18 de jun de 2010

Rigotto's Room: Rod Stewart e os Faces

sexta-feira, junho 18, 2010

Por Maurício Rigotto
Escritor e colecionador
Collector's Room

Curiosidades do rock. Há tempos, houve uma banda que lançava seus álbuns regularmente, um por ano, durante o período de sua existência. Paralelamente as atividades da banda, o vocalista tinha uma carreira solo e também lançava seus discos anualmente. O curioso é que a banda que o acompanhava em sua carreira solo era a mesma que ele fazia parte, ou seja, todo ano o grupo lançava um disco creditado a banda e outro disco como sendo um trabalho solo do vocalista. Estou falando dos Faces, uma das melhores bandas inglesas da primeira metade da década de setenta, e de seu vocalista, o fenomenal Rod Stewart, um dos melhores cantores do mundo.

Em 1967, o guitarrista Jeff Beck saiu dos Yardbirds para formar o seu próprio grupo. Jeff Beck convocou o então desconhecido vocalista Rod Stewart, que havia sido o cantor da banda Steampacket, e Ron Wood, talentoso músico com passagens pelas bandas The Birds (não confundir com os norte-americanos The Byrds) e The Creation, para assumir o contrabaixo. A banda, chamada Jeff Beck Group, lançou dois ótimos álbuns – Truth (1968) e Beck-Ola (1969), chamando a atenção para os impressionantes timbres vocais de Stewart. O Jeff Beck Group se separou logo após o lançamento do segundo disco.

Na mesma época, outra banda inglesa fazia sucesso e emplacava vários sucessos nas paradas. Falo dos Small Faces, que tinham em sua formação Steve Marriott (vocal e guitarra), Ronnie Lane (baixo), Ian McLagan (piano) e Kenney Jones (bateria). Após quatro anos de atividades, o líder Steve Marriott anuncia em 1969 que estava deixando a banda para formar o Humble Pie, ao lado do guitarrista do The Herd, Peter Frampton. Para o lugar de Marriott, a banda convida Ron Wood para a guitarra e Rod Stewart para ser o vocalista, mudando o nome do grupo para apenas The Faces. Rod, que havia recusado um convite para ser o vocalista do Cactus, havia acabado de lançar o seu primeiro álbum solo An Old Raincoat Won’t Ever Let You Down, que incluía a cover dos Rollig Stones “Street Fighting Man”.


No inicio de 1970 é lançado First Step, o primeiro álbum dos Faces. A banda se afasta do rock psicodélico que era feito pelos Small Faces e apresenta um rock vigoroso, com uma sonoridade que lembra os Rolling Stones. O single “Flying” não faz sucesso, mas o lado B “Three Button Hand me Down” toca massivamente nas rádios. O disco ainda inclui uma releitura para “The Wicked Messenger” de Bob Dylan. No mesmo ano Rod Stewart lança o seu segundo álbum solo, Gasoline Alley, tendo como banda de apoio os seus colegas dos Faces. Rod entra nas paradas com a cover de “It’s All Over Now”, música de Bobby Womack e de seu grupo The Valentines, que já havia sido gravada pelos Rolling Stones em 1964. Gasoline Alley ainda traz o sucesso “Cut Across Shorty”.

Em 1971 Rod Stewart lança o seu terceiro disco solo, Every Picture Tells a Story, que inclui o mega-sucesso “Maggie Mae”, que atinge o primeiro lugar nas paradas nos dois lados do Atlântico. As canções “(I Know) I’m Losing You”, cover dos Temptations, e “Reason to Believe”, de Tim Hardin, também ficam bem posicionadas nas paradas de sucesso, lançadas em single creditado a Rod Stewart and The Faces. Ainda no mesmo ano, os Faces lançam o seu segundo álbum, Long Player, que inclui “I Feel So Good” de Big Bill Broonzy e “Maybe I’m Amazed” de Paul McCartney.

No ano seguinte, os Faces lançam o seu terceiro álbum, com o bizarro título A Nod is as Good as a Wick...to a Blind Horse, que traz o maior hit da banda, “Stay with me”, e também sucessos como “Miss Judy’s Farm”, “That’s All You Need” e “Memphis”, de Chuck Berry. Alguns meses depois, Rod Stewart lança o seu quarto álbum solo, Never a Dull Moment, chegando as paradas com “Angel”, uma cover de Jimi Hendrix. O disco ainda traz “I’d Rather Go Blind” de Etta James, “True Blue”, “You Wear It Well” e “Twisting the Night Away” de Sam Cooke, o cantor predileto de Stewart.

O quarto album dos Faces, o ótimo Ooh La La, é lançado em 1973, fazendo sucesso com a faixa título e com “Cindy Incidentally”. O baixista Ronnie Lane resolve deixar a banda para tentar carreira solo ao lado da banda Slin Chance. Para o seu lugar é convocado o japonês Tetsu Yamauchi, que já havia tocado no Free de Paul Rodgers. A estréia de Tetsu se faz na gravação do single “Pool Hall Richard”.


O ano de 1974 começa com Rod Stewart lançando o seu quinto álbum solo, Smiler, sempre acompanhado dos Faces, fazendo sucesso com “Sweet Little Rock’n’Roller” de Chuck Berry. O disco ainda traz covers de Sam Cooke, Elton John, Bob Dylan e Paul McCartney. Creditado a Rod Stewart and the Faces, é lançado o álbum ao vivo Coast to Coast – Overture and Beginners, um registro da turnê mais rentável de 1974, que faturou cerca de 100.000 libras em apenas 24 shows. Ainda nesse ano, Ron Wood lança o seu primeiro álbum solo, I’ve Got my Own Album to Do, incluindo o guitarrista dos Rolling Stones Keith Richards em sua banda de apoio.

Em 1975, Ron Wood é convidado a substituir Mick Taylor nos Rolling Stones, mesmo que temporariamente até os Stones acharem alguém para a vaga em definitivo. Rod Stewart, que sempre vendeu mais discos solo do que com a banda, declarou que gostaria de focar em sua carreira solo, sendo decidido em comum e amigável acordo encerrar as atividades dos Faces. Com o fim dos Faces, Ron Wood é efetivado como guitarrista dos Rolling Stones. Os Faces ainda entrariam em estúdio para gravar o single “You Can Make me Dance, Sing or Anything”, considerado por muitos como o melhor single da banda. O grupo ainda faz um show de despedida tendo Keith Richards como convidado.

Rod Stewart muda-se para os Estados Unidos e lança Atlantic Crossing, seu primeiro álbum solo sem o apoio dos Faces, e Ron Wood lança o seu segundo solo, Now Look.


Com o fim dos Faces, os Small Faces se reúnem para uma turnê na Inglaterra em 1976. Ron Wood grava Black and Blue, seu primeiro álbum como guitarrista dos Rolling Stones. Rod Stewart lança A Night on the Town, fazendo grande sucesso com a faixa “Tonight’s the Night”, recebendo seu primeiro disco de platina. Ronnie Lane lança um disco em parceria com o guitarrista do The Who, Pete Townshend, chamado Rough Mix, e outro em parceria com Ron Wood, Mahoney’s Last Stand. O baixista Tetsu Yamauchi não consegue renovar o seu visto para trabalho e é deportado para o Japão. O baterista Kenney Jones substituiu Keith Moon no The Who quando esse morreu em 1978.

Rod Stewart lança Foot Loose & Fancy Free em 1978, com sucessos como “Hot Legs” e “You’re in my Heart”. No ano seguinte lança Blondes Have More Fun, que traz “Da Ya Think I’m Sexy”. Rod Stewart é então processado pelo brasileiro Jorge Ben Jor, que alega que “Da Ya Think I’m Sexy” é um plágio de sua canção “Taj Mahal”. Com a perda do processo, Rod é condenado a ceder os royalties da canção a causas humanitárias da UNICEF. Rod passa a lançar discos influenciados pela sonoridade New Wave, não sendo bem recebidos pelo público e emplacando vários fracassos consecutivos, com exceção do álbum ao vivo Absolutely Live (1982), que conta com Tina Turner como convidada.

No final dos anos setenta, o baixista Ronnie Lane apresentou os primeiros sintomas da esclerose múltipla, doença neurológica degenerativa e hereditária, que provoca fraqueza muscular, rigidez articular, dores articulares, descoordenação motora, perda de equilíbrio e dificuldades em movimentar os membros. Em 1983, com Ronnie Lane já utilizando uma cadeira de rodas, é organizado o show Ronnie Lane’s Arms Concert no Royal Albert Hall em Londres, para arrecadar fundos para custear o tratamento. No show se apresentam astros como Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page, Bill Wyman, Charlie Watts, Steve Winwood e Kenney Jones. Rod Stewart continuou fazendo doações para o tratamento de Ronnie, já que esse passou a ter sérias dificuldades financeiras com a doença. Ronnie Lane subiu em um palco pela última vez em um show de Ron Wood em 1992. Morreu de pneumonia em 1997.

Rod Stewart passou a década de oitenta lançando álbuns medianos e com baixas vendas, embora encontrasse algum sucesso com baladas açucaradas e músicas pop radiofônicas. Rod reencontrou o prestigio em 1993 quando gravou o seu acústico para a MTV, Unplugged...and Seatted, ao lado do antigo parceiro Ron Wood. Ainda em 1993, os Faces se reúnem para um único show, com o ex-rolling stone Bill Wyman no lugar de Ronnie Lane. Em 1998, Rod Stewart homenageia o falecido amigo Ronnie Lane regravando “Ooh La La” no disco When We Were the New Boys. O disco ainda traz covers de novas bandas, como “Cigarettes & Alcohol” do Oasis e “Rocks” do Primal Scream.

The Faces com Bill Wyman em 1993


Nos anos 2000, Rod Stewart diz que está velho para ser um vocalista de rock e passa a gravar standards do cancioneiro norte-americano dos anos trinta e quarenta, incluindo várias músicas de Cole Porter e George Gershwin. Entre 2002 e 2006, lança quatro volumes da série The Great American Songbook. Em 2007 lança Still the Same...Great Rock Classics of Our Time, com covers de Creedence Clearwater Revival, Pretenders, Badfinger, Eagles, Bob Dylan, Van Morrison e Eric Clapton. Em 2009 Rod Stewart e Ron Wood voltam a se reunir para planejar uma volta dos Faces. A banda marca um show de retorno para outubro, mas Rod Stewart desiste de participar da reunião por incompatibilidade de agenda com a sua carreira solo. Os Faces não desistem e se apresentam em Londres com Bill Wyman novamente no baixo e com Mick Hucknall, ex-vocalista do Simply Red, nos vocais.

Em maio de 2010, enquanto os Rolling Stones continuam em férias e Ron Wood lança mais um disco solo, os Faces anunciam em seu site oficial que estão voltando a ativa, com Ron Wood, Ian McLagan e Kenney Jones da formação original, mais Mick Hucknall nos vocais e o ex-Sex Pistols Glen Matlock no baixo. O primeiro show está marcado para 13 de agosto no festival inglês Vintage at Goodwood.

The Faces com Bill Wyman em 2009


17 de jun de 2010

Minha coleção - André Ribeiro: Um dos maiores acervos sobre os Rolling Stones do Brasil

quinta-feira, junho 17, 2010
Por Maurício Rigotto
Escritor e colecionador
Collector's Room

André, obrigado por aceitar expor a sua fascinante coleção. Apresente-se aos nossos leitores.

Bem, Maurício. Eu sou jornalista, sou de Porto Alegre e tenho 39 anos. Sou casado e tenho uma filha de 1 ano e 10 meses chamada Paola. Ela, naturalmente, já é grande fã dos Stones. Inclusive já toca guitarra imaginária.

Fui incumbido de entrevistá-lo por eu ser fanático por Rolling Stones. Fiquei muito impressionado com o seu acervo. Como começou essa paixão pela banda?

Cara, a primeira lembrança que tenho dos Stones é de 1978, quando eles lançaram o Some Girls, que foi um grande sucesso. Mas eu tinha 7 anos, então essa lembrança é muito remota. Eu veraneava em Rondinha Velha, no Litoral Norte Gaúcho, perto de Torres. Lá eu tinha um amigo mais velho, o Zé, que ouvia o Tattoo You. Eu achei aquilo bacana. Ele botava o disco pra impressionar as gurias. “Stones chama mulher”, ele dizia. Mas eu fui mesmo ficar louco pelos Stones por volta de 1982, 1983. A Rádio Ipanema FM tinha sido inaugurada há pouco e havia um programa chamado Central Rock. Felizmente o apresentador, Ricardo Barão, era fã dos Stones e fazia especiais sobre a banda. Naquela época, eu ouvia de tudo no rock. Mas lembro que fiquei totalmente doido quando escutei os bootlegs da tour de 1981 e várias canções dos anos 60. Aquilo mudou minha vida. Na hora percebi que tinha encontrado a trilha sonora que me acompanharia para sempre.


Qual a quantidade de itens da sua coleção?

Huuum. Isso muda a todo dia. Não passa dois ou três dias sem eu receber alguma coisa. A minha coleção em termos mundiais é irrelevante. Tenho amigos colecionadores dos Stones de vários cantos do mundo, como Alex (Chile), Marcelo Tejera (Argentina), Garry Mafaldi (Estados Unidos), Matt Lee (Inglaterra), entre outros, que possuem infinitamente mais coisas. De qualquer maneira, há poucos colecionados sérios dos Stones no Brasil. Assim, a minha coleção ganha relevância por isso. Eu tenho em torno de 350 cds e 300 dvds dos Stones. Mas eu não coleciono apenas vídeos e discos, poderia ter mais se quisesse fazer número. Eu coleciono todo tipo de coisas, como pinturas. Eu tenho uma peça autêntica do Ronnie Wood, chamada Pensive, por exemplo. Não sei se existe outra na América do Sul. Talvez tenha, mas eu não conheço. Eu coleciono, então, cds, dvds, pôsters, pinturas, bonecos, camisetas, livros, jornais, revistas, itens como baquetas (tenho uma usada pelo Charlie em Barcelona 2007) e todo e qualquer tipo de memorabília que puderes imaginar.


DVDsAlinhar ao centro

Quando você percebeu que não era apenas mais um fã da banda, mas um sujeito que coleciona todo e qualquer material referente ao grupo?

Isso é difícil de responder, mas eu acho que a partir do momento que arrumei grana para poder comprar as coisas. Não é barato ser colecionador e fã dos Stones. É difícil saber exatamente, mas duvido que exista outro artista com tanto material de coleção quanto os Stones. São quase 50 anos de carreira. Com a internet, isso ficou fora de controle. Hoje em dia praticamente não há show dos Stones que não tenha um bootleg em cd e ou dvd. Quase todos os dias alguém lança um livro sobre a banda ou algum tipo de item de coleção. Mas acho que, como colecionador, eu fiquei louco de uns 4 anos para cá. Antes eu era um fã louco, mas não era um colecionador louco. São coisas diferentes. A minha coleção cresceu demais nestes últimos anos. Talvez o fato de eu ter deixado de ser um fã anônimo e ter ficado relativamente famoso entre os fãs dos Stones pelo mundo, tenha tornado impossível deixar de colecionar mais e mais, porque todos os dias alguém me fala de alguma coisa que saiu em algum canto do mundo. E a gente vai atrás.


CDs

Quantos shows dos Stones você já assistiu?

Vergonhosamente apenas seis. Se fosse uma pessoa organizada, poderia ter assistido a uns 15 pelo menos. Mas infelizmente sempre me atrapalhei. Então, eu vi os Stones em São Paulo (2), Rio de Janeiro (1), Buenos Aires (2) e Lisboa (1).


CDs

Você também é fã de Beatles?

Não. Eu não gosto da música dos Beatles. Apesar de serem bandas contemporâneas, nem vejo muito como comparar as bandas. Os Stones começaram como grupo de blues, passearam pelo soul e se firmaram no rock and roll. Voltaram para blues e flertaram com o country, além de tocarem também vários outros ritmos. Mas fundamentalmente os Stones são uma banda de blues e rock and roll. Os Beatles sempre tiveram uma perspectiva muito mais pop, com raízes muito mais do pop branco americano do que no negro, como é o caso dos Stones. Então, embora se possa até comparar alguns momentos das bandas, no todo são coisas muito diferentes. Os Stones têm 48 anos de carreira. Os Beatles tiveram menos de dez. Os Stones evoluíram e sofreram todo o desgaste natural do tempo. Os Beatles “morreram” jovens. Não há como comparar as bandas e nem eu vejo como um fã dos Stones, que não seja eclético, possa gostar da música dos Beatles.


Alguns box-sets, palhetas, baqueta...

Além de Rolling Stones, quais outros artistas você aprecia e acompanha a carreira?

Eu acompanho apenas os Stones. Eles são a melhor e maior banda do mundo ontem, hoje e sempre. Os Stones são os artistas mais importantes do Sécuro XX, tanto pela influência musical que têm até hoje, quanto pela influência social. Nenhuma banda ou artista mexeu tanto com os costumes como os Rolling Stones. Hoje em dia, os mais jovens podem achar isso besteira, mas pergunte às pessoas que estavam na Inglaterra dos anos 1960. Os Stones meteram a porta abaixo, derrubando um monte de preconceitos e abrindo os olhos da sociedade. Não é à toa que foram presos, perseguidos e considerados inimigos número 1 das autoridades da época. Pois os Stones são tão imensos, que anos depois a mesma sociedade se curvou a eles e hoje eles têm status de chefes de estado. Desta maneira, não há como seguir outros artistas. Qualquer pessoa que suba em cima de um palco depois de 1963, deve muito, ou quase tudo, aos Stones, porque além tudo o que argumentei, os Stones ainda criaram toda a base para as bandas com guitarras e o que se conhece hoje em termos de concertos de rock. Mas, claro, gosto muito do The Faces (a segunda melhor banda para mim), Chuck Berry, Muddy Waters, etc.


Pintura a óleo 'PENSIVE', autêntica de Ronnie Wood

Você ouve outros gêneros além de rock?

Os Stones tocam blues, country, soul, jazz, valsa, rap.... tocam toda a gama da música pop, embora a espinha dorsal seja o rock e o blues. Para que ouvir outras coisas? Precisa? Eu ao menos acho que não.... risos.

Você já esteve com algum dos Rolling Stones?

Infelizmente o mais perto que estive dos Stones foi de vê-los na primeira fila dos concertos. Mas tive contatos muito legais com Bernard Fowler e Tim Ries, que integram a banda de apoio dos Stones há anos.



Gravuras autênticas de Ronnie Wood e baqueta usada por Charlie Watts em Barcelona em 2007

Você tem itens de deixar outros fãs babando, como pinturas a óleo originais de Ronnie Wood, palhetas, baquetas, etc. Como essas peças chegaram até você?

Cada peça tem uma história. A Pensive, a pintura do Ronnie, me foi vendida através do Matt Lee, um grande colecionador inglês dos Stones. O Matt tem contato com galerias de arte e comprei a Pensive de uma galeria de Los Angeles. Tenho outras duas gravuras feitas pelo Ronnie, que foram compradas por um amigo numa exposição em São Paulo. Anos depois, ele me vendeu as gravuras. A baqueta do Charlie me foi vendida por um garoto que trabalhou na montagem do palco do concerto de Barcelona-2007. As palhetas se acha facilmente pelo ebay - originais ou cópias. Aliás, a internet tornou tudo mais fácil. Hoje se acha de tudo. Basta ter como pagar o preço. E costuma ser bem caro.



Pinturas a óleo do artista norte-americano Tom Noll. A primeira chama-se 'Farewell Kiss Mick Jagger' e a segunda 'Our Keith'

Você edita o Stones Planet, o maior e mais atualizado blog sobre a banda do Brasil. Você começou editando um fanzine. Quando iniciou essa dedicação ao grupo?

Ah! Belo tema. Deixa tentar explicar. Tudo começou quando ingressei no Rolling Stones Fan Club Office em 2006, eu acho. Era esse fan club, criado em 1964, que editava o Stones Planet Fanzine. A editora era uma norte-americana grande amiga minha, uma das maiores fãs dos Stones em todo mundo, chamada Tamara Guo (Blue Lena). Eu passei a colaborar com o fanzine escrevendo artigos. Eu era o correspondente sul-americano. Cobri dois shows de Bernard Fowler, em Buenos Aires, e o lançamento do livro Sexo, Drogas e Rolling Stones, no Rio de Janeiro, para o fanzine. Pude entrevistar Bernard Fowler e Tim Ries, por exemplo, para a revista. Mas eu sentia falta de algum veículo informativo sobre os Stones em português. Pedi autorização e peguei o nome do fanzine emprestado, Stones Planet, juntei a ele a palavra Brazil. Daí nasceu o www.stonesplanetbrazil.blogspot.com em setembro de 2007. Quando o fanzine e o fan club acabaram faz um ano, Stones Planet Brazil, Keith Shrine (da Blue Lena) e Stones Planet Belgium (de Sandra Polfliet) se associaram e hoje trocamos informações. Tenho de ressaltar que também conto com a ajuda duas jovens amigas, a Danny e a Karen, que me dão uma força sempre que estou impedido de atualizar o blog.

O Stones Planet é muito bem informado, geralmente as notícias sobre a banda são publicadas em primeira mão no seu blog. Como funciona essa rede de informações? Vocês têm contatos em todo o mundo?

Cara, isso dá um trabalho danado. Sério, precisa muita dedicação. Não se trata o blog como uma brincadeira. Embora ele seja 100% amador, sem grana envolvida, o tratamento é de um veículo de informação profissional. Nós tentamos fugir da besteira. Nosso foco são os verdadeiros fãs. Discussões bobas, não entram no blog, o que muitas vezes nos rotula de antipáticos, mas é preço que resolvi pagar para ter um veículo sério. Grande parte do conteúdo do blog vem dos messageboards especializados em Stones Shidoobee e IORR, mas com o tempo o blog ganhou notoriedade e credibilidade. Então, conseguimos uma boa rede de contatos com amigos fãs de todo o mundo e também com algumas pessoas que fazem parte de alguma forma do círculo íntimo dos Stones. Isso faz com que certas informações cheguem antes para nós, o que deixa algumas pessoas desconfiadas (já fomos chamados de mentirosos, impostores, etc), mas tudo que está no blog é sério. Há erros, claro, nem seria louco de achar que não cometemos erros. Mas tentamos ter as informações mais confiáveis. Ficamos muito orgulhosos quando um rapaz argentino chamado Fabian nos escreveu dizendo que Stones Planet Brazil era para ele como Chuck Berry foi para Keith Richards, já que ele criara um blog inspirado no nosso. Hoje Corazón de Stone é um veículo fantástico e com muita satisfação trocamos informações a todo momento. Respostas como essas, nos dão força para continuar.



Exile on Main St. e afins

Você é jornalista por formação. Você também atua como jornalista em outras áreas ou sua dedicação é exclusiva aos Rolling Stones?

Eu sou jornalista esportivo. Nada relativo aos Stones. Já escrevi algumas coisas sobre a banda, mas não há qualquer relação entre a minha vida profissional e os Stones. Adoraria ser o novo Bill German (ex-editor do Beggars Banquet, fanzine oficial dos Stones, e que recentemente lançou o livro Under Their Thumb, contando sua história com a banda). Aliás, o Bill é um dos nossos melhores contatos.



Alguns livros

Você me contou que, pela praticidade do CD, não lida muito com vinil. Mesmo assim você tem a discografia completa em long-plays? Não acha as capas e a arte mais interessante nos bolachões?

Cara, eu acho e sempre achei os lps muito mais legais. Pelas capas e pelos encartes, principalmente. Não sou tão doido pelo som. Embora menos romântico, acho os cds com melhor som e bem mais fáceis de cuidar. Além disso, há a questão do espaço. Os lps ocupam espaço demais. Eu tinha perto de uma centena de lps dos Stones. Vendi ou troquei quase tudo por cds e outros itens de coleção. Infelizmente algumas coisas ficam pelo caminho. Prefiro nem pensar nisso, porque ficaria deprimido. Hoje tenho pouca coisa em vinyl, como um Box especial do Sticky Fingers, o Superdeluxe Boxset do Exile on Main Street e o single de Plundered my Soul. Mas nem me fale em música em computador. Isso eu desconsidero. Tem de estar em CD e com estojo, no mínimo.



Box-sets

Entre tantos itens, qual você considera o seu disco e vídeo mais raro?

Nossa!. Cara, hoje em dia com a internet não existe nada raro. Ao menos não em cd. Os lps são mais legais por isso. Há grandes raridades em lps, mas em cd e dvd tudo ficou acessível, basta querer e procurar. Tenho um vídeo do Mick Taylor no show de São Paulo dos anos 1990, que penso ser muito raro. Acho que não mais do que umas 2 ou 3 pessoas têm isso além de mim. Vou citar esse para te dar uma resposta objetiva.

Há algum disco ou vídeo que você procura há anos e ainda não encontrou?

Há coisas que quero comprar, mas que ainda não houve condições por falta de oportunidade. Há muito material dos Stones. É uma coisa absurda. Tenho amigos que têm 3 mil cds dos Stones e outros com mais de 1,5 mil dvds. Hoje meu sonho de consumo é um case chamado Stones Touring Party. É uma maleta de viagem com itens de coleção do Exile on Main Street. Também quero discos de ouro e platina autênticos dos Stones e uma guitarra assinada pela banda. Por enquanto, são sonhos de consumo. Por enquanto...



Desenho original do artista espanhol Tinot

Quais discos você considera o melhor e o pior dos Rolling Stones?

Melhor é muito difícil e pior ainda mais difícil de responder. Cito sempre o Tattoo You como meu preferido para dar uma resposta. Mas a verdade é que não tenho uma preferência. Quanto ao menos sensacional, o Dirty Work.

Se você tivesse que fazer uma coletânea com as vinte melhores músicas dos Stones, qual seria o repertório?

Bá, que ruim hein? Deixa tentar... Beast Of Burden, Tumbling Dice, Sweet Virginia, Start me Up, Dead Flowers, Wild Horses, Brown Sugar, Jumpin Jack Flash, Honk Tonk Woman, Out of Time, Get off of my Cloud, All About You, Don´t Stop, Jiving Sister Fanny, Crazy Mama, Starfucker, She´s So Cold, No Expectations, You Can´t Always Get What you Want..... ufa, deixei umas 400 canções de fora. hahaha



Camiseta da tour de 1981

Cite cinco músicas dos Stones que você não gosta.

Não existe uma sequer.

Qual o melhor disco dos Stones de cada década?

Hum, meramente para te dar resposta....Let it Bleed, Exile on Main Street, Tattoo You, Voodoo Lounge, Exile on Main Street Rarities (cd com as dez faixas extras do Remaster de 2010 do Exile). Mas olha, repito, meramente para te responder, porque não tenho preferência mesmo.



Festival Knebworth box-set

Brian Jones ou Mick Taylor?

Ambos, cada um foi perfeito para a sua época.

Mick Taylor ou Ron Wood?

A mesma coisa, cada um foi perfeito para sua época.



Poster e ingresso do Festival Knebworth 1976

Bill Wyman ou Daryl Jones?

Bill Wyman é um Rolling Stone.

O que você achou do material adicional da nova edição do Exile on main St.?

Excelente. É espantoso como os Stones têm munição guardada. Teremos muita coisa boa para surgir nos próximos anos.


André com Bernard Fowler

Você disse que sua coleção é minúscula se comparada a de outros amigos que possui em diversos países. O que lhe faltaria para atingir esse mesmo patamar?

Nossa! Alguns milhares de dólares.


Encontro com Bernard Fowler

Você acha que vai chegar um dia em que sua coleção estará completa ou sempre haverá novos itens a serem buscados?

Ah, em se tratando de Stones nunca estará completa. Há sempre muita coisa a ser buscada e sempre é lançada muita coisa nova. Ninguém tem tudo dos Stones e nunca vai ter.



Poster A Bigger Bang Tour

Antigamente, os Stones lançavam um disco por ano, ou até mais, além de vários singles. Nos anos noventa foram apenas dois discos de inéditas e nos anos 2000 somente o Bigger Bang. Você acha que banda ficou preguiçosa?

Eu acho que os Rolling Stones têm 48 anos de estrada. Qual outra banda com o mesmo tempo está em atividade? Qual outra banda lançou tantos discos? Os Stones são extremamente profissionais e sabem o momento certo de lançar produtos no mercado. Isso é um negócio e embora não sejam lançados álbuns de inéditas como antes, não existe um ano sequer sem que seja lançado algum cd, dvd, livro, filme ou seja lá o que for dos Stones. Tenta lembrar de 2005 para cá... Cara, eu não conseguiria lembrar de tudo. É coisa demais. Hoje a banda está muito acima disso, de lançar discos todos os anos. Eles podem se dar ao luxo de só colocar novos álbuns de inéditas no mercado quando entendem ser o momento certo. E ainda podem lançar uma imensa série de outros produtos.


Stones Planet fanzine

Nos anos sessenta e setenta, os singles e outtakes da banda, de tempos em tempos, eram lançados em miscelâneas como High Tide and Green Grass (1966), Through the Past, Darkly (1969), No Stone Unturned (1973) e Metamorphosis (1975). Esse tipo de disco não foi mais lançado, salvo a coletânea Rarities (2005), que pouco acrescentou. Nós que colecionamos bootlegs conhecemos a grande quantidade existente de material inédito de excelente qualidade. Você acha que a banda só vai abrir os seus acervos após encerrar suas atividades?

Acho que eles começaram a abrir o baú. Note, o box do Get Yer Ya-Ya´s Out! saiu com cinco canções oficialmente inéditas. O Exile tem dez canções “novas”. Acho que é um processo natural que ocorrerá com o tempo. É só esperar.



Aftermath e Spirit of Brian Jones fanzines

Eu acredito que os Rolling Stones só irão acabar quando falecer um dos integrantes. Você acha que podemos esperar novos discos e novas turnês, incluindo novamente a América do Sul?

Eu acredito que sim. É uma coisa que parece certa que os Stones irão voltar para a estrada. Possivelmente em 2011, mas não há nada confirmado. Não vejo nenhum dos Stones sentado em casa brincando com os netos por muito tempo. Enquanto tiverem saúde estarão em atividade. Não existe razão para não estarem. Não sei se voltarão à América do Sul, mas é praticamente uma certeza que haverá nova tour.



Posters

Em 1979, ano em que a banda tirou férias, Ronnie Wood e Keith Richards formaram a banda New Barbarians. A partir dos anos oitenta, durante os períodos de recesso da banda, Mick Jagger lançou discos solo, Keith Richards gravou e excursionou com os X-pensive Winos, Charlie Watts formou um quinteto de jazz... Hoje em dia apenas Ron Wood mantém a sua carreira solo em atividade. Você acha que Mick e Keith estão menos interessados em música que em outros tempos?

Não. O que acontece é que os Stones têm trabalhado demais. Veja. Eles gravaram o A Bigger Bang em 2005. Ficaram dois anos em tour, terminando os concertos apenas na segunda metade de 2007. Junto a isso saiu o dvd Biggest Bang... em 2008 veio o filme Shine a Light, o dvd e o cd da trilha. Em 2009, a Universal relançou os discos a partir de 1971. E em 2010 saiu o novo Exile. Isso tudo requer muito trabalho. Há muito desgaste, horas de estúdio, de entrevistas pra divulgação, de participações em eventos, etc, etc, etc. Embora não tenham um disco novo ou não estejam na estrada, os Stones estão em plena atividade.

E cada um tem seus projetos pessoais. O Charlie excursionou recentemente com banda de boogie woogie. O Keith participou de disco de gente como Sheryl Crow e Dirty Strangers. O Keith também está relançando o disco dos Winggles Angels com faixas novas... não tem fim nunca. Os Stones não param.



Beggar's Banquet fanzine oficial, de Bill German


André, agradeço novamente pelo ótimo bate papo. Deixe suas considerações finais aos leitores do Collector’s Room.

Pó, eu que tenho de agradecer. É raro ter a chance de manter um papo qualificado desta maneira. É exatamente isso que buscamos em Stones Planet Brazil. Chegar aos verdadeiros fãs dos Stones. Só tenho a agradecer e gostaria de convidar a todos os amigos ligados em Stones a nos visitarem em www.stonesplanetbrazil.blogspot.com. Obrigadão e abraço!



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