20/11/2009

Colírio: Eric Clapton & Steve Winwood - Live From Madison Square Garden Box 3LP Limited Edition (2009)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Para babar um pouco! Colecionador abrindo o box limitado com 3 LPs de 180 gramas do recente álbum ao vivo lançado por Eric Clapton e Steve Winwood.

Separe o babador e chame o seu cardiologista porque as cenas são fortes!


Discos Fundamentais: Dom Salvador & Abolição - Som, Sangue e Raça (1971)


Por Tárik de Souza
Jornalista

Este não é apenas um disco seminal, recuperado pelo trabalho meticuloso do titã pesquisador Charles Gavin. É um estuário. Todos os rios negros que formaram o funk/hip hop nativo confluem para ele.

Comandado pelo pianista paulista Salvador Silva Filho, o Dom Salvador, Som, Sangue e Raça, de 1971, um ano depois da explosão de Tim Maia, cataliza a formação bossa nova e jazz do líder com rhythm & blues de integrantes como o saxofonista Oberdã Magalhães, sobrinho do mestre do samba enredo Silas de Oliveira e futuro líder da Banda Black Rio, que desde o grupo Impacto 8 já vinha tentando agregar MPB com Stevie Wonder e James Brown. Entram ainda na mistura samba, sotaque nordestino e até o lado negro gato da Jovem Guarda, representado pela presença autoral de Getúlio Cortes (irmão do posterior Gerson King Combo, o nosso James Brown cover) em "Hei Você!", uma das faixas mais destacadas.

Além destes elementos e da presença de Rubão Sabino (baixo) - que ainda se assinava Rubens -, do baterista Luis Carlos (outro que integraria a Black Rio), o disco arregimenta o trompete e flugelhorn do músico de sinfônica Darcy no lugar do original Barrosinho (mais um fundador da Black Rio), que estava excursionando durante a gravação mas seria o titular da banda.

Egresso do Beco das Garrafas e a caminho dos EUA, para onde se mudaria em definitivo ainda nos 70, Dom Salvador liderou o Copa Trio ao lado do baixista Gusmão e do batera Dom Um Romão. O grupo serviria de suporte para as decolagens de Elis Regina e Jorge Ben (antes do Jor), entre outros. Formou também o Rio 65 Trio com o baterista Edison Machado. O noneto Abolição (aí incluído o vocal de sua esposa, Mariá) foi uma saída para o desgastado formato trio da bossa nova.

E não só. Cada faixa de Som, Sangue e Raça é diferente da anterior por conta de um cuidadoso trabalho de fusão de elementos sonoros até contraditórios, como o pique folk de retreta de "Folia de Reis" moldado em acordeon, sopros (até tu, tuba?) e uma intrusa cuíca. "Moeda, Reza e Cor" tem um encadeamento de sopros que lembra os arranjos de Gil Evans para Miles Davis, mas logo desagua num solo de piano funkiado pelo baixo elétrico. "Samba do Malandrinho" levado pianinho (no elétrico digitar de Dom Salvador) remete para a bossa nova com direito a improvisos jazzísticos.

Já "Tio Macrô", repleto de reviradas de sopro e contraritmo sustentado por baixo, engata num samba funk. Intercalando grandiloquência e balanço, "Uma Vida" abre com declamação e uma longa introdução pianística, depois picotada pelos sopros. E tome funk na veia, como nas instrumentais "Guanabara" e "Number One".

O piano elétrico alicerça "O Rio", um funk andante que desata em samba de escola com direito a apitos. Também a construção de sopros funkiados da faixa título acaba num samba, movido à cuíca. Com acordeon e costura acústica, "Tema pro Gaguinho" lembra o choro dos regionais, só que devidamente turbinado. "Hey! Você" (belíssima a condução de sopros) combina R&B com um ritmo de baião que antecipa a fusão de Burt Bacharach. A tamborilada "Evo" emoldura um funk afro com cuíca e coro.

A riqueza das combinações torna o resultado muito acima da média do pop ralo das FMs, o que talvez explique o fato de o disco não ter estourado a despeito de tantos ganchos no recheio. Agora em CD remasterizado haveria até uma nova chance, se a situação não tivesse mudado. Para pior.


Faixas:
1 Uma Vida 2:47
2 Guanabara 3:11
3 Hei! Você 2:33
4 Som, Sangue e Raça 3:15
5 Tema Pro Gaguinho 2:28
6 O Rio 3:59
7 Evo 3:05
8 Number One 3:41
9 Folia de Reis 2:28
10 Moeda, Reza e Cor 3:21
11 Samba do Maladrinho 2:25
12 Tio Macrô 2:15



Histórias Perdidas do Rock Brasileiro: Vol 1


Por Ricardo Schott
Jornalista
Jornal do Brasil

Nos anos 60, o rock nacional parecia ter três vias, que às vezes se cruzavam em camarins de shows. A mais visível era a das bandas jovemguardistas, como Renato & Seus Blue Caps e Os Incríveis, onipresentes na televisão e no coração do povo. No meio, havia os Mutantes, banda com prestígio inabalável e vendagem razoável. A vertente que funcionava como pano de fundo no período é a que interessa ao pesquisador carioca Nelio Rodrigues, autor do recém-lançado livro
Histórias Perdidas do Rock Brasileiro: Vol 1.

Rodrigues, também autor de
Os Rolling Stones no Brasil e co-autor de Sexo, Drogas e Rolling Stones, ao lado do jornalista José Emílio Rondeau, prefere focar-se em bandas pouco conhecidas do Rio, como Os Selvagens, Analfabitles, Red Snakes, Faia, The Bubbles (que depois viraria A Bolha), Equipe Mercado, Karma e Módulo 1000, que ajudaram a pavimentar alguns dos primeiros cenários subterrâneos do rock nacional.

"
Foram bandas como Bubbles e Analfabitles que criaram a noção de um som da pesada mesmo, com a aparelhagem na frente do palco, impondo respeito. As bandas da Jovem Guarda usavam equipamentos pífios. Eram guitarras e amplificadores ruins. Os grupos novos até emprestavam equipamento para elas. Conjuntos como The Bubbles já tinham uma preocupação com iluminação e cenário que essas bandas mais populares não tinham", relata Rodeigues.

Entre os fatores que contavam para que tais bandas estivessem na frente, diz Rodrigues, era o interesse por informações novas, que eram conseguidas economizando mesadas para comprar revistas e discos importados. "
Em 1967 uma banda americana veio tocar aqui e trouxe um equipamento para light show, que fazia aquela iluminação psicodélica que chamavam de luz bolha", recorda. Grupos como o Soma e The Bubbles compraram essa máquina. Eram essas bandas que tinham acesso a esse tipo de informação.

Além do interesse por novidades, a ousadia contava, e muito. Eram formações afastadas do iê-iê-iê que tocava no rádio e geralmente contratadas de heróicos selos independentes, como o Top Tape, que lançou a estreia acid rock do Módulo 1000,
Não Fale com Paredes, de 1970, hoje reeditada até na Europa; e o inacreditável Orange, uma releitura cabocla da Apple dos Beatles, que chegou a lançar compactos do The Cougars e de Serguei, o que as ajudava a ganhar liberdade para ousar no palco e no estúdio.

"
Num show do Sound Factory, uma menina simplesmente tirou a camisa perto do palco e começou a dançar. Já os Selvagens conseguiram se apresentar num festival no Pavilhão de São Cristóvão para o qual não estavam programados. Foram lá com os equipamentos e se enfiaram no palco, sem pedir licença. Acabaram tocando. Nas apresentações do Módulo 1000, a banda falava para o público se sentar, porque o som viria do chão", relata Rodrigues.

De tanto insistir, algumas bandas até arrombavam as portas do primeiro time do pop a seu modo. Foi o caso do Faia, que teve como baterista Luiz Moreno (que depois tocaria n'O Terço), acompanhou Zé Rodrix na primeira gravação de "Casa no Campo", em 1971, e foi levado por Raul Seixas para testes na Philips, hoje Universal. Ou o Red Snakes, grupo do Grajaú que lançou em 1969 o LP
Trying to be Someone, repleto de composições próprias, pelo selo Equipe, e acabou abrindo vários shows para Wilson Simonal.

"
Também fazíamos muita coisa com a Gal Costa e com Antonio Adolfo e a Brazuca", recorda o vocalista Alvaro Rodrigues, que hoje, ainda envolvido com música, atende pelo nome de Mattuzalém e conduz projetos ligados ao rockabilly pela noite carioca. "Fazer rock era uma barra pesada. Arrumar equipamento era difícil. Lembro que conseguíamos alguns com um coroa que era a cara do Sherlock Holmes".

As drogas também fazem parte do livro, e surgem em histórias como a da banda Karma, um dos raros exemplos de grupo de rock a gravar disco por uma multinacional (em 1972, pela RCA, atual Sony Music). O guitarrista do grupo passou a sofrer sequelas pelo uso de LSD, como explica Rodrigues. O lado anedótico do uso das substâncias ilícitas fica com a banda The Bubbles. "
Eram os doidões da época. Quando eles subiam no palco, jogavam baganas (restos de cigarros de maconha) para eles. Os músicos fumavam embaixo do palco e ficava um roadie com um spray disfarçando o cheiro", relata.

Aos 57 anos, nascido em Recife mas criado na Zona Sul carioca, Nelio Rodrigues começou a se interessar por rock desde cedo, mas, biólogo de formação, só abraçou a pesquisa e as letras há menos de 10 anos, quando foi convidado pela editora Ampersand para escrever o livro
Os Rolling Stones no Brasil. Para o livro novo, além de escrever material inédito, resgatou textos seus que estavam no webzine Senhor F, do jornalista Fernando Rosa, e na revista de rock clássico Poeira Zine.

"
O rock como fenômeno de massas é atrasado no Brasil. Só passou a ganhar mídia nos anos 80. Antes era uma vida de guerreiro, tanto que muitos desistiam e iam estudar", lembra Rodrigues, que promete no segundo volume das Histórias Perdidas biografias de bandas como Os Lobos, Vímana e Veludo. "Mas é uma pena que, mesmo quando se fala dos anos 60 e 70, só exista espaço para Rita Lee, Raul Seixas, Mutantes. Muitos discos dessa época são melhores do que Raulzito e os Panteras, estreia do Raul Seixas (1967), por exemplo".


Wanda Jackson, a mulher vulcão


Por Maurício Rigotto
Colecionador e Escritor
Collector´s Room

Que nome lhe vem à cabeça quando você ouve o surrado termo "rei do rock’n’roll"? Provavelmente Elvis Presley seja o mais lembrado, mas muitos citarão Chuck Berry, o criador dos maiores clássicos do gênero em seus primórdios, ou Jerry Lee Lewis, ou até mesmo Little Richard.

Elvis foi quem mais obteve fama e notoriedade, por ser um grande cantor e por abusar de seu carisma e sex appeal. Chuck Berry não teve o mesmo sucesso, ao menos não na mesma proporção, principalmente por ser negro em uma época em que a segregação racial era enorme. Havia "música de negros" e "música de brancos", rádios só para negros e rádios para brancos. Chuck Berry e Jerry Lee Lewis brigavam como crianças colegiais pelo título, quase chegando as vias de fato em várias ocasiões, por cada um reivindicar para si a alcunha de "rei".

O nome do monarca está longe de ser uma unanimidade, mas o da rainha está muito bem definido. Wanda Jackson é a rainha do rock’n’roll e do rockabilly há praticamente meio século. Nascida em 1937, Wanda iniciou sua carreira ainda na adolescência, quando chamou a atenção do cantor country Hank Thompson, que a incentivou a gravar com a sua banda, os Brazos Valley Boys. Em 1956, Wanda começou a namorar com o astro Elvis Presley, que a incentivou a deixar o country de lado e a gravar rock’n’roll e rockabilly.

Wanda abandonou as camisas xadrez, botas e chapéu country e adotou uma visual mais sexy, com saias plissadas costuradas por sua mãe. Uma mulher tocando guitarra e liderando uma banda de rock chocou os conservadores no final dos anos cinquenta. Seus primeiros discos, Wanda Jackson (1958), Rockin’ with Wanda (1960) e There’s a Party Goin’ On (1961) lhe trouxeram vários hits, como "Let’s Have a Party", "Right or Wrong” e "Fujiyama Mama", sobre uma mulher que se compara ao vulcão japonês quando entra em erupção. Além de compor grande parte de seu repertório, Wanda Jackson também gravou vários covers sensacionais de Chuck Berry, Little Richard, Carl Perkins e Charlie Rich.

O sucesso lhe rendeu o título de Rainha do Rockabilly, gênero que mistura rock’n’roll com hillbilly, uma mistura acelerada de country, blues, folk e swing que estava surgindo e que Wanda ajudou a solidificar.

Nos anos sessenta Wanda voltou-se novamente para a country music, gravando rock’n’roll ocasionalmente. Convertida ao cristianismo, passou a gravar álbuns gospel, alternando baladas country e música religiosa. Manteve a popularidade durante a década, até ser dispensada em 1973 pela gravadora Capitol, justamente por insistir em lançar álbuns religiosos. No ostracismo, continuou lançando discos e fazendo shows, até voltar aos poucos a gravar rock, como em seu álbum de 1984, Rock’n’Roll Away Your Blues.

Em 2000 foi lançada a ótima coletânea Queen of Rockabilly, com trinta faixas que englobam o seu período mais fértil. O resultado é um apanhado de maravilhosos petardos do rock’n’roll que demonstram todo o poder da soberana do rock. Seus últimos registros em estúdio foram os discos Heart Trouble, de 2003, que traz a participação de Elvis Costello e da banda The Cramps; e I Remember Elvis, um tributo ao antigo amigo e namorado.

Em 2009, Wanda Jackson foi introduzida ao Rock’n’Roll Hall of Fame em sua 24° edição, na categoria “Primeiras Influências”. Como o Metallica foi introduzido nesta mesma noite, a mídia que cobriu o evento quase nem reparou nela, mas Wanda voltou a lotar casas de shows e viu, impressionada, seu público aumentar consideravelmente no último ano. O recrudescimento de sua popularidade após o Hall of Fame já lhe rendeu uma turnê de duas semanas pela Europa, shows no Japão e uma apresentação no beneficente
Woody Guthrie Folk Festival.

Na semana passada, Jack White (White Stripes/Raconteurs/Dead Weather) anunciou que está produzindo o novo disco de Wanda Jackson. Aos 72 anos, sua majestade, a rainha do rock’n’roll e do rockabilly, está viva e na ativa.

God Save the Queen!


AC/DC além do óbvio


Por Vitor Bemvindo
Colecionador e Historiador

Na era da informação, da internet e da música digital, é cada vez mais difícil falar em raridades. Com poucos cliques é possível conseguir quase qualquer faixa já lançada no mercado musical, muitas vezes sem precisar ter que desembolsar um só centavo. O mercado fonográfico está se polarizando, cada vez mais, entre lançamentos digitais e edições para colecionadores. O AC/DC é uma das bandas mais pródigas em itens para colecionadores, o que proporciona também algumas jóias musicais perdidas nas prateleiras de alguns privilegiados.

Um dos motivos do AC/DC ter tanto material pouco conhecido pelo grande público é a duplicidade dos lançamentos feitos pelo grupo. Como todos sabem, a banda se formou na Austrália, onde estouraram e lançaram seus primeiros trabalhos. Conforme o grupo passou a conquistar espaço no mercado europeu e norte-americano, seus trabalhos foram relançados, muitas vezes de forma bem diferente das versões originais australianas.

Esses lançamentos australianos, por sinal, são objetos de desejo dos admiradores, e chegam a ter preços exorbitantes no mercado de colecionadores, principalmente quando são originais da época, em vinil. Antes de estourar internacionalmente, o AC/DC lançou dois álbuns exclusivamente no seu país de origem, pela Albert Productions -
High Voltage e T.N.T., ambos de 1975.

Após assinar com a Atlantic Records, o grupo lançou internacionalmente um novo disco, homônimo ao seu primeiro lançamento australiano, que na verdade é uma compilação dos dois trabalhos anteriores. Por conta disso, algumas das faixas desses discos não ficaram muito conhecidas, como, por exemplo, "Stick Around" e "Love Song" (provavelmente a única balada gravada pelo AC/DC), do
High Voltage australiano, e a versão de "School Days", de Chuck Berry, que saiu no T.N.T.

Outro aspecto apreciado pelos colecionadores são as diferentes artes das capas dos lançamentos. High Voltage, por exemplo, saiu com três capas diferentes: a original australiana; uma segunda na versão original européia, lançada em 1976; e a mais conhecida internacionalmente.

Capa original de High Voltage australiana, de 1975

Capa do lançamento europeu de High Voltage, de 1976

Capa mais conhecida de High Voltage, lançada internacionalmente

O primeiro single lançado pelo AC/DC

Uma curiosidade sobre
T.N.T. é que, apesar de ser o segundo álbum do grupo, há entre as faixas do disco uma das primeiras composições da banda, "Can I Sit Next to You Girl", lançada como lado B do primeiro single do AC/DC, ainda com o vocalista original, Dave Evans. O single, de 1974, é uma verdadeira raridade, que traz no lado A a faixa "Rockin' in the Parlour". A canção em questão é bem diferente do estilo que a banda adotaria a partir 1975. A versão de "Can I Sit Next to You Girl" que vem em T.N.T. já é uma regravação, com vocais de Bon Scott.

A bela capa da versao australiana de Dirty Deed Done Dirt Cheap

O segundo lançamento internacional do AC/DC, Dirty Deeds Done Dirt Cheap, também teve sua versão australiana, que saiu alguns meses antes, com uma capa diferente e com algumas faixas distintas. Entre as canções que só saíram na terra dos cangurus está o excelente blues rock "R.I.P. (Rock in Peace)" e o clássico "Jailbreak", que já havia sido lançado como single em 1974. As versões da faixa-título e de "Ain't No Fun (Waiting Round to Be a Millionaire)" lançadas internacionalmente foram editadas em relação às originais e tem durações menores. Em compensação, a versão internacional de Dirty Deeds Done Dirt Cheap veio com uma faixa que na Austrália só saiu como single, "Love at First Feel".

A capa australiana de Let There Be Rock

Em 1977,
Let There Be Rock foi lançado em março na Austrália e em junho no resto do mundo. Mais uma vez os dois lançamentos tiveram diferenças marcantes. A mais visível está na capa, mas as faixas estão em ordens diferentes e na versão australiana há "Crabsody in Blue" no lugar de "Problem Child", que na Oceania já havia sido lançado no álbum anterior.

A partir de 1978 os lançamentos do AC/DC passaram ter suas versões originais lançadas em outras partes do planeta. A versão norte-americana de
Powerage é idêntica à australiana. Na Europa, no entanto, o disco saiu com uma faixa a mais: "Cold Hearted Man", que recentemente saiu na caixa Backtracks. A arte da capa saiu idêntica em todo o mundo.

Capa australiana de Highway to Hell

O último disco da banda com os vocais de Bon Scott foi o primeiro a ser lançado simultaneamente em todo o planeta e com as mesmas faixas. A arte da capa australiana, contudo, tem algumas diferenças. O álbum, no entanto, marcou a internacionalização definitiva do grupo. A partir de
Highway to Hell o AC/DC se tornou uma banda do mundo.

O ótimo box Bonfire

Algumas gravações raras da banda saíram na caixa-tributo a Bon Scott, lançada como
Bonfire, em 1997. O box traz gravações ao vivo da banda nos estúdios da Atlantic Records, em Nova York, em 1977, e no Pavillon de Paris, em 1979. Além de uma versão remasterizada de Back in Black (disco lançado como um tributo a Bon Scott), a caixinha traz um CD recheado de raridades. Esse disco foi intitulado Volts e traz, entre muitas outras coisas, a versão original de "Whole Lotta Rosie", que se chamava "Dirty Eyes", que tinha letra e até a harmonia bem diferentes da faixa que viria ser um clássico do AC/DC. Da versão original só se aproveitou, basicamente, o riff.

O disco de raridades Volts

Volts traz, ainda, versões alternativas para "Touch Too Much" e "If You Want Blood You Got It" e "Get It Hot", além da versão original de "Beatin' Around the Bush", que anteriormente se chamou "Back Seat Confidential".

Quer ouvir algumas dessas raridades e outras músicas esquecidas pela banda e pelos fãs? Acesse o site do MOFODEU, o orograma que tira o MOFO do ROCK, e ouça o podcast número 74:
AC/DC Além do Óbvio. Ao invés de ficar ouvindo sempre as mesmas canções da banda, conhece algumas pérolas perdidas em www.mofodeu.com


Discoteca Básica Bizz#210: No New York (1978)


(André Barcinski, Bizz#210, fevereiro de 2007)

Abra qualquer enciclopédia no verbete "punk" e a definição será quase sempre a mesma: "
Punk foi um movimento radical, nascido em meados dos anos 70, que se insurgiu contra a caretice do rock corporativo e abriu novos caminhos sonoros para toda uma geração". O que poucos lembram é que, já em 1976, havia gente questionando a caretice do próprio punk. Para essa turma, as jaquetas de couro dos Ramones representavam uma melancólica viagem de volta aos anos 50, e os riffs dos Sex Pistols eram apenas Chuck Berry em 45 rpm.

O epicentro dessa turma de inconformados era o "lower east side" (sudeste) de Manhattan, em Nova York, um bairro abjeto, tomado por
squats e prédios abandonados, para onde migraram artistas plásticos, músicos, escritores, atores, traficantes e perdidos em geral.

Quem também estava em Nova York na época era Brian Eno, ex-Roxy Music. Uma das mentes mais brilhantes e visionárias da música pop, Eno acabara de produzir um LP do Talking Heads, mas ficou tão impressionado com a riqueza da cena musical nova-iorquina que acabou estendendo sua visita por quase um ano. Os clubes da cidade fervilhavam de jazz, world music, calypso, discoteca, funk e música de vanguarda, e tudo isso se refletia na cena alternativa do lower east side, formada na maioria por jovens com pouco ou nenhum treinamento musical, muitos vindos de escolas de arte, cinema ou teatro.

Inspirado pelo que estava vendo e ouvindo, Eno decidiu produzir um LP com as melhores bandas locais. O resultado foi No New York, lançado em 1978. O disco reúne quatro bandas - James Chance and the Contortions, Teenage Jesus and the Jerks, Mars e DNA -, que contribuíram com quatro faixas cada uma.

Das quatro, a mais "comercial" - se é que dá para usar esse termo - era James Chance and the Contortions. Chance era um bom saxofonista, que havia estudado em conservatórios e idolatrava Charlie Parker, Ornette Coleman, James Brown e Sun Ra. Ele tinha carisma de sobra e fama de maluco. No palco, enquanto soprava seu sax em riffs punks, simulava ataques esquizofrênicos e, não raro, atacava o próprio público.

Outra figura essencial da cena no wave era Lydia Lunch. Cantora, poetisa, artista plástica, escritora e atriz, Lydia comandava a Teenage Jesus and the Jerks. Imagine PJ Harvey cantando hardcore, e você começa a ter uma ideia do som da banda. As letras de Lydia exploravam clichês de niilismo e desesperança: "As folhas estão sempre mortas / as portas estão sempre fechadas / o lixo grita a meus pés / Eu quero estar sozinha!", ela urra em "Burning Rubber", uma das melhores faixas de No New York.

Chegamos então ao Mars, o quarteto liderado pelo guitarrista e vocalista Sumner Crane. Ouvir o Mars não é tarefa fácil, embora as recompensas sejam muitas. A banda faz um som lento, quase se arrastando. Lembra uma espécie de tortura proto-industrial, com guitarras simulando efeitos eletrônicos e barulhos inclassificáveis. O Mars serviu de inspiração a grupos como Swans e o Ministry (Paul Barker era grande fã).

No New York termina com o DNA, um trio liderado por Arto Lindsay, um americano de coração brasileiro, fã de tropicália, que passou anos no Brasil com os pais, missionários. A música do DNA buscava um minimalismo extremo, com guitarras esparsas e vocais às vezes gritados, outras vezes sussurrados. O cultuado crítico Lester Bangs certa vez descreveu o som da banda como "um barulho pavoroso".

Mais que um grande disco,
No New York representava um estado de espírito. Nenhuma das bandas veio a ter uma carreira de sucesso, mas seu inconformismo e sua busca pelo novo inspiraram muita gente. Ecos da no wave podem ser ouvidos em Sonic Youth, Flaming Lips, Swans, e até mesmo em grupos mais novos como LCD Soundsystem, Rapture e TV on the Radio.


Faixas:
A1 Contortions - Dish It Out 3:17
A2 Contortions - Flip Your Face 3:13
A3 Contortions - Jaded 3:49
A4 Contortions - I Can't Stand Myself 4:52
A5 Teenage Jesus and The Jerks - Burning Rubber 1:45
A6 Teenage Jesus and The Jerks - The Closet 3:53
A7 Teenage Jesus and The Jerks - Red Alert 0:34
A8 Teenage Jesus and The Jerks - I Woke Up 3:10

B1 Mars - Helen Fordsdale 2:30
B2 Mars - Hairwaves 3:43
B3 Mars - Tunnel 2:41
B4 Mars - Puerto Rican Ghost 1:08
B5 D.N.A. - Egomaniac's Kiss 2:11
B6 D.N.A. - Lionel 2:07
B7 D.N.A. - Not Moving 2:40
B8 D.N.A. - Size 2:13


19/11/2009

Filmes sobre Música: Durval Discos (2002)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Durval Discos é um ótimo exemplo de um filme que tinha tudo para ser muito interessante, mas que se revela um exercício estilístico sem pé nem cabeça, que joga no lixo uma ideia que tinha tudo para dar muito certo.

Vendido como uma espécie de Alta Fidelidade tupiniquim (uma alusão ao ótimo filme do diretor inglês Stephen Frears, baseado no livro homônimo de Nick Hornby), Durval Discos conta a história do simpático Durval, um bolha paulistano padrão, dono de uma loja de discos usados, colecionador e amante dos LPs, e que, como não poderia deixar de ser, mora com a mãe.


O problema é que o roteiro da também diretora Anna Muylaert escorrega ladeira abaixo em clichês pseudo-intelectuais, com a história caminhando para um caminho teoricamente insólito a partir do momento em que a diretora/roteirista decide, equivocadamente, inserir uma menina sequestrada na vida de Durval e sua mãe. A partir daí o filme tenta entrar em uma espécie de realismo fantástico que, na verdade, soa constrangedor, tanto pela sequência de cenas absurdas tanto pelo modo como elas são contadas.

Não há problema algum em trilhar esse caminho, desde que você saiba onde está pisando. E Anna Muylaert dá provas, frame após frame, que não faz a menor ideia por onde anda. Adoro o realismo fantástico, tanto que tenho o livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, como uma das minhas obras favoritas de todos os tempos, mas é inegável que, na ânsia de tentar fazer um filme diferenciado, Muylaert escorregou feio nos clichês cinematográficos brasileiros, que durante décadas dominaram a produção nacional e apenas recentemente, com obras-primas como Cidade de Deus, passaram a ser superados e devidamente ignorados.


Durval Discos tinha tudo para ser uma pequena jóia, uma história cativante de um colecionador e sua relação com seus discos. Ao invés disso, revela-se um filme sem pé nem cabeça, com um roteiro tão bobo que não emplacaria nem uma modesta novela das sete.

Pelo menos a trilha sonora se salva, com várias canções emblemáticas da música brasileira dos anos setenta, como "Mestre Jonas" com Sá Rodrix e Guarabyra, "Maracatu Atômico" e "Back in Bahia" com Gilberto Gil, "Ovelha Negra" com Rita Lee, "Besta é Tu" com Os Novos Baianos e "Xica da Silva" com Jorge Ben, entre outras.

A trilha é maravilhosa, mas o filme é uma verdadeira bomba. Infelizmente, esse é o resultado final de
Durval Discos, o que é uma pena.


Tracklist da trilha de Durval Discos:

1. Mestre Jonas - Os Mulheres Negras

2. Que Maravilha - Jorge Ben

3. Maracatu Atômico - Gilberto Gil

4. Madalena - Elis Regina

5. Irene - Caetano Veloso

6. Ovelha Negra - Rita Lee

7. Back in Bahia - Gilberto Gil

8. Alfômega - Caetano Veloso

9. Besta é Tu - Novos Baianos

10. Xica da Silva - Jorge Ben

11. London, London - Gal Costa

12. Pérola Negra - Luiz Melodia

13. Mestre Jonas - Sá, Rodrix e Guarabyra

Leia também: Filmes sobre Música: Alta Fidelidade (2000)


Discoteca Básica Bizz#209: Grateful Dead - American Beauty (1970)


(Ricardo Alexandre, Bizz#209, janeiro de 2007)

Numa dessas distorções de percepção histórica (não muito difíceis de explicar), o Grateful Dead virou uma espécie de piada riponga, de shows masturbatórios sem fim, de fãs ridículos e obcecados em suas camisetas
tie-dye apertando as panças, de figuras folclóricas e abobalhadas como Jerry Garcia e Pigpen, da casa vitoriana que virou comuna hippie em Haight Ashbury e da absoluta falta de conexão disso tudo com o mundo real. Bem, não sou eu que vou te convencer do contrário em parcos 3 mil caracteres, mas vale o registro de que, num intrincado casamento de casualidades, esse sexteto californiano perpetrou um dos mais belos, sensíveis e subestimados clássicos do rock dos anos 60, American Beauty.

Era o sexto disco da banda em três anos, no buraco que se abriu entre a fase de espanto causado por aquela draga psicodélica que misturava rhythm'n'blues e country com dodecafonia e aditivos variados nos acid tests da vida (1967/1970), e a fase de caricatura "toca Raul", que durou até o fim da banda, em 1995.

O negócio é que, logo no início, o Dead subverteu a regra de trabalho da época, que era centrada na gravação de discos. O forte do grupo eram os shows - dá pra ver pela discografia inicial, que coalhava álbuns ao vivo eletrizantes com discos de estúdio frustrantes. O executivo da Warner Records, Joe Smith, lembra, apavorado, que os músicos "ficavam chapados um tempão, vivendo num mundo de fantasia procurando sons impossíveis" durante as gravações.

Não é de espantar que a mitologia da banda em cima do palco crescesse proporcionalmente a seu descontentamento em estúdio (dessa fase, entretanto, vá sem medo ao assustador e complicado Anthem of the Sun, de 1968). Acontece que a mesma mitologia lisérgica e desregrada que a banda ajudou a cristalizar chegava à década de 70 retorcida, fraturada, doente, ressentida. A tragédia de Altamont já havia virado a página da era dos festivais, Jimi e Janis já estavam mortos e, afinal, o "palácio da sabedoria" encontrado ao final do caminho do excesso não era lá tão deslumbrante assim. Bob Dylan e a The Band desmontaram a fase da psicodelia gritante multicor na base da simplicidade e doçura - dando o norte para Crosby, Stills & Nash, os Byrds de Gram Parsons, Neil Young, James Taylor, os Beatles do Álbum Branco, etc.

Sentados num contrato de nove (!) discos e liberdade absoluta no estúdio, o Dead estava longe de honrar as expectativas da Warner (não à toa, American Beauty foi seu último disco de estúdio pela multinacional). No meio da trajetória esquisitona e de um ambiente revolto no pop planetário, a banda também vivia uma fase de amadurecimento forçado. O pai do baixista Phil Leash havia morrido recentemente e a mãe do guitarrista Jerry Garcia estava agonizando depois de um acidente de carro. Ao mesmo tempo, o tecladista Tom Constanten deixara o grupo e o percussionista Pigpen entrava na reta final de sua humilhante briga contra o alcoolismo, perdida em março de 1973.

Esse clima de prostração e reconhecimento seria sentido em cada acorde de
American Beauty. O guitarrista Bob Weir lembra disso como "tirar as roupas de astronauta e voltar à Terra vestindo jardineiras". Há muito de fixações espirituais emolduradas por violões, banjos e letras que falam de morte e passagem do tempo. Às vezes quase religioso ("Há uma fonte que não foi feita por mãos de homens", em "Ripple"), às vezes raivoso ("Candyman"), às vezes buscando a simples transcendência, ("Quando não havia ouvido algum para ouvir, você cantou para mim", em "Attics of My Life"), o disco possui harmonias vocais que derramam uma beleza plácida que caminha entre folk, rhythm'n'blues, country, southern gospel, bluegrass e pop americano. Nada de solos, experimentos, ruídos lisérgicos, papos surrealistas. Apenas maravilhosas canções em arranjos acústicos e o choque entre o sonho e a realidade - note como "american beauty", na capa do disco, pode ser lido como "american reality" também.

Não demorou muito o Dead estaria de volta às turnês monstruosas e aos shows de seis horas, dando munição aos preconceituosos. De tal forma que nem a recente onda alt country ajudou a sagrar American Beauty como um dos álbuns básicos da virada dos anos 60 para os 70.

Surpreenda-se, então.


Faixas:
A1 Box of Rain 5:16
A2 Friend of the Devil 3:20
A3 Sugar Magnolia 3:15
A4 Operator 2:21
A5 Candyman 6:12

B1 Ripple 4:10
B2 Brokedown Palace 4:18
B3 Till the Morning Comes 3:13
B4 Attics of My Life 5:09
B5 Truckin' 5:09


18/11/2009

Bandas de Um Disco Só: Highway Robbery - For Love or Money (1972)


Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Apresentador do programa Estação Rádio Espacial


A Banda

Insatisfeito com seu grupo, o Boston Tea Party (nome de uma casa noturna famosa em Boston no circuito psicodélico e de um curioso fato da história da colonização inglesa nos EUA), e analisando os novos rumos que as bandas estavam tomando no começo dos anos 70, o guitarrista Michael Stevens resolveu apostar suas fichas numa nova ideia: iniciar um power trio para tocar um som pesado.

O Grand Funk Railroad estava na crista da onda nos EUA e tocar rock no último volume também era o quente no outro lado do Atlântico. Para a empreitada, apareceram na história o baterista Don Francisco, nova-iorquino, que estivera na Califórnia envolvido com as bandas Atlee e Crowfoot; e o baixista John Livingston Tunison, que estava envolvido com um obscuro grupo chamado Manitoba Hugger.


Stevens tinha diversas composições prontas e o material que a banda estava trabalhando chamou a atenção dos empresários Robert Cavallo e Joseph Rufallo, que já tinham trabalhado com nomes como o Little Feat e o Weather Report. O grupo estava suportando Maurice White (famoso depois pelo Earth, Wind & Fire), que ajudou a promovê-los para a dupla de empresários, impressionando com a performance do pessoal. Rapidamente, os dois empresários os colocaram em contato com Bill Halverson (que já tinha trabalhado com Delaney & Bonney, Eric Clapton e CSN&Y), que topou produzir o disco do já batizado Highway Robbery, e um contrato foi assinado com a RCA Victor (selo responsável por lançamentos de Jefferson Airplane, Guess Who e David Bowie, entre outros).

Não dispondo de todos os melhores recursos de estúdio, a banda gravou rapidamente o disco For Love or Money em 1972. A RCA também providenciou como compacto as faixas "All I Need to Have is You" e "Mistery Rider". O compacto não emplacou e o disco vendeu muito pouco. Em 1973 os músicos debandaram, desiludidos pela má aceitação e pela dispensa da RCA. Pouco se sabe dos reais motivos das baixas vendas e dos concertos que a banda fez para promover o álbum. No mínimo duas músicas tinham alto potencial comercial (e uma inegável qualidade de composição) – a baladinha "All I Need to Have is You" e "Bells", uma canção com um clima mais suave e estradeiro.

Depois do desmanche do Highway Robbery, Don Francisco tocou com o ex-Beau Brumells Ron Elliot e com a banda que acompanhava Linda Ronstadt. Depois entrou para o grupo Pan e formou o Big Wha-Koo com David Palmer, que tinha sido vocalista nos primeiros anos de estrada do Steely Dan. John Tunison se firmou nos bastidores como produtor e músico de estúdio, e sobre os rumos de Michael Stevens sabe-se muito pouco após a experiência com a banda.

O Disco


For Love or Money, gestado todo em cima das composições e letras de Michael Stevens, é um primor do som pesado dos anos 70, emissão de um rock com altos níveis de energia. Saltam dos alto-falantes camadas sonoras de pura pulsação, equalizadas em vibrações viscerais. Riffs extasiados deslizam no braço da guitarra, embalados por uma vigorosa cadência dos acompanhamentos.

"Fifteen" tem uma martelação percussiva e uma agressividade embasbacante na guitarra; em "Lazy Woman" e "Promotion Man" há uma explosão de sons saturados e ardidos, disparatos no vigor da puberdade do rock. Blues, no que você se transformou?

Um crescente melidronso e soturno, antecendo riffs dobrados de baixo-guitarra com toda a malícia e eloquência do hard do começo dos anos 70, é o que há em "I’ll Do It All Again". Tudo na encantadora receita de guitarras solando desbaratinadamente, baixo respondendo com força e percussão esmurrada com técnica, porém sem dó.

No lugar de todo o malabarismo na guitarra, para extrair as mais pesadas combinações de som, entram, de maneira inteligente, belas sequências de acordes ao violão para verbalizar romantismo e calmaria em "All I Need to Have is You" e "Bells", numa sintonia refugiante em meio a horda de distorções do resto do disco.

Há um excesso de vocalizações que nem sempre funcionou bem em todos os momentos do LP, constituindo um revés, numa indefinição entre vocais soul e uma coisa mais de coral, que se desligava do peso cru da guitarra e da velocidade das canções. Michael apreciava os vocais divididos de Crosby, Stills, Nash & Young e queria transportar isto ao som da banda. Don Francisco, o baterista, fazia os vocais principais, mas é nítido a chegada de um vocal mais apto ao som do conjunto quando o baixista John Livingston Tunison assume os microfones nas faixas "Lazy Woman" e "Promotion Man". Curioso o fato de que Tunison assumiu os vocais nessas duas faixas porque Don não quis cantá-las.

For Love or Money é como se fosse magma descendo de um vulcão com a força de uma avalanche, deslocando-se rápido e furiosamente. Dá pra notar que os caras não economizaram no volume de seus amplificadores, deixando cabelos em pé e ouvidos atordoados.

No ano 2000 o disco foi reeditado em CD pelo selo Smokin’, mas há quem diga que a qualidade sonora ficou aquém da que era no lançamento original em LP. O disco da época é raro de ser encontrado fora dos EUA, e conferir se realmente há uma diferença substancial entre o registro da época e a reedição em CD exige muito garimpo e uma boa quantia de dinheiro.

Lado A
1. Mystery Rider
2. Fifteen
3. All I Need (To Have Is You)
4. Lazy Woman

Lado B
5. Bells
6. Ain't Gonna Take No More
7. I'll Do It All Again
8. Promotion Man


17/11/2009

Discoteca Básica Bizz#208: Ultraje a Rigor - Nós Vamos Invadir sua Praia (1985)


(Emerson Gasperin, Bizz#208, dezembro de 2006)

O carrinho da frente provoca: "
Meus dois pais me tratam muito bem". O segundo responde: "O que é que você tem / Que não fala com ninguém". Em questão de segundos, todos os vagões estão cantando "Rebelde sem Causa", do Ultraje A Rigor. Naquele momento, o recém-lançado Nós Vamos Invadir sua Praia era apenas a trilha sonora oficial das férias de julho de 1985. Mas com recordações - e impacto - muito mais duradouras que as guinadas da montanha-russa do Tivoli Park (RJ). Lá vem o looping: "Ma-ma-ma ma-ma-ma- má / Pa-pa-pa pa-pa-pa-pá".

A banda paulistana perseguia o sucesso desde 1983, quando teve seu compacto lançado pela WEA. "Inútil" (com "Mim Quer Tocar" no lado B) virou o hino da campanha pelas Diretas Já. Apesar de Ulysses Guimarães citar nos palanques que "a gente não sabemos escolher presidente", a música não tocou no rádio nem na TV. Com 30 mil cópias vendidas, o disquinho não representava exatamente um troféu para a inflada indústria fonográfica da época.

Em setembro de 1984 o Ultraje A Rigor tentou novamente com "Eu Me Amo" / "Rebelde sem Causa", já com a sua escalação clássica: Roger (guitarra e vocais), Leospa (bateria), Maurício (baixo) e, no lugar de Edgard Scandurra, Carlinhos (guitarra). A semelhança com "Egotrip", o hit da hora da Blitz (que mudou sua letra para "eu te amo"), rendeu mais exposição ao lado A, porém nada que mudasse uma carreira. O grupo estava na angustiante situação de ser comentado, lotar cada vez mais shows e não acontecer comercialmente.

Restava à gravadora acreditar no seu potencial. O coro de 100 mil pessoas acompanhando "Inútil", executada pelos Paralamas do Sucesso no Rock in Rio, reforçou a crença de que valia a pena apostar. Em abril de 1985 a banda entrou no estúdio Nas Nuvens para gravar seu primeiro LP. Nunca 28 diárias de quatro marmanjos no Hotel Sol, em Copacabana, deram tanto retorno. O Ultraje A Rigor sempre ameaçava estourar. Quando estourou, foi um estrondo tão grande que superou todas as expectativas.

Dessa vez não tinha como não funcionar. Sete canções haviam sido escolhidas em eleição promovida na danceteria Rádio Clube, sendo quatro já lançadas em single. Ou seja:
Nós Vamos Invadir sua Praia invadiu as lojas com cara de Best Of, e apresentou desempenho correspondente a partir do instante em que "Ciúme" bateu nas rádios. De repente, um país inteiro queria levar uma vida moderninha.

O Ultraje A Rigor não era pop como a Blitz, roqueiro como o Barão Vermelho, inteligente como os Titãs, intenso como a Legião Urbana, balançante como os Paralamas do Sucesso, requintado como o RPM - era tudo isso de um jeito mais simples, a ponto de sua característica mais celebrada ser o humor. A graça não ofuscava a música: você prestava atenção no que Roger estava falando, identificava-se e/ou sorria e sentia vontade de escutar sem parar.

Os sucessos se empilhavam. Rearranjados, os compactos transformaram-se nas mais pedidas. A faixa-título, com "apoio" de Lobão, Ritchie, Leo Jaime e do miquinho selvagem Big Abreu, tornou-se bordão popular. Até "Marylou", censurada devido ao seu didatismo em explicar por onde a galinha bota ovo, ganhava espaço conforme o grau etílico do freguês. Em um ano, o disco venderia mais de 500 mil cópias.

A gurizada que naquele domingo ria de cabeça para baixo jamais imaginaria que estava testemunhando o nascimento de uma obra-prima. O lance era aproveitar os últimos dias livres antes de as aulas recomeçarem, em agosto. O Tivoli Park não existe mais. O Ultraje A Rigor resiste, somente com Roger da formação original.

E um daqueles moleques, sem ganhar guitarra da mãe nem carro do pai, assina hoje estas maltecladas.


Faixas:
A1 Nós Vamos Invadir sua Praia
A2 Rebelde sem causa
A3 Mim quer tocar
A4 Zoraide
A5 Ciúme

B1 Inútil
B2 Marylou
B3 Jesse Go
B4 Eu me amo
B5 Se você Sabia
B6 Independente Futebol Clube