismo? Qualidade de produção? Virtuosismo? Definitivamente, não!

Lembra dos tempos em que o Metallica estava acabando de lançar “Kill ´em All” (com James Hetfield constantemente gritando “Fuck all posers!” nos shows) e o Slayer, “Show no Mercy”? Lembra da época em que Scott Ian ainda nem imaginava que lançaria um álbum espetacular e fundamental como “Among the Living” com o Anthrax? Lembra de quando o Exodus nem imaginava que “Bonded by Blood” se tornaria um dos álbuns mais seminais do estilo? Pois é, caros amigos, é aí que nossos heróis canadenses do Exciter entram em campo. O ano? 1983. O nome da pedrada? “Heavy Metal Maniac”. Somente o título já dava uma idéia do que estava por vir, ainda mais com a clássica capa exibindo uma parede de amplificadores Marshall.

O Exciter dos primórdios era composto por somente três membros: Dan Beehler (vocal/bateria), Allan James Johnson (baixo) e John Ricci (guitarra). Essa formação viria a mudar a partir do quarto álbum, “Unveiling the Wicked” (1986), com a saída de John Ricci, o que inclusive trás uma série de belas lembranças para os headbangers tupiniquins, já que foi esse o disco que possibilitou a abertura para o Venom aqui em território brasileiro, em 1986, turnê que passou por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Mas isso é assunto para outro dia.

Voltando ao nosso foco, ou seja, “Heavy Metal Maniac”, o que temos aqui é um cruzamento de Motörhead, Black Sabbath e NWOBHM (de bandas rápidas como o Raven). O disco abre com “The Holocaust”, uma introdução curta e sombria, com um som que parece um furacão, que logo em seguida dá espaço para um dos maiores clássicos do Exciter, “Stand Up and Fight”. É indescritível o que senti quando ouvi essa música pela primeira vez, que, apesar de simples, parece que é algo fresco e único, mesmo após todos esses anos. Muita energia, refrão pegajoso, e é impressionante como Dan Beehler consegue berrar e (literalmente) espancar sua bateria ao mesmo tempo.

Na sequência temos “Heavy Metal Maniac”, a faixa-título, também um clássico eterno (é impossível não ficar cantarolando o refrão “i´m a heavy metal maniac!” por aí) com uma pegada rápida e destruidora. A seguir nos deparamos com um desfile de clássicos como “Iron Dogs” (minha favorita!), “Mistress of Evil”, “Under Attack” (uma das mais rápidas) e “Rising of the Dead”. A banda só dá uma trégua quando entra “Blackwitch”, uma belíssima balada mas com uma excelente dose de peso para ninguém botar defeito. Para fechar a obra (ufa!) vem “Cry of the Banshee”, devastando ainda mais nossos pobres pescoços (ou o que sobrou deles).

Confesso que fiquei anos atrás desse álbum em vinil (não existia até então uma versão oficial em CD) e somente o consegui lá pelos idos de 2003. Até existia uma versão em CD no formato 2 em 1 (que eu já tive), com os álbuns “Heavy Metal Maniac” e “Violence and Force”, mas que omitia as faixas “Mistress of Evil” e “Evil Sinner” (logo a melhor do VAF!).

Logo em seguida, em 2005, saiu a versão remasterizada em CD (Megaforce Records – importado). Adivinhem quem remasterizou? Tchan tchan tchan... Não, não foi o Dan Beehler e sim nosso amigo de fé, irmão e camarada Jeff Waters (sim, o chefão-guitarrista que costuma entortar nossos pescoços com os clássicos do também canadense Annihilator). O CD remasterizado citado contém, além do álbum na íntegra, a faixa “Evil Sinner” do segundo trabalho, “Violence and Force” (eu não entendi até hoje porque raios essa faixa ficou de fora da versão oficial remasterizada) e a cacetada “World War III” (lançada originalmente na coletânea “U.S. Metal Vol II”, também do selo Shrapnel). Além disso (ainda não acabou?!), o CD remasterizado tem, para fechar com chave de ouro, três faixas de entrevistas (em inglês, claro) com Dan, Allan e John, onde o trio fala um pouco sobre os primórdios do Exciter.

Bom, aqui vem a resposta para uma pergunta “default”: essa pedrada irá mudar sua vida? Eu não sei, mas certamente mudou a minha. O Exciter mostrou nesse disco que não é preciso muito para se produzir um álbum clássico de heavy metal, e honrou sua maior influência, o glorioso Motörhead do imortal (ou imoral?) Lemmy Kilmister.

Honestidade e energia de sobra é a resposta para a pergunta que deixei ali no início da resenha. Talvez seja por isso que álbuns como “Heavy Metal Maniac“, “Kill ´em All” e “Bonded by Blood” sejam inigualáveis, não importando quanto tempo passe.

Portanto meu amigo, faça um favor a si mesmo e procure já essa obra-prima. Só não vale quebrar o pescoço enquanto rola “Under Attack” ou “Iron Dogs” – espere para quebrar durante “Cry of the Banshee”.

Warning: this content can wreck your necks!

Formação:
Dan Beehler – vocal/bateria
John Ricci – guitarras
Allan Johnson – baixo

Faixas (CD remasterizado – Megaforce 2005):
1. The Holocaust
2. Stand Up and Fight
3. Heavy Metal Maniac
4. Iron Dogs
5. Mistress of Evil
6. Under Attack
7. Rising of the Dead
8. Blackwitch
9. Cry of the Banshee

Bonus tracks:
10. World War III (from “U.S. Metal vol. II” compilation)
11. Evil Sinner (from “Violence and Force”)
12. Interview #1A
13. Interview #2B
14. Interview #2



Dica de site: Japan Papersleeve CDs


Por Ricardo Seelig

Se pra você a Suécia é apenas o país do Ibrahimovic e daquele monte de loiras gostosas e peitudas, depois de ler esse texto a sua opinião vai mudar.

O sueco ChrisGoesRock é quase uma lenda entre os aficcionados por música que adoram pesquisar na internet. O cara é o dono de um dos mais completos e fantásticos blogs que existem (http://chrisgoesrocks.blogspot.com/), repleto de raridades e bandas obscuríssimas das décadas de 1960 e 1970. Mas o assunto aqui é o seu outro site.


Como todo colecionador que se preze, o Chris é fissurado por CDs japoneses, mais especificamente os chamados "papersleeves", que aqui no Brasil são conhecidos como mini LPs. Pois bem: o cara compra tanto disco nesse formato que criou um site onde coloca os itens que adquiriu. 

O resultado?  O endereço http://japancd.blogspot.com/ é um verdadeiro paraíso. Cada post é dedicado a um álbum, com a foto do disco, um review a respeito do trabalho e comentários a respeito das características da edição no formato mini LP. Tudo, naturalmente, escrito com muito conhecimento de causa, o que torna a leitura dos textos uma verdadeira aula.


Todas essas qualidades fazem desse site um ponto de consulta quase diária para colecionadores como nós.

Tá dada a dica. Agora dê um Ctrl+D, salve o link e fique do outro lado da tela babando em cada nova aquisição do Chris.