16/05/2009

Discoteca Básica Bizz#079: Leonard Cohen - Songs of Leonard Cohen (1967)


(Arthur G. Couto Duarte, Bizz#079, fevereiro de 1992)

"Monocórdico", "lúgubre", "um anacronismo ambulante". Com tais adjetivos aplicados a seu desempenho enquanto músico, parece incrível que ele tenha se tornado objeto de adoração para tantas pessoas. A explicação para o paradoxo pode estar na identificação do público com a passividade romântica de suas canções. Quem sabe até o mais importante não fosse tanto o que ele tinha a dizer, mas o modo como expressava sua visão de mundo.

Antecipando a corrente dos "cantores-compositores" do início dos anos setenta (Jackson Browne, James Taylor, Randy Newman, etc), Leonard Cohen exibiu ironia e sofisticação narrativa capazes de rivalizar com Bob Dylan. Curiosamente, sua profissionalização musical fora tardia: Cohen contava 34 anos quando lançou o primeiro LP, mas havia muito era respeitado no meio intelectual.

Aliás, palavras e sons disputaram sua atenção desde a adolescência. Aos 20 o jovem canadense cursou letras na Universidade McGuill e descobriu a poesia de Garcia Lorca ao mesmo tempo em que ingressara num grupelho folk, The Buckskin Boys. Por sua vez, a estreia como escritor (vide os livros
Let Us Compare Mythologies e The Spice-Box of Earth, ambos de 1955) coincidiram com as primeiras composições ao violão.

Se tivesse dependido apenas do aval da crítica literária, é provável que Leonard Cohen jamais viesse a gravar. Em 1966 o romance Beautiful Losers fez dele "a grande esperança da literatura do Canadá". O redirecionamento da carreira veio por acaso: um de seus songbooks chegou à cantora Judy Collins, que, fascinada, incluiu a música "Suzanne" no LP In My Life. Meses depois, ela o convidou para um show ao ar livre, no Central Park de Nova York. Ali, Cohen revelou-se ao grande público sem disfarces: tímido, vulnerável e dono de um fio de voz que mal podia qualificá-lo como cantor.

Em janeiro de 1968, cada uma destas características foi explorada a seu favor no LP Songs of Leonard Cohen. Na capa, o rosto tenso (fotografado por ele mesmo através de uma câmera automática) parecia anunciar a abordagem de temas incomuns para a época. Era o auge do flower power, mas as canções de Cohen falavam de impulsos conflitivos, tédio e violência espiritual. Mesmo quando o assunto era amor suas letras expunham um desespero latente. E, nos momentos em que a autopiedade ameaçava pôr tudo a perder, ele surpreendia o ouvinte atazanando-o com imagens de escalpos, afogamentos e navalhas.

Os LPs posteriores não trouxeram grandes variações de conteúdo. É aí que estão as melhores músicas de Cohen, cujo caráter esparso surge realçado pelo
approach minimalista do produtor John Simon. Voz e violão são os elementos constantes em todas as faixas; vez por outra coadjuvados por violinos ("So Long Marianne"), jews harp ("Hey, That's No Way to Say Goodbye"), órgão ("Stories of the Street") e orquestra ("Suzanne").

Por ocasião de seu lançamento, houve quem o saudasse como "a trilha ideal para se cortar os pulsos", mas as setenta e uma semanas consecutivas (!) em que permaneceu nos charts confirmaram a dimensão maior da arte de Cohen.

Nos anos seguintes, o medo confesso de tocar ao vivo e a índole reclusa impediram-no de consolidar a fama. Ainda assim, alguns membros da geração pós-punk (Nick Cave, Clock DVA, Sisters of Mercy, Morrissey) redescobririam nele vários pontos de intersecção.

Há pouco, por iniciativa de Christian Fevret (editor da revista francesa
Les Inrockuptibles), foi editado na Europa o CD I'm Your Fan, no qual astros como Ian McCulloch, Pixies, John Cale e R.E.M. reinterpretaram suas músicas. Um tributo em atraso, é verdade, mas que faz jus ao talento de "Laughing Len".


Faixas:
A1. Suzanne - 3:48
A2. Master Song - 5:55
A3. Winter Lady - 2:16
A4. The Stranger Song - 5:00
A5. Sisters of Mercy - 3:32

B1. So Long, Marianne - 5:38
B2. Hey, That's No Way to Say Goodbye - 2:55
B3. Stories of the Street - 4:35
B4. Teachers - 3:01
B5. One of Us Cannot Be Wrong - 4:23


15/05/2009

Discos Fundamentais: The Cut - Electric (1987)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Ian Astbury e Billy Duffy são os responsáveis por um dos melhores discos lançados durante os anos oitenta. Terceiro álbum do Cult, Electric é um registro único na carreira dos londrinos, apresentando em suas onze faixas um hard rock vigoroso, direto e repleto de energia, que bebe no melhor que o estilo produziu na década anterior.

Ao lado de Astbury e Duffy estavam o baixista Jamie Stewart e o baterista Les Warner. O quarteto juntou forças ao produtor Rick Rubin para transformar a anterior sonoridade da banda, um rock com influência gótica e uma bem-vinda dose de peso, em um arregaço regado a inspirados riffs de guitarra e interpretações vocais antológicas.

Billy Duffy estava possuído em Electric. O guitarrista louro pegou para si o posto de legítimo herdeiro da nobre linhagem de riffmakers do rock, que inclui nomes lendários como Angus Young, Jimmy Page, Tony Iommi e Rick Davies, e, banhado de luz e inspiração, pariu uma sequência sensacional de notas que colocam Electric na categoria daqueles discos onde a guitarra, mais do que qualquer outro instrumento, é a espinha dorsal, a alma e o sangue que escorre pelos sulcos.

As cinco primeiras faixas não deixam espaço para o ouvinte respirar. O Cult entrega um dos melhores lados A da década de oitenta, jogando o ouvinte contra a parede com o ataque frontal e selvagem de "Wild Flower", "Peace Dog", "Lil´ Devil", "Aphrodisiac Jacket" e "Electric Ocean", todas devidamente abençoadas por riffs faiscantes que brotam como água da guitarra de Billy Duffy. As duas primeiras são pedradas hard certeiras, influenciadas claramente pelo AC/DC. Já "Lil´ Devil" coloca um certo groove na jogada, e era essa faixa que, do alto dos meus dezesseis, dezessete anos, eu tocava feito louco nas festinhas particulares que minha turma de amigos promovia no interior do Rio Grande do Sul - bons tempos aqueles.

Entretanto, foi o riff de "Aphrodisiac Jacket" que me fez comprar o disco, pois foi ouvindo essa canção que me vi obstinado atrás do LP. Mais cadenciada, ela exemplifica a inspiração absurda do Cult em Electric, cativando qualquer pessoa que tenha o rock correndo nas veias e, ao mesmo tempo, honrando os grandes nomes que foram fundamentais para o surgimento e desenvolvimento do hard rock, como Cream, Jimi Hendrix Experience, Led Zeppelin, Mountain, Grand Funk Railroad e inúmeros outros.

O lado B, apesar de não ser tão iluminado quanto o primeiro, possui as duas faixas mais conhecidas de Electric: "Love Removal Machine" e o cover de "Born to Be Wild", do Steppenwolf. A primeira tocou feito louco nas rádios desde o momento em que o play foi lançado, e é uma das trilhas mais marcantes das lembranças de um tempo de descobertas, onde éramos felizes sem ao menos saber. E, em um disco cujas composições nos transmitem sensações sublimes, sendo uma das mais fortes a liberdade, a escolha da clássica "Born to Be Wild" como releitura não poderia ser mais apropriada. Aliás, o peso que o Cult imprimiu transformou a sua versão em uma das preferidas entre as milhares de interpretações que "Born to Be Wild" já ganhou - inúmeras delas, diga-se de passagem, pra lá de dispensáveis.

Quando um disco nos faz sentir certas coisas, é preciso abrir os olhos e ouvi-lo com atenção. Electric nos faz primeiro aumentar o volume do som; em seguida já estamos empunhando nossa Les Paul e tocando air guitar alucinadamente; quando vemos, cantamos os solos das faixas a plenos pulmões - "Wild Flower" e "Love Removal Machine" que o digam; por fim, quando o CD acaba já estamos ouvindo-o novamente.

Enfim, Electric é um discaço de rock, daqueles que cativam novos adeptos e fazem rockers veteranos como eu se apaixonarem, de novo e mais uma vez, pelo gênero que os viu crescer. Agora, chega de papo que que a minha Les Paul já está apitando aqui do lado ...


Faixas:
A1. Wild Flower - 3:37
A2. Peace Dog - 3:34
A3. Lil´ Devil - 2:44
A4. Aphrodisiac Jacket - 4:11
A5. Electric Ocean - 2:49
A6. Bad Fun - 3:37

B1. King Contrary Man - 3:12
B2. Love Removal Machine - 4:17
B3. Born to Be Wild - 3:55
B4. Outlaw - 2:52
B5. Memphis Hip Shake - 3:59


Discos Fundamentais: Miles Davis - On the Corner (1972)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Após dar o pontapé inicial do movimento fusion com os álbuns In A Silent Way (1969) e Bitches Brew, (1970), Miles Davis passou dois anos e meio testando novas sonoridades, adaptando seu som a novos estilos e caindo ainda mais de cabeça em novos ritmos e sons totalmente diferentes ao jazz. Suas perfomances ao vivo entre 1970-1972 eram verdadeiros laboratórios sonoros, onde Miles, muito bem acompanhado, inclusive contando com dois músicos brasileiros em sua banda, Airto Moreira e Hermeto Pascoal, criava verdadeiros petardos sonoros com essas misturas e experimentos.

Miles colocou o apelido de Albino Crazy em Hermeto, e gravou duas faixas de sua autoria, "Igrejinha" - rebatizada como "Little Church" - e "Nem Um Talvez" do ao vivo Live-Evil, de 1971.

Ao entrar em estúdio em junho de 1972, muito influenciado pela black music de Sly and The Family Stone, Funkadellic, Stevie Wonder e Isaac Hayes, Miles decidiu fugir da temática experimentalista de seu antecessor, Bitches Brew, e explorou uma sonoridade altamente dançante, negra e de alto impacto. Chamou (como sempre) um time impecável de músicos, entre eles Herbie Hancock, que também estava trilhando um caminho parecido ao unir o jazz à música negra (união essa que geraria outro marco do fusion, o álbum Head Hunters, lançado em 1973) e, após rápidas jam sessions, pariu um de seus melhores trabalhos, On the Corner.

Já na primeira música, a faixa-título, percebemos a intenção de Miles em imprimir ao jazz um caráter altamente rítmico. Nessa canção, altas doses de batidas africanas se misturam a solos de teclados, saxofones e trompete, criando a sensação de estarmos presenciando um ritual africano ou uma sessão de magia, tamanha a força musical que emana dos sulcos. 

Já "Black Satin" tem um ritmo altamente dançante, nitidamente inspirado em nomes como Sly Stone e Funkadelic, destacando-se aqui o ótimo baixo de Michael Henderson e as pitadas da guitarra de John McLaughlin. A ótima "One and One" nos brinda com uma primorosa performance de Jack Dejohnette na bateria e James Mtume na percussão, servindo base para os ótimos solos de Miles. 

"Helen Butte" e "Mr Freedom X", uma alusão ao líder negro Malcom X e ao grupo político Panteras Negras, realçam o caráter de Miles de explorar sonoridades negras em seu trabalho. Aqui, o funk, o blues, a música africana e o soul se alternam de forma eficiente e empolgante em mais de vinte minutos de duração.

Esse disco, ao ser lançado, foi impiedosamente massacrado pela crítica, que acusou Miles Davis de denegrir o jazz e na verdade ter feito um álbum apenas para ganhar dinheiro. Miles ignorou os comentários negativos e foi ainda mais extremo em suas misturas musicais, até se retirar temporariamente do cenário artístico em 1976.

On the Corner é mais um trabalho obrigatório desse gênio chamado Miles Dewey Davis III, um dos maiores músicos do século XX.


Faixas:
A1. On the Corner - 2:58
A2. New York Girl - 1:32
A3. Thinkin' One Thing and Doin' Another - 6:42
A4. Vote for Miles - 8:45
A5. Black Satin - 5:16

B1. One and One - 6:09
B2. Helen Butte - 16:06
B3. Mr. Freedom X - 7:13


Mofo: David Bowie - The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972)


Por Rubens Leme da Costa
Colecionador

Sem dúvida nenhuma, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é o álbum mais importante da carreira de David Bowie. Não é o melhor - Aladdin Sane (1973), por exemplo, é muito superior em termos de canções - mas foi o disco que criou a marca "Bowie". Sem Ziggy não haveria David Bowie, e sem Bowie o mundo pop teria sido limado em 80%, especialmente nos anos oitenta. A história do extra-terrestre que monta uma banda de rock na Terra cativou milhões de adolescentes na década de setenta e fez de David Bowie uma estrela do dia para a noite. Mas essa estrela foi cuidadosamente planejada. Como? Leia aqui.

Mas para falarmos do fenômeno chamado Ziggy Stardust é necessário voltarmos um pouco no tempo e falarmos também de dois álbuns anteriores:
The Man Who Sold the World (1970) e Hunky Dory (1971). David Bowie já vinha sonhando com a idéia de um personagem diferente e que fizesse sua modesta carreira alcançar vôos mais altos. Após o sucesso da canção "Space Oddity", que chegou ao quinto lugar e foi usada pela BBC como trilha sonora para a chegada do homem à lua, pouca coisa tinha acontecido em sua carreira.

O ano de 1970 marcou o início do envolvimento de David Bowie com o empresário Tony DeFries, que iria causar enormes prejuízos ao cantor no futuro. Mas Bowie estava saindo de uma disputa judicial com outro empresário, Ken Pitt, igualmente um aproveitador e que receberia, após cinco anos de brigas, cerca de 15 mil libras de Bowie. Aos 26 anos, DeFries tinha uma política agressiva e ousada para seus clientes: "se você quer ser uma estrela precisa se comportar e viver como uma." Só que isso implica em dinheiro, muito dinheiro.

A primeira coisa que DeFries queria era lançar mais um LP pela Mercury e depois renegociar o contrato. DeFries foi esperto o suficiente ao perceber que Bowie não tinha noção alguma de dinheiro. Bastava dar a ele um contrato dizendo que o faria rico e ele assinaria de bom grado. Assim, através de sua empresa, a Gem Productions, o empresário passou a ficar com 20% de tudo que Bowie ganhasse. Mas não era só isso. Ele também renegociou o contrato de direitos autorais do cantor. Ao sair da Essex Music e se mudar para a Chrysalis, Bowie recebeu 5 mil libras esterlinas e colocou uma pequena cláusula que dava direitos à Titanic Music de administrar o seu catálogo, com royalties de 75% ao ano.

Bowie já começava a demonstrar fascinação por seres de outros planetas, UFOs e tudo relacionado ao espaço. Além disso ele já era adepto às drogas, especialmente maconha e LSD. Com um novo contrato, começou a escrever novas canções rapidamente, e em menos de dois meses nasceram "Moonage Daydream", "Changes", "Andy Warhol", "Queen Bitch", entre outras. Todas elas seriam guardadas para um álbum futuro.

Mas, enquanto isso, Bowie estava nos estúdios Trident com o guitarrista Mick Ronson, o baterista Mick Woodmansey, o baixista/produtor Tony Visconti e o tecladista Ralph Mace finalizando um novo disco que viria a ser The Man Who Sold the World. Boa parte do álbum foi escrita na residência do cantor, em Beckenham, e Ronson lembra que Bowie dizia que seria abduzido por seres de outros planetas. Em pouco mais de um mês, Bowie sai com um novo LP.


O novo disco estava bem distante do anterior, Space Oddity (1969). Bowie estava influenciado por Hendrix, Cream e Led Zeppelin e fez um álbum pesado, com ênfase na extraordinária guitarra de Ronson. Bowie abordava temas como a insanidade em "All the Madmen", a violência em "Running Gun Blues", computadores que controlariam o mundo, como os do filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço ("Saviour Machine"), além da famosa faixa título. Era um álbum um tanto indigesto e foi lançado primeiro nos Estados Unidos, em novembro de 1970. O lançamento britânico só aconteceria seis meses depois, quando foi assinado um contrato com a Phillips, em abril de 1971.

A Mercury resolveu apostar em Bowie na América e mandou-o até os Estados Unidos para promover o disco. Apesar do pouco sucesso, Bowie chegou aos EUA como estrela, mas por falta de visto de trabalho fez apenas pequenos shows acústicos e deu entrevistas. Mas os dois meses foram proveitosos para estabelecer novos contatos. Em fevereiro, Bowie recebe um telefonema para ir tocar piano no disco solo do ex-vocalista do Herman's Hermits, Peter Noone, que gravaria "Oh, You Pretty Things" e "Right on Mother", ambas de Bowie. Para Noone, David era o melhor compositor britânico desde Lennon e McCartney.


Em abril de 1971 é lançado The Man Who Sold the World no Reino Unido e no dia 30 de maio Bowie torna-se pai de Duncan Zowie Haywood Jones. O disco trazia a famosa capa com Bowie usando vestido, que causaria alguma polêmica. O LP alcançou apenas a 26ª posição na parada britânica.

Na mesma época em que o álbum chegava às lojas, Bowie travou conhecimento com uma curiosa figura chamada Freddi Burretti, estudante de arte assim como ele havia sido. Ao mesmo tempo, Bowie liga para Ronson e Woodmansey para que saiam de Hull e voltem para Londres para começarem as gravações de um novo LP. Bowie pede que arranjem um novo baixista, pois Tony Visconti havia desistido após inúmeras brigas com Tony DeFries. O escolhido é Trevor Bolder.

Enquanto Bowie gravava com sua nova banda outro disco, DeFries negociava um contrato para Bowie, já que o da Mercury havia acabado. O sucesso do compacto de Noone ajudou bastante e desta forma assinaram com a RCA. Hunky Dory ficara pronto em abril, mas só seria lançado em dezembro. Enquanto isso, Bowie pensava em um novo projeto.


Ao lado de Burretti forma o Arnold Corns, que consistia em Rudi Valentino (vocais), Mark Carr Pritchard (guitarra), além de Ronson, Woodmansey e Bolder. A idéia era fazer um novo grupo, e um LP com o possível título Looking for Rudi havia sido planejado. Freddi acabaria tendo uma participação mínima, cantando algumas partes de "Man in the Middle". Ela seria uma das três canções que nasceria no projeto - as outras eram "Moonage Daydream" e "Hang Onto Yourself". As duas últimas seriam lançadas em um compacto com o nome "Arnold Corns".

Mas a maior mudança ainda estava por vir. No dia 02 de agosto estreia em Londres a peça Pork, de Andy Warhol, escrita e dirigida por Tony Ingrassia. O enredo era basicamente sobre uma pessoa que passava o dia usando drogas injetáveis e conversando ao telefone. Todo o resto girava em torno deste personagem. Nela, Zanetta fazia o papel de Andy Warhol. O texto foi todo montado ao redor de conversações pelo telefone que Andy teve com diversas pessoas e que ele gravara. Warhol depois entregou as fitas para Ingrassia, que pincelou e costurou tudo em um formato de peça.

Bowie, que estava realizando algumas apresentações no Hampstead's Country Club, viu a peça, assim como vários integrantes do elenco foram assistir Bowie, ainda desconhecido na América. Ele já tinha uma imagem de andrógeno, que foi o que atraiu o pessoal do Pork para assistir o show. Mas todos ficaram desapontados vendo a interpretação da imagem de androgenia na Inglaterra sendo um pouco diferente da de um hippie cantando folk com um violão sentado em um banquinho. O pessoal do teatro estava com cabelos coloridos e com unhas e batom preto, coisa impensável e totalmente escandalosa. Quando Bowie anunciou a presença dos artistas na platéia e pediu para que se levantassem, Cherry Vanilla tirou sua peruca e mostrou os peitos. Foi um choque para alguns e engraçado para outros. Quase um ano depois, David Bowie acabaria compondo com Lou Reed a canção “New York Conversation” inspirado nesta peça. Todo o elenco de Pork, incluindo Zanetta, ficou amigo de David e Angela Bowie.

E vendo Porky nasceu a inspiração de criar Ziggy Stardust. Angela sugeriu que David pintasse seu cabelo de vermelho, o arrepiasse, raspasse as sobrancelhas e usasse roupas coladas ao corpo e provocantes, assumindo um ar decadente e sexualmente ambíguo. Bowie confessa que apesar de ter Iggy e Lou Reed em mente, a maior referência era o cantor Vince Taylor, ex-The Playboys e que viu a carreira declinar quando se juntou a um movimento religioso. Segundo Bowie, a alcunha Ziggy veio de uma alfaiataria com esse nome. "Stardust" veio de um antigo cantor country chamado Norman Carl Odom, que era conhecido como "The Legendary Stardust Cowboy".


Bowie também criou um nome para sua banda de apoio: The Spiders from Mars. Ziggy viria à Terra de Marte para salvar a humanidade da banalidade com sua mensagem ambígua, de drogas, promiscuidade e amor. Ziggy era para ser o perfeito protótipo do rock star: nasceria em público, viveria o auge, conheceria a decadência e, consequentemente, a morte.

Em setembro Bowie volta à América para firmar contrato definitivo com a RCA, recebendo a modesta quantia de US$ 37.500 dólares de adiantamento para cada um dos três discos que faria. A RCA argumentava que não o conhecia, mas que tinha gostado das canções do novo álbum. Junto com Angela e Ronson, Bowie é levado à Factory, estúdio de Warhol. Era a primeira vez que os dois se encontravam. DeFries tinha uma idéia ambiciosa e até excêntrica: queria que Warhol fosse contratado como "tiete" de Bowie. Obviamente, não funcionou. Mas Bowie conseguiu jantar com um de seus ídolos, Lou Reed, além de conhecer Iggy Pop, que o fascinava.


Enquanto Bowie montava todo o conceito, era editado em dezembro o disco Hunky Dory, o primeiro pela RCA. Hunky Dory é um dos melhores álbuns de toda a longa carreira de Bowie. Além do trio que formaria o Spiders from Mars, Bowie conta com o reforço do ainda desconhecido Rick Wakeman nos teclados e traz, pelo menos, três canções memoráveis: "Changes", "Oh! You Pretty Things" (que hava sido gravado por Noone) e "Life on Mars?".

Se o disco anterior era pesado e cheio de guitarras, nesse Bowie mostrava um lado mais melodioso. Feliz com o novo momento, compôs uma ode ao filho recém-nascido ("Kooks"), prestou homenagem aos ídolos Bob Dylan ("Song for Bob Dylan"), Andy Warhol (na canção de mesmo nome) e Lou Reed ("Queen Bitch"). Além disso, traz uma de suas canções mais pessoais e impossíveis de serem decifradas, "The Bewlay Brothers". Para alguns é uma homenagem ao meio-irmão Terry, que sofria de esquizofrenia. O curioso é que Bowie criaria uma editora para cuidar de seu catálogo com esse mesmo nome, a Bewlay Bros Music.

Enquanto Hunky Dory era editado, as gravações de Ziggy Stardust continuavam sem parar nos estúdios Trident. Um dos possíveis títulos para o disco era Round and Round e tinha as seguintes faixas para o álbum:

Lado 1: "Five Years" / "Soul Love" / "Moonage Daydream" / "Round and Round" / "Port of Amsterdam".

Lado 2: "Hang Onto Yourself" / "Ziggy Stardust" / "Velvet Goldmine" / "Holy Holy" / "Star" / "Lady Stardust".

Apenas em janeiro o disco ganharia forma, quando seriam gravadas "Starman", "Suffragette City" e "Rock 'n' Roll Suicide", além de uma versão de "It Ain't Easy" de Ron Davies.

Enquanto isso, DeFries comprou uma pequena empresa chamada Minnie Bell Music e criou a MainMan, com o objetivo de "gerenciar artistas". Bowie era um dos sócios, o que não era verdade, já que no futuro mostraria que era apenas um emprego como qualquer outro. O truque de DeFries era tão engenhoso quanto desonesto: ele recebia todos os proventos adquiridos com o cantor, deduzia os enormes gastos e só então repassava a Bowie o que sobrasse, através de uma complicada e intricada negociação. O que ele fazia, simplesmente, era deixar David gastar o quanto quisesse, sem saber o que acontecia.

Em janeiro é editado o compacto "Changes / Andy Warhol" e Bowie causa polêmica ao declarar em uma entrevista à Melody Maker que era gay, na edição de 22 de janeiro. Ziggy e os Spiders fizeram um pequeno show, de aquecimento, em janeiro, e em fevereiro começam a primeira grande turnê, no dia 10, no Toby Jug, em Tolworth, Londres, sem terem uma canção ainda lançada.


No meio de março DeFries entrega à RCA o acetato de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars. No dia 14 de abril de 1972 é lançado o primeiro compacto da fase Ziggy: "Starman / Suffragette City". A canção começa a chamar a atenção e recebe o rótulo de clássico do radialista John Peel, chegando ao 10º lugar na parada de compactos.

A história do jovem alienígena que traz uma mensagem de paz aos terráqueos causou furor e sua aparição no programa Top of the Pops, em julho, ficou famosa. Ziggy Stardust havia nascido para o sucesso. Dois meses depois, no dia 06 de junho, é editado finalmente o LP The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

O disco trazia as seguintes faixas:

Lado 1
1. "Five Years" – 4:43
2. "Soul Love" – 3:33
3. "Moonage Daydream" – 4:35
4. "Starman" – 4:15
5. "It Ain't Easy" (Ron Davies) – 2:56

Lado 2
1. "Lady Stardust" – 3:20
2. "Star" – 2:47
3. "Hang on to Yourself" – 2:37
4. "Ziggy Stardust" – 3:13
5. "Suffragette City" – 3:25
6. "Rock 'n' Roll Suicide" – 2:57

O LP mostrou-se um dos discos mais importantes não apenas do ano, mas de toda a história do rock. Sem Ziggy, artistas como U2, Joy Division, Bauhaus, Duran Duran e centenas de outros não sairiam de casa. Bowie construiu à perfeição a história do astro de rock que nasce do nada, angaria fãs, vira astro, conhece a decadência e morre aos olhos do público. O disco tinha uma assinatura forte da guitarra de Ronson, especialmente nos momentos mais agitados, como a faixa título e "Suffragette City".

Ziggy Stardust fez de Bowie um astro. E isso não o surpreendeu: "eu não fiquei surpreso com o sucesso de Ziggy. Eu inventei um 'astro de rock de plástico', totalmente crível e muito melhor que qualquer coisa feita antes, como os Monkees. Meu 'roqueiro de plástico' era muito mais de plástico que qualquer um."


E o culto a Ziggy atingiu níveis impressionantes. Bowie foi alçado a grande ícone do glam rock, superando Marc Bolan, Gary Glitter, Alice Cooper, Roxy Music e qualquer outro. Ziggy se tornou a coisa mais quente do planeta, o ser mais inteligente, sexy, misterioso e carismático jamais surgido no rock. Bowie não era mais Bowie, era Ziggy Stardust.

Bowie mostrava-se um excelente ator e, mais do que isso, extremamente atento ao que acontecia de mais novo e era capaz de reproduzir à perfeição as novas tendências, dando seu charme pessoal à elas. Talvez seja por isso que muitos dizem que Bowie não inventou nada, apenas "soube aglutinar tendências como ninguém". Um dos maiores méritos de Ziggy, o personagem, era a forte conotação sexual demonstrada no palco, especialmente quando contracenava com o guitarrista Mick Ronson.

DeFries começou a colocar em prática seu ambicioso e caro plano de fazer Bowie uma estrela. Uma delas foi encher um avião de jornalistas americanos e levá-los até Londres para ver o show, ao custo astronômico (para a época) de 20 mil libras esterlinas. Além disso, DeFries assinou com Iggy Pop e conseguiu um contrato para o cantor com a CBS. Bowie também queria ajudar Lou Reed, que assinou um contrato com a RCA e conseguiu assinar a produção do LP Transformer, que daria um impulso à carreira do ex-líder do Velvet Underground.

Além disso, Bowie ajudou outra banda esquecida e sem gravadora, o Mott the Hoople. Bowie escreveu "All the Young Dudes" especialmente para o grupo e produziu o LP de mesmo nome. O sucesso foi estrondoso. O compacto chegou ao terceiro posto na parada e o disco ficou na 21ª posição.

Após levar Lou Reed e Iggy Pop para Londres, onde produziu os discos
Transformer e Raw Power, Bowie se preparava para a primeira turnê em território norte-americano. Seriam inicialmente oito concertos, mas com o sucesso a turnê continuou até dezembro. Bowie fez a viagem até Nova York no navio Queen Elizabeth II com sua esposa Angela, por causa de sua fobia de voar. O casal chegou à Nova York no dia 17 de setembro.


A estadia na América foi o auge do luxo, dos gastos e das excentricidades de Bowie. Com uma equipe formada por quarenta e seis pessoas, incluindo diretores da MainMan (boa parte deles tirada diretamente do elenco de Pork), seguranças, groupies, além de Iggy Pop, limousines, comida, drogas e tudo mais, fez com que a viagem quase arruinasse as finanças da companhia. O mais incrível é que Bowie ainda era um completo desconhecido e as vendas dos LPs, modestas. Apenas no Beverly Hills Hotel as despesas ultrapassaram os US$ 20 mil e a turnê registrou um prejuízo de quase US$ 500 mil em dois meses, fazendo com que a RCA chamasse DeFries para dar explicações.

A tour iniciou em Cleveland, em 22 de setembro, perante 3.500 pessoas. O show também marcou a estréia do pianista Mike Garson, um músico nova-iorquino de jazz e que jamais ouvira falar de Bowie. Garson seria um fiel parceiro de Bowie nas próximas três décadas. Os shows se seguiram, nem sempre lotados, e as vendagens eram modestas. Enquanto o disco chegava ao quinto posto no Reino Unido, conseguiram apenas a modestíssima 75ª posição nos EUA. A epopéia de Ziggy era forte demais para o público médio norte-americano. A androginia de Bowie causava alguma curiosidade, mas após isso o interesse não crescia. Mas DeFries insistia em tratar Bowie como um astro de primeira grandeza.

Enquanto os shows aconteciam, Bowie começava a escrever canções para o novo disco. Ronson e David se trancavam compondo novas composições no meio do caos: "
a América mudou a banda, e para a pior. De repente haviam toda aquela gente nos cercando, paparicando David. Eram seguranças de todos os lados, David foi ficando ainda mais paranóico, especialmente porque tinha quilos de droga. A América foi o beijo da morte."


Em novembro Bowie é capa da revista Rolling Stone e lança um novo compacto: "The Jean Genie / Ziggy Stardust", que chega ao segundo lugar no Reino Unido. Na América, é editado o compacto "The Jean Genie / Hang Onto Yourself", que ficou apenas na 71ª posição.

No dia 8 de dezembro é editado o LP
Transformer de Lou Reed, e nesse mês a CBS implora para que Bowie faça a remixagem de Raw Power, após Iggy quase destruir tudo ao mixar os vocais em um canal e os instrumentos em outro. O disco só seria lançado em 1973.

Após passar o Natal com a família, em Londres. Em janeiro, anuncia: "
meu novo personagem será Aladdin Sane". Começava a parte final da saga Ziggy Stardust. Mas isso é papo para outro dia. Um abraço e até a próxima coluna.


Discos Fundamentais: Captain Beyond - Captain Beyond (1972)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

O primeiro disco do Captain Beyond é considerado por uma grande parcela de colecionadores como o melhor álbum de hard rock dos anos setenta. Se você parar para pensar, isso é muita coisa, uma vez que foi exatamente durante os 70´s que grupos como Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, Thin Lizzy, Free, Bad Company, Mountain e inúmeros outros excelentes grupos lançaram alguns dos principais discos de suas carreiras. Isso exemplifica a qualidade e a importância deste álbum lançado originalmente em 1972.

Formado por ex-membros do Deep Purple (Rod Evans), Iron Butterfly (Lee Dorman e Larry "Rhino" Reinhardt) e Johnny Winter And (Bobby Caldwell), o Captain Beyond gravou apenas três discos (
Captain Beyond em 1972, Sufficiently Breathless em 1973 e Dawn Explosion em 1977) e enfrentou grandes problemas com a gravadora Capricorn, dona do passe da banda, que era especializada em southern rock e não entendia a música do grupo, não sabendo vendê-la e nem promovê-la de maneira correta.

Basta somente uma audição deste disco de estreia para entender o quanto o grupo era genial e como poderia ter sido um dos gigantes do estilo. Unindo com rara maestria influências de hard rock, progressivo, psicodelismo e até mesmo jazz, o álbum apresenta uma música refrescante, inédita e dona de uma personalidade fortíssima, que cativa de imediato. Um trabalho tão consistente e brilhante que até hoje faz a cabeça e conquista novos admiradores em todo o mundo. 

Como curiosidade vale citar que as 13 faixas do disco não possuem intervalos entre si, formando uma grande suíte repleta de inspiração, talento e muita competência, e que as primeiras 1.500 cópias da prensagem inicial do LP saíram com um holograma em 3D na capa, o que transformou essa primeira edição em objeto de desejo em todo o mundo, com uma cópia em bom estado valendo entre 200 e 250 dólares em sites especializados.


Faixas:
A1. Dancing Madly Backwards (On a Sea of Air) - 4:02
A2. Armworth - 1:48
A3. Myopic Void - 3:30
A4. Mesmerization Eclipse - 3:48
A5. Raging River of Fear - 3:51

B1. Thousand Days of Yesterday (Intro) - 1:19
B2. Frozen Over - 3:46
B3. Thousand Days of Yesterdays (Time Since Come and Gone) - 3:56
B4. I Can't Feel Nothin' (Part I) - 3:06
B5. As the Moon Speaks (To the Waves of the Sea) - 2:25
B6. Astral Lady - 0:16
B7. As the Moon Speaks (Return) - 2:13
B8. I Can't Feel Nothin' (Part II) - 1:13


Discoteca Básica Bizz#078: MC5 - Kick Out the Jams (1969)


(Celso Pucci, Bizz#078, janeiro de 1992)

Barulho, noise, esporro. Música enquanto soco no estômago. A zoeira atravessa os três acordes do punk, passa pelo hardcore e pelo thrash, por Sonic Youth e por aí vai até toda a turminha de Seattle. Uma fórmula simples, mas matadora: guitarras demenciais cuspindo riffs como farpas, enquanto a cozinha pulsa catatonicamente, quase soterrando os arremedos dos vocais.

Acontece que toda esta violência sônica/cênica já tinha sido forjada lá pelos idos de 1967, em pleno desbunde psicodélico. Suas origens remetem a duas bandas de Detroit - The Stooges e MC5. Ambas com total afinidade musical, mas com uma diferença fundamental: enquanto as performances animais de Iggy Stooge e seus comparsas antecipavam toda a estética niilista do no future punk, o MC5 acreditava realmente no poder revolucionário do rock'n'roll. Uma posição - no mínimo - ingênua se transportada para os dias de Guns n'Roses que ora correm, mas bem coerente com a época.

Rob Tyner (vocal), Fred "Sonic" Smith e Wayne Kramer (guitarras), Dennis Thompson (bateria) e Michael Davis (baixo) saíram diretamente das garagens do subúrbio de Lincoln Park para apavorar o circuito de clubes locais, onde eram notórios por tocarem muito alto, pelas atitudes obscenas e por chegarem quase sempre bêbados ou chapados demais para se apresentar. Porém, quando conseguiam fazê-lo, perpetravam um atentado sonoro que logo virou sensação entre o público mais interado.

Através do baixista Davis - também artista plástico -, a banda travou contato com a Trans-Love Energies, uma comunidade de artistas lideradas pelo ativista anarquista John Sinclair, que agregou aquele bando de freaks barulhentos à sua trupe. Esta foi o embrião do partido White Panther (uma referência ao movimento negro radical dos Black Panthers), que expandiu os ideais anárquicos de Sinclair para happenings de grandes proporções, em que a trilha musical cabia ao MC5.

Foi dentro deste contexto que surgiu o álbum de estreia do grupo, um dos discos mais "sujos" da história do rock. Gravado ao vivo no fim de 1968, ele captava toda a energia primal do quinteto em porradas como "Borderline", "Come Together" e "I Want You Right Now". Desde a subversiva versão de um velho hit de Nat King Cole ("Ramblin' Rose") até a estratosférica parceria com o "jazzista E.T." Sun Ra que fechava o disco ("Starship"), o pau comia solto. Mas pau mesmo foi rolar a partir da faixa-título, em que, na introdução, Tyner gritava o lema "Kick out the jams, motherfuckers!" (algo como "Botem tudo pra fora, filhos da puta!"). Isso acabou envolvendo a banda num processo que começou com o boicote ao álbum pelas lojas e pela própria gravadora (que em seguida os dispensou) e foi parar até nas mãos do FBI - com Sinclair puxando dez anos de cana por tráfico de maconha.

O MC5 ainda daria a volta por cima lançando Back in the USA em 1970, um clássico do garage sound (vide as antológicas "Call Me Animal", "Teenage Lust" e "American Ruse"), além de um obscuro terceiro álbum (High Time), antes de se dissolver em 1971. Depois disso, além de continuarem com problemas com a polícia (com várias prisões por porte de drogas), seus integrantes se envolveram em esparsos projetos musicais: Davis com o Destroy All Monsters (junto ao ex-Stooges Ron Asheton), Thompson com o New Order (não aquele!) e o New Race, Kramer com a Gang War (que também incluía Johnny Thunders) e Smith com a Sonic Rendezvous Band (antes de se casar com Patti Smith, para quem produziu e dividiu as autorias no álbum Dream of Life, em 1988). Apenas Tyner chegou a gravar um disco solo (Bloodbrothers) antes de ter um ataque cardíaco fatal, em setembro do ano passado. Mesmo assim, a lenda do quinteto de Motor City permanece viva.


Faixas:
A1. Ramblin' Rose - 2:39
A2. Kick Out the Jams - 2:37
A3. Come Together - 4:17
A4. Rocket Reducer No. 62 (Rama Lama Fa Fa Fa) - 5:01

B1. Borderline - 2:45
B2. Motor City Is Burning - 4:30
B3. I Want You Right Now - 6:02
B4. Starship - 8:26

Leia também: The Stooges - The Stooges (1969)


14/05/2009

Começando a coleção: Blind Guardian


Por Alessandro Cubas
Colecionador

O Começando a Coleção fala hoje do grupo alemão Blind Guardian, um dos mais importantes nomes do power metal. Nosso colaborar Ale Cubas aponta os três discos indicados para quem quer mergulhar no universo repleto de fantasia do conjunto, uma experiência recomendadíssima para quem tem o heavy metal entre seus estilos preferidos.

Follow the Blind (1989) ***1/2

A banda alemã Blind Guardian foi formada por meados de 1984, e após duas demo tapes eles lançaram Battalions Of Fear (1988). Nas resenhas que vocês irão ler a seguir procurei, acima do gosto pessoal, representar algumas fases distintas da banda, começando pelo álbum Follow the Blind, segundo disco da banda, originalmente lançado no ano de 1989.

Nesta primeira fase, que conta com os dois álbuns já citados, com um som bem mais direto e voltado para o power e speed metal, muito mais pesado do que a banda gravaria mais para a frente, mas que já nos traziam alguns clássicos. Mesmo nesta primeira fase o grupo já trazia em suas letras temas baseado na mitologia e nas obras de J.R.R. Tolkien.

Após uma breve introdução entra “Banish From Sanctuary”, um verdadeiro petardo. Follow the Blind tem um clima muito legal, e embora não seja tão trabalhado como as futuras composições, nos mostra o que o Blind Guardian nos reservava. “Hall of the King” começa com um riff super rápido, característica da banda na época, e tem algumas palhetadas que chegam a lembrar o thrash metal. “Valhalla” foi a música mais bem sucedida do disco, e até hoje a banda costuma tocá-la em seus shows, pois ela se tornou um dos clássicos do grupo. Eles também gravaram um divertido cover para “Barbara Ann” e algumas versões do CD também trazem o cover para “Don’t Break the Circle”, da banda Demon, como bônus.

A formação contava com Hansi Kusch (V/B), Andre Olbrich (G), Marcus Siepen (G) e Thomas Stauch (D), line-up esta que durou até o álbum A Night at the Opera de 2002, quando Thomas deixou o grupo, sendo substituído por Frederik Ehmke.

Uma boa dica para conhecer o som da banda antes dela cair de cabeça em temas medievais.

Tales From the Twilight World (1990) ****

Confesso que fiquei indeciso entre escrever sobre este álbum ou seu sucessor, Somewhere Far Beyond, de 1992, porém acabei ficando com o Tales From the Twilight World pois foi o primeiro álbum em que os alemães incorporaram sons mais medievais e temas ainda mais voltados para mitologia e, principalmente, para a obra de Tolkien. Daí para frente seria quase que inevitável falar de Blind Guardian sem citar o autor. Também não posso deixar de citar os refrões gloriosos que a banda desde então incluiria na maioria de suas composições, sem falar no ótimo trabalho das guitarras. Como o próprio Hansi Kürsch confessou, essa mudança de sonoridade seria influência de grupos dos anos setenta que o quarteto estava muito interessada na época.

O álbum abre com a épica “Traveler in Time”, uma das minhas favoritas, com coros empolgantes e uma bela melodia de guitarra em sua introdução. “Welcome to Dying” vem já em seguida, e também possui um refrão marcante. O álbum segue com a rápida instrumental “Weird Dreams”, seguida pela balada épica “Lord of the Rings”. “Goodbye My Friend”, “Lost in the Twilight Hall”, “Tommyknockers”, “Altar 4” e “The Last Candle” completam o repertório do disco, sendo esta última outro clássico destes bardos.

Foi em
Tales From the Twilight World que a banda iniciou sua longa parceria com o desenhista Andreas Marshall, que desenvolvu um belíssimo trabalho com o grupo, fazendo quase todas suas capas desde então.

O álbum seguinte,
Somewhere Far Beyond, também nos presenteia com ótimos momentos e vale a pena ser conferido. Nele encontramos a música “The Bard’s Song – In the Forest”, que é considerado um dos maiores hits dos alemães.

Eu diria que
Tales From the Twilight World foi o álbum que nos apresentou o Blind Guardian como ele é hoje, e é um dos grandes responsáveis pelo sucesso da banda, que hoje é considerada uma das melhores, se não a melhor, em seu estilo, possuindo até mesmo o seu próprio festival, o Blind Guardian Open Air.

Nightfall in Middle-Earth (1998) *****

Agora vou falar um pouco do meu álbum favorito do Blind Guardian. Considero
Nightfall in Middle-Earth, junto com Imaginations From the Other Side, o auge criativo da banda.

A capa traz mais um excelente trabalho de Andreas Marshall e todo o contexto do disco gira em torno das obras
Silmarillion e O Senhor dos Anéis, ambas de autoria de J.R.R. Tolkien. Hoje em dia não é mais nenhuma novidade bandas serem influenciadas pela obra literária de Tolkien, sendo que muitas já tiveram essas influências muito antes que o Blind Guardian, como é o caso do Rush e do Led Zeppelin, porém não há como negar que de todos esses grupos o que se envolveu mais e que melhor representou essas obras foi o Blind Guardian.

A ótima “Into the Storm” é a primeira faixa e abre caminho para outros clássicos, como a bela composição épica “Nightfall”, uma das melhores do play, que segue com “”The Curse of Feanor” e “Blood Tears”, que tem um bom trabalho de vozes. “Mirror Mirror” é outra clássica deste álbum e também uma das músicas mais conhecidas dos alemães. Ainda temos “Noldor (Dead Winter Reigs)”; “Times Stands Still (At the Iron Hill)”, que também é muito boa; “Thorn”, que está entre as melhores do álbum; a pesada “When Sorrow Sang” e “A Dark Passage”. Quase todas essa faixas possuem climas ou pequenas composições acústicas como introdução.

O álbum soa como pura magia, uma verdadeira viagem à Terra-Média!  Se você não conhece o trabalho do grupo comece por este, que é um dos melhores lançamentos da década de noventa, uma obra-prima do heavy metal!