02/10/2009

Discoteca Básica Bizz#178: Sonic Youth - Daydream Nation (1988)


(Alexandre Matias, Bizz#178, maio de 2000)

Felizmente os anos 90 serviram para rachar os muros preconceituosos que a década de 80 carinhosamente erigiu. E foi entre julho e agosto de 1988 que uma banda nova-iorquina iniciou o terremoto capaz de chacoalhar os alicerces da música pop, convergindo rap, pop inglês e rock underground americano para um mesmo objetivo (em 1991,
Nevermind, do Nirvana, selaria o fenômeno). Depois que o Sonic Youth derrubou todas as barreiras entre as diversas vertentes do rock, usando a microfonia como aríete, ele nunca mais foi o mesmo.

Antes, o Sonic Youth era apenas um dos principais representantes da cena pós-punk nova-iorquina, uma geração com mais de um rótulo - pigfuck, noise, no wave - que primava pelo barulho fora de controle como principal idioma. Ao lado do Big Black, Minutemen, Pussy Galore e Butthole Surfers, o Sonic Youth tinha uma grande reputação entre os seguidores daquela geração. Mas foi a partir da entrada do baterista Steve Shelley, que completou para sempre o trio formado pelo casal Thurston Moore e Kim Gordon, mais o guitarrista Lee Ranaldo, que o grupo começou a desequilibrar. Discos como EVOL e Sister antecipavam um grande abalo sísmico capaz de destruir todas as noções atuais dos limites da guitarra - sempre um tabu na história do rock.

Com o duplo Daydream Nation o quarteto nova-iorquino atingiu o rock como uma bomba atômica subterrânea sob os pilares do que conhecíamos por rock. Os três vocalistas cuspiam letras como palavras de ordem, misturando literatura marginal e rock'n'roll primitivo, preocupados mais em atingir seu alvo do que com a sujeira que o tiro poderia causar. Mas o centro do álbum são as guitarras: um enxame de microfonia que consegue soar caótico, melódico, bucólico, aterrador e brutal - muitas vezes em poucos minutos, como na introdução de "Cross the Breeze" e o meio de "The Wonder".

Propulsionado por um dos mais subestimados bateristas do pós-punk, o trio central do grupo (que se identificava com símbolos no rótulo do disco, à la Led Zeppelin) atravessava terrenos tão diferentes quanto hardcore, vanguarda, heavy metal, folk, pós-punk inglês, progressivo, psicodelia e punk rock, com suas guitarras e baixo citando referências sonoras como se contassem a sua versão da história do rock, abrangendo todos os gêneros como frutos do mesmo som.

Um ruído incômodo, que incomoda ao mesmo tempo que provoca, que está no centro do melhor rock, seja de que tipo for.


Faixas:
A1 Teen Age Riot 6:57
A2 Silver Rocket 3:47
A3 The Sprawl 7:42

B1 'Cross the Breeze 7:00
B2 Eric's Trip 3:48
B3 Total Trash 7:33

C1 Hey Joni 4:23
C2 Providence 2:41
C3 Candle 4:58
C4 Rain King 4:39

D1 Kissability 3:08
Trilogy:
D2 a) The Wonder 4:15
D3 b) Hyperstation 7:13
D4 z) Eliminator Jr. 2:37


Relançamentos do Black Sabbath em LPs de 180 gramas


Por Tony Aiex
Colecionador
Tenho Mais Discos Que Amigos

A
Because Sound Matters é uma loja online que só vende relançamentos de várias bandas legais em vinil de altíssima qualidade, normalmente pesando 180 gramas e também normalmente com algum destaque, como LPs coloridos, caixa gatefold, entre outros detalhes.

Não, a loja não é uma ação de caridade de algum maluco que resolveu sair relançando clássicos do rock em versões cool, mas sim uma iniciativa da Warner Bros e das suas afiliadas Nonesuch, Reprise e Sire para presentear seus fãs com edições bacanas de discos das suas bandas preferidas.

Com o Black Sabbath não foi diferente, e a Because Sound Matters está lançando quatro discões das lendas do heavy metal em versões pra lá de especiais.

Se liga nas versões especiais:

-
Heaven and Hell, de 1980, em vinil de 180 gramas

-
Mob Rules, de 1981, em vinil de 180 gramas

-
Live Evil, de 1982, em vinil duplo de 180 gramas

-
Dehumanizer, de 1992, em vinil de 180 gramas

Vale lembrar que por ser de 180 gramas o LP é muito melhor manuseado, sem contar que não flutua na bandeja da vitrola, o que evita efeitos desagradáveis e outras distorções no som. Um bolachão de 180 gramas é muito mais bacana do que o convencional, por passar a impressão de mais solidez e maior qualidade ao ser retirado da caixa.

A única ressalva é o preço (18 dólares cada, sem contar a taxa de importação), até certo ponto justificável, pelo fato de se usar mais material na produção de um disco pesado como esse, já que o disco normal pesa em média 120 gramas.

Se você é fã do Black Sabbath, não perca esta oportunidade, e fique de olho, pois muito provavelmente outros títulos dos caras serão relançados nesse esquema também.


01/10/2009

Loucos por Coleções: Bento Araújo


(publicado originalmente no site Loucos por Coleções)

Perfil do colecionador: O paulistano Bento Araújo, 32 anos, é jornalista - edita a ótima
Poeira Zine - e músico. "Compro LPs sem parar", revelou à equipe do Loucos. Aqui, você confere o depoimento completo desse colecionador de LPs e revistas sobre música.

Orgulhoso de seus LPs

"
Minhas aventuras no incrível universo colecionável começaram em 1984, quando tinha apenas 7 anos. Estava para acontecer a primeira edição do Rock In Rio, e eu tinha caído de amores pela banda alemã Scorpions. O clip da música "Rock You Like a Hurricane" passava direto na TV. Guardei a grana da mesada para comprar o LP deles. O mais engraçado é que eu era tímido e por isso pedi para a minha mãe cantarolar a música para o vendedor, que usava uma roupa de caubói supercafona, já que a loja se chamava Dallas!

Desde então, não parei mais. Tenho amigos que me trazem preciosidades do Japão e de todos os cantos do mundo. E hoje a internet também ajuda o colecionador de LPs a encontrar raridades, como alguns compactos.

Também sou viciado em revistas antigas, principalmente as de música. Tenho todas as raríssimas edições brasileiras da Rolling Stone lançadas em 1972. Também a Rock História & Glória/Jornal de Música, Bondinho, Flores do Mal, Pop, Canja, Intervalo e outras. Na minha coleção também tenho revistas americanas, como Circus e Hit Parade.

Já passei por alguns apuros e curiosidades por conta da minha coleção. Quando era garoto, fazia negociações de LPs que duravam mais de um dia, com amigos da escola. Isso deixava minha mãe maluca! Cheguei a dormir com um disco do lado da cama, tomar banho com LP (para lavá-lo no chuveiro com sabão de coco) e outras maluquices.

A banda que mais curto e coleciono é o Grand Funk Railroad, norte-americana, que fez muito sucesso na primeira metade dos anos 70. Tenho seis edições diferentes dos álbuns deles, em prensagens brasileiras, americanas, inglesas, japonesas, peruanas, argentinas, italianas. Tenho cerca de 40 compactos diferentes da banda e também alguns bootlegs. Tudo o que vejo deles na minha frente, compro! Ainda me faltam algumas gravações em cartuchos de oito pistas, itens completamente obsoletos, mas com um charme inigualável …
"


Discoteca Básica Bizz#177: Dexys Midnight Runners - Searching for the Young Soul Rebels (1980)


(Arthur Dapieve, Bizz#177, abril de 2000)

O impacto continua o mesmo após 20 anos. Do meio de uma selva de estática radiofônica, que capta fugazmente Deep Purple e Sex Pistols, entre outros, emerge uma voz que clama "
Pelo amor de Deus! Queimem isso!". Vem então o batidão carregado por uma seção de metais, old fashioned, mas feroz. O vocalista se esgoela: ''Eu vou perguntar apenas mais uma vez / Você só quer acreditar / Este homem está esperando por algo para segurar a sua onda! Ele jamais entendeu o significado / Nunca ouviu falar, nunca pensou sobre /Oscar Wilde e Brendan Behan / Sean O'Casey, George Bernard Shaw, Samuel Beckett / Eugene O'Neill, Edna O'Brien e Lawrence Stern". É como se um bando de punks tivesse pego a Academia Irlandesa de Letras como refém e se entrincheirado na gravadora Stax. São os Dexys Midnight Runners em Searching for the Young Soul Rebels, de 1980.

Os Dexys Midnight Runners não eram irlandeses (ao contrário dos pais de seu líder, Kevin Rowland, nascido em Wolverhampton, Inglaterra), mas eram realmente tarados por soul. Eram, a princípio, um octeto de Birmingham insatisfeito com os rumos diluidores da tal da new wave: Rowland (vocal e guitarra), Al Archer (guitarra), Pete Saunders (teclados), Steve Spooner (sax alto), Pete Williams (baixo), Bobby Junior (bateria), J.E. (sax tenor) e Jimmy Patterson (trombone). Narrada no encarte do CD - que exclui as maravilhosas letras, presentes no velho LP -, a história de sua formação faz pensar em The Commitments, livro de Roddy Doyle deliciosamente adaptado para o cinema por Alan Parker. A lógica aqui é mais ou menos a mesma de "os irlandeses são os negros da Europa e, portanto, só podem tocar soul".

E, meu Deus, como tocam. Certo, é tudo vagamente paródico, aquele bando de branqueIas tentando soar como se tivesse as mãos calejadas pelas colheitas de algodão às margens do Mississippi. E, no entanto, se move, funciona, empolga.

Depois de "Burn It Down", a declaração de princípios lá de cima, vem uma sucessão de soulzaços, baladas e blues puxados no órgão Hammond e nos sopros, como a instrumental "The Teams That Meet in Caffs". Prestando-se atenção às letras, tem-se quase a sensação de se estar diante de um, com o perdão da má expressão, álbum conceitual, a girar em torno do sentimento de alheamento, tanto em relação ao vazante movimento punk ("There, There, My Dear", que reclama "se vocês são tão antimoda, por que não usam plumas em vez de se vestirem todos iguais?") quanto ao amor eterno ("Love Part One", devastador poema declamado que conclui "às vezes eu quase invejo a necessidade mas não vejo o valor", sobre um solo de sax).

Esse travo crítico jamais exclui a diversão. O grande sucesso do disco foi "Geno", vibrante homenagem ao soulman Geno Washington. "Eu vou me lembrar de seu nome", promete Rowland no verso final da canção. Nós nos lembraremos para sempre de Rowland.


Faixas:
A1 Burn It Down 4:21
A2 Tell Me When My Light Turns Green 3:46
A3 The Teams That Meet in Caffs 4:08
A4 I'm Just Looking 4:41
A5 Geno 3:31

B1 Seven Days Too Long 2:43
B2 I Couldn't Help If I Tried 4:14
B3 Thankfully Not Living in Yorkshire It Doesn't Apply 2:59
B4 Keep It 3:59
B5 Love Part One 1:12
B6 There, There, My Dear 3:31


30/09/2009

AC/DC revela detalhes sobre novo box set


Por Bento Araújo
Colecionador e Jornalista
Poeira Zine

No próximo dia 10 de novembro os fãs do AC/DC já poderão adquirir o novo box set a ser lançado pela banda.
Backtracks, como reportado pela revista inglesa Classic Rock, será dobrável no estilo amplificador, permitindo que as músicas sejam ouvidas através da caixa, de um watt de potência. O box também funcionará como um amplificador de verdade, então você poderá tocar guitarra por cima dos sons do AC/DC.

Limitada em 50.000 cópias e disponível apenas para compra através de um site criado pela banda (abaixo segue o endereço da página), o box será composto de três CDs, dois DVDs e um LP. O primeiro disco contará com faixas raras da carreira do grupo: lados B de singles, canções que pintaram em trilhas sonoras e nos lançamentos australianos da banda. Os outros dois CDs virão com gravações raras ao vivo, registradas ao longo dos anos.

O primeiro DVD é um complemento para a série
Family Jewels, com mais clipes promocionais e faixas ao vivo. O outro DVD tem um show completo no Circus Krone, em Munique, em 2003. O LP trará algumas das raridades de estúdio contidas também no CD 1.

Além disso, o box ainda contará com um mega e luxuoso book de 164 páginas e um envelope repleto de memorabílias; um botom com a inscrição "
I do it for AC/DC", o primeiro item de merchandise da banda; o flyer de Lock Up Your Daughters de 1976; a ficha completa de gravação de Dirty Deeds Done Dirt Cheap; um pôster da Let There Be Rock European Tour ‘77; um dólar australiano Money Talks; três litografias de fotos nunca antes vistas do grupo no Alberts Studio em 1977; palheta com o logotipo do conjunto e uma réplica da tatuagem do papagaio de Bon Scott.

A belezinha custará cerca de R$ 840, isso sem contar o frete.

Confira abaixo o conteúdo do material:

CD 1: STUDIO RARITIES

1. High Voltage (Original Australian Release)
2. Stick Around
3. Love Song
4. It’s A Long Way To The Top (If You Wanna Rock ‘N’ Roll) (Original Australian Release)
5. Rocker (Original Australian Release)
6. Fling Thing
7. Dirty Deeds Done Dirt Cheap (Original Australian Release)
8. Ain’t No Fun (Waiting Around To Be A Millionare) (Original Australian Release)
9. R.I.P. (Rock In Peace)
10. Carry Me Home
11. Crabsody In Blue
12. Cold Hearted Man
13. Who Made Who – 12″ extended mix
14. Snake Eye
15. Borrowed Time
16. Down On The Borderline
17.Big Gun
18. Cyberspace

CD 2: LIVE RARITIES

1. Dirty Deeds Done Dirt Cheap (live) (Sydney Festival, 30 Jan.1977)
2. Dog Eat Dog (live) (Apollo Theatre, Glasgow, 30 Apr. 1978)
3. Live Wire (live) (Hammersmith Odeon, London, 2 Nov. 1979)
4. Shot Down in Flames (live) (Hammersmith Odeon, London, 2 Nov. 1979)
5. Back In Black (live) (Capital Center, Landover MD, 21 Dec. 1981)
6. T.N.T. (live) (Capital Center, Landover MD, 20 Dec. 1981)
7. Let There Be Rock (live) (Capital Center, Landover MD, 21 Dec. 1981)
8. Guns For Hire
9. Sin City (live) (Joe Louis Arena, Detroit MI, 18 Nov. 1983)
10. Rock ‘N’ Roll Ain’t Noise Pollution (live) (Joe Louis Arena, Detroit MI, 18 Nov. 1983)
11. This House Is on Fire (live) (Joe Louis Arena, Detroit MI, 18 Nov. 1983)
12. You Shook Me All Night Long (live) (Joe Louis Arena, Detroit MI, 18 Nov. 1983)
13. Jailbreak (live) (Dallas TX, 12 Oct. 1985)
14. Shoot To Thrill (live) (Donington Park, 17 Aug. 1991)
15. Hell Ain’t A Bad Place To Live (live) (Donington Park 17 Aug. 1991)

CD 3: LIVE RARITIES

1. High Voltage (live) (Donington Park 17 Aug. 1991)
2. Hells Bells (live) (Donington Park 17 aug. 1991)
3. Whole Lotta Rosie (live) (Donington Park 17 aug .1991)
4. Dirty Deeds Done Dirt Cheap (live) (Donington Park 17 aug. 1991)
5. Highway To Hell (live) (Tushino Airfield, Moscow, 28 Sept. 1991)
6. Back In Black (live) (Tushino Airfield, Moscow, 28 Sept. 1991)
7 For Those About To Rock (We Salute You) (live) (Tushino Airfield, Moscow, 28 Sept. 1991)
8. Ballbreaker (live) (Plaza De Toros De Las Ventas, Madrid, 10 July 1996)
9. Hard As A Rock (live) (Plaza de Toros De Las Ventas, Madrid, 10 July 1996)
10.Dog Eat Dog (live) ( Plaza de Toros De Las Ventas, Madrid, 10 July 1996
11. Hail Caesar (live) (Plaza De Toros De Las Ventas, Madrid, 10 July 1996)
12. Whole Lotta Rosie (live) (Plaza De Toros De Las Ventas, Madrid, 10 July 1996)
13. You Shook Me All Night Long (live) (Plaza De Toros De Las Ventas, Madrid, 10 July 1996)
14. Safe In New York City (live) (Pheonix AZ, 13 Sept. 2000)

DVD 1: FAMILY JEWELS 3

VIDEOS
Big Gun
Hard As A Rock
Hail Caesar
Cover You In Oil
Stiff Upper Lip
Satellite Blues
Safe In New York City
Rock N Roll Train
Anything Goes

BONUS VIDEOS
Jailbreak
It’s A Long Way To The Top (If You Wanna Rock ‘N’ Roll)
Highway To Hell
You Shook Me All Night Long
Guns For Hire
Dirty Deeds Done Dirt Cheap (live)
Highway To Hell (live)

BONUS FEATURES
The Making Of Hard As A Rock
The Making Of Rock N Roll Train

DVD 2 LIVE AT CIRCUS KRONE, MUNICH

1. Introduction
2. Hell Ain’t A Bad Place To Be
3. Back In Black
4. Stiff Upper Lip
5. Shoot to Thrill
6. Thunderstruck
7. Rock N Roll Damnation
8. What’s Next To The Moon
9. Hard As A Rock
10. Bad Boy Boogie
11. The Jack
12. If You Want Blood (You’ve Got It)
13. Hells Bells
14. Dirty Deeds Done Dirt Cheap
15. Rock N Roll Ain’t Noise Pollution
16. T.N.T.
17. Let There Be Rock
18. Highway To Hell
19. For Those About to Rock (We Salute You)
20. Whole Lotta Rosie

RARITIES 180 GRAM LP

SIDE A
1. Stick Around
2. Love Song
3. Fling Thing
4. R.I.P. (Rock In Peace)
5. Carry Me Home
6. Crabsody In Blue

SIDE B
1. Cold Hearted Man
2. Snake Eye
3. Borrowed Time
4. Down On The Borderline
5. Big Gun
6. Cyberspace




29/09/2009

Minha Coleção: Marcelo Chiste - "É impossível conseguir tudo aquilo que se deseja"


Antes de ler essa entrevista, aconselho que você faça o seguinte: se você é um cara das antigas, que viveu a cena metálica dos anos oitenta, separe um babador, pegue o seu remédio para o coração, vista novamente aquele jaqueta jeans repleta de patches, seu tênis de cano alto e venha com a gente em uma viagem ao passado do heavy metal.

O capixaba Marcelo Chiste mostrou a sua coleção para Daniel Sicchierolli, e, sem exageros, estamos diante de um dos mais completos acervos dedicados ao heavy metal existentes em nosso país.

Duvida? Então venha com a gente em mais essa fantástica viagem pelo maravilhoso mundo dos discos.

(Ricardo Seelig)



Para começar muito obrigado por participar da Collector´s Room. Apresente-se aos nossos leitores, por favor.


O que é isso cara, eu é que agradeço o convite e espero atender as expectativas! Meu nome é Marcelo Chisté, tenho 42 anos, moro no Espírito Santo/Grande Vitória, e sou funcionário público estadual há 17 anos, casado e pai de dois filhos.

Qual é o seu estilo e artista preferido?

Gosto de heavy metal em todas as suas vertentes, mas o meu preferido mesmo é o autêntico, velho e tradicional metal, e desta forma as bandas que se encaixam neste contexto estão entre as minhas prediletas. Fica muito difícil destacar uma ou outra banda somente, não quero cometer essa injustiça, pelo menos não agora, deixa isso para as próximas perguntas (risos).

Quantos itens você possui?

Não juntei ao longo desses anos somente um artigo, tenho de tudo, de slides aos tradicionais vinis, sendo que 99% é referente à cena metálica dos anos 80. Eu diria que de tudo eu tenho um pouco, diferente de quem costuma focar suas atenções a uma banda ou um artigo. Se eu fosse fazer uma analogia com a área médica, diria que seria um clínico geral (risos).

Mais ou menos eu posso dizer:

* Revistas e fanzines (nacionais e importados – somente anos 80) – superior a 1.000 revistas/fanzines. Não estou computando publicações de 1989 pra cá;

* Fotos (também só referente as bandas menos badaladas da década de 80) – mais de 2.000;

* Pôsteres (idem – somente anos 80 e 99,9% de fora) – quase 500 pôsteres;

* Vídeos (idem – somente anos 80 e bandas menos badaladas) – 400 e alguma coisa (registro por bandas);

* Demo tapes (idem) – esse eu sei precisamente: são 108 demos antigas e comprometidas pelo tempo, e um dos itens que mais tenho carinho, por isso que já repassei tudo para CD-R;

* Vinis (juntando singles, bootlegs, EPs e LPs) – algo em torno de 700. Reconheço que não é muito, mas em se tratando de NWOBHM e metal anos 80 ela é bem qualificada, e tenho realmente aquilo que me interessa. Conheço um camarada (Nelson B. Filho) que mora em São Paulo, que pra mim é insuperável em se tratando de heavy metal oitentista. Ele tem seguramente mais de 7.000 vinis. Não sei se devo fazer isso, mas lanço aqui um pedido de entrevista com esse cara, vai ser muito interessante, pois ele é um doutor no assunto;

* CDs – só de relançamentos de bandas oitentistas eu tenho mais de 400;

* Outros itens – diversos slides, cartazes antigos, tickets antigos, books, centenas e centenas de fitas-cassetes contendo gravações de tudo que se imaginar em termos de metal oitentista, CDs de bandas atuais brasileiras, etc.

Qual o marco zero da sua coleção?

Aí terei que contar um pouquinho da minha história, pois na maioria das vezes, acredito, fica difícil pra mim falar sobre o marco zero sem fazer essa associação.

Eu estudava numa escola chamada Maria Ortiz, que ficava, e fica ainda, localizada no centro de Vitória, e comigo estudava um colega que adorava matar aula e ficar na loja de seu tio (Golias Discos, extinta há longa data) sempre ouvindo músicas em algumas das vitrolas que a loja dispunha. Certa oportunidade, enchi-me de coragem e o acompanhei e, enquanto ele ficava nas seções de discos de bandas "hits" da época, como, Blitz, Rádio Táxi, Michael Jackson, eu meio que aleatoriamente busquei a sessão de rock, onde figuravam bandas como Uriah Heep, Kiss (que inclusive, no ano seguinte, estaria aqui no Brasil pela primeira vez) e companhia. Foi amor à primeira vista, ou melhor, à primeira audição. Pena que eu não tinha dinheiro pra comprar nada, então matar aula pra ouvir discos no Golias junto com este amigo tornou-se um hábito (jovens, não sigam este exemplo - risos).

O heavy metal neste aspecto é muito forte, quem o adota como gênero musical percebe rapidamente essa magia. Dificilmente você vê alguém escutando metal por escutar, há todo um contexto, uma química, é algo inexplicável, a música soa diferente, parece que ela chega aos ouvidos e percorre todo o seu organismo, é realmente impressionante e contagiante. Mas, bem, deixa pra lá.

Voltando ao propósito da pergunta, dali pra frente tudo parece que fluiu bem que naturalmente. Havia parado de cortar o cabelo - para desespero da minha mãe -, as camisas de bandas de metal pintadas à mão começavam a ocupar espaço ne meu armário (não era fácil encontrar esses artigos à venda, principalmente aqui no ES), e também aos poucos ia garimpando algumas (ou melhor, raras) amizades que possuíam o mesmo gosto e interesse pela música, no caso específico, o metal.

Nos anos seguintes, 1984 e 1985, gradativamente, foi despertando em mim mais e mais o interesse em buscar informações, conhecer novas bandas, materiais menos comuns de serem encontrados (LPs importados, publicações especializadas), mas tudo era muito, mas muito difícil mesmo, e muito, muito caro também, principalmente os discos importados.

Certa oportunidade, lendo a sessão de correspondência da Metal Forces (UK) e outras publicações que não me recordo ao certo agora, selecionei uma porrada de contatos, tomei coragem e meti a caneta, enviando uma espécie de carta padrão pra todo mundo (só mudava os nomes de quem as receberia), oferecendo-me a trocar materiais (aqui no Brasil já haviam alguns lançamentos, como Stress, Karisma, e já havia saído também a coletânea SP Metal, isso sem contar os fanzines, principalmente a Rock Brigade). Não me recordo ao certo o quanto que gastei de carta ou quantos contatos tentei manter, quase não obtive retorno (em proporção ao que havia mandado) na época, mas lembro-me como se fosse hoje o carteiro chegando em casa, nas semanas e meses seguintes, cada vez com uma certa remessa de cartas com respostas, sendo que em determinados envelopes surpreendia-me com produtos que vinham em seu interior: zines fantásticos, flyers, fitas e artigos semelhantes.

Bem, acredito que dali em diante, mesmo que involuntariamente, comecei a tomar gosto por juntar materiais (posters, demos, fanzines, revistas, todo material que era mais viável negociar e se adquirir por correspondências).

É isso. Desculpe-me ter tomado tanto esse espaço, mas se houve um marco zero, foi esse.

De que grupos você possui mais material?

Difícil destacar uma banda, pois como já disse não foco meus materiais num só grupo ou num só artigo, mas em termos de informações, fotos, demos e qualquer outro material que fuja dos triviais vinis e CDs , acredito que o Picture da Holanda, o Siren dos Estados Unidos, Iron Angel, Faithful Breath da Alemanha, entre outras, geralmente bandas mais atenciosas e que possuíam fã-clubes fortes.

Se não fosse essa cara dura de enviar carta pedindo materiais ou oferecendo-se para barganha, era quase impossível adquirir algo. Gastava boa parte do meu minúsculo salário com cartas e selos, isso sem contar os dólares que tinha que enviar camuflados para se ter um pouco de esperança em receber as respostas. Muitas correspondências eu nunca obtive retorno, mas tudo no final valeu muito à pena! Parece surreal, e realmente é hoje, mas consegui me corresponder com bandas que na época eram totalmente desconhecidas, como foi o caso do Death (EUA), Faithful Breath (Alemanha), Artillery (Dinamarca), Living Death (Alemanha), e por aí vai. E olha que estávamos muito distantes do que hoje conhecemos por globalização. Era árduo, demorado e dispendioso, mas tudo extremamente prazeroso.

Como já vimos, a maior curiosidade da sua coleção é a grande quantidade de itens relacionados à bandas da NWOBHM e do metal dos anos 80. Como você descobriu essas bandas? Qual a banda mais estranha que você descobriu?

Era inevitável você folhear as Kerrangs e Aardschos da época e se deparar com uma avalanche de novas bandas, não só da NWOBHM mas de toda parte do globo, e isso acontecia também com as Brigades (sem aqueles caras no passado, não sei o que seria hoje a cena heavy metal no Brasil – conhecedores do assunto e verdadeiros desbravadores, não tem como negar isso, por mais que muitos tentem ignorar).

O Deep Switch (UK), que surgiu um pouquinho depois do boom que foi a NWOBHM, eu achei estranho (na verdade diferente), porém maravilhosa. No entanto, vindo da NWOBHM eu costumava me deslumbrar mais com as enxurradas de bandas ocultas e undergrounds. Eu não tinha condições de ouvir na época, somente lia as resenhas e viajava por aqui imaginando como soariam bandas como Deep Machine, Pagan Altar, Hell, Demon Pact, Fugitive, entre outras.

Estranho, na nossa cultura, era saber ou descobrir que fora dos Estados Unidos e países do oeste europeu havia um underground bem extenso, bandas se apresentando sob nomes como Northwind (Grécia), Vanexa (Itália), Earthshaker (Japão), Kat (Polônia). Mas o Brasil não ficava atrás, soava estranho e exótico da mesma forma para os outros países, pode acreditar.

Quando você percebeu que estava colecionando, ou seja, passou a ser um pesquisador e, consequentemente, um colecionador?

Pra ser bem sincero, só agora recentemente, ao perceber a atenção que algumas pessoas deram aos meus materiais, principalmente pessoas que eu não conhecia e que passei a me relacionar hoje pela internet. Óbvio, você percebe, seja pelo lado qualitativo ou quantitativo, quando o seu material se torna interessante, mas você perde um pouco a real grandeza de sua coleção se ela não é avaliada por outras pessoas. Sempre fui um cara muito desorganizado, e somente agora destaquei esses materiais aqui em casa. Tudo ficou muito esquecido e guardado a partir do momento em que constituí uma família. O detalhe interessante de cada coleção, que eu percebo, é que ela se torna cada vez mais significativa ao passar dos anos.

Livro sobre a NWOBHM e raro DVD do Avatar

Qual item você considera o mais valioso da sua coleção?


Quanto mais exclusivo é o item em sua coleção, mais valioso ele se tornará, isso é fato e sabido por todos. É curioso, mas o item mais valioso pra mim é um produto que já não tenho mais, mas se enquadraria perfeitamente nisso que acabei de mencionar - foi um show filmado de forma caseira do Satan por um antigo amigo e correspondente holandês, um VHS gravado na Holanda em 1983 com Brian Ross nos vocais.

Porque ele foi o mais valioso? Porque eu o recebi em 1986 e o perdi em 1987 (nem conto a história), e dois anos depois a pessoa que fez a filmagem e havia me cedido este material escreveu-me desesperado informando que a fita matriz dele havia estragado e restava a mim para ele recuperá-la. Quando eu contei o que havia acontecido com a minha gravação, ele teve um ataque nervos e ficou bem enfurecido, não acreditou na minha história e disse que era invenção minha somente pra ficar com um material exclusivo, e ameaçou até vir aqui no Brasil me dar umas porradas (risos), mas até hoje ele não veio, graças a Deus (risos).

Mas o fato é que isto é a mais pura e sincera verdade, e não teria como sustentar esta mentira até hoje. Até desejaria que fosse mentira e tivesse ainda aquele material. Lamentei bastante não poder ajudá-lo naquele momento, depois disso nunca mais nos falamos ou escrevemos, também, pudera (risos).

Também tem algumas fotos antigas que eu nunca vi publicadas em nenhuma revista ou fanzine, e outras que as pessoas só conhecem em preto e branco, mas como eu consegui os negativos, as tenho coloridas. Exemplos: algumas do Sodom em 1984, Hellhammer, Trouble em 1983. Fotos são um dos pontos altos de minha coleção. Modestamente falando, tenho o que se imagina e o que não imagina da cena heavy metal oitentista.

Conheci (leia-se, me correspondi) muitos fotógrafos no passado e consegui muitas fotos com eles, caras como Gene Ambo (EUA), Charly Rinne (Alemanha), Metal Mike (Holanda), John Tucker (UK), Pete Cronin (UK), só para citar alguns, mas para mim o fotógrafo mais foda e que muito soube retratar (literalmente) a cena metálica oitentista foi o Eric De Haas, pena que não tenho quase nada do seu material. Detalhe que ele, apesar de holandês, reside há muito tempo aqui no Brasil e de vez em quando o contacto. Ah, o holandês citado acima não é o Eric, ainda bem (risos)!

Qual foi o maior número de álbuns que você comprou de uma única vez?

Vinil eu sempre fui muito comedido em comprar, pelo menos na década de 80, principalmente os importados, que custavam os olhos da cara. Mas dava pra juntar uma graninha e ir atrás daqueles discos que não saíam do pensamento, principalmente na Woodstock e na Galeria do Rock em São Paulo. Na década de 90, quando consegui um emprego melhor, e com o advento da internet um pouquinho mais à frente, busquei aquilo que me faltava.

Mas de uma só vez foi bem recentemente, quando dei um lance na eBay e comprei um lote contendo 45 vinis. Paguei por isso apenas 80 dólares, incrível, mas só de postagem paguei um valor maior. Eu até já tinha alguns títulos no meio desse lote, mas como ele só vendia o pacote todo, tive que levar tudo. O curioso (eu não resisto e sempre conto uma curiosidade, me desculpe) é que eu até abriria mão dos itens que já possuía para economizar no peso de postagem, e pagaria o mesmo valor final da compra estabelecido pela eBay, mas o cara lá da Alemanha, não sei por qual motivo (acho que ele queria se ver longe do vinis de qualquer jeito - risos) foi irredutível e não abateu nenhum dos discos que viriam repetidos pra mim.

Quantos álbuns em média você compra por mês?

Ultimamente só adquiro materiais de bandas brasileiras ou algum relançamento de bandas oitentistas, e em média compro de 1 a 5 CDs (entre oficiais e demos) ou LPs - às vezes até ganho. Conheci muitas bandas com potencial pelo orkut e diretamente com elas vou adquirindo os álbuns.

Cara, eu não fazia idéia, a cena atual aqui no Brasil é muito boa, e a cada dia vou conhecendo mais e mais bandas de grande valor em nossa terra. Apenas pra citar algumas, sem distinguir estilo ou localidade: Clenched Fist, White Thunder, Vingança, Nosferatu, Kremate, Em Ruínas, Legendários, Apokalyptic Raids, Dunkell Reiter, Licantropos, Denim & Leather, Laconist, Panndora, Farscape, Selvageria, Metal Health, Vingança Suprema, Tenebrário, Hell Bullet, Ecliptyka, Acid Speech, Bywar, Sodomizer, Queiron, Atomic Hell, Dominus Praelii, Tragedy Garden, K.O.M.A., Thor (esse não é o antigão do ES), e segue. Ficaria aqui ocupando todo esse espaço para mencioná-las, sem contar as bandas antigas brasileiras que eu reencontrei também pelo orkut: Attomica, Vírus, Stress, Overdose, Vulcano, Placenta, Witchammer, Dorsal, Agressor, Salário Mínimo. Simplesmente surreal tudo isso!

Fico às vezes imaginando se existisse internet em meados da década de 80. Putz, estávamos feito (risos).

Tem algum item que, só de alguém chegar perto, você já gela e morre de ciúmes, tem um carinho especial e não venderia de jeito nenhum?

Não um item específico, mas minha coleção de demo tapes de bandas oitentistas, sou capaz de surtar se algo acontecer a ela. Perdi uma fita do Martyr (Metal Torture) pro meu filho mais novo de 2 anos, mas ele eu permito. Brincadeira, não deixa ele ouvir (risos)!

Raríssimo disco do Metallica lançado nos anos oitenta

Entre tudo o que você possui, quais foram os itens que deram mais trabalho para conseguir?


Sem dúvida as fotos. Quando se comprava de um outro colecionador não via muita dificuldade, mas quando se comprava diretamente dos fotógrafos, aí sim era extremamente complicado, primeiro porque já era muito difícil localizá-los e contactá-los; segundo que, após localizá-los e jogar aquela lábia pra adquirir material dele, teria de convencê-lo que a minha intenção era somente compor coleção (e no meu caso, sempre foi mesmo), pois havia um receio muito grande, e com toda razão, que suas fotos fossem publicadas e divulgadas sem as devidas autorizações e trâmites comerciais necessários para isso.

Respeito muito os direitos desses profissionais, se bem que tempos atrás, a pedido de alguns amigos e donos de sites oficiais, enviei algumas fotos (não aquelas adquiridas diretamente com os fotógrafos) de minha coleção para eles, imagen do Sodom, Artillery, Drifter, etc, e algumas até foram divulgadas. Mas não faço mais isso!

Qual é o item mais diferente e curioso da sua coleção?

Acredito que os slides não são materiais comuns de se ver por aí. Tenho uma infinidade, todas referentes às bandas de metal dos anos 80. Magníficos materiais, com certeza.

A sua coleção tem um limite? Você acha que, algum dia, vai parar de comprar discos porque acha que, enfim, tem tudo o que sempre quis ter? Você acha que esse dia chegará, ou ele não existe para um colecionador?

Não, esse dia nunca chega, mas tenho plena consciência da impossibilidade de se conseguir tudo aquilo que se deseja. Tenho também o discernimento de que hoje não alcanço sequer 5% daquele espírito e vontade que tinha vinte e poucos anos atrás, de correr atrás e juntar materiais relacionados ao gênero. Infelizmente, eu não acompanho a cena atual como deveria, compro e ouço muito pouco do que rola hoje, conforme já mencionei, mas é que para mim, particularmente, não faz mais sentido. Eu até tento, mas não com o mesmo sentimento, afinal de conta tudo mudou muito.

Como seus amigos, e o resto da famíla, encaram a coleção e a paixão pela música?

Cara, minha esposa tem muito ciúme dos meus materiais; não exatamente dos materiais, mas sim de mim com a minha coleção, principalmente quando eu dedico algum tempo a ela (a minha coleção), como agora. Na verdade ela não entende esta minha paixão de adolescente, como ela mesmo comenta às vezes, mas respeita; ou melhor, respeita mais ou menos (risos). Ela não gosta de heavy metal e eu nunca a forcei a ouvir e nunca forçarei. As coisas, se tiverem que acontecer, tem que acontecer com naturalidade, mas como já se passaram quase vinte anos de convivência, acho que se esgotaram todas as esperanças (risos).

Infelizmente, há muito tempo não tenho contatos mais com meus amigos do passado, mas tenho esperança em um dia juntar parte deles para matarmos as saudades e ouvir muita música bacana, regado a muito cevada maltada, se é que você me entende.

CDs, LPs e cartazes

Como você guarda e conserva os seus itens? Conte alguma mania sua.


Tenho que admitir que, ao contrário da maioria dos colecionadores, sou extremamente desorganizado. Meus materiais mereciam mais caprichos, um lugar destinados somente para eles, tudo registrado, catalogado. Até pouco tempo tudo estava muito jogado, em caixas, gavetas, armários velhos localizados em um cômodo no quintal de minha casa, sofrendo com ações de intempéries ou coisa parecida.

De uns dois anos pra cá resgatei quase tudo, mas ainda não estão num lugar merecido. Estou planejando construir um quartinho aqui só pra esse fim (é muita coisa), mas em vista do que estava melhorou consideravelmente.

Atualmente os guardo dentro de caixas plásticas e armários no quarto onde está meu computador, porém fica ainda tudo entulhado, para desespero da minha mulher. A exceção são os VHS, que tem que estar totalmente protegidos do mofo em local arejado, mas aos poucos vou transferindo para DVD.

A maioria dos colecionadores não empresta nada. Como você encara um pedido desses?

Sou desorganizado mas não sou louco (risos). Estou brincando! É difícil lidar com isso, mas infelizmente você tem que ser sincero e tem que saber dizer não. Falando com jeito a pessoa não ficará tão chateada. Mas de vez em quando não tem escapatória, eu acabo emprestando, dependendo o item. Se bem que isso não acontece há longa data. Têm materiais que emprestei no passado que nunca mais retornaram, é foda cara!! Tem um ditado que é corretíssimo: se deseja perder um amigo, empreste algo a ele.

Revistas, posters e demo-tapes

Eu gostaria que você fizesse agora um top#5 com os itens do seu acervo que você mais curte.

Vou fugir um pouquinho dos vinis e CDs, ok!? Não que eu não goste, muito pelo contrário, sou fissurado por esses artigos, mas é que sempre os vejo em destaque, portanto vou valorizar outros itens, não me prendendo muito a ordem de preferência, tudo bem!? Somente década de 80:

1) Revistas e fanzines antigos – O que você imaginar (nacional e de fora) entre os anos de 1981 a 1987. Destaque: alguns zines alemães como Blitzkrieg e Devils Poison, muito fodas. Agora um detalhe: se tivesse que relacionar as cinco melhores publicações do gênero que já existiram, certamente eu incluiria o nº 19 da Rock Brigade. Aquela edição foi simplesmente antológica!

2) Demo tapes – Era muito legal perceber o carinho que as bandas tinham por este material. Algumas demos são cultuadas até hoje, e apesar delas na época servirem como uma espécie de material promocional, muitas valem fortunas. Destaques: Satan – Into the Fire, de 1982; Martyr – For the Universe, de 1984; e Blitzkrieg – Blitzkrieg, de 1980, são as que eu mais gosto.

3) Fotos – Não conheço ninguém no Brasil que colecione este item (pelo menos correspondentes as bandas não tão badaladas do metal oitentista), e muita gente acha meio frescura essa coleção, mas costumo dizer: existe todo um ritual para se beber um bom vinho, e na música é assim também, temos que conhecer a banda, sua história, seus registros (e aí entram também os registros fotográficos), caso contrário uma lacuna grande fica em aberto. Pelo menos eu vejo dessa forma. Mas enfim, sou apaixonado por fotos daquela época.

Destaques: assim como as demos e publicações, é difícil destacar alguma em específico, mas pra não deixar sem resposta citarei minhas fotos antigonas do Trouble. Motivo: consegui diretamente com Chuck Robinson, atual baixista da banda, que mesmo antes de entrar no Trouble já era assíduo apreciador da banda e concedeu-me de sua coleção particular belíssimas, exclusivas e antigas fotos do grupo. Anos depois ele passou a fazer parte da banda.

4) Pôsteres – Puxa cara, era legal poder decorar seu quarto com pôsteres de bandas que você apreciava. Pretendo um dia fazer isso de novo, é só arrumar um espaço aqui. Alguns pôsteres eram vendidos isoladamente, outros vinham compondo alguma publicação. Destaque: os pôsteres que vinham na Metal Hammer, que eram espetaculares!

5) Vídeos – Tudo era muito difícil de conseguir no passado, imaginem então vídeos de bandas underground da época, como Atlain, Brocas Helm, Martyr, Hawaii, Onslaught, Medieval Steel, Overdose, Vulcano, Attomica, Centúrias, etc. São centenas e centenas de vídeos que possuo aqui e adoro voltar ao tempo assistindo-os, de preferência tomando uma cervejinha (risos), afinal ninguém é de ferro, né!? Destaque: já que não posso destacar o vídeo do Satan que perdi no passado, destaco então um do Satan gravado em 14/07/2006, contendo 74 minutos no Headbangers Open Air.

Citei cinco porque você perguntou só cinco, mas coleciono de tudo: cartazes, tickets, adesivos, books, bootlegs, camisas, textos biográficos, chaveiros, papéis de embrulho (risos).

Singles raros do metal oitentista

Quais são, para você, os dez melhores álbuns de todos os tempos?


Não necessariamente nesta ordem, mas farei um esforço pra lembrar e ir incluindo, beleza? Óbvio que centenas de títulos merecedores de figurarem nesta relação ficarão de fora, mas para não fugir à pergunta, vamos lá o que vem à mente agora. Procurarei também não repetir mais de um álbum por banda:

1) Satan – Court in the Act

2) Manilla Road – Open the Gates

3) Iron Maiden – Piece of Mind

4) Uriah Heep - Look At Yourself

5) Leatherwolf – Leatherwolf (existem dois títulos iguais e estou me referindo ao primeiro, de 1984, simplesmente uma obra-prima)

6) Exodus – Bonded by Blood

7) Trouble – The Skull

8) Cirith Ungol – Os dois primeiros, sem distinção

9) Helloween – o 1º EP e Walls of Jericho (tive que citar também mais de um álbum , foi inevitável). Obs: nessa época o Helloween era simplesmente”uma fantástica banda, que tocava rápido o mais puro e trabalhado heavy metal tradicional. Depois veio toda aquela lenga-lenga de metal melódico (não sou muito chegado em subdivisões) e partiram para o estrelato (deixei de acompanhá-los)

10) Black Sabbath – Born Again

Como você tem muita coisa dos anos oitenta, uma pergunta diferente: de 2009 até 2000, quais os discos que você destacaria?

Cara, acho legal o som do Tierra Santa da Espanha (destaco Tierras de Leyenda, de 2005); Days of Yore do Canadá (The Mad God’s Wage, mas aí já é um pouquinho antes, 1997/98, acredito; essa banda acabou porque todo mundo meteu a lenha neles, mas eu particularmente gosto bastante); Clenched Fist do Brasil (Tribute to the Braves One, 2008); Denim & Leather do Brasil (Watch Out!!, 2008); Em Ruínas do Brasil tFrom The Speed Metal Graves, uma demo de 2007); Farscape do Brasil (Demons Massacre, 2003); e outras mais. Muitas outras bandas, principalmente as brasileiras, eu mencionaria sem pensar duas vezes aqui neste espaço, mas eu não quero cometer muita injustiça, então fico com essas que citei acima.

Raridades não faltam na coleção de Marcelo

O que você tem ouvindo ultimamente?


As bandas que de alguma forma eu já citei aqui podem ser as que estou ouvindo ultimamente. De uma forma geral eu sou bastante eclético, mas somente heavy metal de boa qualidade (risos).

Qual item as pessoas ficariam surpresas em saber que você possui?

Eu não diria surpresas, mas um pouco diferente daquilo que estamos abordando aqui, já que possuo quase todos álbuns do Jethro Tull (refiro-me aos lançamentos oficiais). Eu adoro todas as fases desta banda, adoro seus álbuns, inclusive os mais contestados (injustamente) - A de 1980 ao Under Wraps de 1984. Ian Anderson é um ser único. Assisti um show deles em São Paulo anos atrás, foi fantástico! Brasileira eu citarei o 14 Bis, tenho discos deles aqui também.

Qual o item que você tem que é apenas para completar a coleção?

Eu poderia citar aqui o X Factor do Iron Maiden, como todo mundo fala (risos), mas cara, eu até gosto deste disco. Se fosse um álbum normal de uma banda qualquer de heavy metal ninguém falaria tão mal, muito pelo contrário, pode acreditar, mas pelo fato de haver sempre a comparação de Blaze Bayley com Bruce Dickinson, muita gente mete o pau.

Agora respondendo, se eu não gostar do item eu não compro, nem pra completar coleção. Posso até adquirir um material sem saber ao certo do que se trata, e depois perceber que é ruim, neste caso não vou me desfazer; porém, comprar algo já sabendo que não me agrada, isso eu não faço.

Das outras décadas, o que você recomenda de sessenta até hoje?

Não irei citar os trabalhos, mas sim algumas bandas, e também vou tentar fugir da NWOBHM e das bandas supremas, que são quase unânimes, como Judas, Black Sabbath, Deep Purple, Uriah Heep, Iron Maiden, ok!?

Gosto e recomendo:

Década de 70 - A fase progressiva do Faithful Breath (Alemanha), Riot (EUA – os primeiros registros são da década de 70, portanto);

Década de 80 - Viva (Alemanha), Baron Rojo (Espanha), Atlain (Alemanha), Blessed Death (EUA), Medieval Steel (EUA), Silver Mountain (Suécia);

Década de 90 – X-Wild (Alemanha), Skyclad (UK), Days of Yore (Canadá), Memento Mori (Suécia);

2000 pra cá – Battleroar (Grécia), Ironsword (Portugal).

E muitas bandas brasileiras já citadas nesta entrevista.

Uma coleção de encher os olhos

Qual o melhor show que você assistiu? Tem alguma banda que você gostaria de assistir? Aproveite e monte um cast de um festival com bandas que não existem mais.


Um show que me traz ótimas lembranças foi um que aconteceu no início do primeiro semestre de 1986, não estou muito certo quanto a data, acho que em abril ou março daquele ano. Bem, não importa agora. Eu e mais dois amigos fomos ao Rio de Janeiro, que de certa forma não fica tão distante do Espírito Santo, e assistimos um show reunindo Overdose e Sepultura no extinto Caverna II, visando promover o split recém lançado pela Cogumelo. Cara, aquilo estava quente e tinha gente saindo pelas janelas, mas foi histórico, e quem diria que aqueles moleques iriam ganhar o mundo alguns anos depois, hein!? Tirando o fato que quebraram minha maquinazinha Kodak e a ressaca no dia seguinte, o resto foi perfeito.

Bem, seria histórico termos um show novamente reunindo essas duas bandas, comemorativio a algum aniversário deste split. E vamos ser mais utópicos: imaginem um show comemorativo com as formações originais daquele álbum. Depois era só ir para algum hospital mais próximo (risos).

Já viajei demais, não dá pra montar um cast de um festival com bandas que não existem mais (risos). Brincadeira, vamos montar um cast então, também com formações originais: Satan banda principal e Tokyo Blade na abertura, e isso no templo sagrado do metal, Dynamo/Holanda. Pronto, não precisava assistir mais nada durante anos.

Como você vê a mudança do vinil para o CD, e como você encara o download de músicas? Complementando, como você vê o mercado musical para a próxima geração?

Tenho uma paixão especial pelos vinis, mas não ignoro hoje os CDs (besteira usar do saudosismo e desconsiderar a tecnologia), como muitos amigos e colecionadores que conheço.

Em relação aos downloads, virou uma verdadeira febre baixar músicas na internet, e tenho convicção plena que não tem mais como frear isso. Quando eu vejo alguém baixando uma música ou um disco completinho, percebo que muito daquela essência do produto original, a magia de poder pegar um encarte, acompanhar as músicas lendo cada uma delas, visualizar a banda, ver os agradecimentos, data de lançamento, informações e mais informações acerca daquele lançamento, se perde. Citei o exemplo do vinho quando comentei sobre as fotos de minha coleção, e todo aquele ritual para degustá-lo; a mesma coisa ocorre com os downloads - no final fica tudo meio sem atrativos.

Mas por outro lado, quem busca este mecanismo para avaliar um álbum antes de comprá-lo, eu acho bastante válido, assim como recorrer a algum material que certamente não se encontrará à venda (itens mais raros, como, por exemplo, bootlegs ou demos). Não quero discutir aqui se é ilegal ou não o uso de downloads para músicas, deixemos isto para os juristas. Cara, acho que vou parar por aqui, esse assunto gera um debate interminável, têm as questões sociais, a exploração das gravadoras lançando no mercado materiais a preços abusivos, existe a necessidade da banda receber seus valores e direitos, até mesmo pra poder se estruturar como profissionais.

Materiais do Siren

Você teve contato com alguma dessas bandas que você tem itens? Qual foi a reação dessa banda ou artista em descobrir que um colecionador no Brasil admirava o trabalho deles de mais de 20 anos atrás?

Parece surreal, mas já tive sim, e alguns tenho até hoje, como por exemplos Jürge Weritz, um dos primeiros bateristas do Faithful Breath; Dean Roberts, baterista do Leatherwolf; Reiner Kelch, do Living Death.

Tem uma história curiosa com uma banda alemã que eu não gostaria de citar o nome. Escrevi pra eles pedindo a demo recém produzida pela banda (o ano era 1986), e mandei junto, dentro do envelope, alguns dólares pra custear a postagem ao Brasil, caso eles me atendessem. Neste contato fui bem sucedido, mandaram as demos e uma enxurrada de outros materiais, mas o mais interessante foi o que eles escreveram em respostas, contando a curiosidade que eles tinham do Brasil, que achavam o Brasil um país super exótico, que jamais poderiam imaginar que alguém daqui pudesse ouvir heavy metal e principalmente o som deles. Citaram o Pelé, futebol, tango, Maradona, e eu, claro, fui bastante atencioso e escrevi de volta, até para agradecer, e sem querer tirar algum proveito mandei algumas coisas daqui também, e esses contatos se repetiram por outras vezes. Cara, a gente não faz idéia como nós estávamos ou estamos fora do mapa.

Uma curiosidade minha: você já leu a matéria do Whiplash sobre a NWOBHM feita pelo Sérgio, que faz parte da Collector´s Room? O que você achou?

Sim, lógico, li atentamente. Muito boa a matéria! No final da década de 70, no Reino Unido, eclodia ao mundo um fenômeno musical espetacular, a NWOBHM. Existem controvérsias até hoje, mas parece que este termo foi elaborado por um crítico de música e colaborador da Sound, antiga revista britânica especializada em rock, em total ironia à onda pop new wave que assolava as gravadoras e rádios da Inglaterra e do mundo. Ele citou em sua matéria um pequeno grupo de bandas e os denominou de New Wave of British Heavy Metal, só que aquilo ganhou uma proporção tão grande que ele talvez não imaginasse, mas não pretendo me aprofundar neste tema magnífico, que tão bem já foi abordado pelo Sérgio. Também recomendo que todos leiam!

Alguns raros e disputados itens

Mais uma vez muito obrigado por ter participado da Collector´s Room e parabéns pela coleção. Este espaço é seu, manda bala e deixa seu recado!

Eu que agradeço e espero não ter enchido muito a paciência dos leitores. Meu propósito foi apenas compartilhar experiências de uma pessoa apaixonada pela cena heavy metal dos anos 80 e que viveu aquilo tudo com muita intensidade.

Se alguém se interessar em trocar idéias, informações e quem sabe até alguns materiais, estarei a inteira disposição. É só fazer o contato pelo e-mail chisteml@uol.com.br ou mesmo via orkut (criei uma página pra mim no ano passado), mas aí tem que digitar no campo de procura Marcelo C._ 80 (acho que dá certo).

Ah, só lembrando que aqui no Espírito Santo houve sim uma cena heavy metal muito interessante na década de oitenta e tive oportunidade de acompanhar tudo de pertinho. Naquela época, somente o Thor gravou um single em 1985 (item hoje raríssimo e seguramente peça de colecionador), mas existiram outras bandas, como Fênix, Vésper, Chacal (depois Median), Necrófago, Seven, Febre Negra - que depois virou Black Fever, que depois virou Epidemic, até chegar em Siecrist, etc.

Abraço a todos!