6 de nov de 2009

Editor da Collector´s Room estreia na Uno Web TV

sexta-feira, novembro 06, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O
Prateleira é um bloco do programa Estúdio A, da Uno Web TV, emissora da Unochapecó, universidade de Chapecó (SC). Nele, o editor da Collector´s Room e crítico musical Ricardo Seelig dá dicas sobre música e discos.





O programa é semanal, e sempre que novos episódios forem ao ar eles serão postados aqui.

Deixe a sua opinião sobre o programa nos comentários!

Podcast Collector´s Room #021

sexta-feira, novembro 06, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

No ar a nova edição do podcast da Collector´s Room, e com novidades. Atendendo a inúmeros e insistentes pedidos, agora você poderá conhecer o tracklist do programa antes de ouvi-lo. A lista de músicas está publicada aqui no post, com o nome de cada uma das faixas, grupos e respectivos discos. Assim fica mais fácil saber se você vai curtir ou não o programa que está baixando para o seu computador ou MP3 player.


E você também pode curtir o podcast da Collector´s Room na rádio Shock Box, clicando aqui.

Então é isso, aumente o volume e venha com a gente em mais uma viagem pelo mundo maravilhoso dos discos!

Tracklist Podcast Collector´s Room #021

Bloco 1

Big Star - When My Baby´s Beside Me
Álbum: #1 Record (1972)

Chicken Shack - Maudie
Álbum: Accept (1970)

Buddy Guy & Junior Wells - T-Bone Shuffle
Álbum: Buddy Guy & Junior Wells Play the Blues (1972)

Bloco 2

Blind Faith - Well All Right
Álbum: Blind Faith (1969)

Paul McCartney - If You Wanna
Álbum: Flaming Pie (1997)

Bloco 3

Jethro Tull - Too Old to Rock and Roll, Too Old to Die
Jethro Tull - John Barleycorn
Jethro Tull - Rocks on the Road
Álbum: A Little Light Music (1992)

Bloco 4

Di Melo - A Vida em seus Métodos Diz Calma
Álbum: Di Melo (1975)

Toni Tornado - Mané Beleza
Álbum: Toni Tornado (1972)

Noriel Vilela - Promessado
Álbum: Eis o "Ôme" (1968)

João Donato - The Frog
Álbum: A Bad Donato (1970)

Bloco 5

Procol Harum - Repent Walpurgis
Procol Harum - Good Captain Clack
Procol Harum - A Whiter Shade of Pale
Álbum: Procol Harum (1967)

Bloco 6

Shuggie Otis - Bootie Cooler
Shuggie Otis - Hurricane
Shuggie Otis - The Hawks
Álbum: Here Comes Shuggie Otis (1970)




5 de nov de 2009

Prateleira do Cadão: a guitarra afiada de Phil Upchurch

quinta-feira, novembro 05, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Você nasce, cresce, aprende, faz descobertas, vive aventuras, encontra o seu lugar no mundo, conhece o seu amor, aquece a sua alma. Todas as emoções e momentos marcantes de nossas vidas, como essas citados acima, são marcados por trilhas sonoras. A gente lembra das músicas que nos trazem de volta doces lembranças que teimam em continuar em nossas memórias.

Mesmo se você não for um consumidor faminto de música, isso acontece com você. Imagine então se você for como nós, colecionadores sedentos, ouvintes compulsivos, pessoas com fome de conhecimento em relação à música, em suas mais variadas formas e gêneros. Para pessoas como nós, cada momento, cada minuto, casa segundo de nossas vidas é repleto de sons, de discos, de capas, de artistas que nos acompanham anos a fio como amigos de infância que nunca nos deixam na mão.

Tudo isso para dizer que, como a imensa maioria das pessoas que acessa a
Collector´s Room, eu também cresci ouvindo exclusivamente rock e heavy metal. Guitarras distorcidas, riffs cortantes, melodias empolgantes, tudo em alto e bom som. Por isso, para mim a guitarra é mais do que apenas um instrumento musical. Ela simboliza o eixo central da minha experiência sonora, da minha aventura musical. É ela que me motivou (e ainda motiva, diga-se de passagem) a comprar discos, a conhecer grupos, a escrever sobre essa paixão que nos une e torna nossas vidas muito mais interessantes.

Por isso, quando ouvi pela primeira vez o som do norte-americano Phil Upchurch levei uma espécie de choque. A guitarra estava ali, mas o foco era totalmente diferente daquele que eu estava acostumado. No lugar da distorção, um timbre puro, limpo e cortante. Ao invés de riffs, acordes inusitados e, mesmo assim, cativantes. Ricas ideias harmônicas cruzando-se infinitamente, construindo uma sonoridade rica, bela e espiritual.


Nascido em Chicago em 19 de julho de 1941, Phil Upchurch iniciou a sua carreira nos anos cinquenta tocando ao lado de grupos como The Kool Gents, The Dells e The Spaniels. Seu talento e estilo únicos chamaram a atenção, e fizeram com que Phil gravasse álbuns ao lado de feras como Curtis Mayfield, Otis Rush, Jimmy Reed, Dizzy Gillespie, B.B. King e Cannonball Adderley, entre outros.

Dono de uma técnica apurada e um senso melódico ímpar, no início da década de setenta Upchurch gravou discos sensacionais e que influenciaram uma pá de gente, fundindo o jazz ao blues, ao soul e, principalmente, ao funk. Sua guitarra repleta de malícia embalou inúmeros corpos entrelaçados noites a fio. São desse período dois de seus trabalhos mais importantes: o seminal
Darkness, Darkness e o não menos brilhante Lovin´ Feeling.


Darkness, Darkness
é, originalmente, um álbum duplo, e foi lançado em 1972 pela gravadora Blue Thumb. São dez faixas espalhadas em quatro lados, sendo que duas são versões de sucessos de James Taylor ("Fire and Rain" e "You´ve Got a Friend").

O play abre com a faixa título, uma experiência transcedental com quase dez minutos de duração, dona de um balanço irresistível sobre o qual Phil sola de maneira sublime. Uma canção inesquecível, das melhores que eu já ouvi em toda a minha vida!

O lirismo e a sensibilidade ficam a flor da pele na belíssima versão de "Fire and Rain", de James Taylor. O arranjo é tão perfeito, minimalista e sem nenhum instrumento sobrando ou nota fora do lugar, que faz com que pensemos que a canção já nasceu assim, sem letra e sem vocais.

Upchurch deixa clara a importância do blues em sua música em "What We Call the Blues", onde percebe-se a influência de B.B. King na forma de Phil tocar, com notas esparsas espalhadas em harmonias pra lá de arrepiantes. Uma das principais marcas registradas de Phil Upchurch, o uso do pedal wah-wah, dá as caras, e, junto com o arranjo de cordas que emoldura a canção, faz de "What We Call the Blues" uma das melhores faixas de
Darkness, Darkness.

O disco segue com o groove de "Cold Sweat"; o soul blues de "Please Send Me Someone to Love"; a fantástica "Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)", com uma performance arrasadora de Phil; mais uma releitura para uma composição de James Taylor em "You´ve Got a Friend"; "Love and Peace" e sua lição quase didática de como usar com classe o wah-wah; "Sweet Chariot" e "Sausalito Blues". Um álbum espetacular, que mostra o ápice criativo e técnico de um músico muito acima da média.


Lovin´ Feeling, lançado em 1973 também pela Blue Thumb, mesmo não sendo uma obra-prima como Darkness, Darkness é também um senhor disco. A bolacha abre com "Keep on Trippin´", mostrando um Phil Upchurch mais contido, assim como "Another Funky Time".

Bem mais contemplativo que o disco anterior, o álbum segue com "Being at War with Each Other" e "Sitar Soul", essa com interessantes escalas indianas. A clássica "You´ve Lost that Lovin´ Feeling", composta por Barry Mann, Phil Spector e Cynthia Weil e regravada por centenas de artistas, surge sensual ao extremo, quase um convite para o sexo.

"I Still Love You" mantém a linha romântica do disco, enquanto "Washing Machine" traz o groove embalado com doses generosas de wah-wah para o primeiro plano, em um dos melhores momentos do álbum. O LP fecha com "You´ve Been Around Too Long", relaxando o ouvinte e preparando o espírito para um novo dia.

Phil Upchurch ainda está na ativa, lançando discos de tempos em tempos (o último,
Tell the Truth, saiu em 2001), mas o melhor momento de sua longa carreira está, indubitavelmente, em Darkness, Darkness. Se você quer conhecer até onde uma guitarra pode te levar, sem medo do desconhecido e sem limites, ouça o álbum e descubra que, muito mais do que apenas ligada ao rock, as seis cordas desse instrumento tão mítico podem estar ligadas ao seu coração.

4 de nov de 2009

Prateleira do Cadão: Baby Huey - The Baby Huey Story: The Living Legend (1971)

quarta-feira, novembro 04, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador

A pequena Richmond, localizada no interior da Indiana, é uma daquelas típicas cidades norte-americanas onde o calor bate no asfalto e distorce a paisagem enquanto seus poucos habitantes assistem o passar dos dias sem maiores preocupações. Esse aspecto bucólico se conserva até hoje na cidadezinha, que, conforme o censo de 2000 realizado nos Estados Unidos, tinha pouco mais de 39 mil habitantes no começo do século XXI.

Imaginem então como era o cotidiano por aquelas bandas nos anos quarenta. Foi ali, no primeiro dia de 1944, que o pequeno James Ramey veio ao mundo. O garoto passou toda a sua infância e parte da adolescência em Richmond, mas sabia que a cidade era muito pequena para os seus sonhos. Aos dezenove anos resolveu ir de mala e cuia para Chicago, onde começou a frequentar os botecos e clubes da cidade, conquistando na cara dura o posto de vocalista em diversos grupos locais.


James sofria de um distúrbio glandular que o causava problemas crônicos de saúde, além de ser o responsável pelo seu avantajado porte, girando em torno de 160 kilos. Seu físico o levou a ser apelidado de Baby Huey, o mesmo nome de um popular personagem de quadrinhos da época.


Em 1963 Huey montou, ao lado dos amigos Melvin "Deacon" Jones (órgão e trompete) e Johnny Ross (guitarra) o grupo Baby Huey & The Babysitters. O conjunto rapidamente chamou a atenção, tanto pela grande - literalmente - presença de palco de Huey quanto pela repercussão dos singles "Messin´ with the Kid / Just Being Carefull", de 1964, e "Monkey Man / Beg Me", de 1965, que rolavam direto nas rádios e nos clubes direcionados aos negros, fazendo a cabeça da moçada black da época.


Na segunda metada da década, influenciados por todo o clima hippie que começava a dominar a América, o grupo passou a incorporar influências psicodélicas ao seu som, indo na cola de Sly & The Family Stone, que ditavam os caminhos que a música negra tomaria naqueles ricos anos. Baby Huey passou a usar uma grande cabeleira black - repare como ele se parece com o nosso Tim Maia - e a usar robes com motivos africanos, tornando-se uma espécie de guru para a cena local.

Ao mesmo tempo, os Babysitters tocavam sem parar, atraindo cada vez mais público para seu show contagiante, centrado na figura hipnótica de Baby Huey. Apesar do sucesso de suas apresentações, a banda não chegou a registrar nenhuma outra gravação além dos singles já citados.

Percebendo o potencial do conjunto, o manager Marv Heiman conseguiu agendar uma audição com Danny Hathaway, arranjador e produtor da Curtom Records. Hathaway ficou muito impressionado com a performance do grupo e o recomendou a Curtis Mayfield, diretor artístico do selo, que ficou vidrado na figura de Baby Huey. A dupla, percebendo que a força da banda estava em Baby, ofereceu um contrato para Huey gravar um álbum solo pela gravadora, colocando os Babysitters em segundo plano.

Baby, Melvin "Deacon" Jones e Johnny Ross, acompanhados por músicos residentes da Curtom Records, entraram então em estúdio e começaram a registrar as composições de Huey. Mas, amargurados pelo fato de terem sido relegados a um papel secundário pela gravadora, Jones e Ross logo abandonaram o barco, deixando todo o direcionamento musical do disco nas mãos de Baby Huey e Curtis Mayfield.

Ao mesmo tempo em que gravava o play Baby acabou se viciando em heroína, fazendo com que seu peso chegasse próximo aos 200 kilos. Percebendo o estado de dependência do cantor, que começava a interferir na qualidade das suas sempre contagiantes apresentações ao vivo, com Baby faltando a diversos shows ou, quando aparecia, chegando muito atrasado para os concertos (olha a semelhança com o nosso Tim Maia outra vez ...), os músicos que o acompanhavam o convenceram a se internar em uma clínica de reabilitação no outono de 1970 (primavera no hemisfério norte).

Além de aumentar seu peso, o vício havia complicado ainda mais seus problemas de saúde, e, após um breve período limpo, Baby Huey acabou falecendo de ataque cardíaco no dia 28 de outubro de 1970, aos 26 anos. Seu corpo foi encontrado por volta do meio-dia por seu manager no banheiro do hotel onde o cantor estava hospedado. Em 01 de novembro, James "Baby Huey" Ramey foi enterrado em sua terra natal, Richmond, onde permanece até hoje.


O álbum em que Baby Huey estava trabalhando chegou às lojas apenas em 1971, após a sua morte. Produzido por Curtis Mayfield,
The Baby Huey Story: The Living Legend é um testamento singular e definitivo do talento do cantor. Mesclando funk, psicodelia e rock, o disco é uma das pérolas perdidas dos anos setenta.

O álbum abre com a sacolejante "Listen to Me", com quase sete minutos de duração, onde Huey canta acompanhado por um esperto naipe de metais e criativas linhas vocais. O play segue com a instrumental "Mama Get Yourself Together", composta por Baby Huey, bem na linha de Sly & The Family Stone, um funkão de rachar o assoalho.

As coisas ficam mais calmas com "A Change is Going to Come", cover de Sam Cooke, uma baladaça soul com grande interpretação de Baby Huey, dono de um timbre vocal personalíssimo. As coisas voltam a ficar agitadas como "Mighty Mighty" e pegam fogo de vez com a sensacional "Hard Times" - ambas de autoria de Mayfield -, um proto rap com andamento copiado por inúmeros artistas de hip hop dos anos 80 e 90. Essa faixa é a prova irrefutável de quão à frente de seu tempo estava a cabeça de Baby Huey, pois ela continua atual. Impossível ficar parado!

A clássica "California Dreamin´" vem a seguir em uma sensacional releitura instrumental, com direito até a uma flauta doce. De cair o queixo! O nível segue lá em cima com a psicodélica "Running" - outra assinada por Curtis Mayfield -, com andamento marcial fundido a um funk repleto de energia. Outro momento alto do disco! O LP fecha com "One Dragon Two Dragon", também de autoria de Huey, faixa instrumental repleta de percussão e melodias arrepiantes.

Para os colecionadores, uma dica: antes do álbum chegar às lojas foram lançados dois singles. Em 1969 saiu "Mighty Mighty (Part I) / Mighty Mighty (Part II), e em 1970 "Listen to Me / Hard Times", ambos fora de catálogo a um bom tempo.

Produtores e artistas de rap e hip hop redescobriram o disco na década de oitenta, fazendo com que faixas como "Hard Times", "Listen to Me" e "Mighty Mighty" fossem frequentemente sampleadas em inúmeras gravações no período. Trechos de "Hard Times" podem ser percebidos em composições de Ice Cube ("The Birth"), A Tribed Called Quest ("Can I Kick It?"), Gosthface Killah ("Buck 50"), além de diversos outros artistas. Hoje,
The Baby Huey Story: The Living Legend é apontado por estudiosos e críticos com um dos mais influentes discos daquele som que, décadas mais tarde, viria a ser batizado como rap e hip hop.


Para os completistas, a versão original do álbum, lançada pela Curtom em 1971, está avaliada em torno de 200 dólares, isso se você tiver a sorte de encontrar alguém disposto a se desfazer da sua. Existem duas versões em CD. A primeira, lançada pela gravadora inglesa Sequel em 1999, mas já fora de catálogo; e a segunda, pelo selo americano Water, em 2004, que pode ser encomendada facilmente em lojas com a Amazon.

Se você topar com qualquer um desses formatos pela frente, compre sem medo, pois estará adquirindo um dos melhores, mais importantes e influentes discos de black music já gravados.

EMI lançará Beatles em formato digital pela primeira vez

quarta-feira, novembro 04, 2009

(Fonte: Rolling Stone Brasil)

Enquanto a Apple Corps e a gravadora EMI anunciaram nesta terça o lançamento de discos dos Beatles em edição limitada em pen drives, o site norte-americano BlueBeat está sob "investigação urgente" da EMI por colocar à venda todo o catálogo do grupo de Liverpool - cada faixa sai por US$ 0,25.

Até agora, o conjunto de Paul McCartney, Ringo Starr e dos já mortos John Lennon e George Harrison havia ficado de fora do filão digital. Ao menos em canais oficiais, a discografia do quarteto não podia ser encontrada para download.

Sir McCartney queixou-se do fato em entrevista ao semanário britânico
NME. "Nós estávamos tendo problemas com o iTunes - bom, não o iTunes, a EMI era o problema", o baixista especificou dias antes da chegada às prateleiras do The Beatles: Rock Band e dos catálogo remasterizado da banda.

O atraso começa a ser compensado: a parceria entre Apple e EMI renderá 30 mil pen drives, que serão comercializados a partir de 07 de dezembro (um dia mais tarde, no caso da América do Norte). O pacote digital conterá os 14 discos remasterizados em estéreo e elementos artísticos que acompanharam os títulos, como 13 minidocumentários, textos, fotos raras e imagens das capas originais. Nos Estados Unidos, o pacote sai por US$ 279,99 (cerca de R$ 493).

A decisão da EMI, que até agora vinha sendo reticente quanto à entrada dos Beatles na era da informática, surpreendeu. Isso não significa, contudo, que a gravadora esteja pronta para tomar outras ações do gênero, ao menos a curto prazo. "
Discussões sobre a distribuição digital do catálogo dos Beatles irão continuar. Não há mais informações no momento", disse o comunicado que anunciou o lançamento à imprensa internacional.

Enquanto a EMI dá o primeiro passo rumo à era das vendas online, o site norte-americano BlueBeat ainda mantinha à venda, até a manhã desta quarta, dia 04/11, cerca de 500 músicas lançadas pelos Beatles - as origens vão do estreante
Please Please Me (1963) às versões que chegaram nas lojas em 09 de setembro.

O download de cada faixa sai por US$ 0,25. Há, ainda, a possibilidade de escutar todas elas por streaming, de graça (basta se cadastrar no site, procedimento igualmente gratuito). As músicas saem cinco vezes mais baratas que o preço médio de um download no iTunes - o disco
Abbey Road completo, por exemplo, custa US$ 4,25.

Um porta-voz da EMI declarou ao jornal britânico
The Telegraph que o Blue Beat, hospedado em Santa Cruz (Califórnia), não recebeu autorização para comercializar o catálogo e está sob "investigação urgente". A companhia, até onde se sabe, ainda não tomou medidas legais contra a página, que mantém a oferta no ar desde 16 de setembro, de acordo com a seção de notícias do site.

Entrevista exclusiva - Rolando Castello Jr: o lendário batera da Patrulha do Espaço bate um papo com a Collector´s Room

quarta-feira, novembro 04, 2009

Por Ricardo Seelig
Colecionador
(perguntas elaboradas por Ricardo Seelig e Marcelo Peixoto)

A Collector´s Room bateu um longo papo com um dos músicos mais respeitados do Brasil, líder da cultuada Patrulha do Espaço. Rolando Castello Jr falou de sua carreira, contou histórias perdidas no tempo e fez um relato, sincero e emocionante, do que é ser um músico de rock em nosso país.

Acomode-se na cadeira e curta com a gente!


Rolando, você é citado, frequentemente, não só aqui no Brasil mas também em várias partes do mundo, como um dos principais nomes da bateria no rock. Quais você acha que foram as suas principais contribuições para o instrumento, e como você se sente ao ver seu nome reconhecido dessa maneira?

Muito obrigado pelas palavras. Sinceramente, não sei quais seriam minhas maiores contribuições para o instrumento. Talvez eu tenha sido um arauto do uso de dois bumbos e um monte de tons, o que certamente obrigou, por meio da minha influência, um monte de bateristas a "se fuderem" para carregar e montar tanta tranqueira (risos).

Quais foram os músicos que o influenciaram quando você começou a se interessar pela bateria?

Em geral, quando me perguntam isso, sempre esqueço de um fato interessante: quando eu era menino e ainda nem pensava em tocar bateria, vi na TV um filme com o Sal Mineo sobre a vida e obra do grande baterista Gene Krupa e fiquei bem impressionado e motivado com o instrumento. Posteriormente ganhei um disco dele, então acho que minha primeira influência tenha sido o Gene Krupa.

Mas entrei no mundo da bateria e do rock capturado pelas melodias e bateria dos Beatles e, ao citar o Ringo Starr, de tabelinha tinha o grande Charlie Watts. Logo depois dessas primeiras influências fui totalmente influenciado pelo Keith Moon. A bem da verdade, temos que sacar que naquela época, meados dos anos 70, não havia muita informação e acesso ao que rolava lá fora, a não ser os bateras das bandas que emplacavam algum hit na rádio por aqui. Então, dentro desse contexto, fui fortemente influenciado pelo Carmine Appice, do Vanilla Fudge, que teve seu primeiro play lançado no Brasil naqueles tempos

Depois, lá por 68, recebi uma porrada na cachola que foi conhecer, de uma vez só e em um curto espaço de tempo, Ginger Baker, Mitch Mitchel e Jonh Bonhan. Então, posso dizer que esses foram os alicerces de meu aprendizado e minha maior influência inicial.

Na sua opinião, quem são os grandes nomes da bateria em todos os tempos, não só no rock, mas em todos os estilos?

Gene Krupa e Buddy Rich detonaram a bateria e a transformaram, assim como aos bateristas em solistas e estrelas do show bussines. Esses dois caras são fundamentais para a história da bateria, segundo minha ótica. O Joe Morello também foi muito importante ao gravar o solo de "Take Five" junto ao Dave Brubeck.

Já no rock tem dois caras fundamentais para a história desse ritmo: o Earl Palmer, que gravava com o Little Richards e outros pioneiros do rock - inclusive o John Bonhan chupou dele a introdução de "Rock and Roll", originalmente tocada na música "You Keep Knockin", do Little Richards; e o Hal Blaine, que gravou nove entre dez hits pop dos anos sessenta e foi o introdutor do uso de vários tom tons.

Continuando, segundo minha ótica, entre os grandes bateras de todos os tempos, fora os acima citados nas minhas influências, temos o Carl Palmer, Cozy Powel, Bill Bruford, Billy Cobham, Lenny White, Alphonse Mouzon, enfim, são muitos pra citar.

Aqui no Brasil, o Albino Infantozzi - que tocava rock pra caralho -; o Dartagnan do Som Beat, que era uma figuraça; o Nelson Pavão do Made foi uma grande influência em 69; o Hermínio do Loupha, que foi o primeiro batera que eu ouvi tocando com um instrumento importado, batera Gretch e pratos Zildjian, puta som; e o Dudu França que tocava no Colt 45, a primeira vez que ouvi um som de Ludwig ao vivo - simplesmente foi lindo.

Agora, minha maior influência foi um baterista anônimo chamado Toninho, com mais experiência e que morava perto de minha casa e que, gentilmente, foi até a minha casa e me ensinou minha primeira levada de rock interessante.

E atualmente, quem se destaca no instrumento?

Olha, sinceramente faz tempo que parei de procurar e ouvir a última sensação do momento. Realmente não acompanho mais o que está rolando, a não ser quando entro no YouTube e vejo um monte de caras detonando o instrumento. É muita gente tocando bem, o padrão hoje em dia está elevadíssimo, então acabo ficando com meus bateras velhinhos que acompanho já há tanto tempo e ainda não consegui assimilar tudo o que eles tem para ensinar.

Como rolou a sua entrada no Made in Brazil e como foi o período em que você esteve no grupo?

Eu já era amigo da galera do Made, desde 1968 ou 1969, não recordo ao certo, portanto nessa época ia a todos os shows deles e também frequentava os ensaios na Rua Caraíbas, na Pompéia. Depois fui morar no México e perdemos contato. Quando voltei ao Brasil montei uma banda com o Tony Medeiros, o famoso Babalú. Posteriormente ele foi tocar no Made e foi ele que me fez o convite de entrar na banda.

Foi uma época deliciosa e de muito trabalho, ademais o Made estava com uma ótima estrutura empresarial e eram contratados de uma grande gravadora. Ensaiávamos todos os dias, tocávamos todos os finais de semana e passamos um bom tempo gravando o primeiro disco da banda. Fora isso tinha todo o trampo de divulgação, então sempre estávamos indo a entrevistas, televisão e tudo mais. Acho que durante o tempo que estive no Made não tive um dia de folga, minha vida era a banda e o trabalho.


E o contato com o Arnaldo Baptista para a formação da Patrulha, como aconteceu?

Nessa época eu estava morando e tocando na Argentina, com o Aeroblus. Em uma ocasião voltei ao Brasil, pois o Pappo estava em lua de mel e o disco estava para sair. Ao chegar aqui não queria ficar sem tocar, então procurei o Kokinho para a gente fazer um som. A ideia era convidar o Luis Chagas para a guitarra, mas nesse meio tempo o Arnaldo procurou o Kokinho e ofereceu a ele o lance de tocar na Patrulha. Portanto, o Kokinho me procurou, contou a história e me ofereceu o posto de batera. Aceitei na hora por ser grande fã do Arnaldo, e acabei nem voltando para a Argentina.

O disco que vocês gravaram ao lado do Arnaldo, Faremos uma Noitada Excelente, de 1978, é venerado até hoje por uma parcela considerável de fãs. A que você acha que se deve tamanho culto?

Para falar a verdade esse disco é totalmente ‘non sense’, porque nem foi gravado para ser um disco, foi apenas a gravação de um show para termos como referência ou recordação daquele momento. Em verdade, acho que a força desse trabalho reside nas canções do Arnaldo. Era um material poderoso, canções ótimas, com boas letras e bons arranjos, que são melhor apreciadas no disco Elo Perdido, ainda que na edição original faltem quatro músicas que gravamos e não saíram no LP, mas que a galera conhece, pois estão por aí na net.

Como é típico aqui da terrinha o desleixo com a arte, esse material, que nunca foi propriamente mixado, não existe mais em 16 canais, então não é possível resgatá-lo e mixá-lo dignamente. Para vocês terem uma ideia, hoje quando ouço as canções e a gravação fico pasmo, até mais que na época, com a ignorância e falta de consideração para com esse trabalho pelos geniais produtores artísticos das gravadoras, que cagaram em cima desse trabalho tão bonito e honesto do Arnaldo e da Patrulha. Enfim, coisas do Brasil.

Mas voltando a sua pergunta, devo somente agradecer aos ouvidos e corações educados e cultos que sabem admirar e gostar desse trabalho, do qual tanto me orgulho e que me deu um enorme prazer em poder participar ao lado desse grande homem e gênio que é o Arnaldo, em uma ótima fase criativa de sua vida.


Como é o seu dia-a-dia, já que você gerencia praticamente sozinho a nave Patrulha, sendo o "faz tudo" da banda?

Pra falar a verdade é um horror, esse lance de matar um leão por dia é coisa para o Jim das Selvas. Confesso que ando bastante cansado dessa função, pois tenho que lidar com um monte de gente completamente despreparada para as inúmeras funções e tarefas do show bussines.

Então, perco um puta tempo lidando com isso que é absolutamente desgastante. Manter uma banda na ativa e na estrada é um trabalho por vezes burocrático, cansativo e estressante, com o agravante de que, ao contrário de um emprego digamos normal, você não tem horário a cumprir, o trabalho não tem hora pra começar e muito menos para terminar, são horas e horas intermináveis resolvendo os problemas inerentes ao trampo. Ademais, se você vai fazer digamos 19 shows em cidades diferentes, você tem que lidar com aproximadamente umas 30 pessoas em diferentes situações e funções, o que é deveras desgastante, um trabalho solitário e que não acaba quando você entra no ônibus da banda, ele continua em movimento continuo e estressante.

Não recomendo isso a ninguém, principalmente se o cara também é músico, pois a dictomia é enorme. Para você ter uma ideia, nessa última incursão que fizemos ao sul, agora em junho, voltei com um monte de cabelos brancos - e não é linguagem figurada, é a mais pura realidade.

Na sua opinião, qual a importância e que papel a Patrulha do Espaço teve, e ainda tem, na evolução, desenvolvimento e história do rock brasileiro?

Bom, essa é uma questão bem complicada, primeiro porque quando começamos com o Arnaldo não pensamos que estávamos começando a escrever uma página da história do rock brasileiro - e, porque não, da música brasileira. Naquele momento, o única coisa que queríamos era tocar bem as canções e fazer alguns shows onde fosse possível.

Posteriormente, quando seguimos sem o Arnaldo, também não tínhamos noção de que estávamos fazendo um verdadeiro trabalho de resistência com nosso rock bem mais pesado e cru do que rolava, pois estávamos nos estertores do rock progressivo, que praticamente dominava o mundo. Então, numa primeira instância, vejo que fomos os precursores do rock pesado no Brasil, principalmente nas apresentações ao vivo.

Outro fato significativo é que a Patrulha é a primeira banda de rock do Brasil a gravar e editar discos de forma independente, fato que não é sequer reconhecido por essa galera da Abrafin e seus festivais e movimentos, ditos independentes, então, nisso também a Patrulha tem uma importância histórica até os dias de hoje, ou seja, o fato de ser sempre uma banda outsider até mesmo para o movimento no qual a banda foi a primeira a desencadear e ser pioneira na questão.

Outro lance que acho importante é que quando a Patrulha apresentava-se em ginásios de esportes, estando totalmente fora da mídia, sempre levávamos bandas para abrir e tocar conosco, coisa que desde a tal explosão do rock Brasil, em meados dos anos 80, nenhuma banda o fez, ou por acaso alguém sabe que o Barão, Titãs, Paralamas, ou quem quer que seja, levaram bandas para abrir suas tours?

Resumindo, foram inúmeras ações de cunho e espírito estritamente rockeiro que a Patrulha realizou e realiza até hoje, e que configura uma eventual influência no movimento, mas vamos deixar bem claro que isso só é reconhecido apenas por uma minoria que realmente é rockeira de cepa e não de mentirinha. A Patrulha é algo para essa galera e não para os iluminados e poderosos sábios de plantão, que chegaram ontem mas estão instalados nas poltronas e cargos de formadores de opinião.

Ademais, e finalmente, acho que o melhor e maior legado da Patrulha seja o de só ter tido músicos bons e engajados com o rock.

Qual o seu disco preferido da Patrulha?

Não há apenas um disco preferido. Eu diria que seriam o Elo Perdido com o Arnaldo; o primeiro disco da Patrulha, conhecido como o álbum preto; o Patrulha 4; Patrulha 85; e Missão na Área 13. Sem dúvida são os mais significativos, não só pela música mas pelo momento e importância na história da banda.

Alguma previsão de novos lançamentos da Patrulha?

Sim, sempre há essa vontade e até temos algumas coisas já gravadas, mas devido ao mercado estar muito instável e difícil, não sei qual será o formato do CD, nem quando irá sair. Com certeza em 2010 deve sair algo, apesar de que a ideia no momento é focar o trabalho e recursos na produção de um DVD.

Na música atual existe alguma banda com uma relevância tão grande que irá ficar para a história, como os grupos dos anos sessenta e setenta?

Não sei se a pergunta é a nível nacional ou internacional, que são panoramas totalmente diferentes, então vou focar a nível nacional e digo que não.

Como você vê a indústria fonográfica nesses tempos de internet e MP3? Acha que tem salvação?

Que indústria? Graças a Deus a indústria fonográfica - ou seria pornográfica -, já não existe mais no Brasil e espero, sinceramente, que ela acabe de vez o mais breve possível. Esse bando de FDP que obrigaram nosso povo a retroceder culturalmente, nivelando por baixo, alienando e impondo música de baixíssimo nível para a população, criando um sistema corrupto de compra de espaço em rádios e televisão, cerceando completamente qualquer iniciativa cultural que possa fazer esse povo dormido despertar. Manipulam os corações e mentes de toda uma nação em prol de ganhar milhões, e foda-se a nação.

Viva a internet, viva o MP3, viva a democracia na música, viva a arte pela arte e a música livre desses charlatões canalhas.


Rolando, agora uma perguntinha de colecionador: quantos discos você tem?

Caro amigo, sinto se vou decepcioná-lo, mas já fui colecionador contumaz, tive uma linda e grande coleção de discos nos anos 70, discos que comprei na América, México e Argentina. Eu tinha tudo o que você possa imaginar, porém, para manter a banda funcionando, em dois momentos de minha vida vendi todos os meus discos. Mais recentemente, num momento de sufoco, até meu álbum do Aeroblus eu vendi.

Quais são, para você, os principais álbuns de rock and roll de todos os tempos?

Meet the Beatles, Revolver, Rubber Soul, Whos Next, Live at Leeds, Disraeli Gears, Eletric Layland, Led Zepelin 1 e 2, Physical Graffiti, Tarkus, Paranoid, Exile on Main Street, Band on the Run, Band of Gypsies e vários outros.

Não é bem rock, mas o álbum Spectrum, do Billy Cobham, é foda.


Voltando um pouco no tempo: como surgiu a ideia do projeto Aeroblus?

Aqui a história se repete. Quando entrei no Made eu vinha de uma viagem do México, quando fui tocar com o Arnaldo eu vinha da Argentina, e quando fui tocar no Aeroblus eu vinha de viagem dos Estados Unidos. Vendo isso agora em retrospecto, acho que eu deveria voltar a viajar mais. Então, logo depois que voltei da América, o Alejandro Medina me procurou e convidou para tocarmos junto com o Pappo e, assim, nasceu o Aeroblus.

Conte pra nós como foi a experiência de tocar ao lado do Pappo no Aeroblus. No que ele se diferenciava dos outros instrumentistas da época?

Tanto na época, como antes e depois, o grande diferencial do Pappo em relação aos outros músicos era o enorme talento e bom gosto dele nas seis cordas, ademais de ser um cara totalmente autêntico, na música e na vida. O Pappo era um guitarrista que tirava um puta som de guitarra, com um bom amplificar, uma Gibson, um cabo e mais nada.

Haver tocado com o Aeroblus foi um dos pontos altos de minha carreira. Tenho enorme orgulho e prazer em ouvir o disco que gravamos, e tínhamos outras canções muito boas em andamento que não chegaram a ser gravadas. Fizemos vários shows em Buenos Aires e ensaiávamos todos os dias, foi uma convivência muito legal mesmo e que me deu também a possibilidade de conhecer todos os grande músicos de rock da Argentina na época. Para mim, foi uma enorme conquista pessoal e musical.

E o Inox, como o grupo surgiu e qual foi a sua repercussão?

Bom, aqui eu não voltei de nenhuma viagem para isso acontecer (risos). Tudo começou porque eles precisavam de uma força para gravar uma demo e estavam sem batera, e então me procuraram. Como a Patrulha estava meio parada e eu já estava de saco cheio de empresariar a banda, acabei me envolvendo nesse projeto.

Rolando, o que você tem escutado atualmente? Alguma banda nova tem chamado a sua atenção?

Não querendo parecer alienado, mas não tenho ouvido nada novo. Ouvir o que? Radiohead, Oasis, nem sei o que tá rolando e, sinceramente, não me interessam. Infelizmente, para mim ouvir algo, seja lá o que for, existe uma condição básica de que os caras toquem bem e, a bem da verdade, tanto nas bandas gringas como nas nacionais atuais, os caras tocam mal pra caralho.

Meus padrões musicais e de bateristas são elevados, não ralei para tentar emular um Keith Moon, um Carmine Appice, pra ouvir os Marcelos Bonfás de lá e de cá tocando merda, socando a bateria e sendo elevados a potência de gênios. Sinceramente, não dá!

Como sou um produto legítimo dos anos 60 e 70, e nessa época o acesso a discos e imagens das bandas era praticamente impossível, hoje quando tenho tempo e estou a fim de curtir um som gasto meu tempo ouvindo e vendo o que não pude assistir em décadas de retrocesso e ditadura, principalmente cultural, aqui nos trópicos. Ou seja, ouço o som e vejo DVDs do passado.

Se há algo realmente de bom rolando hoje em dia, agradeço que alguém me apresente, irei ouvir com o maior prazer.

Um arrependimento e um orgulho.

Vou ser absolutamente sincero nessa resposta, inclusive porque recentemente, respondendo a uma pergunta em uma entrevista a revista Roadie Crew, minha resposta causou uma certa celeuma em alguns.

Então, se tenho um arrependimento e não é pequeno, sou obrigado a dizer isso com enorme dor interior, é o fato de não ter ido morar fora do Brasil e construir uma carreira lá fora, como dizem, ainda que o tenha feito no México e na Argentina em algum momento. Mas, sinceramente, eu deveria ter me estabelecido na América, Europa ou quem sabe no Canadá. Porque, ao contrário do que disse meu querido amigo Régis Tadeu, de quem devo discordar, não é balela o fato de que em outros países o rock e o show bussines funcionam muito melhor do que aqui. Havia e ainda deve haver um mercado de trabalho muito mais democrático e funcional. Ademais, sempre houve uma estrutura empresarial e um mercado realmente independente, estruturado, assim como rádios engajadas, com uma programação alternativa de qualidade e de verdade.

Inclusive, nesse bafafá que seguiu à minha entrevista, teve até um desavisado e desinformado total da realidade da música e do show bussines brasileiro que declarou que se o Rush fosse brasileiro teria o mesmo sucesso devido à qualidade de seu trabalho. Nunca ouvi uma besteira tão grande, porque posso garantir que se o Rush fosse brasileiro não teria acontecido absolutamente nada com eles. Que gravadora brasileira contrataria os caras nos anos 70? E se isso tivesse acontecido, eles teriam o mesmo fim que o Peso e o Som Nosso tiveram, só para citar dois exemplos. Acho que se o Rush fosse brasileiro e respeitando a cronologia deles como banda, arrisco dizer que o Neil Peart e o Alex Lifeson iam estar dando aula em alguma escola e tocando em algum buteco - cover, é claro - nos finais de semana, e o Geddy Lee ia estar acompanhado algum canário ou dupla sertaneja para sobreviver.

Então, meu maior arrependimento foi não ter emigrado quando eu era ainda jovem. Fiquei por aqui na batalha e paguei, e pago, o preço de, como dizia Rui Barbosa, "ver triunfarem as nulidades".

Quanto a um orgulho, seria o fato de ter ficado a não ter ido embora. Como dizia Torquato Neto, "ser homem é não cortar o cabelo quando a barra pesa".

Hoje em dia a galera tem o tal movimento independente, instrumentos bons em qualquer loja de qualquer cidade do país, gravar um CD e tocar no circuito de bares underground em todo país é uma realidade para a molecada que está começando, o cara tem escolas de música, livros, revistas, CDs, DVDs, pode baixar, gravar, ler e se comunicar com o mundo inteiro sentado à frente de um computador e ninguém mais vai ser preso, ou humilhado na rua, por ser diferente ou usar o cabelo comprido.

Mas nem sempre foi assim. E quando não era assim, quando apenas alguns poucos ainda acreditavam e não foram embora como tantos o fizeram e ficaram se arriscando, dando a cara pra bater e ralando na estrada por algo em que acreditavam e amavam como o rock and roll, contra tudo e contra todos, eu estava lá com esses poucos, construindo, pavimentando, com o meu suor e minhas lágrimas, junto à memoráveis e dignos companheiros de luta, na estrada por onde hoje trafegam faceiros as estrelas do rock nacional, em seus bólidos que foram abastecidos pelo jabá.

Então, arrependimento eu tenho de ter ficado, e o maior orgulho o de também ter ficado.


Valeu Rolando, paz pra você e saiba que, ainda que a Patrulha nunca tenha tido um estouro comercial gigantesco, você possui aquilo que muitos músicos lutam a vida inteira pra conseguir e apenas poucos alcançam: credibilidade e respeito, tanto dos fãs como de seus colegas. Abração e obrigado por conceder essa entrevista para a Collector´s Room.

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