15 de jul de 2010

Rock Raro: Le Stelle di Mario Schifano – Dedicato a … (1967)

quinta-feira, julho 15, 2010

Por Wagner Xavier
Colecionador
Scream & Yell


Separei para hoje uma daquelas raridades que nos surpreendem mesmo no mundo atual, tamanha sua originalidade, criatividade e modernidade.

Para conhecê-la, viajaremos até a Itália dos anos sessenta, mais especificamente 1967. Enquanto o multímídia Andy Warhol criava o maravilhoso Velvet Underground, cujas melodias e harmonias tornaram-se pérolas músicais até os dias de hoje (mesmo que não tenham tido o merecedido sucesso em sua época), o pintor e escultor italiano Mario Schifano projetou sua ideias artísticas com o nascimento da banda Le Stelle di Mario Schifano (“as estrelas de Mario Schifano”).


A banda era formada por quatro músicos totalmente desconhecidos, que traduziam em seu som as ideias de seu criador. Nello Marini (teclado), Urbano Orlandi (guitarra), Giandomenico Crescentini (baixo) e Sergio Cerra (bateria) começaram suas atividades musicais em pequenos clubes de Roma, como o famoso Piper Club, e depois se mudaram para Turim. onde gravaram seu primeiro e único álbum. Apesar da formação básica, a banda contou durante a gravação com a cantora Francesca Camerana, além de outros músicos, responsáveis pelas flautas, cítara e percussão.


Com o título de
Dedicato a ..., o disco é totalmente psicodélico, mas extremamente diferente de grupos como Love, Doors, Jefferson Airplane e outras grandes bandas da época. O lado A do vinil contém apenas uma faixa, a simplesmente caótica "Le Ultime Parole Di Brandimarte". Montada com colagens totalmente improvisadas, solos de guitarras e barulhos surrealistas mesmo para os dias de hoje, completa todo o primeiro lado .

Já o segundo é mais normal e contém cinco faixas que mostram a grande habilidade dos músicos. Abre com "Molto Alto", canção de uma bela textura e grande densidade. Em seguida, "Susan Song" surge com uma sonoridade bem mais pop, incluindo um arranjo delicioso de teclado e flauta. Cantada em italiano, é de uma beleza sem igual, beirando a perfeição do mais competente pop da época. A terceira faixa, "E Dopo", é a mais comum do disco - sem deixar de ser bem legal também.

"Intervallo" é a mais psicodélica deste lado. A bateria bastante barulhenta e o eco com muitas vozes ao fundo transformam a canção, deixando-a caótica ao extremo. Finalizando o disco, "Molto Lontano (A Colori)", que segue o ritmo das anteriores, com vocal pouco inteligível, flautas e uma guitarra de extrema beleza. Um sonzão!

O título
Dedicato a ... é complementado (no belíssimo encarte) com o nome de alguns dos seus vários ídolos pop, como Keith Richards, Che Guevara, Eric Clapton, Beatles, Bob Dylan, Mick Jagger, Brian Jones, Jean Luc Godard, Allen Ginsberg, Frank Zappa, Elvis, Pier Paulo Passolini, Fellini, Antonioni e, evidentemente, Andy Warhol, Nico e Velvet Underground e tantos outros.

O disco foi lançado originalmente com uma tiragem de apenas 500 cópias, sendo que algumas delas com o vinil vermelho, e passou totalmente despercebido na época. Após o álbum, contrariando a previsão de Mario de que a banda teria uma grande carreira, ela simplesmente acabou.


O material gráfico foi totalmente desenvolvido por Mario Schifano. A capa é rosa escuro com estrelas prateadas, e o encarte tem fotografias retocadas pelo artista e uma foto, que ocupa duas páginas, do grupo tocando ao vivo. Um show gráfico - em vinil, é claro. O álbum foi relançado em 2005 pela cultuada gravadora Akarma em uma edição luxuosa nos formatos digipack e vinil de 180 gramas, ambas com livreto com informações e fotos de rara beleza.

Para quem gosta de sons diferente e psicodelismo à toda prova, o Le Stelle di Mario Schifano é um delicioso trabalho, onde este ambiente pode ser degustado como grande prazer. O incrível do álbum é a sua modernidade, mesmo tendo sido gravado a mais de trinta anos atrás.

Um discão para a coleção dos apreciadores dos melhores momentos do psicodelismo dos anos sessenta.

Faixas:

A1 Le Ultime Parole Di Brandimante, Dall'Orlando Furioso, Ospite Peter Hartman E Fine (Da Ascoltarsi Con TV Accesa, Senza Volume) 17:41

B1 Molto Alto 3:11
B2 Susan Song 3:48
B3 E Dopo 2:15
B4 Intervallo 2:37
B5 Molto Lontano (A Colori) 2:48

14 de jul de 2010

1980, o ano da New Wave of British Heavy Metal

quarta-feira, julho 14, 2010

Por Fernando Bueno
Engenheiro e Colecionador
Com edição de Ricardo Seelig
Collector´s Room


Há trinta anos atrás, nascia na Inglaterra uma cena musical que influenciaria todos os outros movimentos relativos à música pesada que foram surgindo em outros locais do mundo com o passar dos anos.

Depois do advento do punk, que baixou a bola dos grandes nomes do progressivo e das bandas de hard rock setentistas, alguns garotos ingleses que não estavam satisfeitos com a simplicidade do punk e ainda se interessavam bastante por grupos similares aos da santíssima trindade Led Zeppelin/Black Sabbath/Deep Purple começaram a formar suas próprias bandas em vários cantos do Reino Unido.

Se alguma coisa boa o punk deixou foi a atitude despojada e rebelde, tanto musical quanto comportamentalmente, que acabou sendo misturada ao estilo do hard/heavy dos anos 70.

A minha intenção nesse post não é escrever um tratado sobre a New Wave of British Heavy Metal, mas sim levantar um debate entre os leitores para podermos nos aprofundar no estilo. Listei dez discos interessantes que fazem parte do movimento, sendo que todos eles foram lançados exatamente no ano de 1980. Ou seja, essa não é uma seleção dos melhores discos da NWOBHM, mas sim uma lista que expõe como o estilo iniciou e foi se desenvolvendo.

A influência da NWOBHM pode ser medida por alguns aspectos, como o fato de ser possível identificar entre as diversas músicas que recheiam esses álbuns muitas das fórmulas que seriam utilizadas ao longo da década de oitenta na construção de vários outros gêneros do heavy metal, como o thrash da Bay Area e até mesmo o hard rock californiano.

Angel Witch – Angel Witch

Esse é um dos trabalhos mais notáveis da NWOBHM. Após o seu lançamento, a banda infelizmente iniciou um processo de desmanche. O baterista Dave Hogg foi sacado, e o baixista Kevin Riddles saiu para se juntar ao Tytan. Quando um trio perde dois componentes fica muito difícil se segurar, e assim, após uma tentativa de manter o grupo com outros músicos, Kevin Heybourne, o principal compositor, desistiu.

O disco todo é bem nivelado, porém algumas músicas se destacam, como é o caso de "Angel Witch", "Sweet Danger" e "White Witch". O instrumental é muito bem feito, com passagens bem características do estilo que estava se modelando. Alguns refrões são marcantes e a voz de Heybourne se encaixa perfeitamente.

Um fato interessante, e que poderia até mesmo ter mudado a história do heavy metal, é que durante uma turnê com bandas novas o Angel Witch simplesmente abandonou a excursão e a gravadora EMI, deixando o Iron Maiden como o nome principal da gravadora. Quem sabe se eles tivessem continuado as coisas não seriam diferentes?

Def Leppard – On Through the Night

Nunca é demais lembrar que o Def Leppard não é só aquela banda que gravou um monte de baladas no meio dos anos oitenta. Por esse motivo, muita gente nem sabe que o grupo é britânico, já que tem seu nome sempre relacionado ao mercado radiofônico norte-americano. No início de sua carreira o Def Leppard fazia turnês com Iron Maiden, Samson e Tygers of Pan Tang. Daí eles resolveram mudar seu som para algo mais acessível, para se encaixar ao gosto do público americano. Foram muito bem sucedidos e gravaram ótimos álbuns, mas o heavy metal do início foi deixado de lado - apesar de que a música "Hello America" é meio que um presságio para o que viria acontecer mais tarde.

É desse disco a faixa "Rock Brigade", cujo título serviria para batizar a lendária revista brasileira, que certamente foi companheira de muitos dos leitores da
Collector´s Room. Para os que ainda torcem o nariz para o Def Leppard por só conhecerem "Love Bites", recomendo darem uma chance para esse disco e ao seu sucessor, o também muito bom High´n´Dry, lançado em 1981.

Diamond Head – Lightning to the Nations

O Diamond Head é talvez mais conhecido como influência para o Metallica do que pela sua própria música em si. Posso falar isso por minha própria experiência com a banda. Sempre soube da sua existência quando lia a história do Metallica, mas nunca tinha tido oportunidade de ouvir o grupo. Foi apenas depois de muito tempo e com o surgimento do MP3 que consegui enfim escutar as músicas da banda tocadas pela própria, já que conhecia os covers feitos pelo Metallica. Aliás, esse disco tem sete faixas, e quatro delas foram regravadas pela gangue de James Hetfield - e são justamente os destaques do play.

Conhecer o Diamond Head é obrigação para quem quer se aprofundar na NWOBHM, porém o motivo do grupo não ter se consolidado foi talvez a mudança de direção musical ocorrida no terceiro disco –
Canterbury, de 1983 -, que distanciou os fãs. Isso, somada à enorme concorrência das bandas do estilo naquela época, acabaram colocando o grupo em segundo plano.

Iron Maiden – Iron Maiden

Falar sobre esse álbum é chover no molhado. Todo cara que gosta de heavy metal já ouviu e conhece esse disco. Steve Harris sempre diz que a gravação poderia ter sido melhor - fico imaginando o que aconteceria se isso acontecesse. A estreia do Iron Maiden já é um clássico, imagine então melhorada.

Se alguém pegar todos os discos dessa lista e ouvi-los em sequência certamente irá perceber que os riffs, o modo de tocar e de cantar são semelhantes, mostrando que, por mais que a banda tenha tido muito mais sucesso e reconhecimento que as outras, a raiz de todos os grupos foi a mesma. Difícil citar destaques nos discos do Iron Maiden, mas “Phantom of the Opera” e “Prowler” são demais.

Judas Priest – British Steel

Fiquei em dúvida se colocava esse disco nessa minha lista. Afinal, o Judas Priest nessa época não tinha nada de “new”, diferentemente de todas as outras bandas que cito nessa matéria. Ou seja, o Judas Priest não fazia parte da NWOBHM, porém talvez foi o grupo que mais se fortaleceu após o surgimento da cena, já que aproveitou a partida do trem e acabou sendo a locomotiva do estilo num primeiro momento.

O Judas foi a primeira banda a se intitular como heavy metal. O próprio Black Sabbath rejeitou o rótulo durante muito tempo. O grupo de Rob Halford já havia lançado alguns ótimos álbuns – sendo os principais
Sad Wings of Destiny e Sin After Sin -, quando em 1980 soltou British Steel, um disco tão bom que quem conhece apenas as melhores músicas dos caras vai achar que está ouvindo uma coletânea. Esse álbum definiu o tipo de som que seria tocado durante a década de oitenta.

É difícil destacar alguma música no meio de tantos clássicos, mas não posso deixar de citar "Breaking the Law", que poderia até ter sido o título do LP tamanha a identificação da faixa com o disco. Também tem "Metal Gods", que se tornou a alcunha da banda – e principalmente de Rob Halford -, e "Living After Midnight" , que de tão boa acaba com qualquer possível discussão sobre se é pop ou não.

The Michael Schenker Group – The Michael Schenker Group

Apesar de ser alemão e de ter participado do início do Scorpions, o guitarrista Michael Schenker tem uma forte ligação com a Inglaterra por ter sido parte do período mais fértil da excelente banda UFO. Aliás, esse grupo, junto com o Thin Lizzy e alguns outros, foi muito importante para a construção musical da NWOBHM.

Depois de sua saída do UFO e de um rápido retorno ao Scorpions, ele formou o Michael Schenker Group com o vocalista Gary Barden - que nos anos noventa participaria também de outra banda importante do movimento, o Praying Mantis.

O álbum é catalogado em muitos lugares como hard rock, porém ele se encaixa perfeitamente com a sonoridade das bandas da NWOBHM, que ainda tinham muita influência do hard rock da década de 70. Participam do disco Don Airey, que já tocou com o Black Sabbath e muitas outros grupos e hoje é tecladista do Deep Purple, e Roger Glover, que fez a produção. Em alguns momentos do LP eu me lembro do Alcatrazz (principalmente em "Looking Out From Nowhere"). Por coincidência, o vocalista Graham Bonnet, ex-Alcatrazz, entraria na banda de Schenker alguns anos depois.

Os destaques são "Armed and Ready", "Victim of Illusion" e "Lost Horizons", esta última com uma fórmula que seria utilizada à exaustão futuramente por todas as bandas do metal melódico.

Samson – Head On

No início do grupo o guitarrista Paul Samson também era o vocalista. Lançou um disco com essa formação, o apenas interessante
Survivors. Porém, com a entrada de um novo vocalista, tudo mudou. O salto de qualidade foi enorme. Desse modo, resolveram até regravar algumas faixas do primeiro LP com a voz de Bruce Bruce, um bigodudo que mais parecia um integrante de alguma banda de hard rock lá do início da década de 70. Depois de passar a assinar como Bruce Dickinson e gravar um segundo álbum com o Samson, Bruce Bruce aceitou o convite para entrar no Iron Maiden. O resto todo mundo conhece.

Apesar da qualidade musical inquestionável, é interessante saber que eles estavam sempre quebrados financeiramente - e é muito provável que essa tenha sido a razão para que Bruce tenha aceitado sair da banda. Afinal, naquela época ninguém sabia que o Iron Maiden se transformaria no principal nome do heavy metal. Comparando a carreira das bandas, o Samson já tinha três discos e o Maiden apenas dois, mas o que pesou na balança certamente foi a visão de Steve Harris.

"Hard Times", "Vice Versa" e "Walking Out On You", essa última bem hard setentista, são os destaques. Ao ouvir o disco pela primeira vez alguns vão reconhecer a faixa “Thunderburst”. Sim, é a mesma “The Ides of March”, introdução do álbum
Killers, do Iron Maiden. A música foi composta em parceria por Steve Harris e Thunderstick, baterista do Samson na época e que chegou a integrar o Maiden.

Saxon – Wheels of Steel

Tenho que admitir que o meu interesse pelo Saxon é tardio. Até cerca de um ano atrás eu só conhecia uma coletânea de clássicos que adquiri após ter assistido ao grupo em um dos
Monsters of Rock que aconteceram na década de 90. Comecei a adquirir os álbuns a pouco tempo, e posso dizer que percebo o quanto isso foi uma falha.

Esse é o segundo disco da banda, que acabou lançando outro no mesmo ano,
Strong Arm of the Law. A banda, juntamente com o Iron Maiden e o Judas Priest, se tornou a maior expoente do heavy metal britânico. Dentre os nomes do estilo, talvez o Saxon seja a que tinha o som mais definido. Ou seja, o estilo desse álbum seria o mesmo que muitos outros subsequentes, exceto alguns como Destiny, que é totalmente hard rock.

Os destaques são "747 (Strangers in the Night)", "Stand Up and Be Counted" e a hard "Suzie Hold On".

Tygers of Pan Tang – Wild Cat

Essa banda é sempre lembrada quando se fala em NWOBHM. Gravou diversos discos cultuados pelos entusiastas do estilo, mas o primeiro é o que realmente marcou. A primeira música, "Euthanasia", tem riffs marcantes e uma levada hard/heavy. O grupo foi responsável pelo surgimento de um guitarrista chamado John Sykes, que não tocou nesse álbum, mas depois integrou ícones como o Thin Lizzy e o Whitesnake.

Wild Cat é um disco que contém todas as características que podem ser usadas para descrever a NWOBHM. Quem quer conhecer o heavy metal oitentista tem que conhecer esse álbum. Como destaques, além da já citada “Euthanasia”, temos "Don’t Touch Me There" e "Money".

White Spirit – White Spirit

Para aqueles que acham que esse LP aparece nessa lista apenas por esta ser uma banda que contava com Janick Gers na guitarra, está enganado e precisa urgentemente ouvi-lo. Como outros grupos da época, o White Spirit tinha uma sonoridade ainda não muito definida, com muitas músicas com um jeitão de hard rock, mas, como disse anteriormente, essa é uma característica dos discos lançados na época.

O grupo costumava abrir shows da banda solo de Ian Gillan, que se impressionou com Janick Gers e o convidou para se juntar a sua Ian Gillan Band. Ao se deparar com essa proposta irrecusável, Gers deixou o White Spirit, fato que acabou servindo para encerrar a banda.

Destaque principal para "Fool For the Gods" e "Way of the Kings". Também merece menção a faixa de abertura, que tem um riff muito parecido com outra música de uma banda posterior do guitarrista.


Assista "The Final Frontier", novo clipe do Iron Maiden

quarta-feira, julho 14, 2010

(fonte: Blog Flight 666)

O Iron Maiden postou em seu site oficial o vídeo da faixa-título do novo álbum, The Final Frontier. O disco será lançado no dia 16 de agosto e o novo vídeo traz uma versão editada da música de abertura, "Satellite 15 ... The Final Frontier".

O vídeo, que pode ser visto abaixo, foi produzido pela empresa Darkside Animation Films, que tem uma talentosa equipe de animadores e já criou efeitos para diversos filmes, incluindo
Perdidos no Espaço, Gladiador e Falcão Negro em Perigo. O roteiro foi escrito pelo diretor de Radio Hitchhiker's Guide to the Galaxy da BBC, e foi coordenado e dirigido por Nick Scott Studios. O clipe foi produzido ao longo de três meses de animação, onde a equipe da Darkside desenvolveu uma nova tecnologia para levar vida ao mascote Eddie em sua nova encarnação alienígena. Curiosamente, algumas das imagens foram gravadas na Floresta Rendlesham no sul da Inglaterra, que é sempre associada a relatos de aparições de luzes inexplicáveis e aterrissagens de naves de origem desconhecida.

O novo álbum será lançado no dia 16 de agosto com uma edição limitada de colecionador que vai incluir acesso a conteúdo extra, incluindo a versão do diretor deste novo vídeo, uma entrevista com a banda, wallpapers, fotos e um exclusivo jogo do
Iron Maiden´s Mission II: Revenge & Rescue. A banda, pela primeira vez, também vai disponibilizar o álbum no iTunes LP com conteúdos bônus, bem como o tradicional formato digital. Haverá também uma edição limitada dupla em picture disc.

13 de jul de 2010

Discos Injustiçados: Iron Maiden - Somewhere in Time (1986)

terça-feira, julho 13, 2010

Por Ronaldo Costa
Colecionador
Whiplash! Rock e Heavy Metal


A história do Iron Maiden até o ano de 1986 pode ser considerada como uma escalada ininterrupta em termos de sucesso, fama e qualidade. O primeiro álbum dos ingleses trazia a brutalidade e a crueza de uma banda iniciante, com um talento enorme e um feeling realmente diferenciado. Associe-se a isso uma ponta de influência da energia do som punk (notadamente na figura de seu vocalista) que dominava a cena naquela época, mas aqui a serviço de uma banda de heavy metal, com canções melódicas e até mesmo com um pé na fonte do progressivo.
Killers, o álbum seguinte, mostrava aquela mesma energia, mas agora melhor captada pela competência de Martin Birch.

Em
The Number of the Beast, a entrada de Bruce Dickinson permitiu ao grupo passar para um outro nível em termos de composições, agora mais dramáticas e épicas ao mesmo tempo. Um verdadeiro salto em termos de qualidade e uma revolução no som da banda. O quarto álbum, Piece of Mind, talvez seja o que melhor represente o som do Iron Maiden em termos de beleza, melodia e feeling. No sucessor Powerslave a banda atinge o ápice de sua grandeza, sendo capaz de dar ao mundo porradas do nível de uma “Aces High”, refrões inesquecíveis como o de “Two Minutes to Midnight” e a sofisticação de músicas como “Rime of the Ancient Mariner”, além da faixa-título.

Pois bem, esses foram os primeiros cinco anos do Iron Maiden após debutar em estúdio, uma banda que lançou cinco álbuns de inéditas em cinco anos seguidos (1980-1984), fazendo de todos eles clássicos atemporais do heavy metal, sendo elogiada com mais ênfase a cada novo trabalho e ainda conquistando levas gigantescas e fanáticas de seguidores por onde quer que passasse.

Para a divulgação do álbum
Powerslave o grupo caiu na estrada com a World Slavery Tour, uma excursão mais do que bem sucedida, que passaria até no Brasil durante o Rock in Rio I em janeiro de 1985, o que, naquela época, era uma coisa muito difícil de acontecer, ainda mais para uma banda de metal.


Parecia que o então quinteto britânico havia chegado ao ápice. Famosos, ricos, influência de nove em cada dez bandas de metal que apareciam, no auge da energia e da criatividade, com um entrosamento absoluto em estúdio e sobre os palcos, que resultaria inclusive no clássico duplo ao vivo
Live After Death, outro marco na carreira do conjunto Após tantas conquistas, como crescer mais? Como ser melhor? Como tentar alguma coisa diferente, mas que não descaracterizasse o som do grupo? A banda procurou alcançar a resposta a todas essas perguntas com o lançamento do álbum Somewhere in Time.

Em 1986 o Iron Maiden contava com sua formação clássica, com Bruce Dickinson, Steve Harris, Dave Murray, Adrian Smith e Nicko McBrain. A ideia de um álbum com clima futurista era perfeira para expandir os horizontes líricos e musicais do grupo. O novo petardo foi concebido com todo o cuidado e zelo, buscando o perfeccionismo em todos os aspectos relacionados ao material.

Então, em outubro daquele ano, o álbum
Somewhere in Time era lançado, iniciando na posição de número #3 nos charts ingleses. A pressão para fazer algo ainda melhor que Powerslave era enorme e, convenhamos, conviver com uma pressão dessas não deve ser fácil. As expectativas de que o novo trabalho superasse o seu antecessor em qualidade e sucesso começaram a dar lugar às reclamações que alguns profetas do apocalipse levaram adiante naquele momento, acusando a banda de ter mudado demais o seu som, de ter se inclinado para tendências um pouco mais comerciais, enfim, as mesmas críticas que toda banda ouve quando tenta fazer algo um pouco diferente.


Antes de comentarmos sobre as músicas desse disco, façamos apenas uma breve observação sobre a sua capa, já que esta foi, de longe, o melhor e mais criativo trabalho do desenhista Derek Riggs, além de ser, provavelmente, a capa mais legal de um álbum de heavy metal. O cidadão definitivamente era genial. Além de abusar de detalhes mínimos, a arte trazia inúmeras referências ao passado e presente da banda, bem como sobre acontecimentos retratados em letras anteriores do grupo. Na época, era divertido demais ouvir o álbum ao mesmo tempo em que se procurava um novo detalhe ainda não percebido na capa.

Mas de nada adiantaria uma capa daquelas se o conteúdo da bolacha não fosse do mesmo nível. E é aí que está a grande questão. Já naquele tempo,
Somewhere in Time recebeu críticas por algumas alterações em relação ao som anterior que a banda vinha desenvolvendo. A mais recorrente delas reclamava do uso de guitarras sintetizadas, um artifício que já havia sido utilizado por outros grupos e que, naquele caso, era perfeito para criar o clima futurista do álbum. Era então o primeiro trabalho do Iron Maiden que dividia opiniões entre os próprios fãs de forma mais contundente. As reclamações quanto à substituição de Paul Di’Anno por Bruce Dickinson na época de The Number of the Beast nem chegaram perto da chiadeira pós-Somewhere.


Acontece que o disco em si é uma das obras mais inspiradas do metal nos anos 80. Tudo bem, qualquer um pode dizer que isso é uma questão de gosto, só que se for feita uma análise mais criteriosa,
Somewhere in Time não deixa praticamente nada a dever a seus antecessores - e menos ainda aos seus sucessores. Pra começar, este é provavelmente o álbum onde dois dos integrantes entregam seus melhores trabalhos como instrumentistas, que são Steve Harris e Adrian Smith, justamente os responsáveis pela composição de todas as canções do play, à exceção de “Deja Vu”, que conta com a colaboração de Dave Murray. Alguns dos melhores riffs da banda residem nesse álbum, bem como talvez seja ele o trabalho onde estão os melhores solos da carreira da Donzela, como se pode observar em faixas como “Caught Somewhere in Time” e “Stranger in a Strange Land”. O entrosamento e a inspiração da dupla Murray/Smith mostra-se não menos do que excepcional. Nicko McBrain exibe sua técnica de forma impecável. Todas as músicas, sem exceção, têm refrões marcantes. A voz de Bruce Dickinson varia do melódico ao agressivo na dose certa, além de propiciar algumas das melhores linhas vocais do Maiden, vide “Alexander the Great”.

A faixa de abertura, ainda que seja uma música longa, é uma porrada do início ao fim, onde tudo parece se encaixar perfeitamente - introdução, vocalizações, melodias, refrão, solos e desfecho. Observe então a introdução de “Wasted Years” e perceba como uma estruturação melódica que não é muito difícil de ser reproduzida consegue ser mais marcante que 99% das firulas e virtuosismos que podem ser observados no mundo dos guitarristas.

Também pode-se atribuir a este disco a produção mais caprichada já realizada pelo grupo, onde tudo está no lugar, perfeitamente audível e com a sonoridade que se pretendia para tal obra, cortesia de Martin Birch em seu melhor trabalho com o Iron Maiden. Enfim, não dá pra entender o porque de um álbum como esse sofrer com as críticas que recebeu.
Somewhere in Time foi subestimado até mesmo perante seu sucessor, o também clássico Seventh Son of a Seventh Son, ainda que não devesse absolutamente nada a esse em termos musicais.


Mas essa obra ainda guardaria uma outra curiosidade. Inexplicavelmente, esse trabalho é, de certa forma, menosprezado pelo próprio Maiden. Foram poucas músicas dele que sobreviveram nos set lists da banda. Na realidade, há quatro anos que não se toca absolutamente nada desse disco ao vivo (Nota do editor: este texto foi escrito originalmente em 2007). Algumas inclusive nunca foram tocadas ao vivo, como por exemplo “Alexander the Great”, uma faixa que atualmente deve figurar no top#5 da maioria dos fãs, mas que talvez divida com “The Duellists”, do álbum
Powerslave, o título de música mais injustiçada da carreira do Iron. A sina de Somewhere in Time chega a tal ponto que o erro estratégico de se tentar conter os custos de produção da turnê de divulgação do álbum, não registrando em vídeo os seus shows, faz com que hoje a banda tenha apenas alguns fragmentos de uns poucos shows como registro ao vivo dessa época. A maioria do que se conheceu dessa tour foi por meio de bootlegs, que também são raros.

Somewhere in Time foi um álbum que conseguiu, a duras penas e com o passar de muito tempo, ostentar o status de clássico. Quanto mais o tempo passa melhor ele parece ficar, e isso é algo que cada vez mais pessoas vêm se dando conta. Mesmo depois de mais de vinte anos de seu lançamento, ele soa ainda atual. Sim, foi o tempo que se encarregou de colocar esse disco no lugar que ele merece em termos de qualidade e importância, já que a própria banda não contribuiu tanto assim para que isso ocorresse. Já existe um considerável número de fãs que o consideram um dos três melhores da carreira da Donzela, sendo que não são tão poucos os que o colocam como melhor obra do Iron Maiden, ainda que, na maioria dos casos, a primazia absoluta continue com as produções do período 1982-84. Entretanto, ainda hoje a gente tromba com alguém que diz que “o Iron Maiden morreu com o Powerslave”. Por mais que o álbum de 1986 venha conquistando o respeito e o apreço de cada vez mais pessoas, ainda pode ser considerado uma das obras injustiçadas da história do heavy metal.

Concorde, discorde, só não deixe de dar a sua opinião. Se possível, dê mais uma passada pelas oito faixas de
Somewhere in Time e pense se ele merece ou não ser chamado de clássico.

Faixas:
A1 Caught Somewhere in Time 7:25
A2 Wasted Years 5:07
A3 Sea of Madness 5:41
A4 Heaven Can Wait 7:21

B1 The Loneliness of the Long Distance Runner 6:31
B2 Stranger in a Strange Land 5:44
B3 Deja-Vu 4:56
B4 Alexander the Great 8:35

12 de jul de 2010

Eu Sou Ozzy: A Autobiografia de Ozzy Osbourne

segunda-feira, julho 12, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Disléxico, hiperativo e diagnosticado com a síndrome de distúrbio de atenção. Alcoólatra e viciado crônico. Estrela do rock com vinte e poucos anos. Doses cavalares de cocaína, um laboratório ambulante que experimentou todo tipo de drogas, devidamente acompanhadas, é claro, por oceanos de conhaque, whisky, cerveja, vodka e qualquer outra bebida que você possa imaginar. Um dos maiores ícones do heavy metal, membro fundador da banda que definiu o som pesado como gênero musical. Uma figura mitológica que parece saída de um filme de terror, e que se transformou em uma mega estrela de TV. Esse é Ozzy Osbourne, um dos maiores músicos de heavy metal de todos os tempos, e um dos poucos que romperam os limites do gênero, sendo reconhecido em todo o mundo por pessoas das mais diferentes idades, religiões e países.

A vida de Ozzy, repleta de histórias deliciosas que muitas vezes beiram o absurdo, acaba de ganhar o seu documento definitivo.
Eu Sou Ozzy, biografia do cantor escrita pelo próprio com a ajuda de Chrys Ayres, é uma leitura prazerosa tanto para os fãs do Madman quanto para qualquer pessoa que ousar se aventurar por suas páginas.


O livro divide a vida de Ozzy em quatro fases: a infância e adolescência antes de ficar famoso, os anos ao lado do Black Sabbath, o estouro da carreira solo e a exposição maciça proporcionada pelo programa de TV
The Osbournes. Em todas elas temos um texto redondinho construído sempre com frases curtas e diretas, que, ao lado das aventuras surreais vividas por Ozzy, tornam a leitura pra lá de empolgante. Quando você vê já está no final e nem percebeu. E olha que o livro não é pequeno: são 384 páginas contagiantes.

As lembranças de Ozzy – ou melhor, o que sobrou delas -, somadas às de seus familiares, amigos, músicos e quem mais tenha tido a experiência de conviver ao seu lado, são a principal fonte em que o livro se baseia. Ozzy não se esquiva de assuntos polêmicos, falando abertamente de sua relação profunda com as drogas e a bebida e de como isso afetou negativamente a sua vida; do relacionamento nem sempre amistoso com Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, seus companheiros no Black Sabbath; de assuntos delicados como a morte de Randy Rhoads e a briga jurídica com Bob Daisley e Lee Kerslake, músicos de sua banda que acabaram o processando e tiveram suas partes regravadas nos discos que produziram ao lado do cantor; dos problemas de saúde enfrentados por ele e por Sharon, sua esposa; de sua repulsa pelo programa
The Osbournes; e de muitos outros assuntos.


O relato da infância e da adolescência em Aston, interior da Inglaterra, mostra que desde o início o pequeno John Michael Osbourne enfrentou problemas de relacionamento. Pobre, de família humilde, Ozzy patinou na escola e no convívio com as pessoas devido a sua dislexia e inquietude, que mais tarde foi diagnosticada como hiperatividade. As aventuras do cantor pelos mais variados empregos (de testador de buzina a funcionário de frigorífico) são uma das partes mais interessantes do livro, e deixam claro que Ozzy só poderia ser compatível mesmo com o mundo da música – se não fosse ela, provavelmente estaria preso ou morto.

Os primeiros passos na carreira musical em algumas bandas locais ao lado do baixista Geezer Butler, e o nascimento do Black Sabbath algum tempo depois, são contados de forma transparente e sincera, mostrando os medos e a incredulidade quando a banda começou a dar certo. No livro há uma passagem bastante esclarecedora, que mostra o quanto a curta passagem de Tony Iommi pelo Jethro Tull (onde ficou por poucos dias mas teve esse momento guardado para o posteridade, já que justamente nesse período o Jethro se apresentou no
Rock and Roll Circus dos Rolling Stones com Iommi na guitarra – pegue o seu DVD e confira) foi fundamental para a profissionalização e o futuro do Black Sabbath.


Ozzy revela detalhes das gravações dos discos com o Sabbath, e de como a relação entre os integrantes do grupo foi se deteriorando na mesma proporção que a cocaína (e outras dezenas de drogas) inflava os egos dos músicos. Todo esse processo teve o seu ápice com a expulsão de Ozzy Osbourne por abuso de drogas e álcool.

Nesse ponto, na transição entre a passagem épica e histórica pelo Black Sabbath e a futura carreira solo, percebe-se o quanto Sharon Osbourne foi importante para a vida de Ozzy. Filha do lendário e truculento empresário Don Arden (com quem sempre viveu às turras, diga-se de passagem), Sharon literalmente tirou Ozzy da sarjeta e o trouxe de volta para o mundo da música. Ela foi fundamental para o surgimento da banda de Ozzy – sem Sharon, os discos solo de Ozzy provavelmente não existiriam.


Um dos momentos mais tocantes do livro ocorre, como era de se esperar, no relato sobre o acidente que tirou a vida do guitarrista Randy Rhoads. Ozzy conta em detalhes a sua visão dos acontecimentos, sem esconder a raiva e a tristeza que sente até hoje. E diz mais: segundo ele, Randy provavelmente sairia da banda logo, pois já havia contado a Ozzy esse seu desejo.

O livro fala também do quanto a saúde de Ozzy foi se deteriorando com o tempo, com os anos de toneladas de drogas e litros de álcool cobrando o seu preço. Além disso, mostra como surgiu o discutível
The Osbournes, programa veiculado pelo MTV americana e odiado pela maioria dos fãs.


Enfim, são histórias e mais histórias de um artista que uma grande quantidade de fãs considera o maior ícone da história do heavy metal. Confesso que eu, que sempre tive uma má vontade com Ozzy por entender que um cara como ele, que não tem que provar nada para ninguém, não deveria se expor ao ridículo como fez em
The Osbournes, mudei de opinião após ler o livro. A influência e a importância de Ozzy Osbourne na música pesada é inquestionável. Ozzy é um ícone, uma lenda vida e um dos maiores rockstars da história, e merece ser tratado como tal.

Eu Sou Ozzy é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que gosta de música. Se você é uma delas, compre já que você irá adorar.

A história da cena de Canterbury

segunda-feira, julho 12, 2010

Por Ronaldo Rodrigues

Colecionador
Apresentador do programa
Estação Rádio Espacial
Contextualização Geográfica

Canterbury é um distrito do condado de Kent que fica no sudoeste da Inglaterra, com aspecto majoritariamente rural. É um centro estudantil que atrai muito a juventude inglesa, onde se localiza uma das mais antigas escolas da Inglaterra, a King's School. Em sua paisagem, predominam as orquídeas e a imponente catedral.
Introdução e adoção da terminologia
O termo "cena de canterbury" ou "som de canterbury" é muito controverso, especialmente para os músicos que hoje (correta ou incorretamente) são associados diretamente a ele. Na opinião pessoal do autor deste texto, a proposta de um sub-gênero para as bandas que surgiram a partir do núcleo Wilde Flowers-Daevid Allen Trio é descabida. Em primeiro lugar, porque existem poucos pontos comuns entre o som das bandas que são categorizadas como tal, e na questão geográfica, muitos músicos de bandas desta dita "cena" nem eram do lugar e as bandas estavam estabelecidas principalmente em Londres.
Parece ser mais sensato continuar a considerá-las dentro do grande espectro do rock progressivo, que na realidade era a ideia (consciente ou inconsciente) de todos (ou quase todos) eles - a expansão do rock (enquanto linguagem da música jovem) a um novo patamar de musicalidade e de expressão artística e a agregação de novas influências, que até então eram novos terrenos.
Soft Machine em ação
Por conta deste núcleo central (de onde derivaram as principais bandas - Soft Machine, Caravan, Hatfield and the North, etc...) ter surgido em Canterbury, por facilidade entendeu-se que todas estas bandas também seriam bandas de Canterbury, assim como as bandas que derivaram destas principais.
É um termo incompleto e até certo ponto errôneo de fato, mas que didatiza um pouco a coisa. O que corrobora a tese de uma "cena" em Canterbury é a grande intercalação de músicos, que foram comuns a várias bandas, descritos abaixo com uma resumida biografia. Se valendo dessa agregação de tantas boas bandas de rock progressivo nesse nicho - cena de canterbury - vamos tratar de algumas histórias, de alguns de seus principais expoentes.
Outro ponto importante a citar é que alguns destes grupos, derivados da árvore genealógica iniciada em Canterbury, se tornaram famosos e influentes dentro e fora da Europa. Surge a partir disso uma confusa extensão do "gênero" Canterbury para rotular bandas como Supersister e Pantheon (Holanda), Moving Gelatine Plates (França) e Picchio dal Pozzo (Itália) entre outros, algo que também acontece com o termo kraut-rock, que inicialmente usado como um rechaço inglês ao som feito pelos alemães, foi transformado em gênero e expandido para fora do cenário alemão. É um fator complicador - criar sub-gêneros dentro de um gênero do rock já alvo de tantas indefinições e subjetividades.
Referências aos principais músicos
Daevid Allen => batizado como Christopher David Allen, nascido em Melbourne, Austrália. Guitarrista, vocalista e letrista. Membro fundador do Daevid Allen Trio, Soft Machine, Gong (e seus muitos projetos relacionados) e carreira solo.
Robert Wyatt => Robert Wyatt-Ellidge, natural de Bristol, Inglaterra. Baterista, percussionista e vocalista, membro do Wilde Flowers, Daevid Allen Trio, Soft Machine, Centipede, Matching Mole e também carreira solo.


Hugh Hooper => Nascido em Whitstable, Kent, Inglaterra e infelizmente já falecido (7 de Junho de 2009, aos 64 anos). Baixista, membro do Daevid Allen Trio, Wilde Flowers, Soft Machine, Isotope, Soft Head, Soft Heap, Gilgamesh e vários outros projetos.
Brian Hopper => irmão de Hugh Hooper. Guitarrista, saxofonista e flautista, tocou com o Wilde Flowers, Soft Machine, Zobe e Beggars Farm.

Richard Sinclair => Richard S. Sinclair, nascido em Canterbury, Inglaterra. Guitarrista e baixista. Integrou o grupo Wilde Flowers e formou o Caravan. Tocou também com o Hatfield and the North e o Camel.
Mike Ratledge => Natural de Maidstone, Kent, Inglaterra. Integrou o Soft Machine em suas diversas formações e fases.
Kevin Ayers => De Herne Bay, Kent, Inglaterra. Tocou com o Wilde Flowers e o Soft Machine durante curto período e depois seguiu como artista solo, integrando também o Gong eventualmente.
Dave Stewart => David Lloyd Stewart, nascido em Waterloo, Londres, Inglaterra. Tecladista das bandas Arzachel, Egg, Khan, Hatfield and the North, Gong e National Health.

Phil Miller => Natural de Barnet, Hertfordshire, Inglaterra. Guitarrista, integrou formações do Delivery, Matching Mole, Hatfield and the North e National Health.
Pip Pyle => Phillip Pyle, de Sawbridgeworth, Hertfordshire, Inglaterra. Falecido em 2006. Baterista que começou com a banda Delivery e depois tocou com Khan, Gong, Hatfield and the North, National Health e Soft Heap.
Steve Hillage => Nome de batismo Stephen Simpson Hillage, de Chingford, London Borough of Waltham Forest, Inglaterra. Guitarrista e vocalista, participou do Arzachel, Khan, Gong (tocando também com Kevin Ayers) e National Health, mas fez a maior parte de sua carreira como artista solo.
Pye Hastings => Julian Frederick Gordon Hastings, escocês de Tamnavoulin. Guitarrista e vocalista que integrou também o Wilde Flowers e se firmou com o Caravan.
Dave Sinclair => David Sinclair, primo de Richard, natural de Herney Bay, Kent. Foi membro do Wilde Flowers, do Caravan, Matching Mole e Hatfield and the North.
Núcleo Inicial – de Wilde Flowers e Daevid Allen Trio para Soft Machine e Caravan
O jovem Robert Wyatt residia em Lyndon, e ingressou nos estudos na Simon Langton School em Canterbury, cidade próxima de Lyndon. Lá conheceu Hugh Hopper e Mike Ratledge, que logo se tornaram seus amigos, por dividirem afinidades musicais especialmente relacionadas ao jazz contemporâneo.
Em uma viagem à Majorca, na Espanha, Wyatt trombou com o maluquete Daevid Allen, que estava sempre rodando pela Europa, numa filosofia de vida bem beatnik. De cara, o garoto já simpatizou com Allen e suas ideias, e começaram a dar forma a uma banda, que foi batizada como Daevid Allen Trio, baseada em Canterbury. O trio consistia de Wyatt, Hopper e Allen. Isso em 1963.
Allen introduziu os garotos numa vida exagerada de bebedeiras e noitadas e também catalizou o interesse dos dois no jazz avant-garde. A banda alcançou uma repercussão muito tímida e naufragou pouco tempo depois de formada, com Daevid Allen se mandando para Paris. A experiência com Allen foi marcante para a dupla Wyatt-Hopper, que seguiu em frente com uma nova banda, já no ano de 64 - The Wilde Flowers. O nome surgiu como uma homenagem à Oscar Wilde e foi sugerido por Kevin Ayers.
The Wilde Flowers
Inicialmente, faziam parte da empreitada Robert Wyatt (bateria, voz), Brian Hopper (guitarra, sax, flauta), Hugh Hopper (baixo), Richard Sinclair (guitarra) e Kevin Ayers (voz). Reza a lenda que Kevin foi convidado para banda somente por causa de seus cabelos compridos! Não chegaram a gravar nenhum registro oficial, somente alguns poucos registros de ensaios e apresentações, hoje disponíveis em CD, que apresentam mais valor histórico do que musical.
A banda fazia covers dos principais nomes do rock e r&b, especialmente os Beatles e artistas americanos dos anos 50, mas se diferenciava da garotada de outras regiões da Inglaterra por incluir, aos poucos, pitadas do jazz que fazia a cabeça de Robert Wyatt e Hugh Hopper. No curto período de existência do grupo (cerca de 2 anos e meio), ocorreram várias mudanças de formação e até o próprio Daevid Allen, em suas idas e vindas, integrou o grupo por um breve período em 65.
Soft Machine
Daevid Allen, junto de Kevin Ayers, inicia em 1966 um novo grupo - o Soft Machine. As pretensões eram maiores - fazer um som mais sofisticado, mais jazzista e experimental. Junto dos dois, se achegam também Robert Wyatt e Mike Ratledge. Allen na guitarra, Ayers no baixo e vocal, Wyatt na bateria e Ratledge nos teclados. Em 66, a banda inicia seus trabalhos com o registro de um single com as músicas "Love Makes Sweet Music / Feelin' Reelin' Squeelin'", lançado em janeiro de 67.
Nesse período, o Soft Machine marca território forte no underground londrino, dividindo as noites do UFO Club com o também nascente Pink Floyd. Em 67, um fato muda a trajetória da banda - Daevid Allen, retornando de viagem à França, onde a banda estivera envolvida com um projeto avant-garde que estava rolando na região de St. Tropez, é impedido de entrar no território inglês. A alegação era de que a legislação para imigrantes havia mudado. Daevid estava na França também interessado nos agitos que ocorriam no movimento estudantil e que culminaram nos marcantes protestos ocorridos em maio de 68.
O grupo porém continuou, sem Daevid Allen, se transformando em um trio de bateria-baixo-teclado. Com essa formação, partem para a América numa tour com a Jimi Hendrix Experience, ganhando a admiração de Hendrix. A partir daí a banda se consolida de vez, lançando o primeiro registro em 1968. Seria exaustivo mencionar a história do Soft Machine, que praticamente tem uma formação diferente em cada um dos discos que gravou até 76. Importante é citar que até aquele ano, somente Mike Ratledge participaria de todos os momentos do grupo, que expandiu as divisas da mistura de jazz com rock, via muita experimentação sonora.
Caravan - 1968
Desmanchado o Wilde Flowers, um outro grupo que surgiu foi o Caravan. Quando cada um começou a ir para seu canto, sobraram Pye Hastings e David Sinclair, que se juntaram ao primo de David, Richard Sinclair. A primeira formação da banda contava, além dos 3, com Richard Coughlan na bateria, que tinha entrado no lugar de Robert Wyatt no Wilde Flowers, quando este quis assumir os vocais da banda. Curiosamente, os quatros membros da primeira formação do Caravan tinham passado pelo Wilde Flowers, mas em nenhuma das formações havia os 4 músicos juntos.
Steve Hillage e Dave Stewart
Ambos dos arredores de Londres, tiveram um primeiro encontro nos idos de 68, na banda Uriel. Estudavam juntos na City of London School e lá também conheceram o baixista Mont Campbell. Todos eles tinham como primeiro instrumento a guitarra. Steve Hillage, por ser o mais habilidoso dos três, ficou com a vaga, com Campbell indo para o baixo e Stewart para os teclados. Também fazia parte dessa empreitada inicial o baterista Clive Brooks e o grupo dedicava-se a tocar covers de blues e rock psicodélico.
Hillage saiu da banda para prosseguir os estudos na universidade de Kent, e os três remanescentes prosseguiram, assumindo o nome de “The Egg”, passando a trabalhar em composições próprias. O Egg assinou um contrato prévio com a Decca (através de sua subsidiária Deram), mas pouco tempo depois a banda foi convidada por uma pequena produtora para registrar uma sessão. Para não se queimar com a Decca, reassumem a formação da época do Uriel, convidando novamente Hillage e rebatizando-se como Arzachel.
O disco foi gravado em 69 e creditado aos músicos em pseudônimos - Simon Sasparella, Njerogi Gategaka, Basil Dowling e Sam Lee-Uff, com o curioso detalhe de uma biografia inventada para cada um de seus “pseudo-músicos”, descrita no encarte do disco. Apesar de ser um pouco rejeitado tanto por Steve Hillage quanto por Dave Stewart, o disco é bem interessante dentro do espectro do rock psicodélico inglês e vale bastante o garimpo.
Projeto Egg
A história enquanto Arzachel/Uriel ficou por ali mesmo e o projeto “Egg” foi que seguiu adiante. Em 70, a banda lançou o primeiro disco, auto-entitulado, sem muita repercussão. Ainda no mesmo ano, em uma nova oportunidade com a Deram, sai Polite Force, melhor recebido por público e crítica, porém a história do trio seguiu só até julho de 72, com Clive Brooks se mandando para o Groundhogs, de Tony McPhee, com quem gravou os álbuns Hoghwash e Solid.
No período, a banda compôs material que não foi aproveitado para seus dois álbuns e em 74, Mont Campbell propõe um novo encontro dos três para o lançamento desses temas, que originou o último álbum do Egg, The Civil Surface. Até o fim da banda, não havia nenhuma relação do Egg com Canterbury e os músicos daquela região, apesar de que hoje, o Egg é descrito como integrante da “cena”. Só mais adiante é que Dave Stewart estabeleceria relação (mesmo que indireta) com a galera de lá.
Spirogyra
Steve Hillage, quando estava em Kent, começou a se relacionar com duas bandas realmente formadas na região – o Caravan e o Spirogyra. O Spirogyra na verdade começou como um duo folk em Lancashire, região norte da Inglaterra. O guitarrista e vocalista Martin Cockerham mudou-se para Canterbury, indo estudar na mesma universidade de Kent e lá expandiu a banda, contando com Barbara Gaskin (vocais), Steve Borill (baixo) e Julian Cusack (violino), além do companheiro Mark Francis, com quem iniciou a banda. Ocasionalmente, Hillage fazia um som com esse pessoal e com eles estabeleceu uma amizade.
Retornando à Londres em fins de 1970, iniciou o projeto de uma nova banda, o Khan (confira a matéria que escrevi sobre eles, para este blog), que gravou um dos melhores trabalhos do rock progressivo inglês no período, o disco Space Shanty. A amizade com o pessoal do Caravan viabilizou o lançamento do disco do Khan, que foi produzido por Terry King, produtor também do Caravan na época. Além disso, as duas bandas dividiram o palco em várias ocasiões durante o ano de 72.
Dave Stewart participou das gravações do disco Space Shanty (ocorridas no segundo semestre de 71) e integrou a banda por um pequeno período em 72, após o fim do Egg. Em janeiro de 73, é convidado a integrar a nascente Hatfield and the North, assumindo o posto que por alguns meses fora de David Sinclair (ex-Caravan).

Hatfield and the North
Aí sim começa o relacionamento de Dave Stewart com o pessoal de Canterbury, mas é nítido que ainda de uma forma bastante sutil e indireta, porque o próprio Hatfield and the North não era uma banda de Canterbury ou de seus arredores; somente os irmãos Sinclair (David e Richard, sobre os quais falaremos mais em seguida) eram da região. O Hatfield and the North durou até 75, tendo gravado dois discos e depois disso, Stewart tocou com o Gong em alguns concertos pela França e formou o National Health com Alan Gowen (ex-Gilgamesh) e Phil Miller, seu companheiro no Hatfield and the North.
Já Steve Hillage, depois do insucesso com o Khan (devido às constantes mudanças de formação), tocou com a Kevin Ayers Band e com o Gong, antes de partir para uma bem sucedida carreira solo, que iniciou com o petardo Fish Rising, em 75, disco cujo material viria a integrar o segundo disco do Khan, caso a banda tivesse continuado.
Phil Miller e Pip Pyle
Phil (guitarrista) e Pip (baterista) eram de Hertfordshire, na região centro-sul da Inglaterra e lá formaram a banda Delivery, que começou em 66 com o nome de Bruno’s Blues Band. Em 68, integra-se a banda o baixista Roy Babbington e a vocalista londrina Carol Grimes. A banda gravou apenas um disco em 70 e seus produtores queriam creditar o disco como Carol Grimes and Delivery. Em 71, Pip Pyle sai da banda para entrar no Gong e entra em seu lugar Laurie Allan (que também depois integraria o Gong).
Por um breve período, Pip também emprestou seus serviços percussivos ao Khan, de Steve Hillage. O Delivery continuou (após alguns períodos de inatividade) até 72, com uma formação já bem diferente da inicial, formação essa que acabou se tornando o Hatfield and the North.
Matching Mole
Antes do Hatfield and the North, Phil Miller estabelece seu primeiro relacionamento de fato com os músicos e bandas dos arredores de Kent. Em 71, Robert Wyatt o convida para seu novo projeto, o Matching Mole, formado em outubro daquele ano, após Wyatt abandonar o Soft Machine. A banda gravou dois discos, contando além de Wyatt e Miller, com David Sinclair nos teclados e o baixista Bill MacCormick (futuro Quiet Sun, outra banda erroneamente relacionada à “cena” de Canterbury).
Após o lançamento do disco e uma breve turnê pela Europa, abrindo curiosamente para o Soft Machine, a banda encerra suas atividades. Como curiosidade, vale citar que Matching Mole vem do termo “Machine Molle”, equivalente em francês à Soft Machine. Pouco tempo depois desse primeiro desmanche da banda, surgiu uma nova formação com Wyatt, MacCormick, Francis Monkman (ex-Curved Air) e Gary Windo, que também não durou muito.
A banda Delivery tinha sido convidada a se reunir novamente, no segundo semestre de 72, para alguns shows. Essa empreitada contava inicialmente com Dave Sinclair, que logo desiste e é substituído por Stephen Miller (primo de Phil). Quando dessa mudança, assumem o nome de Hatfield and the North. Stephen só quebrou o galho até que o posto fosse assumido de vez por Dave Stewart. A formação que se estabilizou era Phil Miller, Pyp Pile, Richard Sinclair e Dave Stewart. O Hatfield and the North teve uma trajetória curta, porém bem sucedida, com seus dois discos bastante aclamados pela crítica, uma série de shows na Europa e América e 4 concertos para a BBC.
Os Sinclair
Muitas idas e vindas aconteceram na trajetória musical desses primos. Dave também era estudante na Simon Langton School em Canterbury, onde estudavam Robert Wyatt, os primos Hopper (Brian e Hugh) e Mike Ratledge. Dave integrou, por um breve período, o agrupamento dos Wilde Flowers, onde seu primo Richard já tocava. Mas a coisa começou a valer para os dois mesmo a partir de 68, com a estreia do Caravan.
Dave permaneceu no Caravan até 71 e decidiu abandonar a banda para buscar outros horizontes musicais. Seu primo Richard prosseguiu até 72, época em que era lançado o quarto disco do Caravan, Waterloo Lily. Em 71, Dave foi convidado a participar das gravações do primeiro disco solo de Robert Wyatt, que em agosto daquele ano saíra do Soft Machine e essa parceria amadureceu no Matching Mole. Porém, Dave não estava muito na onda de improvisações jazzísticas e acaba se cansando do Matching Mole, deixando-o em março de 72, após uma temporada de shows pela Europa.
Richard Sinclair convidou o primo para seu novo projeto, que vinha da junção dele com o pessoal do Delivery, o Hatfield and the North. Dave topou, porém os mesmos motivos que o fizeram deixar o Matching Mole surgiram quando das primeiras semanas de ensaio com o Hatfield and the North. Em 72, a barra pesou para Dave que estava sem grana e felizmente surge um convite de Pye Hastings para que Dave voltasse a emprestar seu talento aos teclados do Caravan.
Então, surgia o novo lançamento do Caravan, For Girls Who Grow Plump In The Night, contando novamente com Dave Sinclair, assim como os dois próximos discos que a banda lançou, ambos com sucesso – Live With The New Symphonia (1974) e Cunning Stunts (1975). Mas em 75, uma nova debandada de David, dessa vez mais por motivos pessoais do que por direcionamento musical. Ao longo dos anos, ele ainda teria outras entradas e saídas do Caravan.
A carreira de Richard começou bem cedo – logo aos 14 anos ele entrou para o Wilde Flowers, que, na verdade, era uma banda de amigos de colégio. O garoto não ficou muito tempo na banda e saiu para estudar desenho industrial na Universidade de Kent. Quando o Wilde Flowers se desmanchou, Dave Sinclair (junto de Pye Hastings e Richard Couglan) convidam Richard para o nascente Caravan, banda que o projetou e com a qual gravou 4 discos. O terceiro disco, In the Land of Pink and Grey, além de ser mais o bem sucedido da banda até então, também era o que tinha mais composições de Richard na banda. Fica evidenciada, ao se ouvir o trabalho, a grande veia melódica do baixista e guitarrista.
Quando Dave Sinclair deixou o Caravan, no verão de 71, Richard convidou um amigo para substituí-lo nos teclados, Stephen Miller. Stephen acabou sendo o catalisador de mudanças no som do Caravan, o que gerou um certo racha na banda. Depois do disco Waterloo Lily (1972), Richard também sai da banda junto com Stephen Miller (primo de Phil Miller) e ali começam a arquitetar o Hatfield and the North, sobre o qual já escrevemos.
Um dos motivos do fim do Hatfield and the North foi a dificuldade de Richard Sinclair conciliar os contínuos compromissos da banda com sua vida pessoal (naquele momento ele estava casado e com um filho recém nascido). Após um período em pequenos projetos de pouca expressão, Richard Sinclair é convidado por Andy Ward para ingressar no Camel, em 77. Esse período de Sinclair no Camel rendeu os álbuns Rain Dances e Breathless. A carreira de Richard prossegue até hoje, e já passou por diversas reuniões tanto do Caravan quanto do Hatfield and the North, ao longo dos anos.
Kevin Ayers e Daevid Allen
Gong
Daevid Allen, barrado na França, formou por lá o Gong, um agrupamento multi-sonoro-multi-nacional de músicos, que hoje poderia até ser descrito como “Família Gong”, pois já originou um sem número de outros projetos com seus ex-membros. Seria também exaustivo tratar sobre a história do Gong, mas vale citar que já participaram da banda figurões como Steve Hillage, Pip Pyle, Dave Stewart e até o próprio Kevin Ayers.
Os agregados
A trajetória do Soft Machine se entrelaça com a da banda londrina Nucleus, do trompetista Ian Carr, um dos pioneiros do jazz-rock na Europa. Alguns músicos que eram do Nucleus passaram pelo Soft Machine, especialmente no período pós-71. Quando Robert Wyatt deixou a banda, Phil Howard assumiu as baquetas por um breve período, mas quem segurou a cadeira pra valer foi o talentoso baterista do Nucleus, John Marshall.
Nucleus
Mais ou menos na mesma época, o saxofonista Elton Dean é substituído por Karl Jerkins, multi-instrumentista que tocava teclados e oboé no Nucleus. Jerkins passou a assumir um papel importante nas composições da banda logo de cara. Em 73, outro músico que já tinha passado pelo Nucleus (e também pelo Delivery), Roy Babbington, é efetivado na banda, como baixista substituto de Hugh Hopper. Seria, porém, uma simplificação muito grande dizer que o Nucleus é uma banda da “cena de Canterbury” só por conta disso.
Gilgamesh
Uma outra banda cuja história vai de encontro com as bandas do núcleo Daevid Allen Trio-Wilde Flowers é o Gilgamesh. Formada no outono de 72, em Londres, era liderada pelo tecladista Alan Gowen. Alan já tinha algum relacionamento com Dave Stewart, Richard Sinclair, Hugh Hopper (que ajudou em algumas composições da banda) e o pessoal do Hatfield and the North. As duas bandas tocaram juntas em um par de concertos no fim de 73 em Leeds, onde reuniram todos os músicos no palco para uma animada jam session.
Fizeram parte do Gilgamesh, em alguma de suas diversas formações, o baixista Mont Campbell (que era do Egg), Jeff Clyne (que tinha passagens pelo Nucleus e integraria também o Isotope), James Muir (futuro percussionista do King Crimson) e Neil Murray, famoso anos depois com o Whitesnake. A banda acabou logo depois de ter lançado o primeiro disco em 75 e se refez numa nova formação para gravar um segundo disco, em 77. Após o fim do Hatfield and the North, Alan Gowen juntou-se a eles para formar uma grande reunião destes músicos que temos listado ao longo do artigo – o National Health. Talvez o embrião do National Health tenha sido aquela jam session em Leeds...
National Health
A primeira formação do National Health era composta por Dave Stewart e Alan Gowen (teclados), Phil Miller e Phil Lee (guitarras), Mont Campbell (baixo) e Pyp Pile (bateria). Bill Bruford era o baterista inicial, mas logo Pip assumiu o posto, com Bill Bruford participando eventualmente. O primeiro disco do grupo, além de toda essa galera ainda conta com mais uma série de convidados, entre eles Neil Murray, Steve Hillage e Barbara Gaskin, que tinha sido vocalista do Spyrogyra e viria a ser esposa de Dave Stewart.
A banda chegou num momento em que o público estava menos disposto a um som jazzístico e avançado; teve uma carreira intermitente e se consolidou mesmo como um projeto, sempre aberto a muitas participações especiais. O fato que mais atrapalhou a continuidade do National Health foi a precoce morte de Alan Gowen, em 1981.
São muitas histórias e trajetórias que se emaranham e que, como dito no início do texto, por facilidade e didática são compartimentadas com este rótulo de “cena de Canterbury”. O fato é que, mesmo incorreto, o termo acabou pegando, num momento em que a crítica musical se concentra em rotular e sub-rotular excessivamente a produção musical.
Fica a deixa para que, depois de tantas histórias, desperte-se no leitor o interesse pelo trabalho dessas bandas, o que com certeza proporcionará fantásticas audições, seja nas bandas com maiores influências jazzísticas (Soft Machine, Hatfield and the North, Gilgamesh) nas mais experimentais (Gong, Matching Mole, National Health, Egg) ou naquelas que trafegaram pelas linhas mais tradicionais do rock progressivo inglês (Caravan, Delivery, Khan).

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