23 de fev de 2017

Show: Renato Bandeira & Som de Madeira | 17 de fevereiro de 2017 | Paço do Frevo | Recife


Na sexta-feira pré-carnaval, quarteto pernambucano apresentou sua potência monolítica em vibrante apresentação ao vivo no templo do frevo.

A definição de uma identidade. O duro empreendimento de prover contornos nítidos a um todo cultural tão difuso quanto possível. Se tem uma coisa que impressiona no show deste grupo é a constatação de sua insólita e aparentemente espontânea habilidade de encontrar sua unidade no exercício da dispersão.
Dito isto, esqueça o rótulo "música regional", pois no final das contas, ele não se mostrará nada mais que uma camisa de força usada para amarrar as mil e uma nuances que este quarteto pernambucano explora com sete fôlegos e ampla coragem.

O chassis é, de fato, o regionalismo, o explorar do encanto, mágica e carisma que possui a cultura popular. Só que no lugar de seguir reto nesta via única, os pernambucanos acabam por buscar seu caminho próprio na torta e incerta trilha que leva o regional ao universal.

A formação é exuberante. Na linha de frente há Renato Bandeira, proeminência da guitarra brasileira que ao longo de mais de três décadas de uma sólida carreira, tem se estabelecido como um dos maiores expoentes não só no seu instrumento, como também no campo da composição, arranjo, produção e direção musical.

Compondo a tapeçaria sonora junto ao guitarrista, temos o sanguíneo acordeon do excelente Júlio César, um dos máximos denominadores entre os contemporâneos talentos da música nordestina. Na cozinha, uma dupla dos sonhos: o originalíssimo Hélio Silva, com seu inominável estilo serpenteante, por vezes funkeado ao contrabaixo e o sobrehumano Augusto Silva, dono de uma técnica excêntrica a tal ponto que atinge as raias do inclassificável.

Uma excentricidade: todos os instrumentistas compõe a base sonora, ao passo que cada um destes também detêm a liberdade para alçar vôos em solos, não raro, mais de um por vez. Algo ainda mais excêntrico: cada solo realizado pelos músicos denota um claro e genuíno exercício de expressão da individualidade intrínseca a cada componente a tangenciar de maneira curiosa a entidade coletiva. Anos luz do lugar cada vez mais comum entre músicos virtuosos de render-se ao insosso exercício da auto-indulgência. Aqui não há espaço para o trivial ou para o fútil. Cada nota significa algo.

De fato, os maiores trunfos do grupo residem no inusitado: conseguem ser extremamente acessíveis sem em momento algum cederem às tentações dos atalhos fáceis e banais. Sua música não ficaria deslocada num bloco de carnaval de rua, nem numa requintada apresentação num restrito club. Fazem parte, para encerrar este prelúdio, do cada vez mais restrito ecossistema de artistas cuja arte produzida detêm apelo tanto sobre as massas, quanto sobre o público mais seleto e crítico.

O minucioso exercício do tecer de sua música, a despeito de ser minucioso num nível preciosista, ocorre de forma natural e absolutamente fluida. A guitarra e o acordeon se dividem em sofisticadas interações, ora revezando-se no tecer das texturas sonoras, ora distribuindo-se em solos dos mais expressivos.


Sobrepondo-se em camadas, os instrumentos viajam por diferentes níveis hipnóticos repletos de vastidão gerando uma perspetiva visual a partir do som. Uma experiência sensitiva.


A gama sonora é de tal maneira abrangente que qualquer tentativa de interpretação crítica acaba caindo invariavelmente de cabeça no ridículo. As referências ao rico imaginário da cultura nordestina abundam, só que o tratamento que recebem é de tal maneira inusitado que estas acabam por se tornarem capazes de soar igualmente familiares tanto ao nativo quanto aquele completamente alheio a este universo.

A apresentação teve início pouco depois do meio dia na tradicional Hora do Frevo, excelente programa no qual o célebre museu abre espaço para a tão negligenciada, porém efervescente cena de música instrumental brasileira. A beldade pernambucana Naara Santos, produtora cultural e cantora de expressivo talento- que ainda há de ser descortinado ao grande público- dá as boas vindas à audiência, cuja composição sempre é realmente diversa, constatação que me fez pensar, durante a ocasião, que programas como este são os que verdadeiramente promovem o democrático acesso à cultura, sem as demagogias que costumeiramente cercam o tema.

Palavras iniciais trocadas, clima agradável, todos em seus lugares e o show começa. O primeiro bloco da apresentação é um rolo compressor. A começar pela exclamativa "De Cabeça pra Baixo", com suas finas e singulares células rítmicas se alternando em momentos de suavidade e vigor; fazendo uso de uma métrica de tal maneira entortante que no exercício de tentar seguir cada sagaz movimento de sua intensa trama, acaba de fato por deixar o atônito ouvinte de cabeça pra baixo.

A versão dos pernambucanos para "Mexe Com Tudo" do lendário Levi Fernandes, com arranjo próprio da banda, nada mais é que um pujante comboio sonoro, uma locomotiva desvairada indo em sua direção. Neste momento de plena celebração e reverência aos mestres, grupo e audiência entram em sublime sinergia. Todos em estado de extâse, músicos possessos. Renato se debulhando em seu vibrante estilo desconcertantemente intuitivo, o acordeon de Júnior a transpirar sangue e suor, Hélio distribuindo-se entre golpes percusivos, marcações angulares e solos sinuosos e sincopados numa peformance de independência de espírito simplesmente arrasadora e um prodigiosamente detonador Augusto a disparar rajadas potentes com um estilo que une a um só tempo, o vigor sanguíneo do frevo de rua e a genuína e intrínseca sofisticação oriunda do jazz.

A seguir, mais uma pérola de Levino Ferreira, "Último Dia", mais que merecidamente considerada o frevo mais belo do século. Nas mãos do grupo, a composição sai a navegar por toadas ricamente atmosféricas no mar de uma noite recifense como que deslizando por sobre um espelho embaçado.


Sem dar tempo para respirar, o grupo saiu emendando com mais uma notável composição histórica. Desta vez, investiram por sobre "Forró Novo", notável gema de Mestre Camarão. Júlio assume a direção predominante na canção e segue pegando fogo numa intensidade frenética. Há uma verdadeira cartase em ação. Os mais velhos se emocionam, os mais novos vibram ao descortinar de uma nova descoberta. Difícil é conter o impulso de sair dançando e se segurar no assento (como brinde, tivemos ainda um irreverente senhor bradando ao cabo da canção palavras de excitação no melhor do léxico nordestino: "É pra lascar, meu filho! Aqui é madeira! Bota pra lascar!!").

O momento máximo da apresentação vem a seguir com mais uma homenagem. Desta vez ao professor Nilton Rangel, com "Morena". Encostando a guitarra, Renato assume a viola de dez cordas numa arrepiante introdução solo com timbres ressoantes numa intensidade maníaca. Seus escudeiros asseclas o acompanham passado certo tempo e no break, um alucinado Augusto comete o mais expressivos dos solos de bateria que já ouvi em minha vida, que acaba por arrancar do público fogosas palmas antes mesmo da canção findar. Incrível! (alguém conserve o material genético deste homem para termos a matéria-prima para clona-lo num futuro em que tivermos tecnologia necessária para isto!).

Contra qualquer acusação tola possível de trilharem um percurso estritamente dentro da casinha, o grupo ainda tira um ás da manga, com a execução em primeira mão de novíssima composição própria, o excelente frevo de bloco "Duas Estrelas". 
Na fração final da apresentação temos mais um clímax com a tresloucada "Maluvida".

O bis veio magro, porém apoteótico, com os quatro colocando a casa abaixo novamente com um número de "Mexe Tudo" ainda mais energético, e então ao remate, as palavras finais de agradecimento e então uma exultante platéia explode em comoção como um estádio na hora do gol com a tradicional apresentação dos componentes da banda.

Sigo meu caminho. Na saída dois rapazes imberbes atônitos com o que presenciaram gesticulam e falam animadamente, quase saltitando. Da conversa deles, flagro um trecho no qual um deles diz para o outro: "Meu irmão, que cacete da mulesta!!!"- como eu amo o léxico nordestino!

É um trabalho magnífico, é um belo dia, a paisagem do Recife Antigo é tão lírica quanto sempre. Sou um homem de sorte e é isso aí.

Renato Bandeira e seu Som de Madeira estão indo para um lugar diferente na música. Mesmo em versão para composições alheias, as idéias são sempre surpreendentes e arejadas, e quando em fruto próprio, sente-se o sabor cada vez mais raro da inventividade. É isso aí, é vida que segue, só que agora mais bela.

Por Artur Barros

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