9 de jul de 2010

Minha Coleção: Conheça o acervo de Gustavo Sazes, artista brasileiro que cria capas de discos para bandas de todo o mundo

sexta-feira, julho 09, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Gustavo, antes de tudo eu queria que você se apresentasse aos nossos leitores. Quem você é e o que você faz?

Olá sou Gustavo Sazes, designer, e trabalho fazendo capas de CDs e tudo relacionado a material impresso e web para bandas pelo mundo.

Quantos discos você tem?

Não muitos, algo em torno de 2.000 itens contando CDs, DVDs, boxes e Lps.

De que bandas você tem mais itens?

Possivelmente do Mr.Big, In Flames, Stratovarius, Fear Factory, Arch Enemy e Gamma Ray.

A sua preferência é por CDs ou Lps?

Cresci com LP e tive que me adaptar ao CD. Hoje infelizmente só devo ter três ou quatro LPs na coleção. Gosto dos LPs pela qualidade da impressão, tamanho da arte. Gosto dos CDs pelo qualidade do som (que me perdoem os puristas), espaço que ocupam na estante, pelos digipacks.

Como você guarda os seus discos? Tem alguma ordem na hora de organizar tudo?

Ai é o CAOS total (risos). Tento guardar por ordem de lançamento dentro de cada artista, mas não consigo listar os mesmo em ordem alfabética. Normalmente os que ficam mais visíveis e fáceis de pegar são os que escuto mais, ou que comprei por último. Realmente não é fácil achar aquele CD X ou Y quando estou com pressa. Literalmente tenho que passar o olho por todas as prateleiras :).

Qual mania em relação ao seus discos que só você tem?

Possivelmente é o mandamento mais básico de todos: “
não emprestarás’’. Pode pegar, ver, escutar, mexer, porém não pode sair daqui de casa (risos). De resto não tenho nenhum ritual, nem guardo com plástico especial nem nada.

Onde você compra seus discos?

Virtualmente em todos os lugares que passo: seja na Galeria do Rock (SP), Metal Market do Wacken (Alemanha), no eBay, nas lojas virtuais da Century Media, Nuclear Blast, Amazon ou qualquer lugar que me chame a atenção por algum motivo. Sou fã de ficar procurando lojas “perdidas’’ nas cidades que visito.

Também conto com a valiosa ajuda de alguns clientes e meus contatos nas gravadoras, que sempre conseguem garimpar algo raro ou limitado para mim. Isso é impagável!!!

O heavy metal é o gênero dominante, mas também há espaço para outros estilos

Qual foi o primeiro disco que você comprou?

The Real Thing do Faith No More, em LP nos anos 90, eu acho. Foi bem no lançamento desse álbum no Brasil. Considero esse o meu primeiro ‘”comprado” literalmente. Antes disso eu só tinha uns LPs herdados :).

Qual seu disco preferido? Quantas cópias tem dele?

Pergunta difícil. Eu dificilmente tenho mais que duas ou três versões do mesmo disco, e mesmo assim quando tenho as versões são bem diferenciadas entre elas, seja por ter uma capa diferente, CD bônus ou digipack.

Normalmente os CDs que tenho mais versões são os que eu faço a arte, porque aí eu tento pegar tudo que eu eu criei pra ter de recordação. Baseado nisso posso dizer que o lançamento que tenho mais versões é o último álbum do Arch Enemy que eu assinei a capa,
The Root of All Evil. Tenho em CD jewel case europeu, CD mediabook com capa e encarte diferente europeu, vinil, e tenho a versão japonesa, que também tem um encarte diferenciado e outros bônus.

Agora estou atrás de um digipak mexicano do Arch Enemy (
The Root of all Evil) e um jewel case japonês do Krisiun (Southern Storm).

Lembra qual foi o seu primeiro contato com a música?

Difícil lembrar. Talvez os Lps dos meus pais ou de vizinhos.

O que a música representa na sua vida?

De um ponto de vista bem prático é ela quem paga minhas contas literalmente (risos). Eu estudei música, tive bandas, dei aulas, consumo música e hoje colaboro diretamente com o cenário fazendo as artes. Tenho real prazer em colocar meus CDs pra escutar, sair pra fazer compras, buscar aquela raridade, ir nos shows, comprar o merchandising oficial, enfim, não tenho como sobreviver fora desse elemento. Às vezes fico imaginando como deve ser sem graça a vida de pessoas que não tem relação alguma com a música.

O que mais você coleciona?

Livros, gibis, actions figures e DVDs de filmes e seriados.

Algumas das bandas prediletas de Gustavo

Você tem uma quantidade enorme de action figures. Como surgiu o interesse por esses itens, e que dicas você dá para quem quer começar uma coleção como a sua – lojas onde comprar, como conservar, essas coisas.

Comecei por amor total aos quadrinhos. Sou um grande fã da DC Comics e Marvel, e por incrível que pareça sempre tive o sonho de trabalhar projetando brinquedos, ou pelo menos fazendo o visual deles. Nunca consegui, portanto passei pro outro lado do campo e virei consumidor (risos).

No meu caso, 99% dos AFs (action figures) são importados, então você cai no mesmo problema dos CDs: ou compra lá fora via eBay e e-shops, ou pega aqui no Brasil na mão de “escalpeladores” (apelido carinhoso que nós colecionadores damos a essa raça nefasta que lucra horrores em cima dos AFs).

Das mesma forma que os Cds, também sou metódico com relação aos AFs que coleciono. Estranhamente, não tenho nenhum relacionado a música ou filmes diretamente. Meus AFs são de desenhos, quadrinhos ou games, tipo DC Universe, DC Direct, Masters of the Universe, Streetfighter, Akira, World of Warcraft, Spawn, etc.

Aqui em São Paulo temos algumas lojas legais como Comix, Limited Edition, PowerToys, e também um fórum bem legal onde os colecionadores podem ficar por dentro das novidades: www.figurasdeacao.com.br. De gringo eu gosto muito do www.actionfigurepics.com

Pra conservar não tem muito mistério: ou você deixa no blister [(acrado original) ou deixa pegando poeira. Mensalmente eu tenho que fazer uma varredura nas prateleiras tirando o pó , um por um, com pincel levemente umedecido com água.

Imagino que essa paixão por action figures venha ou do cinema ou dos quadrinhos. Você também coleciona filmes e HQs?

Pois é como falei, amor total aos quadrinhos. Cresci lendo gibi, virei adulto lendo gibi e provavelmente vou virar um velho leitor de gibis empoeirados. Nesse ponto eu sou bem tradicional, quero ter o gibi na mão. PDF jamais !!!

Mas filmes também são uma paixão! Aliás, até parte da minha coleção de CDs é voltada para soundtracks e scores de filmes que eu curto!!!

Detalhes da coleção

Atualmente você é um dos mais conceituados e requisitados designers de capas de discos do Brasil. Como você entrou nesse ramo?

Totalmente por acidente. Um belo dia eu tinha uma banda, outro belo dia eu comprei um PC, fiz a capa da demo, o site, e a semente fora plantada. Desse dia em diante eu comecei a me interessar pelo assunto de forma mais estruturada. Observava e experimentava muito.

Já se vão 10 anos, uns dois mil trabalhos publicados em uns trinta países além do Brasil. O resto é história ainda a ser contada :D.

Qual a sua formação?

Estranhamente não tem NADA a ver com design. Eu passei minha vida estudando música, letras, ciências sociais, passei por várias faculdades e “terminei’’ ganhando a vida fazendo essa tal de “arte’’ :)

Coloco o verbo entre aspas porque estou longe de terminar qualquer coisa. A cada dia descubro algo novo, uma jeito novo de combinar uma cor, uma textura. Felizmente minha profissão é bem dinâmica, e a cada trabalho sempre pinta um novo desafio. Ficar estimulado é o fator principal no meu trabalho.

Qual foi a primeira capa que você desenvolveu?

Foi essa da minha banda de garagem uns dez anos atrás. Muito tosca na verdade, tenho ainda hoje essa demo tape.

Alguns discos com capas criadas por Gustavo

Como é o processo criativo para a criação de uma capa de disco? Você recebe um briefing da banda, ou desenvolve a partir do zero?

Ambos. Obviamente, todo artista de personalidade prefere criar por si só, mas existem momentos em que o brainstorm coletivo é necessário.

Você consegue se satisfazer artisticamente com as capas, ou produz também outras obras para dar vazão à sua criatividade?

Adoro meu trabalho. Adoro entrar nas lojas e ver vários CDs com minhas capas, principalmente os das bandas que eu adoro.

Cada banda, cada capa é um desafio, um aprendizado, uma nova cor na palheta, um novo jeito de pensar aquela ideia. Todos os dias aprendo algo novo, e isso não tem preço.

Eu também tenho um projeto pessoal a longo prazo, justamente para criar algo totalmente fora do que faço nas capas. É algo bem livre, bem mais orgânico e sem nenhuma pretensão. Como já se passaram dez anos, senti que estava na hora de fazer algo 100% meu, porém sem pressão alguma.

Das capas que você desenvolveu, quais são as suas preferidas, e quais as que menos curte?

Eu gosto possivelmente das que fiz recentemente. O processo está mais vivo na minha mente, então é meio óbvio escolher as últimas. No entanto, eu tenho carinho por várias que fiz no passado, por motivos variados. Se for pra citar nomes eu destacaria God Forbid (
Earthsblood), Dream Evil (In the Night), Arch Enemy (The Root of All Evil), Musica Diablo (Musica Diablo), Ancesttral (The Famous Unknown), Dr Sin (Bravo e Original Sin), Skinlab (The Scars Between Us), entre outras.

As que eu não gosto eu jamais diria os nomes. Eu simplesmente nem coloco no meu site, então quase ninguém sabe que eu as fiz (risos).

Bonecos da DC Comics, outra paixão de Gustavo

E no geral, qual a sua capa preferida de disco?

É a capa que te faz pegar o CD da parede numa loja e pedir pra escutar. Isso pode acontecer por vários fatores: cores bem misturadas, elementos únicos, ideias diferentes sobre conceitos já batidos. Não tem receita de bolo pra capa perfeita.

Daí pra frente é sorte. A música pode ser boa ou ruim. Eu mesmo compro vários CDs pela capa e acabo por descobrir bandas super interessantes.

Quais foram as suas influências quando você começou a trabalhar na concepção de capas de discos?

Derek Riggs primeiramente. Eu adorava (e ainda adoro) as capas do Maiden. Hoje eu já posso citar Niklas Sundin, Salvador Dali, Travis Smith, Dave Mckean.

Qual o seu artista gráfico preferido?

Dave Mckean, com certeza absoluta.

Onde você busca inspiração para desenvolver os seus trabalhos?

Em todo lugar, em todas as letras, todos os sons e cores que eu puder experimentar.

Quais são os seus planos para o futuro?

Trabalhar mais, desenvolver mais trabalhos autorais, e um dia quem sabe voltar a tocar e compor.

A coleção está repleta de action figures para todos os gostos

Como você vê a cena metálica brasileira atual? Quais são os pontos fortes e fracos do mercado?

O nível profissional subiu muito. Esse já é o primeiro passo de muitos para criarmos um cenário forte e estável. Já o ponto negativo é a falta de espaço e incentivo para as bandas iniciantes - e isso não parece ter solução.

A sua área de atuação se limita apenas a grupos de metal, ou artistas de outros gêneros tem procurado você também?

Sim, já fiz trabalhos para Roberto Carlos, Zezé di Camargo e Luciano, Victor e Léo, Adriana Calcanhoto, Araketu, Jota Quest, e toneladas de outros estilos.

Meu trabalho é predominantemente voltado ao rock e metal, possivelmente por gostar mais desses estilos, mas nunca fui limitado a atender X ou Y.

Qual foi a banda mais fácil de trabalhar, e qual foi a mais difícil?

A melhor é aquela que confia em você, te respeita, e, principalmente, OUVE o que você tem a dizer. Já a pior banda é o extremo oposto. Não tenho prediletos na verdade.

Como você conheceu a Collector´s Room, e qual a sua opinião sobre o site?

Conheci através do site
Whiplash. Gosto muito da coluna, sempre acompanho e sempre releio os posts antigos. Todo bom colecionador gosta de apreciar a coleção alheia (risos).

Action figure do clássico japonês Akira

Quais são, para você, os dez melhores álbuns de todos os tempos?

Cara, difícil citar somente dez ... vamos lá:

In Flames –
Whoracle
Escute as melodias e violões desse álbum. Death metal melódico sueco em sua melhor forma. Escuto esse CD até furar. Um disco que jamais soará datado, e que mudou minha maneira de sentir e entender música extrema. Destaque absoluto para TODAS as faixas.

Dream Theater –
Images and Words
Esse disco colocou o Dream Theater no mapa. “Under a Glass Moon”, “Another Day”, “Metropolis”, “Surrounded”, são destaques mínimos perante a grandiosidade dessa obra. Aliás, todas as faixas merecem destaque total. Esse discotransformou o Dream Theater num ícone a ser seguido, amado e idolatrado por gerações.

Pain –
Dancing with the Dead
Veja um show do Pain ao vivo, escute “The Same Old Song” e “Nothing”. Peter incendeia as pistas de dança com peso e melodias de extremo bom gosto. Não tem como ouvir e ficar parado!!!

At the Gates –
Purgatory Unleashed – Live at Wacken
Amo essa banda e tive o privilégio de assistir esse show em cima do palco no Wacken. Uma noite inesquecível, uma banda super afiada e um set list matador! Imperdível!!! “Blinded by Fear”, “Kingdom Gone”, “Under a Serpent Sun”, “Nausea”, “Cold”, “Raped By the Light of Christ” ... a lista de clássicos não acaba.

Fear Factory -
Obsolete
“Ressurrection” já vale o CD todo. O peso e a melodia unidos de forma ímpar fazem desse álbum um divisor de águas dentro do estilo. Temas desse disco são obrigatórios em todos os shows da banda.

Mr Big -
Live
Show impecável, set list matador, músicos de outro planeta. Outro clássico que escuto infinitamente. O que falar do mestre Paul Gilbert? Escute, veja o vídeo, escute de novo, veja o vídeo de novo, e de novo e de ...

Mr Big –
Hey Man
É impossivel escolher o melhor álbum quando se gosta muito de uma banda. Hey Man segue nessa lista, pois ele apresenta um Mr Big em seu momento mais maduro, com inspiradíssimas composições: “Trapped in Toyland”, “Going Where the Wind Blows”, “Take Cover”. O ao vivo desse registro (Live in Budokan) é maravilhoso e só reforça o poder dessas músicas ao vivo. Além disso, adoro essa capa!

Killswitch Engage –
The End of a Heartache
Um dos melhores shows que vi em minha vida. Esse álbum é perfeito do ínicio ao fim. Uma tonelada de riffs matadores e grooves de extremo bom gosto. JAMAIS farão algo superior. O metalcore se define nesse disco.

Gamma Ray –
Somewhere Out in Space
O que dizer do álbum que tem a trinca “Beyond the Black Hole”, “Valley of the Kings” e “Somewhere Out in Space”? Perfeição é o mínimo. Não é a toa que o line up desse disco dura até hoje.

Stratovarius -
Infinite
Uma de minhas capas favoritas de todos os tempos, e com certeza minha canção predileta da banda faz parte desse álbum. “Hunting High and Low” é o hino supremo do estilo.

Arch Enemy –
Burning Bridges
Muitos preferem o Stigmata, mas foi esse álbum que nos presenteou com pérolas como “The Immortal”, “Angelclaw”, “Dead Inside” e “Silverwing”. Foi o primeiro CD do Arch enemy que escutei na vida. Os irmãos Amott se superaram nos riffs e solos belíssimos.

Yngwie Malmsteen –
The Seventh Sign
Adoro todos os álbuns do Yngwie, mas esse é um soco na cara de qualquer um que ouse falar mal do gigante sueco. Em sua melhor forma, Malmsteen nos presenteia com hinos como “Seventh Sign”, “Never Die”, “Forever One” e “Brothers”. Além disso, temos uma banda absurdamente afiada, com as batidas precisas de Terrana e os vocais fenomenais de Vescera.

Dream Evil –
The Book of Heavy Metal
Meeeeeeeeeeetaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaallllllll!!! Sem mais comentários!

Tears for Fears –
The Seeds of Love
Se você não se emociona com “Woman in Chains” é porque não tem coração.

Rammstein -
Mutter
Peso esmagador e refrões pegajosos fazem deste CD um destaque total na discografia dos alemães. A faixa título é minha eterna predileta.

Iron Maiden -
Powerslave
A melhor capa do universo e a melhor faixa de abertura da galáxia! Se isso ainda não fosse suficiente, eu poderia citar a perfeição dos temas “Rime of the Ancient Mariner” e “Powerslave”. Preciso falar mais?

Iron Maiden –
Live After Death
O primeiro LP do Maiden que comprei, inesquecível por motivos além da música (perfeita). Ainda tenho essa bolacha na coleção. Esse eu considero um dos melhores registros ao vivo de todos os tempos, senão for o melhor!!!

Sentenced -
Frozen
Amor à primeira ouvida. Os reis do iêiêiê finlandês! Escute “Farewell” e T”he Rain Comes Falling Down” e tente não se emocionar.

Europe –
Out of this World
As guitarras de Kee Marcelo são de arrepiar. Muitos preferem o CD anterior, mas foi nesse álbum que o Europe atingiu um novo patamar nas composições.

Pra fechar: para nós aqui da Collector´s Room é muito legal poder entrevistar pessoas como você, que possuem um trabalho diferenciado e contribuem para o desenvolvimento do mercado musical brasileiro. Parabéns pelo ótimo trabalho. Deixe um recado para os nossos leitores.

Obrigado a todos pelo apoio e pelo espaço aqui no site. Fico feliz de poder falar um pouco sobre esse nosso hobby tão querido. Aos leitores deixo a dica: continuem colecionando! Se você não é colecionador, pare tudo e comece já! Eu recomendo! (risos)

Ah, e quem quiser saber mais sobre o meu trabalho pode acessar
www.abstrata.net.

Um grande abraço!!!

8 de jul de 2010

Você realmente gosta de música?

quinta-feira, julho 08, 2010

Por Rodrigo Nogueira
Professor de Música e Colecionador
Sons, Filmes & Afins
Central Musical: Anos 80
(texto publicado originalmente no blog Sons, Filmes & Afins)


A pergunta do título pode parecer tola, mas acho que cabe uma reflexão. Acredito que podemos apreciar música de duas formas:

Pelo que ela nos causa

Na maioria das vezes que procuramos ouvir música, buscamos os efeitos que ela nos causa. Por exemplo: quando saímos para dançar, queremos ouvir músicas que nos compelem à dança, como um ritmo animado ou uma balada romântica. Isso nos coloca no clima e, em geral nos traz prazer. Quando vamos à igreja, precisamos de músicas que nos coloquem em uma espécie de transe, pois nos dão a sensação de estarmos em contato com o divino. Em casos mais corriqueiros, utilizamos a música na tentativa de mudar nosso humor ou potencializá-lo, como nos casos em que ouvimos uma música alegre quando estamos - ou quando queremos - ficar alegres.

Dessa forma, música boa é simplesmente aquela de que gostamos, e gosto não se discute. Sem contar que gosto nada mais é do que uma questão de costume, e a mídia, sabedora disto, molda o gosto da população em geral ao seu bel prazer, forçando audições constantes de gêneros e artistas específicos.

Existem atualmente até estudos avançados sobre os efeitos da música e terapias que a utilizam como matéria-prima em suas seções, como é o caso da musicoterapia, por exemplo. Mas aí será que estamos apreciando música ou estamos apenas utilizando os seus benefícios?

Por ela em si

A música é uma forma de arte, e por si só pode ser apreciada. Os livros de teoria musical dizem que “
música é a arte de bem combinar os sons” e que sua principal função é a “expressão de sentimentos”. Reparem que não há restrições de sentimentos, ou seja, podem ser tanto bons quanto ruins.

Para apreciar a música dessa forma devemos saber como ela é de fato, ou seja, sua estruturação, intenção, expressão, interpretação, etc. Não é essencial, para isso, ter tanta erudição; muito pode ser percebido de forma empírica e por sensibilidades. Sem dúvida que o conhecimento na área amplia ainda mais essa percepção, mas não é o principal. Portanto, não conseguiremos atingir esse nível de apreciação com atividades paralelas. Quando lemos um livro, não podemos estar com a cabeça em outro lugar, pois assim não entenderemos nada do que estamos lendo. Com a música é da mesma forma.

Nesse caso, música boa é aquela que tem qualidade, o gosto pouco importa. A qualidade é discutível sim, e é baseada na análise e na percepção. O fato de gostarmos dela ou não jamais tirará sua qualidade, só tornará mais ou menos agradável a experiência de ouvi-la.
Meu objetivo nesse texto não é dizer que uma forma é melhor que a outra, apenas mostrar que existem outras maneiras de apreciar a música e que não precisamos abrir mão de nenhuma delas.

Como a primeira forma é feita automaticamente, venho oferecer com meu blog um pouco da segunda. Não quero de maneira alguma mudar ou influenciar gostos, mas, através de pesquisa, mostrar o que tem valor artístico e estético nesse campo. Tanto é que muitas vezes contrario meu próprio gosto nas postagens no intuito de oferecer isenção de julgamento. Nem tudo o que é mostrado precisa ser gostado, mas por que não conhecido?

O universo musical é bem mais amplo do que o que a mídia nos mostra! Convido os caros leitores a compartilharem comigo essa maravilhosa viagem.

Programação de Postagens do Sons, Filmes & Afins
Segundas e Quartas – Discos históricos de música popular (todos os estilos), apresentados em ordem cronológica (no momento, estou desbravando o ano de 1979);

Sextas - Resenhas de filmes que estão em cartaz nos cinemas ou que acabaram de chegar às locadoras;

Domingos - Domingos Especiais – Matérias que falam da trajetória da música e curiosidades, sempre focando na música chamada erudita (ou clássica). Atualmente apresento a série 50 Obras Revolucionárias.


Heavy Metal - A História Completa

quinta-feira, julho 08, 2010


Por Fernando Bueno
Engenheiro e Colecionador

Até uns anos atrás era difícil encontrar aqui no Brasil lançamentos de livros sobre música. As biografias de estilos, bandas e músicos eram conhecidas pelos fãs por meio das revistas especializadas e também pela internet. Porém isso mudou de um tempo para cá como mostra a própria Collector´s Room que tem feito regularmente resenhas de livros.

Descobri esse livro por uma matéria da Whiplash e fiquei muito empolgado já que o Heavy Metal é meu estilo de coração. Foi com ele que comecei minha história de fã de música lá no final da década de 80 e, se considerarmos que o metal surgiu com o Black Sabbath em 1970, assim vivi metade da história do metal. Claro que depois disso comecei a escutar outros estilos ligados ao rock, mas o metal foi o início de tudo.

Logo nas primeiras páginas existe uma linha do tempo citando fatos importantes para o estilo servindo como se fosse uma linha de raciocínio que ajudou o autor a montar a estrutura do livro.

O livro começa, como se é de esperar, contando o início do estilo. Porém uma das coisas que notei é que o autor não fica enrolando contando histórias de todos os músicos de blues das áreas rurais americanas como acontece em inúmeras outras publicações. O autor é muito mais direto e inicia sua narração no dia 13 de fevereiro de 1970, uma sexta feira, dia do lançamento de um dos debuts mais clássicos de toda a história da música, o álbum auto-intitulado do Black Sabbath.

O que mais me chamou a atenção foi que, exceto aos capítulos sobre a famosa NWOBHM e sobre o tão falado Black Metal norueguês, o livro tem como foco principalmente a música americana. O autor, Ian Christe, é um jornalista americano que escreve para a Kerrang, Wired e Spin o que explica essa predominância do metal americano.

Claro que as bandas inglesas são citadas ao longo do texto, mas sempre como uma referência distante. Como se a época das trocas de fitas cassete, sempre citada no livro, ainda fosse atual. E claro que nessa época o que estava mais próximo, no caso as bandas americanas nos Estados Unidos, era o que mais se conhecia.

Outro ponto que é preciso citar é a compreensão dos americanos em relação ao Metallica. Entre os fãs de metal sempre há a necessidade de se ter uma opinião de quem é a maior banda do estilo e muitas vezes acabamos tendo o Metallica e o Iron Maiden como dois polos. Mas no livro é clara a consideração do Metallica como a mais importante banda do estilo. Isso fica tão claro que o Mercyful Fate é possivelmente citado mais vezes que o próprio Iron Maiden apenas por ser uma histórica banda que influenciou um garoto dinamarquês que se mudou para os Estados Unidos para jogar tênis e resolveu montar uma banda.

Ao longo do livro o autor conta o nascimento dos vários sub-estilos do heavy metal e apresenta uma lista de seus discos relevantes. É claro que essas listas são pessoais e servem apenas como um direcionamento não é feito de acordo com uma análise objetiva.

Muito interessante é o modo que ele discorre sobre a década de 90 que foi, para muitos, a década da “morte do metal”. Percebemos claramente que o sucesso que o estilo obteve na década de 80 teve que ser engolido pela mídia. Ou seja, a mídia apenas cobria o estilo por não ter outra opção e no primeiro deslize do estilo essa mesma mídia decretou sua morte. E por deslize entendam pelo enfraquecimento momentâneo que algumas bandas top estavam passando na época como são os casos do Iron Maiden e Metallica só para citar as bandas que já foram comentadas aqui. Também cita o caso da MTV que tinha o metal como um de suas bandeiras no início do canal e o abandonou de vez depois dos anos 90.

Porém, como sabemos, essa “morte do metal” na verdade nunca existiu e o próprio livro dá um dado que pode até ser polêmico, mas achei muito interessante:

Segundo a RIAA, a organização responsável pelas premiações de discos de ouro e platina desde 2000, o Metallica havia vendido tantos discos nos Estados Unidos em 15 anos quanto os Rolling Stones jun taram todas suas lendária quatro décadas.”

Dentro desses 15 anos citados não estão computados os anos da década de 80. Ou seja, basicamente essas vendas foram da década de 90 e também dessa primeira década do século XXI.

O livro é muito interessante para quem se interessa pela história da música. Muitos que forem ler ou estiverem lendo esse livro podem não concordar com muita das coisas que se fala nele, porém como todo e qualquer livro temos que analisar, além da história que está sendo contada, mas o ponto de vista de quem está contando a história também.

7 de jul de 2010

Red Rocket 7: A História do Rock

quarta-feira, julho 07, 2010

Por Eduardo Nasi
Colecionador de Hqs
Universo HQ

Red Rocket 7 é um roqueiro de sucesso, com shows esgotados e groupies disputando espaço no camarim. Mas, por trás da fama, se esconde um clone de um alienígena perseguido pelos vilões cósmicos Enfinitos. Junto com seus irmãos e uma jornalista da revista musical
Throb, Red Rocket 7 vai reviver sua história na Terra - que começou quando Little Richard criou o rock e inclui encontros com Elvis, Beatles, Stones, The Who, David Bowie e outros.
Red Rocket 7 é um petardo sonoro em forma de HQ produzido por um Mike Allred no melhor de sua forma. O álbum consegue sintetizar o que o artista norte-americano tem de melhor, tanto no texto quanto na arte.

No texto, aparece o mundaréu de referências. É uma viagem à história do rock sim, mas também à mente pop de Allred. A música se cruza com conspirações alienígenas. Com tanto nonsense, às vezes o álbum dá a impressão de que a trama está enrolada, dando voltas em si mesma. Mas a ideia é essa mesmo.

Em alguns momentos, o roteiro serve apenas para dar espaço aos fenomenais delírios visuais da arte de Allred, que retrata alguns dos maiores roqueiros de todos os tempos em seu estilo de linhas precisas e grossas - que brilha com as cores de sua esposa, Laura. O resultado é incrível: alguns artistas parecem ter surgido só para serem desenhados por Allred. Seu Bowie, por exemplo, é antológico.

Mais uma vez, a Devir Editora apresenta uma edição fabulosa de um álbum que pouca gente poderia acreditar que sairia no Brasil. O trabalho gráfico é belíssimo: um livro em formato 25,5x25,5 centímetros, remetendo ao formato das capas dos antigos vinis que moldaram a própria história do rock.

Na abertura, há uma introdução do diretor de cinema Robert Rodriguez (
El Mariachi, Sin City). No final, há um belo caderno de extras, com pin-ups, capas originais, desenhos inéditos e biografias de Allred, de sua esposa e de grandes astros do rock (e, bem ... o que mesmo o Dire Straits está fazendo por lá?).

A edição, é uma pena, traz alguns tropeços. Na tradução, há termos que ficaram em inglês sem nem mesmo uma nota dizendo o significado em português. É o caso dos títulos dos capítulos, que fazem referências a músicas conhecidas, mas que o leitor que compra uma versão não tem obrigação de saber. Outro exemplo é o nome da revista
Throb, que significa "ritmo", "pulsação". Em compensação, algumas referências acabaram se perdendo: "homem ou homem do espaço" nada mais é do que uma brincadeira com a banda Man or Astroman.

Também há alguns erros de português e digitação nos textos dos extras. Mais uma vez, a Devir grafa "mini-série" quando o correto é "minissérie" - o mesmo erro já tinha aparecido na contracapa do álbum Umbra.

Os erros, apesar de tudo, estão longe de comprometer o belo trabalho de Allred. A edição da Devir ficou belíssima, e se soma a outros excelentes álbuns publicados pela casa ao longo deste ano.


Clássicos malhados: o Rush e outras grandes bandas espinafradas pela crítica

quarta-feira, julho 07, 2010

Por Sérgio Martins
Jornalista
(matéria publicada originalmente na revista
Veja)


A certa altura de
Beyond the Lighted Stage, um belo documentário sobre o Rush que será lançado em DVD neste mês, apresenta-se uma espécie de inventário dos adjetivos que a crítica dedicou, nos anos 70, ao grupo canadense de rock: “barulhento, medíocre, deprimente, ultrapassado”. A performance do baixista e cantor Geddy Lee (cujos agudos, de fato, nem sempre são agradáveis) foi equiparada à voz de “Mickey Mouse depois de aspirar gás hélio”.

Indiferente a todos esses insultos, a banda está em atividade há quatro décadas e influenciou outros artistas (o documentário traz depoimentos entusiásticos de Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, e Trent Reznor, do Nice Inch Nails, duas figuras que sempre foram queridinhas da crítica musical).

A banda de Lee, Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) está na companhia de Led Zeppelin, Queen e outras tantas que, mesmo sob a execração da crítica, conquistaram o status de “clássicos”. O direito ao equívoco, é verdade, faz parte da liberdade de qualquer crítico. Os especialistas do rock, porém, muitas vezes perdem seu rumo por se levar a sério demais: tendem a esquecer que estão tratando de artistas cujo qualidade primeira deve ser a diversão.

Essa pretensão excessiva da crítica de rock está ligada às suas origens, nos anos 60. Seus pioneiros (aliás, muito talentosos) começaram em um período no qual Bob Dylan compunha algumas das melhores letras da música popular americana e os Beatles saíam da fase bobinha de “Love Me Do” para criar discos experimentais como
Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band.

Capa da Rolling Stone durante os anos 70

O principal veículo de expressão desses jornalistas foi a Rolling Stone. Criada em 1967, a revista reuniu nomes como Greil Marcus, Lester Bangs e Robert Christgau. As resenhas do trio eram ensaios densos, às vezes pedantes, recheados de referências à arte e à literatura. Tornaram-se parâmetro para toda uma geração de fãs, mas também encamparam uma série de dogmas do gosto, condenando gêneros inteiros à lata de lixo da cultura. O hard rock (no qual se enquadravam Rush, Led Zeppelin e Black Sabbath), o pop mais romântico e melódico (caso da banda sueca Abba, que hoje ganhou uma aura “gay-cult”) e a disco music era os objetos mais costumeiros desse desprezo.

A geração
Rolling Stone também abraçou a missão profética de apontar aqueles artistas que supostamente mudariam o panorama da música para sempre. Esses exercícios oraculares, ainda hoje muito frequentes na crítica musical, não tem mais autoridade do que previsões de tarólogos ou de jogadores de búzios sobre quem vencerá a Copa do Mundo. Grupos genuinamente inovadores como The Stooges – grande precursor do punk – foram menosprezados. O competente - mas convencionalíssimo - Bruce Springsteen, por outro lado, foi anunciado como a salvação da lavoura. “Eu vi o futuro do rock and roll, e seu nome é Bruce Springsteen”, pontificava em 1974 o crítico Jon Landau, que mais tarde abandonaria o jornalismo para ser empresário de Springsteen.

As implicâncias e idiossincrasias de um crítico até podem contribuir para o sabor de seus textos. A atitude censória dos jornalistas que estabeleceram o cânones da crítica de rock, no entanto, se tornou pesada e anacrônica. Não, Geddy Lee não é Bob Dylan – mas e daí? Pelo menos até meados dos anos oitenta, quando sua sonoridade pesada começou a submergir sob o excesso de teclados, o Rush foi uma banda energética e criativa. Muitos espectadores de
Beyond the Lighted Stage serão transportados para os anos da adolescência, quando escutar seus discos era um ritual obrigatório (Fly by Night, aliás, foi um dos primeiros discos de rock que este redator comprou na vida).

Esse significado afetivo do pop lhe confere uma vitalidade que os dogmas da crítica não conseguem abranger. Nem muito menos compreender.

Situações críticas

Três boas bandas que foram desprezadas pelos críticos, e um artista que foi anunciado como a reinvenção do rock, mas não chegou lá:

Rush

Uma resenha dos anos 70 dizia que o vocalista Geddy Lee cantava como um “rato torturado”, e o consenso crítico era que a banda canadense praticava um hard rock vulgar e pouco “intelectual”. O Rush, porém, seria reconhecido por artistas que os mesmos críticos idolatram, como Nine Inch Nails.

The Stooges

A crítica dizia que eles eram barulhentos, tocavam mal e faziam letras niilistas e machistas. Hoje, o som cru e agressivo do grupo é reconhecido como precursor do punk. E Iggy Pop, cantor do Stooges, virou uma “lenda vida” do rock.

Queen

A banda foi universalmente execrada pelos críticos, que consideravam o vocalista Freddie Mercury o suprassumo do brega. O fato, porém, é que poucos superam o carisma de Mercury. O Queen hoje é referência para bandas novas como o Muse.

Bruce Springsteen

Nos anos 80, os críticos saudavam o cantor americano como o futuro do rock. Ele manteve uma carreira consistente, mas jamais genial. Sua influência sobre bandas atuais é nula.

6 de jul de 2010

Relançamentos especiais nos 70 anos de John Lennon

terça-feira, julho 06, 2010

Por Lester Benga
Os Armênios

Em outubro, John Lennon completaria 70 anos. Para marcar a data, Yoko Ono e a EMI preparam um pacotaço de presentes! Álbuns remasterizados, duas caixas, raridades, coletânea e arquivos digitais para download devem ser lançados em 5 de outubro, quatro dias antes do aniversário do ex-Beatle.

O álbum
Double Fantasy irá ganhar uma edição especial. Num processo semelhante ao que aconteceu com o disco Let It Be … Naked dos Beatles, o último disco lançado em vida por Lennon irá ganhar uma versão dupla, apresentando as faixas sem “excesso de produção”, trazendo uma sonoridade mais limpa.

Mas o grande destaque será a caixa
John Lennon Signature. Além de reunir todos os discos, trará também um livro com capa dura, recheado de fotos e poemas. Mas ainda tem mais: integram o box um EP com todas as faixas existentes apenas em singles (não incluídas nos álbuns) e nada menos que 4 CDs de raridades! Não foi revelado o conteúdo desses extras, mas se acredita que seja o material do box John Lennon Anthology, de 1998.

Os CDs terão caixas semelhantes ao do relançamento remasterizado dos Beatles. Não foi informado se os títulos irão ganhar edições em vinil.


Confira abaixo a lista completa dos títulos.

Álbuns remasterizados:

John Lennon/Plastic Ono Band (1970)
Imagine (1971)
Some Time in New York City (1972)
Mind Games (1973)
Walls and Bridges (1974)
Rock ‘n’ Roll (1975)
Double Fantasy Stripped Down (2010) / Double Fantasy (1980)
Milk and Honey (1984)

Box John Lennon Signature:
8 álbuns oficiais;
4 discos de raridades;
EP com faixas de compactos não incluídas nos álbuns;
Livro com capa dura contendo fotos, poemas e obras de arte do artista.

Box Gimme Some Truth:
Coletânea com 4 discos temáticos, totalizando 72 músicas.
Roots: raízes roqueiras e influências de John;
Working Class Hero: canções com temática social e política do Lennon militante;
Woman: canções de amor;
Borrowed Time: músicas sobre a vida.

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