16 de jan de 2010

Discos Fundamentais: Zé Ramalho - A Peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979)

sábado, janeiro 16, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista
Esquina da Música

Em 1974, Zé Ramalho já havia participado da banda The Gentlemen, bem como gravado o antológico Paêbirú ao lado de Lula Côrtes. Dois anos depois, quando chegou ao Rio de Janeiro, Zé Ramalho da Paraíba (como era conhecido) já era um compositor de mão-cheia, com sucessos na cartola, como "Vida do Sossego" e "Chão de Giz". No mesmo ano, conheceu o produtor Carlos Alberto Sion e gravou uma demo. Entretanto, as gravadoras não se interessaram no som não muito convencional de Ramalho.

Mas quando o diretor de televisão Augusto César Vanucci mostrou a canção "Avôhai" para a sua esposa, a cantora Vanusa, as coisas começaram a mudar de figura. Com a gravação de Vanusa, e uma forcinha de seu amigo Fagner, Zé Ramalho foi contratado pela gravadora CBS (atual Sony/BMG). Daí, foi só entrar em estúdio e gravar o seu primeiro álbum solo, que levava o seu nome no título.
Zé Ramalho, que foi lançado em 1978, trazia sucessos "místicos", como "Avôhai" (agora, finalmente, gravado pelo seu compositor), "A Dança das Borboletas" e "Chão de Giz".

No ano seguinte, Zé Ramalho entrou em estúdio para gravar
A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. No entanto, as canções viajantes do primeiro disco deram lugar a algo mais politizado. Em razão disso, esse novo álbum, que contava com uma foto na capa do compositor ao lado do cineasta Zé do Caixão e da atriz Xuxa Lopes, em uma imagem de cordel, trazia canções que chegaram até a incomodar um pouquinho o governo militar, como "Admirável Gado Novo" e a própria faixa-título.

Extremamente bem produzido (mais uma vez, Carlos Alberto Sion foi o responsável), o álbum rendeu a Zé Ramalho o seu primeiro disco de ouro. Naquela época, o paraibano já estava compondo canções para os discos de colegas como Elba Ramalho, Fagner e Geraldo Azevedo.

A abertura de
A Peleja do Diabo com o Dono do Céu, exatamente com a sua faixa-título, já resumia bem a proposta do trabalho. Sob uma sonoridade que era capaz de misturar todos os elementos típicos da música nordestina (xote, xaxado, baião e o que mais aparecesse), Zé Ramalho destilava fortes críticas sociais: "Com tanto dinheiro girando no mundo / Quem tem pede muito, quem não tem pede mais / Cobiçam a terra e toda a riqueza / Do reino dos homens e dos animais / Cobiçam até a planície dos sonhos / Lugares eternos para descansar".

"Admirável Gado Novo", que mistura zabumba, ganzá e triângulo a um sofisticado arranjo de cordas de Paulo Machado, literariamente vai pelo mesmo caminho ("O povo foge da ignorância / Apesar de viver tão perto dela / E sonham com melhores tempos idos / Contemplam essa vida numa cela / Esperam nova possibilidade / De verem esse mundo se acabar").

A grave "Falas do Povo", uma espécie de "marcha fúnebre nordestina", é outra que expõe bem as mazelas do povo daquela região. A autobiográfica e pungente "Garoto de Aluguel (Taxi Boy)", por sua vez, fala de um trabalho que Zé Ramalho teve que fazer logo que chegou, sem dinheiro, ao Rio de Janeiro: "
Minha profissão é suja e vulgar / Quero um pagamento para me deitar / Junto com você estrangular meu riso / Dê-me seu amor que dele não preciso". Musicalmente, essa canção é a que mais destoa do álbum todo. Nela, Ramalho acompanhou-se apenas por uma orquestra de cordas. E a pesada letra acabou caindo muito bem no camerístico acompanhamento.

Mas o misticismo de Zé Ramalho também estava presente nesse
A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. E o melhor exemplo disso é a faixa "Beira-Mar", que a despeito de sua imensa e intricada letra, fez grande sucesso quando do lançamento do álbum. O xote "Mote das Amplidões" é outra canção que vai pelo mesmo caminho, assim como "Jardim das Acácias" (uma das grandes composições de Zé Ramalho), cheia de guitarras distorcidas de Pepeu Gomes e um grandioso arranjo de cordas de Paulo Machado. A letra é mais uma pérola do cantor paraibano: "A papoula da Terra do Fogo / Sanguessuga sedenta de calor / Desemboco o canto nesse jogo / Como a cobra se contorce de dor / Renegando a honra da família / Venerando todo ser criador".

Finalizando o álbum, além do "choro nordestino" instrumental "Agônico", o maior sucesso da carreira de Zé Ramalho. A versão de "Frevo Mulher" constante no disco, no entanto, é um pouco diferente da festa sonora que ouvimos atualmente em seus shows. Uma verdadeira orquestra de metais (dez músicos no total) faz de "Frevo Mulher" uma espécie de um "frevo-marchinha-fúnebre-de-carnaval".

Pois é ... Tempos de ditadura! Artistas inteligentes assim conseguiam dar o seu recado de alguma forma.



Faixas:
1 A Peleja do Diabo Com o Dono do Céu
2 Admirável Gado Novo
3 Falas do Povo
4 Beira-Mar
5 Garoto de Aluguel(Taxi Boy)
6 Pelo Vinho e Pelo Pão
7 Mote das Amplidões
8 Jardim das Acácias
9 Agônico
10 Frevo Mulher

R.E.M. - Live at the Olympia (2009)

sábado, janeiro 16, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista

Cotação: ****1/2

Ao abrir o encarte de Live at the Olympia, novo pacote de CD e DVD do R.E.M., o ouvinte se depara com a seguinte frase: "This is not a show". Está certo. Live at the Olympia está muito longe de ser um show. E esse detalhe já faz do álbum o melhor CD ao vivo lançado nesse ano, e talvez um dos melhores CDs ao vivo de rock dos últimos anos.

Antes de começar as gravações de seu último álbum de estúdio, Accelerate (2008), o R.E.M. fez algo interessante: no final de 2007 alugou o minúsculo Olympia Theatre em Dublin por cinco noites para apresentar esboços das canções que pretendia gravar, bem como algumas músicas antigas. Todas as apresentações tiveram repertórios distintos (eles estão no encarte), e Michael Stipe, Mike Mills e Peter Buck selecionaram 39 canções que integram o CD duplo ao vivo que, por ora, só saiu lá fora.

Para quem já tem o R.E.M. Live, que foi lançado em 2007, uma boa notícia: apenas duas canções são repetidas ("Cuyahoga" e "Drive"), o resto são músicas de Accelerate, alguns hits indies do início da carreira ("Gardening at Night", "Pretty Persuasion", "So. Central Rain", "Driver 8" e a seminal "Carnival of Sorts") e lados B que nem o mais fanático poderia imaginar que o R.E.M. viesse a apresentar ao vivo, como "Circus Envy" (faixa de Monster), "The Worst Joke Ever" (de Around the Sun) e "Auctionner" (de Fables of the Reconstruction).

Quando estava preparando as novas canções de Accelerate, o R.E.M. sentiu que era a hora de voltar às origens depois de álbuns introspectivos como Reveal (2001) e Around the Sun (2004). Dito e feito. As novas músicas eram rock puro da melhor qualidade, com curta duração. Não à toa, foi eleito por diversas publicações como um dos melhores discos de 2008. Nesse clima, quando apresentou as novas canções no Olympia a banda optou por mostrar outras músicas que tivessem a ver com a temática do novo trabalho. Daí a ausência de hits da fase mais popular do R.E.M.. O que, diga-se de passagem, foi muito acertado.

Com relação às canções que vieram formar Accelerate, é interessante notar o quanto algumas mudaram até a gravação oficial no disco de estúdio. "Disguised", apresentada nesse Live at the Olympia, por exemplo, é uma espécie de rascunho de "Supernatural Superserious", só que mais pesada e sem refrão. Tivessem gravado nessa versão certamente a canção não teria se transformado no single de Accelerate. "Man-Sized Wreath" também está bem mais crua nesse ao vivo, e com os vocais de Michael Stipe em andamento diferente.

"Staring Down the Barrel of the Middle Distance", presente em Live at the Olympia, acabou não entrando em Accelerate, ou seja, é absolutamente inédita, assim como "On the Fly" (sobra de Around the Sun). "Romance" é quase inédita, eis que, segundo o texto de Peter Buck no encarte - o guitarrista explica faixa a faixa - fez parte da trilha sonora de um filme que "ninguém viu".

O ponto fraco do CD é a sua qualidade de áudio. Ficou a impressão que quiseram deixar o negócio tão alto que a compressão do som (que quase distorce em alguns momentos) foi muito forte. Mas nada que comprometa.

Além do CD duplo, lá fora também saiu um pacote com DVD. Dirigido por Vincent Moon e Jeremiah, o vídeo é uma das coisas mais chatas que já saiu por aí. São apenas 59 minutos com imagens desconjuntadas em preto e branco. Pelo menos não cortaram ao meio as (poucas) músicas presentes no DVD. O negócio chega a ser tão chato que, mesmo para quem prefira DVD, o CD fica mais agradável. Uma pena. Seria sensacional se lançassem o DVD com uma filmagem decente das 39 músicas presentes no CD. Mas aí já seria pedir demais ...

Com o perdão do clichê, Live at the Olympia é um CD feito para os fãs do R.E.M., que nunca imaginavam que a banda poderia voltar a tocar ao vivo algumas músicas obscuras de seu repertório. Quem procura um show ao vivo com os grandes sucessos do R.E.M. pode vir a se decepcionar. Mas, como está escrito no encarte: "This is not a show".



Faixas:

CD 1
1 Living Well Is the Best Revenge 4:07
2 Second Guessing 2:58
3 Letter Never Sent 3:52
4 Staring Down the Barrel of the Middle Distance 4:11
5 Disturbance at the Heron House 3:41
6 Mr. Richards 4:17
7 Houston 1:55
8 New Test Leper 5:26
9 Cuyahoga 4:22
10 Electrolite 4:03
11 Man-Sized Wreath 3:09
12 So. Central Rain 3:44
13 On the Fly 5:01
14 Maps and Legends 3:10
15 Sitting Still 3:42
16 Driver 8 3:44
17 Horse to Water 2:45
18 I'm Gonna DJ 2:16
19 Circus Envy 4:27
20 These Days 4:53

CD 2
1 Drive 4:49
2 Feeling Gravitys Pull 5:10
3 Until the Day Is Done 4:07
4 Accelerate 3:35
5 Auctioneer (Another Engine) 3:38
6 Little America 3:11
7 1,000,000 3:28
8 Disguised 3:20
9 The Worst Joke Ever 3:42
10 Welcome to the Occupation 2:48
11 Carnival of Sorts (Box Cars) 4:09
12 Harborcoat 4:16
13 Wolves, Lower 4:33
14 I've Been High 3:40
15 Kohoutek 4:12
16 West of the Fields 4:13
17 Pretty Persuasion 4:23
18 Romance 3:31
19 Gardening at Night 4:16


Discos Fundamentais: Scorpions - Tokyo Tapes (1978)

sábado, janeiro 16, 2010

Por Ben Ami Scopinho
Colecionador
Whiplash! Rock e Heavy Metal

O Scorpions tomou forma na Alemanha em 1966, e começou a colocar a partir de 1972 seus sempre bons álbuns no mercado. E, graças à garra de suas composições e performances ensandecidas ao vivo, era um conjunto consagrado em vários países europeus na segunda metade dos anos 70, mesmo com a ascensão do punk derrubando vários gêneros musicais – entre eles o próprio rock pesado.

Em seus cinco primeiros álbuns de estúdio, muito do reconhecimento que o conjunto havia conseguido até então era creditado em grande parte ao criativo guitarrista Ulrich Roth, que não negava suas influências de Jimi Hendrix e aquela sua faceta mística típica do final dos anos 60. Porém, na verdade, o time todo era excelente, contando ainda com o vocalista baixinho Klaus Meine, o outro guitarrista Rudolf Schenker, Francis Buchholz no contrabaixo e Herman Rarebell nas baquetas.

Chegam 1978 e o Scorpions se prepara para sua primeira excursão ao Japão, que era uma nação onde a banda tinha legiões de fãs. Rodaram o país por uma semana divulgando o álbum
Taken by Force, e nos dias 24 e 27 de abril se apresentaram no Sun Plaza Hall, na cidade de Tóquio, registrando as canções que viriam fazer parte de seu primeiro disco ao vivo, chamado Tokyo Tapes, produzido por Dieter Dierks.

Aqui o ritmo das canções é bem mais veloz que as versões de estúdio, mostrando claramente que o habitat natural do Scorpions realmente era o palco, fato comprovado pela admiração dos amantes de discos ao vivo, que consideram
Tokyo Tapes outro dos grandes registros deste período. Muitos de seus clássicos estão presentes, em especial faixas do álbum Virgin Killer, além de uma boa seleção de músicas de seus outros trabalhos. O hino “Steamrock Fever” é um dos grandes destaques, além de um bom solo de bateria em “Top of the Bill”. "He's a Woman, She's a Man", "Polar Nights" (cantada por Ulrich Roth) e "In Trance” mostram as melhores guitarras da banda nos anos 70.

Tokyo Tapes veio consolidar ainda mais a grande fase que o Scorpions estava vivendo, porém, internamente, nem tudo ia bem. Já no álbum Virgin Killer Ulrich Roth vinha mostrando sinais de descontentamento com o direcionamento musical que seus companheiros queriam seguir, soando mais melódico e refinado. Na verdade, o conjunto alemão estava modificando sua música visando o distante e forte mercado norte-americano. E, confirmada esta decisão, Ulrich resolveu por fim deixar o Scorpions e montar o Electric Sun que, mesmo com o grande talento deste guitarrista, teve uma trajetória despercebida das grandes massas.

Com seu próximo álbum,
Lovedrive, o Scorpions começou a reorientar sua música e atingiu seu objetivo, tornando-se uma das maiores bandas de hard rock dos anos oitenta, mas isso já é outra história. O importante aqui é que Tokyo Tapes é o último disco do Scorpions que contou com a presença de Ulrich Roth, considerado um dos maiores nomes em se tratando de guitarristas alemães, marcando também um fim de uma bem sucedida primeira fase da longa carreira da banda.


Faixas:
A1 All Night Long 2:55
A2 Pictured Life 3:04
A3 Backstage Queen 3:30
A4 Polar Nights 6:43
A5 In Trance 5:22

B1 We'll Burn the Sky 8:16
B2 Suspender Love 3:28
B3 In Search of the Peace of Mind 3:00
B4 Fly to the Rainbow 9:23

C1 He's a Woman, She's a Man 5:22
C2 Speedy's Coming 3:21
C3 Top of the Bill 6:39
C4 Hound Dog 1:16
C5 Long Tall Sally 2:09

D1 Steamrock Fever 3:35
D2 Dark Lady 3:34
D3 Kojo No Tsuki 3:09
D4 Robot Man 5:33


The 27s: The Greatest Myth of Rock & Roll

sábado, janeiro 16, 2010

Por Rodrigo Werneck
Colecionador
Whiplash! Rock e Heavy Metal

O que músicos como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Robert Johnson, Brian Jones, Gary Thain (Uriah Heep) e Kurt Cobain têm em comum? Todos fazem parte do famoso, polêmico, controverso e mítico Clube dos 27, como ficou conhecido. São músicos que atingiram enorme fama internacional, e pelos mais diversos motivos vieram a falecer no auge de tal fama. Os autores Eric Segalstad e Josh Hunter montaram a sua fascinante obra em torno desse mito, e acabaram por criar uma pequena obra-prima.

O espaço nas páginas do livro é dividido pelo trabalho de ambos, num balanço perfeito. O texto complementa as ilustrações, e vice-versa, de tal forma que é quase impossível imaginar o que veio antes. A narrativa nas mais de 300 páginas é apresentada de formal cronológica, mas sem pecar por formalismo exacerbado. O uso de recursos como notas de rodapé ou na lateral das páginas é bastante corriqueiro, ampliando os horizontes da obra.

Embora haja tal linearidade de narração, com a jornada iniciando-se ao final do século XIX e finalizando na virada do século XX para o XXI, alguns desvios são tomados no decorrer da trajetória, com interessantes e pertinentes digressões (por mais contraditório que possa parecer, a princípio) sobre vários temas abordados em enfoques afins: numerologia, astrologia, filosofia, psicologia, religiões, desenvolvimento e uso de drogas alucinógenas, enfim, tudo o que veio à cabeça dos autores, sem preconceitos. E o melhor, de uma forma leve, fácil de ler, que se não vai revolucionar a sua vida irá ao menos enriquecê-la.

Tão importante no trabalho ora resenhado quanto os textos de Segalstad são as impressionantes ilustrações de Hunter, que os complementam. Há poucas fotos reais nas páginas do livro (mesmo assim, trabalhadas artisticamente), sendo a maior parte ilustrações, tanto das personalidades retratadas quanto de detalhes das estórias contadas. O estilo de Hunter tem um quê de quadrinhos adultos, captando de forma perfeita os sentimentos expressos pelas palavras. Agonia, felicidade e tristeza, alucinações, glória e derrocada, fama e ostracismo, está tudo lá, na forma de desenhos. Os textos em alguns momentos quase passam a um segundo plano. Várias técnicas são empregadas, com a repetição e/ou alternância de elementos, cores em abundância, ou não, elementos minimalistas, personagens em diferentes planos. O “espírito” de cada época acaba sendo passado ao leitor tanto pelo próprio texto quanto pelos elementos visuais. Todo este trabalho primoroso é ainda por cima emoldurado por uma qualidade absolutamente impecável de impressão, em papel couché de primeira categoria, com a bela arte da capa incluindo elementos brilhantes e foscos. O cuidado com os detalhes inclui ainda marcador de livro e cartão de apresentação, seguindo o mesmo padrão da obra. Definitivamente, um item de colecionador.

O habitual texto da contracapa aqui é substituído por uma singela frase, que parece resumir tudo: “It began with the blues ...”. Recomendação: não use este livro como objeto de decoração na mesa de centro de sua sala de estar, pois seus eventuais convidados poderão ficar tão vidrados nas narrativas e nas ilustrações que o aspecto social da visita poderá ir por água abaixo.

Mas afinal, o que há de tão místico (ou mítico) no número 27? Seria apenas uma coincidência músicos (e artistas em geral) morrerem nessa idade, talvez por ser aproximadamente o tempo em que o organismo humano leva para cobrar a conta dos abusos com substâncias e outros excessos decorrentes da fama precoce? Ou haveria algo mais por trás disso? Leia e tire suas próprias conclusões.

Detalhe: um trailer oficial sobre o livro está disponível no YouTube. Além disso, um filme feito recentemente se chama The 27 Club e conta a história fictícia de um astro do rock, que também teria morrido aos 27 anos. Ele pode ser visto aqui.

Se você se interessou, acesse o site oficial e adquira o seu.

15 de jan de 2010

A história do lendário Rock and Roll Circus

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Por Vitor Bemvindo
Colecionador e Historiador
Mofodeu

"O fim dos anos 60 foi uma época de eventos especiais. Os nossos foram desastrosos". A bem humorada frase de Keith Richards traz uma reflexão interessante sobre o período mais efervescente da cultura do século XX. Num período em que festivais como Woodstock e manifestações artísticas vanguardistas dominavam o contexto intelectual, a inquietação dos Rolling Stones só levou a banda a promover dois eventos fracassados: o festival de Altamont, em 1969, e o Rock and Roll Circus, realizado um ano antes.

Há um certo rigor na avaliação do guitarrista dos Stones, já que se Altamont foi realmente desastroso por conta da enorme confusão que causou a morte de uma pessoa, o
Rock and Roll Circus não chegou a fracassar, já que nem foi lançado. O circo patrocinado pelo quinteto britânico foi idealizado como um especial de televisão, que nunca chegou a ser exibido, vindo a ser lançado em VHS quase 30 anos mais tarde.

Os motivos para o "fracasso" da empreitada de Jagger e companhia são muitos, mas antes de expô-los é necessário entender a origem da ideia e sua concepção. Como Richards afirmou, no fim dos anos 60 havia uma grande confluência de ideias vanguardistas, incrementadas pelo espírito da contracultura e pelos embalos criativos de uma geração que não tinha limites para seus devaneios. Os Beatles piravam na psicodelia de
Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band, lançavam filmes loucos como Yellow Submarine e Magical Mistery Tour. Artistas como Jimi Hendrix e The Who se congregavam em festivais com outros grandes nomes da época, revolucionando a música e propagando um ideal de paz e amor. Aliado a isso, o clima na capital britânica era regido pelo Swinging London, que trazia uma transformação profunda nos costumes e efervescência cultural. E os Rolling Stones? O que faziam os Stones em todo esse contexto?

Bill Wyman, então baixista do grupo, afirmou certa vez que os Stones estavam sempre correndo atrás das tendências. A psicodelia de
Sgt Pepper´s passou a ser referência para Their Satanic Majesties Request, mas o resultado, segundo o próprio Wyman, ficou muito aquém do esperado. Isso fez com que os Stones, principalmente na figura de Mick Jagger, tentassem trazer algo revolucionário, que colocasse a banda como uma referência assim como os seus "rivais" de Liverpool.

Muitos apontam o
Rock and Roll Circus como resposta ao Magical Mystery Tour, filme protagonizado pelos Beatles e transmitido na televisão pela BBC. Mas a ideia do Circus era tentar misturar vários aspectos da cultura da época - a reunião de vários músicos talentosos, característica dos festivais; o impacto das imagens, utilizadas pelas bandas em filmes e especiais de TV; e a psicodelia e vanguardismo típicos daquele momento.

A ideia original do circo do rock and roll era ainda mais ousada e, segundo Pete Townshend, nasceu de um encontro entre ele, Mick Jagger e Ronnie Lane (ex- Small Faces e que, naquele momento, fazia parte do Faces). Os três estavam em um estúdio para gravar alguns backing vocals para uma demo dos Stones quando Townshend sugeriu a criação de uma turnê que excursionaria por todos os Estados Unidos como um legítimo circo. As bandas - Stones, Who e Faces -, viajariam em trens e teriam uma estrutura que seria transportada nesses mesmos veículos. Eles se instalariam em tendas e se apresentariam em uma lona, que seria comprada do tradicional circo Barnum & Bailey.

Jagger chegou a contatar o projetista de palcos Chip Monck para esboçar a ideia de como seria a estrutura em que os grupos se apresentariam. Algumas reuniões ocorreram em Los Angeles para tentar colocar a ideia em prática, que previa, inclusive, a gravação de um documentário com imagens da apresentação. Entretanto, a ideia não foi adiante por conta da estrutura ferroviária norte-americana que, naquela época, encontrava-se em péssimas condições e priorizava o transporte da carga, dificultando o transporte de passageiros. A logística da turnê seria altamente sacrificante, já que os trens eram muito lentos e o deslocamento entre uma cidade e outra demoraria muito. Nos anos 70 Ronnie Lane chegou a excursionar com sua nova banda, Slim Chance, mas o projeto tinha dimensões infinitamente menores do que seria a turnê circense de Stones, Faces e Who.

Frustrada a ideia original, Mick Jagger tentou adaptá-la para um filme que tivesse o mesmo espírito daquela ideia surgida em conjunto com Townshend e Lane. Foi aí que ele chamou o diretor Michael Lindsay-Hogg, que já havia participado da produção de alguns vídeos promocionais da banda, e formulou o que seria o
Rock and Roll Circus.

A ideia era combinar números circenses com espetáculos de rock. Para isso, Jagger e Lindsay-Hogg queriam contar com um elenco de grandes bandas e combiná-las com um aspecto mambembe de um circo decadente. A ideia era contrapor a grandeza dos grupos à simplicidade e espontaneidade do circo. O vocalista dos Stones queria contar com nomes consagradas como os Beatles e o Who, além de novos talentos. A inviabilidade de contar com o Fab Four fez com que outras bandas e artistas fossem chamados.

Rodado em um velho galpão londrino conhecido como Roundhouse, o filme começa com todos os artistas que fariam parte do espetáculo adentrando o picadeiro fantasiados de palhaços e outros personagens circenses. Mick Jagger e Keith Richards fariam o papel de mestres de cerimônia, apresentando as atrações do circo.

O diretor do filme conta que havia duas opções para ser a atração novata que abriria o especial. A primeira delas era o Jethro Tull, que acabou participando da apresentação. A outra opção seria, segundo Lindsay-Hogg, o Led Zeppelin, que acabou sendo vetado porque os Stones acharam que o grupo dava muita importância às guitarras. O Tull parecia uma opção mais palatável.


O grupo liderado pelo vocalista e flautista Ian Anderson passava, no entanto, por um delicado momento de transição. Eles acabavam de demitir Mick Abrahams e estavam sem guitarrista naquele momento. Estava sendo testado em algumas sessões de estúdio um guitarrista não muito conhecido, mas que já tinha um certo nome no underground londrino, Tony Iommi. O músico, que ficaria mundialmente conhecido por seu trabalho com o Black Sabbath, teve uma passagem relâmpago pelo Jethro Tull.

Foi Iommi que faria o papel de guitarrista na apresentação do Tull no
Rock and Roll Circus. O que ele fez foi, literalmente, uma figuração, já que por conta do pouco entrosamento entre os membros da banda eles optaram por fazer um playback de "A Song For Jeffrey", primeiro single, retirado do recém lançado This Was.

Essa seria a única apresentação de Tony Iommi com o Jethro Tull. Pouco depois ele seria demitido e voltaria a integrar o Earth, banda que mais tarde se tornaria o Black Sabbath. Anderson explica que a demissão de Iommi aconteceu porque eles consideravam que, apesar de talentoso, o guitarrista teria dificuldades para se adaptar ao ecletismo que estavam buscando para banda. Segundo o vocalista, eles não queriam tocar apenas "blues de brancos", como haviam feito no primeiro álbum e como era o estilo do então blueseiro Earth.

Houve uma dificuldade para executar o playback de "A Song For Jeffrey", por mais que isso possa parecer contraditório. A canção contava com uma gaita e flauta executadas por Ian Anderson, obviament tocadas uma de cada vez em estúdio. Havia a preocupação dos integrantes para que a apresentação não parecesse muito falsa, e a solução encontrada foi a de que o baixista Glenn Cornick ficasse encarregado por fingir que tocava a gaita. No final, ficou tudo bem realista.


A segunda apresentação do filme, para muitos, é um dos pontos altos do
Circus. Alguns rumores dizem respeito que um provável motivo do engavetamento do filme seria o show do The Who, que supostamente teria deixado os Stones com medo de comparações. Mas apesar da energia demonstrada no palco, o Who passava por um momento de baixa em sua carreira. Após o lançamento de cinco álbuns o grupo não conseguia deixar de fazer parte do segundo escalão das bandas inglesas e só era elogiada pelas suas performances ao vivo. Ainda faltava um grande trabalho, que viria no ano seguinte, com Tommy.

Mesmo assim o Who brilhou no picadeiro do
Rock and Roll Circus. É até difícil saber se a performance é ou não um playback, devido à competência na execução da canção. A impressão que se tem é que há uma edição de duas tomadas, uma na qual a banda realmente toca e outra em que eles apenas se exibem fazendo gracinhas, como a de Keith Moon, que molhou as peles de sua bateria para que quando a tocasse espirrasse água, fazendo um efeito bem interessante. Não há nenhum depoimento que confirme essa edição, nem desminta a hipótese de playback. Mesmo assim, a performance de "A Quick One While He's Away", do album A Quick One, de 1966, entraria para a história da banda.

Uma particularidade sobre essa música é que ela é considerada uma mini-ópera, ou opereta de rock. A ideia da canção surgiu como uma paródia de uma ópera de Giuseppe Verdi chamada "Gratis Amatis". A estrutura da música foi utilizada em diversas outras canções do Who, e motivou que a banda compusesse uma ópera inteira como um álbum, o que viria a ser feito em
Tommy (1969) e Quadrophenia (1973).

Os integrantes do Who teriam uma participação importante no
Circus, não só pela sua apresentação, mas também pela presença na plateia durante os números das outras bandas. Quando os Stones se apresentaram, em plena madrugada, Moon e Townshend pareciam bem mais contentes do que os músicos que tocavam, e foram responsáveis por animar todos que estavam no público.


O terceiro convidado do
Circus foi o bluesman Taj Mahal. Os Stones conheceram Taj Mahal em uma apresentação de sua banda na famosa boate Whisky a Go-Go, em Los Angeles. O músico norte-americano conta que fazia um solo de gaita com os olhos fechados e quando os abriu viu Mick Jagger, Keith Richards, Eric Burdon e Hilton Valentine (os dois últimos dos Animals) dançando loucamente na plateia. Quando terminou o seu show na boate californiana, o bluesman sentou-se com os Stones e conversou com os britânicos durante toda a noite, iniciando uma grande amizade.

O convite para Taj Mahal participar do
Rock and Roll Circus foi uma surpresa para o músico e seus companheiros de banda. Repentinamente o empresário do grupo recebeu oito passagens para Londres para participar do especial. Mas tudo foi tão corrido que os músicos entraram na Grã-Bretanha como turistas, sem os vistos de trabalho. O medo de uma deportação fez com a apresentação de Taj Mahal fosse gravada um dia antes do previsto. Ele executou quatro canções: "Checkin' Up On My Baby" e "Leaving Truck", do primeiro disco, Taj Mahal (1968); "Corina" e "Ain't that a Lot of Love", do segundo álbum, The Nacht'l Blues (também de 1968). Essa última música foi a que entrou na edição oficial do filme. As outras três ficaram como bônus do DVD, lançado somente em 2004.

Uma das coisas mais interessantes da banda de Taj Mahal era a interação entre músicos de diversas etnias. O grupo contava com um guitarrista índio americano Jesse Davis, o baixista Gary Gilmore e baterista Chuck Blackwell de origem inglesa, além do próprio Taj Mahal, que tinha ascendência afro-americana, indiana e caribenha. Essa mistura atraiu o interesse de um dos convidados do evento, John Lennon, que acabou ficando fascinado com a banda e chegou a trabalhar com Jesse Davis.

Trinta anos depois, Taj Mahal e os Rolling Stones voltariam a se encontrar profissionalmente. No disco ao vivo
No Security, de 1998, eles tocam juntos a canção "Corina".

Os musicais foram intercalados por números circenses de qualidade duvidosa. Eles eram propositadamente ruins, pois era a intenção do diretor colocar todos os artistas num nível de simplicidade e espontaneidade típicas de um circo. Um dos números contou com a participação da supermodelo Donyale Luna junto com um engolidor de fogo. Em uma segunda apresentação, Luna acariciava um tigre. Essa parte foi cortada da edição final e entrou como extra do DVD. Infelizmente a modelo viria a falecer anos mais tarde por envolvimento com drogas.

Depois de uma das performances circenses, era a vez de Marianne Faithfull entrar no picadeiro. A cantora chamava mais a atenção pelos dotes físicos do que propriamente pelo seu talento vocal. Na ocasião ela namorava Mick Jagger, a quem conhecia desde 1965, quando gravara uma versão de "A Tears Go By".

No
Circus a jovem cantora fez um playback de "Something Better", sentada no centro do palco. Tomadas feitas de uma grua tentavam ressaltar a beleza da moça em contrapondo a uma canção nada animadora. Em depoimentos posteriores, os músicos diziam que Faithfull era uma das mais paparicadas dos bastidores, mas que, ao mesmo tempo, sofria com as gozações de alguns recalcados que a viam como um estereótipo de loira-burra.

Marianne Faithfull teria uma carreira bem-sucedida mesmo depois de se desvincular dos Rolling Stones. Ela se aventuraria também como atriz, mas, antes disso, ficaria famosa por namorar outro Stone: Keith Richards.


A participação de John Lennon no
Rock and Roll Circus foi um dos pontos altos do especial. Depois da negativa de ter os Beatles no evento, Mick Jagger queria ter Steve Winwood (então no Traffic) como atração. O tecladista/vocalista, no entanto, estava rouco e exausto após uma turnê de sua banda e acabou recusando o convite. Foi aí que eles voltaram a pensar nos Beatles, só que de forma individual. Inicialmente pensaram em Paul McCartney, mas acharam que ele demoraria a responder o chamado e acabaram optando por Lennon, definido por Michael Lindsay-Hogg como mais entusiasmado.

John logo aceitou participar e disse que levaria Eric Clapton (que estava estourado com o Cream). Foi assim que surgiu a idéia de formar um supergrupo para o evento. Os Stones convidaram Mitch Mitchell (baterista do Jimi Hendrix Experience) e Keith Richards completaria a banda, só que tocando baixo. Eles escolheram uma canção dos Beatles para fazer o primeiro número, "Yer Blues", que havia sido lançada meses antes no
White Album.

O grupo escolheu o nome de The Dirty Mac, uma espécie de paródia com o Fleetwood Mac, que estava em evidência na época. A apresentação do grupo contou com uma performance estranha da esposa de Lennon, Yoko Ono. Ela entraria num saco de pano preto no começo do número e ficaria agachada e fazendo movimentos estranhos durante toda a execução de "Yer Blues". Quando a canção terminou, Ono saiu "triunfalmente" do saco, ofuscando a apresentação de outro convidado do Dirty Mac, o violinista francês Ivry Gitlis.

Segundo a própria Yoko, o saco fazia parte de uma obra de arte performática e tinha grande importância no seu currículo artístico. Apesar de não ter sido privilegiada pelas câmeras, Ono dizia que John era um entusiasta da ideia e chegou a fundar para ela uma companhia artística chamada Bag Productions. A própria Ono admite que apesar de ter sido encorajada por John, o violinista não ficou muito satisfeito com a aparição repentina.

O constrangimento de Gitlis ficou evidenciado quando o Dirty Mac iniciou uma jam com o violinista e Ono começou a "cantar", berrando sons aparentemente sem sentido. A improvisação ficaria conhecida como "Whole Lotta Yoko", e apesar de ser muito criticada pela maioria, foi encarada como uma grande ironia para artistas como Pete Townshend. O guitarrista do Who acha a apresentação deliciosa. Para ele o choque entre aqueles grandes nomes, fazendo uma ótima improvisação, contrasta perfeitamente com os berros de Yoko.


Após a superbanda se apresentariam os anfitriões Rolling Stones. O problema é que a organização do evento foi extremamente caótica. As filmagens começaram por volta das 10 horas da manhã daquele 11 de dezembro de 1968. Jagger e seus companheiros só começaram a tocar depois das 2 da madrugada, quando todos já estavam exausto, inclusive a banda.

Jagger foi o principal articulador de tudo que teve a ver com o circo. Ele coordenou os bastidores e ciceroneou os convidados. Além disso, ele cuidou de cada detalhe, juntamente com Lindsay-Hogg. O cansaço, porém, pouco abateu o vocalista, mas seus companheiros, depois de muitas horas de espera e esbórnia nos bastidores, acabaram abatidos.

Alguns relatos, como os de Townshend e Anderson, dão conta que não houve muita farra por trás do picadeiro. O clima era, de certa forma, familiar. O diretor do especial conta que havia confraternização entre os músicos, que faziam jams acústicas tocando violões e batucando nas mesas. É claro que rolou um bocado de bebida e de drogas, mas nada de muito pesado, nada de destruição, nada da ostentação comum à vida de rockstar. O clima era circense, tanto no picadeiro quanto na coxia.

Mas a harmonia entre as bandas não conseguia esconder o evidente desconforto entre os membros dos Stones. Havia um sério problema de desentendimento entre o guitarrista Brian Jones e seus companheiros. Os Stones estavam cansados dos excessos de Jones. Tanto Townshend quanto Anderson afirmam que todos os músicos presentes sabiam que aquela seria a última noite do guitarrista com seus parceiros.

Lindsay-Hogg conta que, na véspera da gravação do especial, recebera uma ligação desesperada de Brian Jones, na qual ele dizia, aos prantos, que não estaria presente para as filmagens. Segundo o diretor, o guitarrista não entendia porque os seus companheiros o tratavam com tamanha frieza.

As ameaças de Jones não se confirmaram e, no dia seguinte, ele estaria lá no galpão. A presença dele, no entanto, não ajudou muito na gravação do especial. Todos perceberam que a banda não tinha mais a mesma sintonia dos primeiros anos.

O cansaço e o clima pesado entre Brian Jones e os demais Stones se refletiram na performance da banda. Todos pareciam abatidos, com exceção do vocalista. Jagger, apesar de todo o cansativo dia, parecia estar possuído. Ele parecia incorporar o espírito do empreendimento, querendo fazer daquele um momento histórico. Só que os demais membros do grupo não estavam na mesma sintonia.

Eles abriram com "Jumpin' Jack Flash", numa versão intimista, bem distinta da original e das execuções ao vivo posteriores. O show seguiu com duas músicas menos conhecidas do recém-lançado
Beggars Banquet: o blues "Parachute Woman" e a balada "No Expectation".

O clima não melhorou muito em "You Can't Always Get What You Want". Mas foi em "Sympathy For the Devil" que o show dos Stones se tornou histórico. Mick Jagger, que já vinha se sobressaindo desde a primeira canção, tomou conta do palco dando uma aula de como um vocalista deve se apresentar. Ele fez uma apresentação que surpreendeu até mesmo o diretor do especial. Sem avisar nada a ninguém, ele tirou a camisa durante um solo e exibiu umas "tatuagens" de figuras demoníacas maquiadas no corpo. Os Stones contavam com o reforço do pianista Nick Hopkins e do percussionista Rocky Dijon, que deram uma sonoridade ainda melhor para aquele viraria um clássico da banda.

A noite foi encerrada com um playback de "Salt of the Earth", quando os Stones sentaram junto à plateia e aos seus convidados, fingindo cantarem todos juntos. Destacam-se, na cena, os membros do Who, especialmente Keith Moon, que havia pego diversos estofados dos assentos e coberto o corpo como uma fantasia. Os "Whos" animaram não só o capítulo final, mas em diversas partes do show dos Stones é possível vê-los dançando e animando a platéia.

Era um fim de um dia longo, exaustivo, divertido, mas ao mesmo tempo tenso.


O resultado final ficou decepcionante, segundo a crítica dos próprios Stones. Com essa desculpa, eles engavetaram o projeto, que só viria a ser lançado 28 anos depois.

A hipótese mais provável para o arquivamento do Rock and Roll Circus, no entanto, estaria na relação dos Stones com Brian Jones. O guitarrista foi demitido da banda apenas três meses depois do evento e, pouco depois, ele apareceria morto na piscina de uma fazenda, em circunstâncias não esclarecidas.

Antes da morte de Brian Jones, os Stones pensaram em refazer a sua parte do show no
Rock and Roll Circus. A ideia de Jagger era fazê-lo em Roma, em pleno Coliseu. Alguns jornais italianos chegaram a publicar manchetes como: "Onde os leões rugiram um dia, agora os Stones vão tocar!". O diretor do especial achava que seria um bom conceito, já que o Coliseu era o circo original. Porém, não houve autorização da Câmara de Vereadores Romana. A ideia, por isso, foi abandonada por completo.

Assim, as fitas acabaram ficando jogadas no escritório de Ian Stewart, produtor de turnês da banda. Quando, por problemas ficais, os Stones tiveram que transferir seu escritório para a França, as latas com os filmes chegaram a ficar "guardadas" no banheiro. Foi aí que Stewart levou o material para casa. Quando o co-fundador dos Stones morreu, em 1985, as fitas foram encontradas em um celeiro, em meio ao feno. Foi aí que os remanescentes do grupo reviram o especial e resolveram lançá-lo finalmente.

Ian Anderson, do Jethro Tull, talvez tenha a melhor percepção do que foi o evento, não só para a carreira de sua banda, mas para história do rock: "
O Circus foi mais importante para mim do que eu imaginava na época. Foi muito teatral e rocambolesco, bem no estilo do showbiz britânico. Talvez tenhamos herdado algo da estranha teatralidade humorística do Rock and Roll Circus, do Monty Python, dos Goons e outras empreitadas da época".

Keith Richards, por sua vez, afirma que "
Foram dois dias de loucura total. Quando terminamos parecia que estávamos desanimados, tínhamos corrido demais. Só depois percebemos que aquilo não era só um amontoado de performances. Foi um evento muito especial. Um grupo único de pessoas, fazendo coisas que normalmente não faziam".

O clima de camaradagem entre os músicos e o desfile de talentos provam o quão especial foi aquele evento, mas também toda uma época em que os interesses comerciais não estavam acima da arte, ao ponto de uma superprodução ser engavetada por seus idealizadores por acharem que não estava como devia estar. Apesar da baixa qualidade de alguns pontos do especial, não há dúvida que o
Rock and Roll Circus é um documento de uma época especial da história do rock.


How Black Was Our Sabbath: An Unauthorized View From the Crew

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Por Rodrigo Werneck
Colecionador

Biografias não escritas pelos próprios artistas, e pior ainda, “não autorizadas” por eles, têm boas chances de se tornarem colchas de retalhos desesperadamente buscando polêmicas e histórias que possam justificar sua leitura. A não ser que o autor tenha protagonizado várias das histórias constantes do livro. Neste caso específico é exatamente isso que ocorre, só que são dois os autores: David Tangye, assistente pessoal de Ozzy Osbourne em seus tempos de Black Sabbath, bem como na parte inicial de sua carreira solo; e Graham Wright, assistente pessoal do baterista Bill Ward no Sabbath dos anos 70.

Em adição, algumas biografias são extremamente chatas de serem lidas, ou por conterem detalhes em demasia ou pelo fato do narrador não possuir o dom de escrita aprimorada, acabando por tornar a leitura cansativa. No caso deste How Black Was Our Sabbath, esse balanço está muito bem feito, sendo portanto a leitura muito fácil.

Várias histórias até então inéditas aos fãs são narradas de forma muito espirituosa, nunca com o objetivo de invadir a privacidade de Ozzy, Iommi, Butler e Ward, mas sim para mostrar quão diversa e divertida era essa época da banda. Tangye e Wright nitidamente se divertiram um bocado nos anos 70, e fica claro que esse livro é um tributo a esse período.

Tal período vai especificamente dos anos pré-Sabbath (final dos anos 60), quando ainda eram conhecidos como Polka Tulk e posteriormente Earth, indo até a virada dos anos 70 para os 80, com a saída de Ozzy, a entrada de Dio e a saída de Ward. Nessa época, tanto Wright quanto Tangye pararam de trabalhar com a banda e se voltaram a outros objetivos profissionais. Claramente, para eles, a química da formação original nunca poderia ser, e não foi, igualada ou mesmo suplantada.

Histórias envolvendo grupos anti-satanistas se manifestando contra a banda, que invariavelmente tirava um sarro de tais extremistas, não faltam. Há também histórias de grupos satanistas pleiteando a participação da banda em rituais (o que foi, obviamente, recusado). Por exemplo, os integrantes do Black Sabbath passando por um grupo numa procissão com velas acesas e soprando-as, para em seguida cantar “Parabéns pra você”, são hilárias.

Outras histórias presentes envolvem questões completamente distintas, como por exemplo as que mencionam o fato de Bill Ward ter medo de avião e ter chegado a dirigir 800 km nos desertos australianos somente para evitar uma viagem aérea, ou as que narram episódios que terminaram com carros indo parar dentro de piscinas, entre outras. Spinal Tap?

Alguns mistérios (e antigos boatos) são finalmente desvendados. Para dar apenas um exemplo, e não estragar as surpresas de quem for ler o livro, posso citar as várias menções a Spock Wall. Durante muito tempo correram boatos fortes (que acabaram se transformando em “verdade”) de que esse seria um pseudônimo do tecladista Rick Wakeman (Yes), que por questões contratuais não poderia aparecer com seu nome verdadeiro nos créditos dos discos do Black Sabbath dos quais participou (Volume 4 e Sabbath Bloody Sabbath). Segundo a lenda, Ozzy teria criado o apelido em virtude das orelhas de abano de Rick (daí a comparação com Mr Spock, da série Jornada nas Estrelas), que ficariam de fora de sua longa e lisa cabeleira loura (daí o “wall”, parede). Tudo balela. Spock Wall existe e foi membro da equipe técnica do Sabbath por vários anos, sendo que várias fotos suas estão presentes neste livro, bem como várias histórias o envolvendo.

E por falar em fotos, há várias interessantes no livro, da coleção particular dos autores, mostrando várias épocas do grupo. Desde o início, tocando em clubes pequenos, passando por grandes shows como o California Jam de 1974, e até mesmo em anos mais recentes, quando Wright e Tangye reencontraram o reformado Black Sabbath no backstage de alguns shows.

Resumindo, um livro altamente recomendável, indicado tanto aos fãs do Black Sabbath quanto aos fãs de rock em geral. Uma leitura descompromissada e prazerosa, e um exemplo de como se escrever uma biografia de uma banda. O livro não é oficial e nem tampouco autorizado pelos integrantes originais do grupo (conforme mencionado acima), mas extra-oficialmente tanto Ozzy quanto Ward já afirmaram ter adorado o livro e deram seu aval de que as histórias são todas verídicas.

Um único porém: o livro não foi lançado no Brasil, e portanto só pode ser encontrado em inglês no website dedicado à obra.

A história do Banchee, um dos grandes grupos esquecidos dos anos 70

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Apresentador do programa Estação Rádio Espacial

O injusto contar do tempo tratou de pôr na gaveta pérolas e mais pérolas da música. E continua colocando. Para quebrar essa lógica absurda, a receita é ter muita boa vontade para garimpar e tentar reverter um quadro extremamente adverso de leviandades mercadológicas. Um capítulo dessa longa história de injustiças chama-se Banchee, uma genial banda formada nos EUA no fim dos anos 60. Seu som é tão poderoso e transcendente que nos obriga a discorrer, ainda que de maneira pouco reveladora (tendo em vista os parcos registros históricos de sua existência), sobre sua trajetória e sua música incrível.

A banda foi formada como um quarteto de ítalo-americanos de Boston (cidade que possui uma grande colônia de italianos) - Peter Alongi e José Miguel de Jesus nas guitarras, Victor William Digilio nas baquetas da bateria e Michael Gregory Marino no contrabaixo. Com exceção de Victor, todos cantavam. José Miguel era o compositor principal.

Pouca informação se sabe sobre os caras. O talento do grupo chamava a atenção na cena local e descolaram um contrato com o selo Atlantic (Vanilla Fudge, MC5, Iron Butterfly, Golden Earring), que na época estava despontando no cenário com nomes como os badalados Crosby, Stills & Nash e os emergentes Led Zeppelin e Yes.

O primeiro disco foi produzido por Warren Schatz (compositor e condutor de orquestras nos anos 60 e 70) e Stephen Schlaks (também compositor, e que possui alguns discos gravados como artista solo). No dia do casamento de Peter, a banda estava em estúdio finalizando o disco!

Vocais na medida tal qual Crosby, Stills & Nash, Byrds ou Guess Who, dosado com country folk como Buffalo Springfield, guitarras prodigiosas à la Quicksilver Messenger Service, composições espetaculares em influências muito bem adquiridas e trabalhadas. Some a isso aquele clima campestre/estradeiro típico do som norte-americano, sem esquecer-se de um bom trago de psicodelia. Isso é, ainda arriscado a ser de empobrecedora definição, o primeiro disco do Banchee.


A estreia da banda em 1969 é um primor, um condensado de ritmos e influências das mais diversas, deliciosamente balanceadas. As composições são únicas, fortes, marcantes, inteligentemente construídas e tocadas com emoção notável.

O início é tranqüilo com “Night is Calling” e suas esmeradas linhas de guitarra e vocais altamente entrosados; “Train of Life” parece, a princípio, um cruzamento de Byrds com The Move, mas no meio aparece apimentada com um toque de jazz na rítmica; “As me Thinks” é a genialidade do grupo aflorando em seu psicodelismo – vocais perfeitos, timbres de guitarra acidamente saturados e aquele som que só iniciado entende, sem contar a levada latina que surpreende no meio da canção!; “Follow a Dream” é uma canção bucólica, mesclando um clima mais intimista com outro quase dramático, e possui geniais arranjos de orquestra; “Beatifully Day” é outra pérola do disco, alterando os climas magistralmente, quase que como uma suíte - perfeita!; a intro repleta de fuzz e extravasando psicodelia abre alas em “Evolmia”, com suas guitarras e andamentos quebrados (seria um anagrama para "Am I Love?").

A banda, ainda não cansada de fugir do lugar comum, faz um misto de Quicksilver e Byrds com peso extra na rockeira “I Just Don’t Know”, e seguem mais sacadas geniais, coisas de quem domina muito bem o instrumento; de “Hands of Clock” pode se dizer algo como “surpreendente” para suas nuances; o giro termina (infelizmente é curto, 38 minutos) com a deliciosa e pesada “Tom’s Island”, que fecha apoteoticamente com um riffado simples de guitarra, porém muito bem sacado, para o passeio ácido de um deleite guitarrístico.

Infelizmente (e por razões desconhecidas), o disco não vendeu bem. Uma absurda constatação frente à qualidade vocal e instrumental do Banchee.

Em 1970, lançam como compacto as músicas “I Just Don’t Know” e “Train of Life”, sem repercussão também. Foram despedidos do selo Atlantic, mas continuaram trabalhando. E evoluindo.

Durante o ano seguinte, trabalharam em material novo, captando os novos movimentos – a geração do hard e do rock progressivo era o quente do momento. Acrescentaram-se ao núcleo central dois percussionistas - Johnny Pacheco e Fernando Luis Roman, que também contribuía nos vocais. A banda era bem relacionada nos meios roqueiros. Conseguiram gravar o segundo disco no Eletric Ladyland’s Studio. Dessa vez, o trabalho seria gestado pelo selo Polydor (casa de Cream, The Who, Taste, The Move). Em 1971, é lançado Thinkin’.


A banda usou muito bem os recursos técnicos que estavam disponíveis (estéreos, wah-wah, fades, etc) em um trabalho muito bem capturado nos sulcos do vinil. A energia fluía de suas novas composições. Usaram e abusaram das percussões, andamentos quebrados, solos mais longos e de sua liberdade criativa.
Thinkin´ é um disco que tem uma tendência ao hard rock um pouco mais definida, mas a inventividade do grupo fazia com que sua música não soasse apenas como um sisudo e pesado rock n’ roll. Era intrínseco ao espírito dos caras ir além. A larga utilização dos instrumentos de percussão direcionava o som para um lado mais Santana, enquanto as guitarras se encarregavam de apimentar o som com riffs deliciosos.

O disco começa com “John Doe”, que, sem margem de exagero, é uma das melhores composições do grupo e também seu momento mais pesado. O trabalho de guitarra está ainda mais rebuscado, em frases dobradas e numa inteligente utilização dos campos harmônicos. A faixa-título do disco lembra bastante o clima do primeiro trabalho, como se fosse um novo cruzamento de The Move com os Byrds, mas já com aquela cara de anos 70. Dá pra associar um pouco da sonoridade deste LP com o segundo disco do Captain Beyond, mas sem esquecermos-nos do toque altamente peculiar do Banchee nos vocais e nas composições. Outra jóia do rock.

Fama local foi o máximo que esse pessoal conseguiu, e seu nome, como o de muitos outros grupos, foi direto para a sala dos injustiçados do rock setentista após a debandada em 1971. Os músicos sumiram do cenário. Alguns deles continuam atuando com música somente por entretenimento pessoal.

Em 2001, o selo Lizard relançou com capricho os dois discos do Banchee em um único CD, o que propiciou que uma nova geração de garimpadores de bons sons pudesse tomar parte desse tesouro sonoro.

14 de jan de 2010

Metallica - Orgulho, Paixão e Glória: Três Noites na Cidade do México (2009)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista

Cotação: ****


Quando o Metallica lançou álbum Death Magnetic, a frase mais ouvida era: "Depois de tanto tempo, até que enfim um disco que faça jus a história da banda". Pois bem, o mesmo pode ser dito com relação ao DVD Orgulho, Paixão e Glória: Três Noites na Cidade do México, que o grupo de James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Robert Trujillo colocou nas lojas no apagar das luzes de 2009. Como o próprio título denuncia, o Metallica fez três shows na capital mexicana, nos dias 04, 06 e 07 de junho do ano passado, e todas as apresentações foram registradas.

Lá fora saíram versões em blu-ray e em DVD duplo, este último com 16 (isso mesmo, 16!) faixas extras (incluindo gemas raras como "...And Justice For All", "Blackened" e "Fade to Black"), além de um CD duplo com o áudio das 19 canções do show principal. Obviamente, aqui no Brasil só a versão mais pobre - DVD simples com 19 músicas - foi lançada. Depois não sabem por que ninguém mais compra discos no país ...

Tirando esse porém, Orgulho, Paixão e Glória traz o Metallica em sua melhor forma. Em uma das rápidas entrevistas que intercalam alguns dos números musicais, o baterista Lars Ulrich diz que a mudança de repertório (que acontece toda noite) é o que mantém a banda viva, eis que seus integrantes são obrigados a estarem sempre atualizados. E é exatamente essa vivacidade que impressiona no DVD. Depois de praticamente trinta anos de carreira, o Metallica pouca vezes soou tão poderoso em um vídeo.

Além dos sucessos obrigatórios, como "One" (em uma versão animalesca com ensurdecedoras explosões), "Enter Sandman", "Creeping Death" (que já abre o show na temperatura máxima) e "Master of Puppets", o DVD traz algumas canções que o Metallica não costuma apresentar em todos os seus shows, e é isso que vai fazer a alegria dos fãs. Por exemplo, "The Unforgiven" voltou ao repertório no México certamente por conta de sua sonoridade (aquela introdução meio mariachi), que tem tudo a ver com o país. E o que dizer de "For Whom the Bell Tolls" e "Ride the Lighting", apresentadas logo no início da apresentação? E o final com "The Wait" e "Hit the Lights"? Não à toa, é possível observar, volta e meia, alguns mexicanos chorando durante a apresentação.

A edição do DVD - dirigido por Wayne Isham - é outra bola dentro, captando bem a energia da banda no palco. A edição, em alguns momentos, chega a ser estonteante, mas, com o volume sonoro do grupo, dificilmente daria para ser diferente disso. O único problema é o excesso de tomadas do público. Talvez o diretor tenha ficado um pouco impressionado com a paixão da plateia mexicana. Tudo bem, mas não precisava de tanto. Isso não deve ser raro de acontecer em shows do Metallica.

E o fã que não se contentar com Orgulho, Paixão e Glória pode providenciar na importadora o outro DVD (também disponível em blu-ray) Français Pour Une Nuit. Gravado em um belo e antigo anfiteatro na cidade francesa de Nimes, o vídeo traz 18 faixas também registradas na Death Magnetic Tour (em julho de 2009), com destaque para petardos como "Motorbretah" e "Stone Cold Crazy" (do Queen), ambas não presentes nem na versão turbinada de Orgulho, Paixão e Glória.

Tomara que o fã do Metallica tenha economizado grana para esse início de ano ...


Faixas:
1 The Ecstasy of Gold
2 Creeping Death
3 For Whom the Bell Tolls
4 Ride the Lightning
5 Disposable Heroes
6 One
7 Broken, Beat & Scarred
8 The Memory Remains
9 Sad But True
10 The Unforgiven
11 All Nightmare Long
12 The Day That Never Comes
13 Master of Puppets
14 Fight Fire With Fire
15 Nothing Else Matters
16 Enter Sandman
17 The Wait
18 Hit the Lights
19 Seek & Destroy

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