Era para ser uma festa. Virou um pesadelo. Você já deve estar sabendo de tudo o que rolou nos últimos dias envolvendo o Metal Open Air, mas é bom relembrar para não esquecer tão cedo a tremenda falcatrua que se transformou o festival organizado pela Lamparina Produções e pela Negri Concerts.
Treze das quarenta bandas - Saxon, Venom, Rock’n’Roll All Stars, Shadowside, Headhunter DC, Stress, Terra Prima, Obskure, Unearthly, Expose Your Hate, Attomica, Andre Matos e Ratos de Porão, isso sem falar no Krisiun, que percebeu a furada e saltou fora meses antes - cancelaram as suas apresentações na véspera, todas alegando a falta de pagamento dos cachês - com exceção do Venom, que justificou a sua ausência com uma história espatafúrdica de que os vistos da banda teriam sido enviados para a África, e não para o Brasil. E prepare-se, porque não será nada surpreendente se mais nomes cancelarem os seus shows durante este sábado e domingo.
O camping, vendido com um diferencial nos pacotes de ingressos, está localizado dentro dos estábulos do Parque da Independência, local do festival. Quem ficou no local teve que dividir espaço com o onipresente odor de fezes de animais. Nas primeiras horas de sexta-feira, 20/04, data do início do MOA, não havia água e nem luz para as milhares de pessoas que estavam ali. Depois isso foi corrigido, mas havia apenas UM vaso sanitário e UM chuveiro disponíveis no camping, o que fez com que várias pessoas tivessem que tomar banho na área reservada para os cavalos beberem água.
Não havia seguranças no festival, porque as empresas contratadas para realizar essa tarefa ordenaram que os seus funcionários se retirassem do parque devido a falta de pagamento pelos organizadores. Detalhe: o Parque da Independência fica próxima a uma favela. O mesmo ocorreu com quem forneceria a alimentação, que ficou reduzida a uma “churrascaria” precária, como você pode ver na foto abaixo. Além disso, recebemos dezenas de relatos de pessoas que estavam no local e diziam que era impossível comer qualquer coisa devido ao cheiro de fezes de animais que dominava a área. Colegas de imprensa e fãs que estão no MOA desabafam, dizendo que se sentem inseguros com as condições de segurança do local. E, pra fechar com chave de ouro, tive que ler comentários imbecis postados em redes sociais por quem não é fã do estilo com coisas como "O heavy metal não cultua o caos? porque estão reclamando do que está acontecendo no Metal Open Air?".
Em relação às bandas, o amigo Bruno Sanchez já escreveu de forma brilhante sobre o comportamento lamentável dos dois auto-intitulados maiores expoentes, porta-vozes e defensores do heavy metal brasileiro, Edu Falaschi e Thiago Bianchi - leia aqui. Mas tem mais: segundo informações que levantamos, Almah, Shaman e Korzus tocaram de graça no MOA em troca de destaque e benefícios em sites e revistas nacionais. Isso nos foi relatado pessoalmente por um dos roadies de uma das bandas, e comprovado por Edu Falaschi em seu discurso indignado depois que a produção cortou o som no final do show do Almah, quando o vocalista mandou os organizadores para aquele lugar e declarou que estava tocando de graça e havia pago as passagens da banda com dinheiro do seu próprio bolso.
Uma das coisas que mais me surpreendeu nesse festival de horrores que aconteceu quinta e sexta-feira foi a forma como tudo foi tratado pelos principais veículos especializados em heavy metal aqui do Brasil. Enquanto grandes portais e revistas e sites não especializados relatavam o caos que ocorria em São Luís citando a Collector’s Room como fonte - leia aqui as matérias do Terra, UOL e Rolling Stone - os sites e revistas especializados em música pesada não noticiavam nada, calando-se para o caos. Apenas a Collector’s e os amigos da Van do Halen estavam informando sobre o que rolava.
Nessas horas, é preciso deixar de lado o protecionismo e os interesses econômicos - afinal, a Negri Concerts era uma das principais promotoras de shows de heavy metal no Brasil, mas duvido que consiga se manter com esse status depois de todas as confusões ocorridas no Metal Open Air - e agir com rigor jornalístico, apurando e noticiando os fatos, tendo apenas um compromisso: com os leitores. Foi que isso que nós da Collector’s e da Van, que somos apenas dois blogs “insignificantes” perto de publicações e sites muito maiores e com muito mais repercussão, fizemos, enquanto a maioria ficou calada, sabe-se lá porque.
O corporativismo da cena heavy metal brasileira é nojento. “Eu não falo mal de você, você não fala mal de mim, e juntos arrancamos dinheiro desses fãs idiotas”: é assim que a maioria pensa, infelizmente, e é isso que faz com que as coisas não andem para frente. Numa realidade assim, dominada por nomes veteranos e que agem como coronéis fechando portas para quem ousa ir contra os seus interesses, pensar e agir de forma independente é arriscado, porém extremamente recompensador. Uma parcela cada vez maior do público tem percebido isso, e apoiado, de forma cada vez mais forte e presente, quem possui essa atitude. Leia também este texto publicado na Van do Halen sobre o tema.
Fiquei muito triste e desapontado com todos os acontecimentos que rolaram no MOA. Sem dúvida alguma, a maior vergonha da história do heavy metal aqui no Brasil. Os responsáveis pela Lamparina Produções e pela Negri Concerts deveriam ser investigados e responsabilizados por sua má fé, irresponsabilidade e desrespeito com quem foi ao Metal Open Air. Pra fechar com chave de ouro, um dos donos da Negri ainda teve a capacidade de xingar quem estava noticiando o show de erros e falhas do festival através de seu twitter - veja aqui.
Mas as coisas ainda podem ficar piores do que já estão. A Negri está promovendo, além do Metal Open Air, diversos outros shows em São Paulo com bandas que estão no festival. No entanto, inexplicavelmente, o show conjunto entre o Blind Guardian e o Grave Digger, que estava marcado para o dia 23 de abril no Credicard Hall, sumiu da programação presente no site da casa. Além disso, comenta-se de maneira ainda extra-oficial que as duas bandas alemãs, que tocam sábado, 21 de abril, no MOA, também cancelarão os seus shows no festival. Fala-se também que as participações do Anthrax e do Annihilator no Metal Open Air, assim com as suas apresentações na capital paulista, estão por um fio. Tem gente indo até mais longe, dizendo que todos os show agendados pela Negri Concerts em outros locais do Brasil envolvendo as bandas presentes no festival serão cancelados nos próximos dias.
Tudo isso terá, infelizmente, um impacto pra lá de negativo em toda a cena. Os shows com bandas internacionais estavam virando rotina aqui no Brasil, com o país se transformando em rota obrigatória. Porém, a imensa falcatrua com que os orgaizadores do MOA trataram os grupos - incluindo aí um cara do porte de Gene Simmons, respeitado e ouvido com atenção em todo o planeta -, terá, inevitavelmente, um revés sobre o mercado de shows de nosso país. Tomara que eu esteja errado, mas é bem provável que as portas que levaram anos para serem abertas se fechem um pouco, com as bandas pensando duas vezes antes de virem tocar aqui, exigindo garantias muito maiores das que estavam impondo nos últimos anos.
Espero que quem foi ao Metal Open Air, apesar dos pesares, assista bons shows e, acima de tudo, volte em segurança para casa. E, em relação aos (ir)responsáveis pelo evento, a única atitude possível é que a justiça entre na jogada e faça-os pagar legalmente todos os prejuízos, tanto financeiros como morais, que causaram aos milhares de fãs que se deslocaram até São Luís.