18 de abr de 2017

Primavera no deserto: uma análise detalhada do novo disco do Mastodon


Eu ouço Mastodon desde 2015. Já tinha escutado uma coisa ou outra da banda anteriormente e não tinha gostado tanto. Mas, num belo dia, ouvi “The Motherload” e fui conquistado. Virei fã e criei um vínculo especial com as músicas, que me acompanharam em momentos felizes e ajudaram a lidar com situações ruins. 

Portanto, estava bastante ansioso com o lançamento do novo CD do grupo. O que já sabia é que a obra abordaria a relação dos músicos com o câncer, que, infelizmente, acabou vitimando a mãe do guitarrista Bill Kelliher, além de ter afetado membros das famílias de outros integrantes. 

Para tanto, montou-se uma história na qual um personagem que vaga por um deserto é sentenciado a morte por um sultão. Foi assim que nasceu Emperor of Sand, sétimo álbum de estúdio do Mastodon. 

Para entender melhor toda essa história, segue uma análise faixa a faixa de todas as músicas do disco.


Sultan’s Curse 

O CD começa dando a perspectiva do personagem que se encontra vagando pelo deserto, “cansado e perdido”. Eis que uma notícia toma o indivíduo de surpresa, gerando apreensão. Trata-se de uma provável menção à “maldição do sultão”, título da música. 

A partir daí, o protagonista vislumbra o fim da própria vida, como quando diz-se que “memórias de pessoas amadas passam pela mente”, situação comum em experiências que aproximam da morte. Além disso, transmite-se uma sensação de impotência ante um destino do qual não se pode fugir (“seus pés foram amarrados”, “você está de joelhos”). 

Do ponto de vista sonoro, a faixa de abertura é uma pedrada. Riff pesado e uma pegada sludge, bem próxima de algumas canções de Crack the Skye, quarto álbum do quarteto. 

Show Yourself 

Em uma reviravolta em relação à primeira música, “Show Yourself” se revela uma canção bem mais leve. A levada não chega a ser suave mas não há aquela tensão que marca a faixa anterior. Típica música para tocar na rádio, e isso não é demérito. 

Passado o choque trazido pela fatídica notícia, o personagem parece juntar os cacos e, entendendo a inevitabilidade do que está por vir, decide “se mostrar”, revelar quem realmente é. Sabendo que “não está seguro” - e quem está, na vida? - afirma-se que só o indivíduo pode salvar a si próprio. Interpreto essa “salvação” não como uma fuga literal da morte, mas como a vivência de momentos que façam a existência valer a pena, o que “salvaria” sua alma. Essa é uma tendência que irá se repetir logo a seguir. 

Destaque para os vocais da dupla Brann Dailor e Troy Sanders, o que evidencia um maior cuidado e a evolução do aspecto cantado no som mastodônico. Os integrantes confirmaram recentemente que, para esse trabalho, se prepararam para elevar o próprio nível como cantores, o que, segundo eles, nunca fora o foco da banda. Deu certo, o upgrade é nítido. 

Precious Stones 

Seguindo a tendência de sua antecessora, “Precious Stones” reforça a urgência em viver de alguém sentenciado à morte. Até por isso o ritmo acelerado que marca a canção. Os versos “não perca seu tempo/não deixe que ele fuja de você” são bem literais nesse sentido. 

Além disso, a referência às pedras preciosas no título e no corpo da música podem ser interpretadas como o valor atribuído a esse tempo de vida, cada vez mais escasso. 

Steambreather 
Logo de cara, um elemento que faz o Mastodon ser uma banda tão única: é feita menção às linhas de Nazca, localizadas no atual Peru. É a primeira menção a cultura latino-americana, que será abordada novamente mais à frente. 

Na estrofe de abertura, o personagem demonstra que ainda mantém a esperança de escapar da sentença de morte, usando a chuva como elemento que “traria vida”, em contraposição ao deserto que o cerca. Nota: acredita-se que as figuras das linhas de Nazca poderiam ter como significado rituais praticados pelos povos nativos para evocar a chuva. 

O refrão reforça que o personagem continua perdido com a nova condição que lhe foi imposta ("Me pergunto onde estou / reflexões nada oferecem"). 

Do meio para o fim da canção, interpreto que o protagonista passa a enxergar a sua situação em terceira pessoa, fora do próprio corpo (“separação do meu espírito”). Em um primeiro momento, o personagem tenta fugir de tudo, negando o que se passa (“Assistir você desmoronando / me fez querer correr para longe”), para, depois, aceitar as circunstâncias (“deixe as árvores caírem onde for”). 

O mais interessante é observar como a banda joga aqui com os estágios do luto, especialmente a negação e a aceitação. Complexo, porém genial. 

Roots Remain 

A faixa mais forte, liricamente falando, do álbum. Aqui, a história ganha ares épicos, retratando, nos primeiros versos, o início de uma guerra apocalíptica. Vida contra morte. 

O refrão é belíssimo: “A beleza se esvai / a morte decai”, “galhos quebram/ raízes continuam”. Tanto a letra como a interpretação de Brann Dailor são transcendentais, sublimes, brilhantes, insira-qualquer-adjetivo-elogioso. 

Adiante, em tom de despedida, o personagem coloca sua vida em perspectiva, relembrando suas derrotas, cada vez mais distantes, e suas vitórias, que o acompanharão até o “amargo fim”. Em outro trecho emocionante, manda uma espécie de mensagem a um ente querido, pedindo que se recorde de momentos “sentados ao sol” e de “dança na chuva” para posteriormente afirmar que “o fim é apenas o reconhecimento de uma memória”. Tocante. 

Em seguida, uma voz macabra anuncia o “fim”, dando lugar a um solo espetacular de Brent Hinds – o melhor do CD, na minha opinião -, que desemboca em uma linha de piano melancólica e sutil, dando fim à obra-prima. 

Clássico instantâneo. 

Word to the Wise

A música trata de nutrir esperança (“mergulhando no pensamento positivo”) para depois se deparar com a desilusão (“a sirene soou / eu não ouvi”). 

Ao tentar enxergar uma solução para problemas irremediáveis, o personagem “cai em um poço de mentiras”. No contexto da batalha contra o câncer, esse verso pode se referir a uma tentativa de cura que não deu certo. 

Retorna-se à relação da chuva com a esperança presente em “Steambreather”. Contudo, para a surpresa do protagonista, que já dava tudo como perdido, subentende-se que a chuva começa a cair. 

Mais um refrão marcante na voz de Dailor. 


Ancient Kingdom 

Mais uma faixa com ares épicos. Uma espécie de outra face de “Roots Remain”, sendo a primeira marcada pela melancolia e esta pela exaltação de uma vida que não tem fim. 

A canção se inicia com o trajeto do personagem para escapar da sentença de morte dada pelo sultão. Volta-se então ao cenário de guerra retratado duas faixas antes. Dessa vez, porém, é feito um paralelo entre a batalha que se desenha do lado de fora com um conflito interno do personagem. 

A chuva, que começou a cair na música anterior, agora representa a tristeza pela despedida da vida “terrena” e a revelação de uma nova vida: o início da imortalidade (“Faíscas explodindo pelo ar / viver para sempre / sons eternos nunca morrem / e eu continuarei”). 

Excelente performance vocal de Troy Sanders, transmitindo a emoção catártica que a música pede. 

Clandestiny 

Pedrada do começo ao fim e o refrão mais marcante do CD. Simples assim. 

A música mostra o “caminho cego” a ser percorrido pelo protagonista, prestes a adentrar o terreno da pós-vida. Nesse cenário, vozes do “outro lado” tentam acalmar o protagonista, assegurando que, nesse novo mundo, não há doenças e dor. 

Porém, o medo faz com que a parte humana do personagem, separada do espírito, peça para que a outra metade abdique dessa nova vida e, consequentemente, salve o “eu” por inteiro. 

Dentro do contexto motivador do álbum, pode-se interpretar o conflito narrado pela canção com o esgotamento causado pelo tratamento do câncer, que, em alguns casos, pode levar o paciente a querer desistir em vista de um pretenso descanso. 

Andromeda 

Na esteira da faixa anterior, essa música continua a reproduzir o conflito interno do protagonista. E se as vozes que o incitam a fazer a passagem sem resistir só querem sugar sua força vital? E se, do lado de lá, não existir nada? 

Há, então, uma divagação sobre a mortalidade, com o “tempo” e a “luz” se aproximando do personagem vindo “do passado” e “do futuro”, se encontrando em um presente que representa o fim da vida. 

Mas e se, por outro lado, há algo depois? “Não há como entender”. 

Participa da música Kevin Sharp, vocalista do Brutal Truth. 

Scorpion Breath 

A penúltima canção conta com a participação nos vocais de Scott Kelly, do Neurosis, como já é tradição desde Leviathan, segundo álbum do Mastodon. 

Trata-se, aqui, da “meia-noite” que antecede o “momento da verdade” para o qual o protagonista se prepara desde o “nascimento”. Mais uma metáfora sobre vida e morte. 

O fim, finalmente, chegou. 

Jaguar God 

Primeiramente, o título diz respeito ao “deus-jaguar” Tezcatlipoca, presente no panteão asteca. Vale lembrar que a mitologia dos povos que habitavam a atual América Latina já fora abordada em “Steambreather”, sendo mais uma vez evocada na faixa de encerramento. 

Essa entidade era considerada o deus da morte, sendo representada por um jaguar que carregava em seu peito um espelho fumegante no qual refletia toda a humanidade. Essas referências são necessárias para compreensão do contexto, visto que a divindade é caracterizada no decorrer da música. 

Observações histórico-culturais à parte, preciso dizer que nunca fui grande fã do Brent Hinds como cantor. Para mim, ele era “só” o melhor guitarrista da atualidade. Até ouvir os dois primeiros minutos de “Jaguar God”. Neles, Hinds consegue traduzir o sentimento de um “vagabundo” que viveu em seus próprios termos se aproximando do final da vida. A interpretação é de uma sensibilidade absurda. 

A sensação, a essa altura, é que a vida do protagonista está por um fio, em seus últimos instantes. É aí que o ritmo acelera, talvez representando um último delírio do personagem. A voz de Brann Dailor passa a descrever o “deus-jaguar”, conforme mencionado acima. Caracteriza-se a morte. 

Chega-se então ao trecho cantado por Troy Sanders, em que, no último suspiro, o personagem avista o “trono de doenças”. Mais uma referência ao câncer, a maldição do sultão que lhe tirou a vida. Duas conclusões são possíveis e conciliáveis, tendo em vista toda a narrativa desenvolvida: o protagonista realmente morre e, simultaneamente, continua a viver, tomando conhecimento, ao chegar do outro lado, do que de fato aconteceu para que sua vida terrena tivesse chegado ao fim. 

A história é finalizada com um solo espetacular de Hinds, remetendo ao compasso lento do começo da canção. Um final digno para um álbum genial, com um conceito fortíssimo mas, proporcionalmente, tocante. 


Emperor of Sand representa uma explosão criativa, propulsionada por episódios dolorosos, de quatro músicos brilhantes no ápice. Prova de que os obstáculos forjam e que da areia do deserto podem nascer lindas flores. Obra de arte, na real acepção do termo. 

A nota que eu dou para o disco? Um belo e merecido 9,5!

Por Luiz Guilherme Ferreira 

Um comentário:

Rafael Alvissus disse...

Que leitura excepcional do álbum!! Parabéns.

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