15 de mai de 2009

Discos Fundamentais: The Cut - Electric (1987)

sexta-feira, maio 15, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Ian Astbury e Billy Duffy são os responsáveis por um dos melhores discos lançados durante os anos oitenta. Terceiro álbum do Cult, Electric é um registro único na carreira dos londrinos, apresentando em suas onze faixas um hard rock vigoroso, direto e repleto de energia, que bebe no melhor que o estilo produziu na década anterior.

Ao lado de Astbury e Duffy estavam o baixista Jamie Stewart e o baterista Les Warner. O quarteto juntou forças ao produtor Rick Rubin para transformar a anterior sonoridade da banda, um rock com influência gótica e uma bem-vinda dose de peso, em um arregaço regado a inspirados riffs de guitarra e interpretações vocais antológicas.

Billy Duffy estava possuído em Electric. O guitarrista louro pegou para si o posto de legítimo herdeiro da nobre linhagem de riffmakers do rock, que inclui nomes lendários como Angus Young, Jimmy Page, Tony Iommi e Rick Davies, e, banhado de luz e inspiração, pariu uma sequência sensacional de notas que colocam Electric na categoria daqueles discos onde a guitarra, mais do que qualquer outro instrumento, é a espinha dorsal, a alma e o sangue que escorre pelos sulcos.

As cinco primeiras faixas não deixam espaço para o ouvinte respirar. O Cult entrega um dos melhores lados A da década de oitenta, jogando o ouvinte contra a parede com o ataque frontal e selvagem de "Wild Flower", "Peace Dog", "Lil´ Devil", "Aphrodisiac Jacket" e "Electric Ocean", todas devidamente abençoadas por riffs faiscantes que brotam como água da guitarra de Billy Duffy. As duas primeiras são pedradas hard certeiras, influenciadas claramente pelo AC/DC. Já "Lil´ Devil" coloca um certo groove na jogada, e era essa faixa que, do alto dos meus dezesseis, dezessete anos, eu tocava feito louco nas festinhas particulares que minha turma de amigos promovia no interior do Rio Grande do Sul - bons tempos aqueles.

Entretanto, foi o riff de "Aphrodisiac Jacket" que me fez comprar o disco, pois foi ouvindo essa canção que me vi obstinado atrás do LP. Mais cadenciada, ela exemplifica a inspiração absurda do Cult em Electric, cativando qualquer pessoa que tenha o rock correndo nas veias e, ao mesmo tempo, honrando os grandes nomes que foram fundamentais para o surgimento e desenvolvimento do hard rock, como Cream, Jimi Hendrix Experience, Led Zeppelin, Mountain, Grand Funk Railroad e inúmeros outros.

O lado B, apesar de não ser tão iluminado quanto o primeiro, possui as duas faixas mais conhecidas de Electric: "Love Removal Machine" e o cover de "Born to Be Wild", do Steppenwolf. A primeira tocou feito louco nas rádios desde o momento em que o play foi lançado, e é uma das trilhas mais marcantes das lembranças de um tempo de descobertas, onde éramos felizes sem ao menos saber. E, em um disco cujas composições nos transmitem sensações sublimes, sendo uma das mais fortes a liberdade, a escolha da clássica "Born to Be Wild" como releitura não poderia ser mais apropriada. Aliás, o peso que o Cult imprimiu transformou a sua versão em uma das preferidas entre as milhares de interpretações que "Born to Be Wild" já ganhou - inúmeras delas, diga-se de passagem, pra lá de dispensáveis.

Quando um disco nos faz sentir certas coisas, é preciso abrir os olhos e ouvi-lo com atenção. Electric nos faz primeiro aumentar o volume do som; em seguida já estamos empunhando nossa Les Paul e tocando air guitar alucinadamente; quando vemos, cantamos os solos das faixas a plenos pulmões - "Wild Flower" e "Love Removal Machine" que o digam; por fim, quando o CD acaba já estamos ouvindo-o novamente.

Enfim, Electric é um discaço de rock, daqueles que cativam novos adeptos e fazem rockers veteranos como eu se apaixonarem, de novo e mais uma vez, pelo gênero que os viu crescer. Agora, chega de papo que que a minha Les Paul já está apitando aqui do lado ...


Faixas:
A1. Wild Flower - 3:37
A2. Peace Dog - 3:34
A3. Lil´ Devil - 2:44
A4. Aphrodisiac Jacket - 4:11
A5. Electric Ocean - 2:49
A6. Bad Fun - 3:37

B1. King Contrary Man - 3:12
B2. Love Removal Machine - 4:17
B3. Born to Be Wild - 3:55
B4. Outlaw - 2:52
B5. Memphis Hip Shake - 3:59

Discos Fundamentais: Miles Davis - On the Corner (1972)

sexta-feira, maio 15, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Após dar o pontapé inicial do movimento fusion com os álbuns In A Silent Way (1969) e Bitches Brew, (1970), Miles Davis passou dois anos e meio testando novas sonoridades, adaptando seu som a novos estilos e caindo ainda mais de cabeça em novos ritmos e sons totalmente diferentes ao jazz. Suas perfomances ao vivo entre 1970-1972 eram verdadeiros laboratórios sonoros, onde Miles, muito bem acompanhado, inclusive contando com dois músicos brasileiros em sua banda, Airto Moreira e Hermeto Pascoal, criava verdadeiros petardos sonoros com essas misturas e experimentos.

Miles colocou o apelido de Albino Crazy em Hermeto, e gravou duas faixas de sua autoria, "Igrejinha" - rebatizada como "Little Church" - e "Nem Um Talvez" do ao vivo Live-Evil, de 1971.

Ao entrar em estúdio em junho de 1972, muito influenciado pela black music de Sly and The Family Stone, Funkadellic, Stevie Wonder e Isaac Hayes, Miles decidiu fugir da temática experimentalista de seu antecessor, Bitches Brew, e explorou uma sonoridade altamente dançante, negra e de alto impacto. Chamou (como sempre) um time impecável de músicos, entre eles Herbie Hancock, que também estava trilhando um caminho parecido ao unir o jazz à música negra (união essa que geraria outro marco do fusion, o álbum Head Hunters, lançado em 1973) e, após rápidas jam sessions, pariu um de seus melhores trabalhos, On the Corner.

Já na primeira música, a faixa-título, percebemos a intenção de Miles em imprimir ao jazz um caráter altamente rítmico. Nessa canção, altas doses de batidas africanas se misturam a solos de teclados, saxofones e trompete, criando a sensação de estarmos presenciando um ritual africano ou uma sessão de magia, tamanha a força musical que emana dos sulcos. 

Já "Black Satin" tem um ritmo altamente dançante, nitidamente inspirado em nomes como Sly Stone e Funkadelic, destacando-se aqui o ótimo baixo de Michael Henderson e as pitadas da guitarra de John McLaughlin. A ótima "One and One" nos brinda com uma primorosa performance de Jack Dejohnette na bateria e James Mtume na percussão, servindo base para os ótimos solos de Miles. 

"Helen Butte" e "Mr Freedom X", uma alusão ao líder negro Malcom X e ao grupo político Panteras Negras, realçam o caráter de Miles de explorar sonoridades negras em seu trabalho. Aqui, o funk, o blues, a música africana e o soul se alternam de forma eficiente e empolgante em mais de vinte minutos de duração.

Esse disco, ao ser lançado, foi impiedosamente massacrado pela crítica, que acusou Miles Davis de denegrir o jazz e na verdade ter feito um álbum apenas para ganhar dinheiro. Miles ignorou os comentários negativos e foi ainda mais extremo em suas misturas musicais, até se retirar temporariamente do cenário artístico em 1976.

On the Corner é mais um trabalho obrigatório desse gênio chamado Miles Dewey Davis III, um dos maiores músicos do século XX.


Faixas:
A1. On the Corner - 2:58
A2. New York Girl - 1:32
A3. Thinkin' One Thing and Doin' Another - 6:42
A4. Vote for Miles - 8:45
A5. Black Satin - 5:16

B1. One and One - 6:09
B2. Helen Butte - 16:06
B3. Mr. Freedom X - 7:13

Mofo: David Bowie - The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972)

sexta-feira, maio 15, 2009

Por Rubens Leme da Costa
Colecionador

Sem dúvida nenhuma, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars é o álbum mais importante da carreira de David Bowie. Não é o melhor - Aladdin Sane (1973), por exemplo, é muito superior em termos de canções - mas foi o disco que criou a marca "Bowie". Sem Ziggy não haveria David Bowie, e sem Bowie o mundo pop teria sido limado em 80%, especialmente nos anos oitenta. A história do extra-terrestre que monta uma banda de rock na Terra cativou milhões de adolescentes na década de setenta e fez de David Bowie uma estrela do dia para a noite. Mas essa estrela foi cuidadosamente planejada. Como? Leia aqui.

Mas para falarmos do fenômeno chamado Ziggy Stardust é necessário voltarmos um pouco no tempo e falarmos também de dois álbuns anteriores:
The Man Who Sold the World (1970) e Hunky Dory (1971). David Bowie já vinha sonhando com a idéia de um personagem diferente e que fizesse sua modesta carreira alcançar vôos mais altos. Após o sucesso da canção "Space Oddity", que chegou ao quinto lugar e foi usada pela BBC como trilha sonora para a chegada do homem à lua, pouca coisa tinha acontecido em sua carreira.

O ano de 1970 marcou o início do envolvimento de David Bowie com o empresário Tony DeFries, que iria causar enormes prejuízos ao cantor no futuro. Mas Bowie estava saindo de uma disputa judicial com outro empresário, Ken Pitt, igualmente um aproveitador e que receberia, após cinco anos de brigas, cerca de 15 mil libras de Bowie. Aos 26 anos, DeFries tinha uma política agressiva e ousada para seus clientes: "se você quer ser uma estrela precisa se comportar e viver como uma." Só que isso implica em dinheiro, muito dinheiro.

A primeira coisa que DeFries queria era lançar mais um LP pela Mercury e depois renegociar o contrato. DeFries foi esperto o suficiente ao perceber que Bowie não tinha noção alguma de dinheiro. Bastava dar a ele um contrato dizendo que o faria rico e ele assinaria de bom grado. Assim, através de sua empresa, a Gem Productions, o empresário passou a ficar com 20% de tudo que Bowie ganhasse. Mas não era só isso. Ele também renegociou o contrato de direitos autorais do cantor. Ao sair da Essex Music e se mudar para a Chrysalis, Bowie recebeu 5 mil libras esterlinas e colocou uma pequena cláusula que dava direitos à Titanic Music de administrar o seu catálogo, com royalties de 75% ao ano.

Bowie já começava a demonstrar fascinação por seres de outros planetas, UFOs e tudo relacionado ao espaço. Além disso ele já era adepto às drogas, especialmente maconha e LSD. Com um novo contrato, começou a escrever novas canções rapidamente, e em menos de dois meses nasceram "Moonage Daydream", "Changes", "Andy Warhol", "Queen Bitch", entre outras. Todas elas seriam guardadas para um álbum futuro.

Mas, enquanto isso, Bowie estava nos estúdios Trident com o guitarrista Mick Ronson, o baterista Mick Woodmansey, o baixista/produtor Tony Visconti e o tecladista Ralph Mace finalizando um novo disco que viria a ser The Man Who Sold the World. Boa parte do álbum foi escrita na residência do cantor, em Beckenham, e Ronson lembra que Bowie dizia que seria abduzido por seres de outros planetas. Em pouco mais de um mês, Bowie sai com um novo LP.


O novo disco estava bem distante do anterior, Space Oddity (1969). Bowie estava influenciado por Hendrix, Cream e Led Zeppelin e fez um álbum pesado, com ênfase na extraordinária guitarra de Ronson. Bowie abordava temas como a insanidade em "All the Madmen", a violência em "Running Gun Blues", computadores que controlariam o mundo, como os do filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço ("Saviour Machine"), além da famosa faixa título. Era um álbum um tanto indigesto e foi lançado primeiro nos Estados Unidos, em novembro de 1970. O lançamento britânico só aconteceria seis meses depois, quando foi assinado um contrato com a Phillips, em abril de 1971.

A Mercury resolveu apostar em Bowie na América e mandou-o até os Estados Unidos para promover o disco. Apesar do pouco sucesso, Bowie chegou aos EUA como estrela, mas por falta de visto de trabalho fez apenas pequenos shows acústicos e deu entrevistas. Mas os dois meses foram proveitosos para estabelecer novos contatos. Em fevereiro, Bowie recebe um telefonema para ir tocar piano no disco solo do ex-vocalista do Herman's Hermits, Peter Noone, que gravaria "Oh, You Pretty Things" e "Right on Mother", ambas de Bowie. Para Noone, David era o melhor compositor britânico desde Lennon e McCartney.


Em abril de 1971 é lançado The Man Who Sold the World no Reino Unido e no dia 30 de maio Bowie torna-se pai de Duncan Zowie Haywood Jones. O disco trazia a famosa capa com Bowie usando vestido, que causaria alguma polêmica. O LP alcançou apenas a 26ª posição na parada britânica.

Na mesma época em que o álbum chegava às lojas, Bowie travou conhecimento com uma curiosa figura chamada Freddi Burretti, estudante de arte assim como ele havia sido. Ao mesmo tempo, Bowie liga para Ronson e Woodmansey para que saiam de Hull e voltem para Londres para começarem as gravações de um novo LP. Bowie pede que arranjem um novo baixista, pois Tony Visconti havia desistido após inúmeras brigas com Tony DeFries. O escolhido é Trevor Bolder.

Enquanto Bowie gravava com sua nova banda outro disco, DeFries negociava um contrato para Bowie, já que o da Mercury havia acabado. O sucesso do compacto de Noone ajudou bastante e desta forma assinaram com a RCA. Hunky Dory ficara pronto em abril, mas só seria lançado em dezembro. Enquanto isso, Bowie pensava em um novo projeto.


Ao lado de Burretti forma o Arnold Corns, que consistia em Rudi Valentino (vocais), Mark Carr Pritchard (guitarra), além de Ronson, Woodmansey e Bolder. A idéia era fazer um novo grupo, e um LP com o possível título Looking for Rudi havia sido planejado. Freddi acabaria tendo uma participação mínima, cantando algumas partes de "Man in the Middle". Ela seria uma das três canções que nasceria no projeto - as outras eram "Moonage Daydream" e "Hang Onto Yourself". As duas últimas seriam lançadas em um compacto com o nome "Arnold Corns".

Mas a maior mudança ainda estava por vir. No dia 02 de agosto estreia em Londres a peça Pork, de Andy Warhol, escrita e dirigida por Tony Ingrassia. O enredo era basicamente sobre uma pessoa que passava o dia usando drogas injetáveis e conversando ao telefone. Todo o resto girava em torno deste personagem. Nela, Zanetta fazia o papel de Andy Warhol. O texto foi todo montado ao redor de conversações pelo telefone que Andy teve com diversas pessoas e que ele gravara. Warhol depois entregou as fitas para Ingrassia, que pincelou e costurou tudo em um formato de peça.

Bowie, que estava realizando algumas apresentações no Hampstead's Country Club, viu a peça, assim como vários integrantes do elenco foram assistir Bowie, ainda desconhecido na América. Ele já tinha uma imagem de andrógeno, que foi o que atraiu o pessoal do Pork para assistir o show. Mas todos ficaram desapontados vendo a interpretação da imagem de androgenia na Inglaterra sendo um pouco diferente da de um hippie cantando folk com um violão sentado em um banquinho. O pessoal do teatro estava com cabelos coloridos e com unhas e batom preto, coisa impensável e totalmente escandalosa. Quando Bowie anunciou a presença dos artistas na platéia e pediu para que se levantassem, Cherry Vanilla tirou sua peruca e mostrou os peitos. Foi um choque para alguns e engraçado para outros. Quase um ano depois, David Bowie acabaria compondo com Lou Reed a canção “New York Conversation” inspirado nesta peça. Todo o elenco de Pork, incluindo Zanetta, ficou amigo de David e Angela Bowie.

E vendo Porky nasceu a inspiração de criar Ziggy Stardust. Angela sugeriu que David pintasse seu cabelo de vermelho, o arrepiasse, raspasse as sobrancelhas e usasse roupas coladas ao corpo e provocantes, assumindo um ar decadente e sexualmente ambíguo. Bowie confessa que apesar de ter Iggy e Lou Reed em mente, a maior referência era o cantor Vince Taylor, ex-The Playboys e que viu a carreira declinar quando se juntou a um movimento religioso. Segundo Bowie, a alcunha Ziggy veio de uma alfaiataria com esse nome. "Stardust" veio de um antigo cantor country chamado Norman Carl Odom, que era conhecido como "The Legendary Stardust Cowboy".


Bowie também criou um nome para sua banda de apoio: The Spiders from Mars. Ziggy viria à Terra de Marte para salvar a humanidade da banalidade com sua mensagem ambígua, de drogas, promiscuidade e amor. Ziggy era para ser o perfeito protótipo do rock star: nasceria em público, viveria o auge, conheceria a decadência e, consequentemente, a morte.

Em setembro Bowie volta à América para firmar contrato definitivo com a RCA, recebendo a modesta quantia de US$ 37.500 dólares de adiantamento para cada um dos três discos que faria. A RCA argumentava que não o conhecia, mas que tinha gostado das canções do novo álbum. Junto com Angela e Ronson, Bowie é levado à Factory, estúdio de Warhol. Era a primeira vez que os dois se encontravam. DeFries tinha uma idéia ambiciosa e até excêntrica: queria que Warhol fosse contratado como "tiete" de Bowie. Obviamente, não funcionou. Mas Bowie conseguiu jantar com um de seus ídolos, Lou Reed, além de conhecer Iggy Pop, que o fascinava.


Enquanto Bowie montava todo o conceito, era editado em dezembro o disco Hunky Dory, o primeiro pela RCA. Hunky Dory é um dos melhores álbuns de toda a longa carreira de Bowie. Além do trio que formaria o Spiders from Mars, Bowie conta com o reforço do ainda desconhecido Rick Wakeman nos teclados e traz, pelo menos, três canções memoráveis: "Changes", "Oh! You Pretty Things" (que hava sido gravado por Noone) e "Life on Mars?".

Se o disco anterior era pesado e cheio de guitarras, nesse Bowie mostrava um lado mais melodioso. Feliz com o novo momento, compôs uma ode ao filho recém-nascido ("Kooks"), prestou homenagem aos ídolos Bob Dylan ("Song for Bob Dylan"), Andy Warhol (na canção de mesmo nome) e Lou Reed ("Queen Bitch"). Além disso, traz uma de suas canções mais pessoais e impossíveis de serem decifradas, "The Bewlay Brothers". Para alguns é uma homenagem ao meio-irmão Terry, que sofria de esquizofrenia. O curioso é que Bowie criaria uma editora para cuidar de seu catálogo com esse mesmo nome, a Bewlay Bros Music.

Enquanto Hunky Dory era editado, as gravações de Ziggy Stardust continuavam sem parar nos estúdios Trident. Um dos possíveis títulos para o disco era Round and Round e tinha as seguintes faixas para o álbum:

Lado 1: "Five Years" / "Soul Love" / "Moonage Daydream" / "Round and Round" / "Port of Amsterdam".

Lado 2: "Hang Onto Yourself" / "Ziggy Stardust" / "Velvet Goldmine" / "Holy Holy" / "Star" / "Lady Stardust".

Apenas em janeiro o disco ganharia forma, quando seriam gravadas "Starman", "Suffragette City" e "Rock 'n' Roll Suicide", além de uma versão de "It Ain't Easy" de Ron Davies.

Enquanto isso, DeFries comprou uma pequena empresa chamada Minnie Bell Music e criou a MainMan, com o objetivo de "gerenciar artistas". Bowie era um dos sócios, o que não era verdade, já que no futuro mostraria que era apenas um emprego como qualquer outro. O truque de DeFries era tão engenhoso quanto desonesto: ele recebia todos os proventos adquiridos com o cantor, deduzia os enormes gastos e só então repassava a Bowie o que sobrasse, através de uma complicada e intricada negociação. O que ele fazia, simplesmente, era deixar David gastar o quanto quisesse, sem saber o que acontecia.

Em janeiro é editado o compacto "Changes / Andy Warhol" e Bowie causa polêmica ao declarar em uma entrevista à Melody Maker que era gay, na edição de 22 de janeiro. Ziggy e os Spiders fizeram um pequeno show, de aquecimento, em janeiro, e em fevereiro começam a primeira grande turnê, no dia 10, no Toby Jug, em Tolworth, Londres, sem terem uma canção ainda lançada.


No meio de março DeFries entrega à RCA o acetato de The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars. No dia 14 de abril de 1972 é lançado o primeiro compacto da fase Ziggy: "Starman / Suffragette City". A canção começa a chamar a atenção e recebe o rótulo de clássico do radialista John Peel, chegando ao 10º lugar na parada de compactos.

A história do jovem alienígena que traz uma mensagem de paz aos terráqueos causou furor e sua aparição no programa Top of the Pops, em julho, ficou famosa. Ziggy Stardust havia nascido para o sucesso. Dois meses depois, no dia 06 de junho, é editado finalmente o LP The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

O disco trazia as seguintes faixas:

Lado 1
1. "Five Years" – 4:43
2. "Soul Love" – 3:33
3. "Moonage Daydream" – 4:35
4. "Starman" – 4:15
5. "It Ain't Easy" (Ron Davies) – 2:56

Lado 2
1. "Lady Stardust" – 3:20
2. "Star" – 2:47
3. "Hang on to Yourself" – 2:37
4. "Ziggy Stardust" – 3:13
5. "Suffragette City" – 3:25
6. "Rock 'n' Roll Suicide" – 2:57

O LP mostrou-se um dos discos mais importantes não apenas do ano, mas de toda a história do rock. Sem Ziggy, artistas como U2, Joy Division, Bauhaus, Duran Duran e centenas de outros não sairiam de casa. Bowie construiu à perfeição a história do astro de rock que nasce do nada, angaria fãs, vira astro, conhece a decadência e morre aos olhos do público. O disco tinha uma assinatura forte da guitarra de Ronson, especialmente nos momentos mais agitados, como a faixa título e "Suffragette City".

Ziggy Stardust fez de Bowie um astro. E isso não o surpreendeu: "eu não fiquei surpreso com o sucesso de Ziggy. Eu inventei um 'astro de rock de plástico', totalmente crível e muito melhor que qualquer coisa feita antes, como os Monkees. Meu 'roqueiro de plástico' era muito mais de plástico que qualquer um."


E o culto a Ziggy atingiu níveis impressionantes. Bowie foi alçado a grande ícone do glam rock, superando Marc Bolan, Gary Glitter, Alice Cooper, Roxy Music e qualquer outro. Ziggy se tornou a coisa mais quente do planeta, o ser mais inteligente, sexy, misterioso e carismático jamais surgido no rock. Bowie não era mais Bowie, era Ziggy Stardust.

Bowie mostrava-se um excelente ator e, mais do que isso, extremamente atento ao que acontecia de mais novo e era capaz de reproduzir à perfeição as novas tendências, dando seu charme pessoal à elas. Talvez seja por isso que muitos dizem que Bowie não inventou nada, apenas "soube aglutinar tendências como ninguém". Um dos maiores méritos de Ziggy, o personagem, era a forte conotação sexual demonstrada no palco, especialmente quando contracenava com o guitarrista Mick Ronson.

DeFries começou a colocar em prática seu ambicioso e caro plano de fazer Bowie uma estrela. Uma delas foi encher um avião de jornalistas americanos e levá-los até Londres para ver o show, ao custo astronômico (para a época) de 20 mil libras esterlinas. Além disso, DeFries assinou com Iggy Pop e conseguiu um contrato para o cantor com a CBS. Bowie também queria ajudar Lou Reed, que assinou um contrato com a RCA e conseguiu assinar a produção do LP Transformer, que daria um impulso à carreira do ex-líder do Velvet Underground.

Além disso, Bowie ajudou outra banda esquecida e sem gravadora, o Mott the Hoople. Bowie escreveu "All the Young Dudes" especialmente para o grupo e produziu o LP de mesmo nome. O sucesso foi estrondoso. O compacto chegou ao terceiro posto na parada e o disco ficou na 21ª posição.

Após levar Lou Reed e Iggy Pop para Londres, onde produziu os discos
Transformer e Raw Power, Bowie se preparava para a primeira turnê em território norte-americano. Seriam inicialmente oito concertos, mas com o sucesso a turnê continuou até dezembro. Bowie fez a viagem até Nova York no navio Queen Elizabeth II com sua esposa Angela, por causa de sua fobia de voar. O casal chegou à Nova York no dia 17 de setembro.


A estadia na América foi o auge do luxo, dos gastos e das excentricidades de Bowie. Com uma equipe formada por quarenta e seis pessoas, incluindo diretores da MainMan (boa parte deles tirada diretamente do elenco de Pork), seguranças, groupies, além de Iggy Pop, limousines, comida, drogas e tudo mais, fez com que a viagem quase arruinasse as finanças da companhia. O mais incrível é que Bowie ainda era um completo desconhecido e as vendas dos LPs, modestas. Apenas no Beverly Hills Hotel as despesas ultrapassaram os US$ 20 mil e a turnê registrou um prejuízo de quase US$ 500 mil em dois meses, fazendo com que a RCA chamasse DeFries para dar explicações.

A tour iniciou em Cleveland, em 22 de setembro, perante 3.500 pessoas. O show também marcou a estréia do pianista Mike Garson, um músico nova-iorquino de jazz e que jamais ouvira falar de Bowie. Garson seria um fiel parceiro de Bowie nas próximas três décadas. Os shows se seguiram, nem sempre lotados, e as vendagens eram modestas. Enquanto o disco chegava ao quinto posto no Reino Unido, conseguiram apenas a modestíssima 75ª posição nos EUA. A epopéia de Ziggy era forte demais para o público médio norte-americano. A androginia de Bowie causava alguma curiosidade, mas após isso o interesse não crescia. Mas DeFries insistia em tratar Bowie como um astro de primeira grandeza.

Enquanto os shows aconteciam, Bowie começava a escrever canções para o novo disco. Ronson e David se trancavam compondo novas composições no meio do caos: "
a América mudou a banda, e para a pior. De repente haviam toda aquela gente nos cercando, paparicando David. Eram seguranças de todos os lados, David foi ficando ainda mais paranóico, especialmente porque tinha quilos de droga. A América foi o beijo da morte."


Em novembro Bowie é capa da revista Rolling Stone e lança um novo compacto: "The Jean Genie / Ziggy Stardust", que chega ao segundo lugar no Reino Unido. Na América, é editado o compacto "The Jean Genie / Hang Onto Yourself", que ficou apenas na 71ª posição.

No dia 8 de dezembro é editado o LP
Transformer de Lou Reed, e nesse mês a CBS implora para que Bowie faça a remixagem de Raw Power, após Iggy quase destruir tudo ao mixar os vocais em um canal e os instrumentos em outro. O disco só seria lançado em 1973.

Após passar o Natal com a família, em Londres. Em janeiro, anuncia: "
meu novo personagem será Aladdin Sane". Começava a parte final da saga Ziggy Stardust. Mas isso é papo para outro dia. Um abraço e até a próxima coluna.

Discos Fundamentais: Captain Beyond - Captain Beyond (1972)

sexta-feira, maio 15, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

O primeiro disco do Captain Beyond é considerado por uma grande parcela de colecionadores como o melhor álbum de hard rock dos anos setenta. Se você parar para pensar, isso é muita coisa, uma vez que foi exatamente durante os 70´s que grupos como Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, Thin Lizzy, Free, Bad Company, Mountain e inúmeros outros excelentes grupos lançaram alguns dos principais discos de suas carreiras. Isso exemplifica a qualidade e a importância deste álbum lançado originalmente em 1972.

Formado por ex-membros do Deep Purple (Rod Evans), Iron Butterfly (Lee Dorman e Larry "Rhino" Reinhardt) e Johnny Winter And (Bobby Caldwell), o Captain Beyond gravou apenas três discos (
Captain Beyond em 1972, Sufficiently Breathless em 1973 e Dawn Explosion em 1977) e enfrentou grandes problemas com a gravadora Capricorn, dona do passe da banda, que era especializada em southern rock e não entendia a música do grupo, não sabendo vendê-la e nem promovê-la de maneira correta.

Basta somente uma audição deste disco de estreia para entender o quanto o grupo era genial e como poderia ter sido um dos gigantes do estilo. Unindo com rara maestria influências de hard rock, progressivo, psicodelismo e até mesmo jazz, o álbum apresenta uma música refrescante, inédita e dona de uma personalidade fortíssima, que cativa de imediato. Um trabalho tão consistente e brilhante que até hoje faz a cabeça e conquista novos admiradores em todo o mundo. 

Como curiosidade vale citar que as 13 faixas do disco não possuem intervalos entre si, formando uma grande suíte repleta de inspiração, talento e muita competência, e que as primeiras 1.500 cópias da prensagem inicial do LP saíram com um holograma em 3D na capa, o que transformou essa primeira edição em objeto de desejo em todo o mundo, com uma cópia em bom estado valendo entre 200 e 250 dólares em sites especializados.


Faixas:
A1. Dancing Madly Backwards (On a Sea of Air) - 4:02
A2. Armworth - 1:48
A3. Myopic Void - 3:30
A4. Mesmerization Eclipse - 3:48
A5. Raging River of Fear - 3:51

B1. Thousand Days of Yesterday (Intro) - 1:19
B2. Frozen Over - 3:46
B3. Thousand Days of Yesterdays (Time Since Come and Gone) - 3:56
B4. I Can't Feel Nothin' (Part I) - 3:06
B5. As the Moon Speaks (To the Waves of the Sea) - 2:25
B6. Astral Lady - 0:16
B7. As the Moon Speaks (Return) - 2:13
B8. I Can't Feel Nothin' (Part II) - 1:13

14 de mai de 2009

Começando a coleção: Blind Guardian

quinta-feira, maio 14, 2009

Por Alessandro Cubas
Colecionador

O Começando a Coleção fala hoje do grupo alemão Blind Guardian, um dos mais importantes nomes do power metal. Nosso colaborar Ale Cubas aponta os três discos indicados para quem quer mergulhar no universo repleto de fantasia do conjunto, uma experiência recomendadíssima para quem tem o heavy metal entre seus estilos preferidos.

Follow the Blind (1989) ***1/2

A banda alemã Blind Guardian foi formada por meados de 1984, e após duas demo tapes eles lançaram Battalions Of Fear (1988). Nas resenhas que vocês irão ler a seguir procurei, acima do gosto pessoal, representar algumas fases distintas da banda, começando pelo álbum Follow the Blind, segundo disco da banda, originalmente lançado no ano de 1989.

Nesta primeira fase, que conta com os dois álbuns já citados, com um som bem mais direto e voltado para o power e speed metal, muito mais pesado do que a banda gravaria mais para a frente, mas que já nos traziam alguns clássicos. Mesmo nesta primeira fase o grupo já trazia em suas letras temas baseado na mitologia e nas obras de J.R.R. Tolkien.

Após uma breve introdução entra “Banish From Sanctuary”, um verdadeiro petardo. Follow the Blind tem um clima muito legal, e embora não seja tão trabalhado como as futuras composições, nos mostra o que o Blind Guardian nos reservava. “Hall of the King” começa com um riff super rápido, característica da banda na época, e tem algumas palhetadas que chegam a lembrar o thrash metal. “Valhalla” foi a música mais bem sucedida do disco, e até hoje a banda costuma tocá-la em seus shows, pois ela se tornou um dos clássicos do grupo. Eles também gravaram um divertido cover para “Barbara Ann” e algumas versões do CD também trazem o cover para “Don’t Break the Circle”, da banda Demon, como bônus.

A formação contava com Hansi Kusch (V/B), Andre Olbrich (G), Marcus Siepen (G) e Thomas Stauch (D), line-up esta que durou até o álbum A Night at the Opera de 2002, quando Thomas deixou o grupo, sendo substituído por Frederik Ehmke.

Uma boa dica para conhecer o som da banda antes dela cair de cabeça em temas medievais.

Tales From the Twilight World (1990) ****

Confesso que fiquei indeciso entre escrever sobre este álbum ou seu sucessor, Somewhere Far Beyond, de 1992, porém acabei ficando com o Tales From the Twilight World pois foi o primeiro álbum em que os alemães incorporaram sons mais medievais e temas ainda mais voltados para mitologia e, principalmente, para a obra de Tolkien. Daí para frente seria quase que inevitável falar de Blind Guardian sem citar o autor. Também não posso deixar de citar os refrões gloriosos que a banda desde então incluiria na maioria de suas composições, sem falar no ótimo trabalho das guitarras. Como o próprio Hansi Kürsch confessou, essa mudança de sonoridade seria influência de grupos dos anos setenta que o quarteto estava muito interessada na época.

O álbum abre com a épica “Traveler in Time”, uma das minhas favoritas, com coros empolgantes e uma bela melodia de guitarra em sua introdução. “Welcome to Dying” vem já em seguida, e também possui um refrão marcante. O álbum segue com a rápida instrumental “Weird Dreams”, seguida pela balada épica “Lord of the Rings”. “Goodbye My Friend”, “Lost in the Twilight Hall”, “Tommyknockers”, “Altar 4” e “The Last Candle” completam o repertório do disco, sendo esta última outro clássico destes bardos.

Foi em
Tales From the Twilight World que a banda iniciou sua longa parceria com o desenhista Andreas Marshall, que desenvolvu um belíssimo trabalho com o grupo, fazendo quase todas suas capas desde então.

O álbum seguinte,
Somewhere Far Beyond, também nos presenteia com ótimos momentos e vale a pena ser conferido. Nele encontramos a música “The Bard’s Song – In the Forest”, que é considerado um dos maiores hits dos alemães.

Eu diria que
Tales From the Twilight World foi o álbum que nos apresentou o Blind Guardian como ele é hoje, e é um dos grandes responsáveis pelo sucesso da banda, que hoje é considerada uma das melhores, se não a melhor, em seu estilo, possuindo até mesmo o seu próprio festival, o Blind Guardian Open Air.

Nightfall in Middle-Earth (1998) *****

Agora vou falar um pouco do meu álbum favorito do Blind Guardian. Considero
Nightfall in Middle-Earth, junto com Imaginations From the Other Side, o auge criativo da banda.

A capa traz mais um excelente trabalho de Andreas Marshall e todo o contexto do disco gira em torno das obras
Silmarillion e O Senhor dos Anéis, ambas de autoria de J.R.R. Tolkien. Hoje em dia não é mais nenhuma novidade bandas serem influenciadas pela obra literária de Tolkien, sendo que muitas já tiveram essas influências muito antes que o Blind Guardian, como é o caso do Rush e do Led Zeppelin, porém não há como negar que de todos esses grupos o que se envolveu mais e que melhor representou essas obras foi o Blind Guardian.

A ótima “Into the Storm” é a primeira faixa e abre caminho para outros clássicos, como a bela composição épica “Nightfall”, uma das melhores do play, que segue com “”The Curse of Feanor” e “Blood Tears”, que tem um bom trabalho de vozes. “Mirror Mirror” é outra clássica deste álbum e também uma das músicas mais conhecidas dos alemães. Ainda temos “Noldor (Dead Winter Reigs)”; “Times Stands Still (At the Iron Hill)”, que também é muito boa; “Thorn”, que está entre as melhores do álbum; a pesada “When Sorrow Sang” e “A Dark Passage”. Quase todas essa faixas possuem climas ou pequenas composições acústicas como introdução.

O álbum soa como pura magia, uma verdadeira viagem à Terra-Média!  Se você não conhece o trabalho do grupo comece por este, que é um dos melhores lançamentos da década de noventa, uma obra-prima do heavy metal!


13 de mai de 2009

Hardão 70: Flower Travellin´ Band

quarta-feira, maio 13, 2009

Por Marcos A. M. Cruz
Colecionador e Editor do
Whiplash! Rock e Heavy Metal

"Satori" é uma palavra japonesa que se refere ao momento em que o praticante de zen consegue atingir a iluminação, geralmente através da prática da zazen (espécie de meditação sentada) ou dos koans (parábolas ou paradoxos aplicados pelos mestres zen aos seus discípulos, para que estes cheguem até a verdade transcendental que está para além das palavras e das conceptualizações mentais). "Satori" é uma experiência única e individual. Uma vez atingida a "satori", consegue-se entender também a essência da zen, a qual passa a ser praticada 24 horas por dia, sendo que o próprio ser passa a ser zen e a zen integra-se no ser (adaptado de texto extraído do livro Noites Zen do Ankh).

Até o final dos anos noventa eu mantinha uma ignorância completa em relação a bandas de rock nipônicas dos anos setenta. Achava que o gênero, principalmente na sua vertente mais pesada, não tivesse florescido por lá tal qual em outras partes do mundo, já que só conhecia a Far Out / Far East Family Band, combo progressivo de onde sairia Kitaro (sim, aquele mesmo).


Eis que um belo dia um conhecido me mostra o único registro do Food Brain, um ensandecido quarteto que me fez desconfiar que devia existir mais alguma coisa interessante no quesito hardão setentista daquela época lá na terra do sol nascente, embora neste trabalho o grupo tivesse uma pegada um tanto quanto jazzística. Coincidentemente, pouco tempo depois começaram a pipocar discos de bandas que até então me eram desconhecidas: Apryl Fool, Flied Egg, Strawberry Path, The Mops, Speed Glue & Shinki, Mueasaki, etc. Mas nesta leva vinda do Japão digamos que elegi como sendo meu preferido o pessoal do Blues Creation.

O grupo teve diversas formações e abreviou seu nome para Creation em meados dos anos setenta, deixando para a posteridade um fantástico trabalho ao vivo, muito mal editado (os intervalos entre as faixas parecem ter sido cortados por um facão cego) porém com boa qualidade de som para a época, onde literalmente põe abaixo a platéia em um festival de 1971! Mas o que todos estes conjuntos fizeram - tal qual rolou praticamente em todo o mundo - foi copiar o que as bandas inglesas e americanas vinham fazendo, alguns com um pé bem fincado no psicodelismo (caso do The Mops), outros no blues (o próprio Blues Creation) e aqueles que imitaram na cara dura grupos famosos (Murasaki, espécie de clone nipônico do Deep Purple).


Por isto, apesar de tencionar escrever sobre o Blues Creation, concluí que deveria falar primeiro sobre a Flower Travellin´ Band, que lançou um excelente álbum (Made in Japan) e outro de proporções colossais, chamado Satori, o único disco que tenho notícias que conseguiu mesclar com maestria o som pesado da época com influências de música tradicional japonesa!

Alguns com certeza dirão que se trata de exagero de minha parte, mas não sou só eu quem pensa assim. Diversos artigos na internet enaltecem este álbum. Julian Cope também escreveu um excelente texto sobre o disco inicialmente para o site headheritage.co.uk, e que mais tarde foi revisado, ampliado e publicado em seu livro dedicado ao rock japonês, JapRockSampler.

Paradoxalmente, desencavar informações sobre a Flower Travellin´ Band demonstrou ser um trabalho hercúleo. Cheguei a usar um tradutor de japonês e passei vários dias googleando, copiando e colando tudo que achava que pudesse ter alguma relação com a FTB, sem obter muita coisa concreta, apenas informações perdidas sem nenhuma conexão entre si. Well, vamos lá!


Yuya Uchida começou sua longa carreira artística no final dos anos cinquenta, e na década seguinte lançou alguns compactos e álbuns onde se dedicava a reinterpretar clássicos do rock, principalmente de Elvis Presley e dos Beatles, até que em 1967, durante uma viagem à Europa, toma contato e se encanta com artistas como Cream, Jimi Hendrix e The Who.

De volta ao seu país resolve formar uma nova banda, chamando Hiroshi Chiba e Remi Aso para dividir os vocais, juntamente com Katsuhiko Kobayashi na guitarra, Ken Hashimoto no baixo e George Wada na bateria. A estréia do grupo, que a esta altura do campeonato havia sido batizado de Yuya Uchida and The Flowers e já vinha angariando uma certa fama nos clubes locais, ocorre com o compacto "Last Chance", lançado no início de 1969, que traz no lado A a canção homônima e "Flower Boy" no lado B, nenhuma das duas aparecendo no LP que seria lançado alguns meses mais tarde, Challenge.


O álbum é composto de uma canção instrumental de autoria própria chamada "Hidariashi No Otoko" e nove releituras - coisas como "Combination of the Two", "Summertime" e "Piece of My Heart" de Janis Joplin; "I'm So Glad" e "White Room" do Cream e "Hey Joe" e "Stone Free" de Jimi Hendrix, todas em versões um tanto quanto embebecidas em ácido, mas nada que não tenha sido feito naquela época. Unusual mesmo - ainda mais no Japão, creio eu - é a capa, que traz seis sujeitos e uma garota nua, ainda mais ao constatarmos que está faltando alguém, já que nos créditos do disco constam apenas seis integrantes, conforme consta no parágrafo anterior.

Existe ainda uma compilação chamada Rock N'Roll Jam '70, gravada ao vivo em um festival e que traz no lado B do disco algumas faixas do grupo, e que apesar de ter sido relançada em CD em meados dos anos noventa eu até hoje não consegui nem a original, tampouco uma cópia. 


Por algum motivo que não consegui apurar, após lançar mais um compacto chamado "Fantastic Girl" com outras duas músicas não constantes no LP, o Flowers literalmente se desmancha, e Yuya resolve montar uma nova banda, onde passaria a atuar apenas nos bastidores, passando a ser o produtor e uma espécie de mentor intelectual da coisa. Do antigo grupo aproveita apenas o baterista George Wada, e chama Jun Kozuki para o baixo, Hideki Ishima para a guitarra e Joe "Akira" Yamanaka para o vocal.

O primeiro registro do quarteto se trata de uma verdadeira epopéia com quase meia hora de duração chamada "I'm Dead", repleta de experimentalismos, no que seria uma espécie de Krautrock jam session, algo mais ou menos na linha do que bandas como Can e Amon Dull começavam a produzir a milhas de distância!


O resultado não agradara Yuya, tanto que só viria a público décadas mais tarde, com o lançamento do From Pussies to Death in 10.000 Years Freak Out!, bootleg que apesar de ser creditado somente a FTB traz também material registrado na época dos Flowers - incluindo uma versão interessantíssima de "How Many More Times" do Led Zeppelin numa levada um tanto quanto funkeada. 


From Pussies to Death in 10.000 Years Freak Out! foi lançado somente em LP, portanto achar uma cópia se trata de algo bastante difícil, até que em 2002 aparece no mercado uma edição digital sob o nome Music Composed Mainly by Humans, que também traz a épica "I'm Dead", acrescida de material inédito que seria registrado nos meses seguintes, principalmente da época em que Yuya decide então experimentar o tecladista Kuni Kawachi, que havia tocado em uma banda chamada The Happenings Four, e com isso o quinteto registra uma série de canções com um apelo um pouco mais pop/progressivo (cortesia da influência de Kuni), que mesmo assim acabam por não agradar Yuya, sendo no fim das contas o projeto deixado de lado.


As gravações deste período sairiam algum tempo mais tarde, creditadas a Kuni Kawachi to Kare no Tomodachi, no disco que é conhecido por alguns como Kirikyogen, canção que abre o trabalho. 

Alguns meses depois, de novo reduzido a um quarteto, a FTB retorna ao estúdio e é decidido que seriam reaproveitadas duas idéias do finado Flowers; em primeiro lugar seriam registradas apenas releituras, dentre elas a tradicional "House of the Rising Sun", aqui em uma versão folky-lacrimosa de Joe; "21st Century Schizoid Man" do King Crimson, transformada em uma inusitada canção de mais de treze minutos de puro jazz rock; e "Black Sabbath", primeira releitura da faixa que deu origem à banda de Iommi e cia que se tem notícia, conforme mencionado no FAQ do site oficial do Black Sabbath.


Em segundo, a capa do Anywhere traz os caras rodando de moto em uma estrada, no que seria uma alusão à liberdade de seguir para qualquer lugar, liberdade tamanha que novamente todo o pessoal estava pelado!  No artigo de Julian Cope há uma citação que não fica clara se seria de Yuya ou se trata de uma intervenção poética do autor, onde se diz: "Sure, we’re still Flowers but now we’re a travellin’ band like the Creedence man said. Naked? Sure, we’re still naked and free but now we’re naked on low slung easy rider choppers cruising the highways of uptight Japan. Destination? Anywhere!" ("Sim, ainda somos os Flowers mas agora somos uma banda itinerante como diz aquela canção do Creedence. Nus? Certamente, ainda estamos despidos e livres, mas agora estamos nus em nossas motos sem destino cruzando firmemente as rodovias do Japão. Destino? Qualquer lugar!").

Caso a história terminasse aqui eles passariam para a posteridade como um bando de japoneses malucos que adoravam andar sem roupa e gravar releituras, mas o melhor ainda estava por vir!


Reza a lenda que um belo dia Yuya surgiu com a idéia de que trabalhassem em um material mesclando a tradição japonesa com a música pesada ocidental - Black Sabbath seria a principal influência. Daí o vocalista Joe teria sugerido que fizessem um álbum baseado no conceito do "satori", descrito no início deste texto, e o resultado foi o disco homônimo, dividido em cinco suítes sob o nome "Satori I", "Satori II", "Satori III", "Satori IV" e "Satori V", cuja sonoridade é muito difícil de ser descrita - imaginem uma espécie de hardão psicodélico recheado de riffs a lá Black Sabbath com pitadas de krautrock, em canções que são verdadeiros mantras com andamentos cadenciados, ora emulando um pouco de música folk japonesa, ora o que viria a ser conhecido futuramente como "doom", em alguns momentos misturando tudo isto com o british blues, criando uma atmosfera mística e lírica, agonizante e confortadora ao mesmo tempo.

Justiça seja feita: um dos grandes responsáveis pelos climas do Satori é o guitarrista Hideki Ishima. Seus riffs certeiros, solos precisos e bases marcantes fazem com que o ouvinte literalmente viaje a um lugar e tempo não definidos, onde samurais tocam guitarra e cantam sobre a "iluminação". Satori obteve um bom êxito local, apesar da tendência do público japonês aparentemente ser de intolerância em relação ao produto local no quesito rock pesado, dando preferência ao que vinha de fora, hábito que se solidificaria ao longo dos anos, vide a quantidade de bandas ocidentais que até hoje são aclamadas por lá.

As edições posteriores do Satori trazem uma faixa adicional chamada "Map", que foi editada originalmente em um compacto antes mesmo do lançamento do LP, assim como outro compacto trazendo somente "Satori II".


Aparentemente a FTB nunca tocou na Europa e muito menos nos EUA, mas sabe-se lá por qual motivo em 1971 os caras foram parar no Canadá, onde Satori chegou a ser editado com capa e seleção de faixas diferentes: as três primeiras partes de "Satori", "Kamikaze", "Hiroshima", "Unaware", "Gimmie Air" e "Lullaby", ou seja, uma espécie de coletânea do álbum Satori e do seguinte, Made in Japan. O curioso é que o Made in Japan só seria lançado no Japão em 1972, ao passo que aparentemente a tal compilação canadense é datada de 1971, e não faço a mínima idéia de onde saiu a última faixa ("Lullaby"), pois não aparece em nenhum outro álbum da FTB, tampouco em lados-B de compactos (em tempo: "Gimmie Air" aparece na edição japonesa do Made in Japan sob o nome "Aw Give Me Air").

Mais curiosa ainda foi a informação que obtive nas minhas andanças pela internet, após visitar o site de um grupo canadense chamado Chrome, onde consta que um de seus integrantes, John Lambdin, seria o único com experiências musicais anteriores, tendo tocado com ninguém menos que a FTB!  Quem quiser conferir, é só ler a história da banda. Eu presumo que o sujeito tenha tocado ao vivo com o conjunto durante a tal turnê pelo Canadá, deve ser isto.


Embora não seja tão impactante quanto seu antecessor, Made in Japan é outra verdadeira pérola perdida, talvez até um pouco mais dark e pesada, e liricamente bem mais cru, já que ao contrário de Satori, ao invés de abranger um tema talvez um tanto quanto abstrato, aqui as canções são explicitamente pé no chão, e boa parte do disco se dedica a expurgar a dor e sofrimento pelo qual passou a geração pós-guerra, como fica patente no título de duas canções: "Kamikaze" e, principalmente, "Hiroshima".

Esta última, cuja letra retrata a tragédia ocorrida no final da Segunda Guerra ("
Once upon a summer day / in their midst, a mushroom grew / they never saw, they never, never knew / they're walking on the street / making shadows on the wall / they're sitting on the steps / melting into the stone / children of the mushroom (3x) / aren't we all, aren't we all"), foi construída sobre a mesma parte rítmica da introdução de "Satori part.3", espécie de mantra que gerou uma situação extremamente curiosa, que relatarei mais abaixo.

Neste ponto a trajetória da banda fica um tanto quanto confusa. Algumas fontes dão a entender que eles retornaram ao Canadá, mas é fato que no final de 1972 eles andaram tocando pelo Japão, tanto que tenho uma gravação creditada apenas como tendo sido realizada no Hibaya Open Air em 13 de agosto de 1972, que cheguei a colocar num site de torrents pra ver se aparecia alguém com maiores informações, mas apesar de alguns japoneses terem me agradecido pela oferta (todos surpresos pela existência da gravação, que eu consegui com um cara na Alemanha!), ninguém soube me dizer maiores detalhes. Entretanto, é incontestável que a banda continuava mandando ver, já que apesar da péssima qualidade de som (gravado da platéia) o vocalista Joe e o guitarrista Hideki estão ali no palco marcando presença de forma marcante.


Mas não é isto que acontece no derradeiro trabalho do grupo, Make Up, lançado em 1973. Apesar da edição original do LP duplo (o CD também é) ser muito bonita e luxuosa, pois vinha envolto em uma pequena mala como pode ser visto acima, o conteúdo deixa muito a desejar se comparado com os dois antecessores. Na realidade, o disco se trata de uma mescla de material inédito de estúdio e gravações ao vivo realizadas no Yokosuka Cultural Center em setembro de 1972, incluindo uma energética versão de quase 25 minutos de "Hiroshima" com direito a solo de bateria e o escambau, em minha opinião disparada a melhor coisa do álbum!

O problema é que nos registros de estúdio a FTB soa como se fosse outra banda, totalmente diferente da que registrou Satori e Made in Japan, e nem a adição do velho conhecido Kuni Kawachi nos teclados, que aparentemente fica tentando soar como se fosse Jon Lord, consegue salvar as composições, um tanto quanto desinspiradas. Desânimo? Quem sabe esta tenha sido a causa do fim do grupo, que se desintegrou no início de 1973.

Não consegui descobrir o paradeiro do baixista Jun Kozuki, cujo nome aparece em alguns lugares como sendo Jhun Kowzuki. O baterista George Wada, também creditado como Joji Wada, aparentemente também desistiu da carreira artística, mas tocou em uma espécie de recriação de Satori em um evento realizado em 19 de setembro de 1998. Kuni Kawachi também gravou alguns discos, inclusive com a participação do guitarrista Hideki, e nas minhas pesquisas descobri que há um astrólogo homônimo, pelo visto bastante famoso no Japão - ou seria a mesma pessoa?


Hideki Ishima se aprofundou nos estudos da cítara, e gravou/participou de vários discos posteriores, tendo se tornado um músico bastante respeitado. Quando comecei a redigir esta matéria, achava que o primeiro integrante da FTB a lançar um disco solo teria sido o vocalista Joe, mas descobri que a primazia coube ao guitarrista, com um álbum solo chamado One Day, editado em 1973, sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar até me deparar com o relançamento em CD no catálogo da Freak Emporium, onde inclusive consta a capa.

Falando no Joe, em 1974 ele lança o tal solo com a participação de Hideki, primeiro de uma série de álbuns que gravaria em sua longa carreira; posteriormente ele produziria/registraria discos de reggae, gênero pelo qual viria a se apaixonar. Algumas fontes ainda afirmam que ele teve uma breve passagem pelo Far Out, embora não tenha deixado nada registrado.


Joe é um artista bastante conhecido no Japão, tanto que já em 1975 é editada uma compilação chamada Times, creditada a Joe with Flower Travellin´ Band, e no decorrer dos anos ele excursionou com frequência pelo seu país natal - em uma destas turnês teve o auxílio de Tony Levin (King Crimson). Ainda em 1975 Joe subiu ao palco com Felix Pappalardi (Mountain) durante um festival realizado em Tokyo produzido e organizado por Yuya Uchida, e algumas gravações deste evento (principalmente a de Jeff Beck) circulam por aí. Ele tem um site oficial, pouquíssimo informativo, que sequer menciona sua incursão no cinema em vários filmes, como em Ulterior Motives de 1992, lançado no Brasil somente em VHS sob o título de Caçada Internacional, onde Joe Yamanaka faz o papel de ... Joe Yamanaka! 

Mas detentor de uma carreira cinematográfica bastante ativa é Yuya Uchida, que antes mesmo de Joe, ainda nos anos sessenta, vem atuando nas telas do cinema. Dentre os filmes mais famosos que participou estão
Black Rain (Chuva Negra), onde no papel do inspetor Nahida Fake contracena com Michael Douglas e Andy Garcia, e Merry Christmas Mr Lawrence, conhecido no Brasil sob o título de Furyo - Em Nome da Honra, com David Bowie interpretando o personagem principal e Yuya o comandante de uma prisão militar. 

E ambos trabalham juntos em um filme de 2002, cuja trilha sonora é nada menos que o Satori tocado na íntegra: Deadly Outlaw Rekka, cujo título em inglês é Violent Fire e se trata de uma história de vingança envolvendo a temida Yazuka, cujo enredo é muito interessante, já que usa as músicas do álbum como estrutura para o andamento - o filme começa com um assassinato, emoldurado pelo agudo que Joe solta no início da primeira faixa. Quem sabe um dia isto sai no Brasil?

Existe um tributo a FTB feito por bandas japonesas - na realidade um EP com seis faixas, mas pelo visto é meio obscuro, já que a única referência que encontrei foi no site da Amazon do Japão. E uma espécie de homenagem à banda foi feita por uma espécie de superbanda nipônica formada por integrantes do Ghost e outros, que chegou a lançar em 1999 um álbum chamado Help Your Satori Mind.

Porém, o fato mais bizarro de todos foi constatar que o Marduk, um respeitado grupo de black metal, usou um trecho de "Satori Part 3" em uma composição chamada "Summers End", lançada no disco
La Grande Danse Macabre, de 2001!  Pode ser que eles tenham se inspirado na recriação que a própria FTB fez deste trecho em "Hiroshima", ou de repente pode até ser que se trate de uma composição erudita que eu desconheço, o fato é que nos créditos do CD consta apenas os nomes de dois integrantes: "Music: M. Steinmeyer Hökansson/ B.War e lyrics by M.S.H."


Nota do editor: a Flower Travellin´ Band voltou à ativa e lançou em 2008 o inédito We Are Here, com o line-up sendo formado por Hideki Ishima (guitarra), Jun Kobayashi (baixo), Joji Wada (bateria), Joe Yamanaka (vocal) e Nobuhiko Shinohara (teclados). Ainda não ouvi, então se alguém já escutou por favor divida com a gente o que achou.

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