Review: Pink Floyd – A Momentary Lapse of Reason (1987)



Décimo-terceiro álbum do Pink Floyd, A Momentary Lapse of Reason marca o início da fase em que David Gilmour assumiu o controle criativo total da lendária banda inglesa e é também o primeiro disco do grupo a não contar com Roger Waters. Mas, antes de falarmos sobre o álbum é preciso contextualizar tudo que envolveu o Pink Floyd na primeira metade dos anos 1980.

Ao longo dos anos, Roger Waters foi gradativamente assumindo cada vez mais o protagonismo dentro do grupo. Isso se refletiu em um controle sobre o direcionamento criativo da banda, levando a uma obra-prima como The Wall (1979) – onde ele compôs praticamente todo o material, dividindo a parceria com Gilmour em apenas três músicas: “Young Lust”, “Comfortably Numb” e “Run Like Hell” – e a um trabalho não tão bem sucedido assim, o controverso The Final Cut (1983). Controverso porque, na verdade, The Final Cut foi concebido como um álbum solo de Waters, tanto que traz no encarte a frase “A requiem for the post war dream by Roger Waters, performed by Pink Floyd”. O disco é inspirado na história do pai de Waters, que lutou na Segunda Guerra Mundial, e é dedicado a todos que perderam a vida no conflito. Na prática, o Pink Floyd havia se transformado na banda de apoio de Roger Waters.

O conflito entre Waters e Gilmour então se intensificou e a banda entrou em uma pausa, com o baixista e o guitarrista lançando novos álbuns solos. Em 5 de março de 1984 chegou às lojas o segundo disco de David Gilmour, About Face, e em 30 de abril foi a vez de Roger Waters lançar The Pros and Cons of Hitch Hiking. As turnês que promoveram ambos os discos tiveram baixa venda de ingressos, e a gravadora da banda, a CBS, sugeriu que os músicos se reunissem e gravassem um novo álbum do Pink Floyd, o que o baixista não aceitou. Em dezembro de 1985 Roger anunciou oficialmente a sua saída da banda, que ele definiu como “uma força criativamente já gasta”. A CBS se uniu então com Gilmour e Nick Mason e tentou forçar Waters a gravar um novo trabalho com o grupo, ameaçando-o de processo se ele não fizesse isso. Logicamente o baixista não aceitou a pressão, e então foi confrontado por David: “Eu disse para Waters antes de ele sair: cara, se você sair, nós vamos seguir em frente. Não faça nada sobre isso, porque nós iremos continuar com a banda”. A resposta do baixista foi um categórico “você nunca faria isso”. Paralelamente a todos esses fatos, Roger Waters também dispensou os serviços do então manager do Pink Floyd, Steve O’Rourke, e assinou um contrato com Peter Rudge, que passou a gerenciar a sua carreira. Isso foi visto por Gilmour e Mason como um sinal de que eles estavam livres para seguir em frente com o nome da banda.


Como a batalha pelos direitos de uso do nome Pink Floyd foram parar em uma disputa legal, David Gilmour começou a trabalhar em músicas que pretendia utilizar em seu terceiro disco solo. O produtor Bob Ezrin e o tecladista Jon Carin ajudaram nesse processo, e “Learning to Fly” surgiu de uma jam entre Gilmour e Carin. A CBS soube que o guitarrista estava trabalhando em novas músicas junto com Ezrin e enviou o executivo Stephen Ralbovsky para tentar convencer Gilmour a lançar o material não como um álbum solo, mas sim como um novo disco do Pink Floyd. Ralbovsky se encontrou com Gilmour e Ezrin em novembro de 1986 para ouvir as novas músicas e afirmou para ambos, sem meias palavras, que “elas não parecem em nada com o Pink Floyd”. Mais tarde, o próprio David Gilmour admitiu que o processo de composição foi especialmente trabalhoso porque ele não conseguiu encontrar novos parceiros com quem tivesse uma afinidade tão profunda quanto a que tinha com Waters.

A Momentary Lapse of Reason foi gravado em diversos estúdios, sendo o principal o Astoria, estúdio que o guitarrista montou dentro de um barco e utiliza até hoje. Os bateristas Jim Keltner e Carmine Appice foram contratados, já que Nick Mason não se sentia à vontade para gravar devido ao longo período que estava sem praticar o instrumento. A bateria eletrônica também foi bastante utilizada no disco. O tecladista Richard Wright, que havia deixado o Pink Floyd em 1979 devido a desentendimentos com Waters, também participa do disco, além de uma seleção de instrumentistas excepcionais onde se destaca o baixista Tony Levin, do King Crimson.

As gravações foram interrompidas devido à intensa batalha jurídica entre Waters e Gilmour pelo direito de uso do nome Pink Floyd. Waters visitou duas vezes as sessões de gravação no Astoria, já que ainda era acionista da Pink Floyd Music, e conseguiu bloquear os trabalhos. A banda então foi para Los Angeles e retomou a gravação no A&M Studios. O longo conflito entre David Gilmour e Roger Waters só foi enfim resolvido no final de 1987, fora dos tribunais. O guitarrista ficou com o direito do nome Pink Floyd e o baixista ficou com a propriedade de The Wall e do icônico porco da banda.


A Momentary Lapse of Reason foi lançado em 7 de setembro de 1987, antes da conclusão da disputa entre os músicos, em uma jogada arriscada da gravadora CBS. A capa foi criada por Storm Thorgerson, que possuía longa associação com a banda e é o autor das capas icônicas de clássicos como The Dark Side of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975) e Animals (1977). A imagem traz 700 camas de hospital dispostas em uma praia de Los Angeles, mesma locação das cenas de guerra presentes na adaptação cinematográfica de The Wall lançada em 1982 e dirigida por Alan Parker, e custou cerca de 500 mil dólares para ser produzida, transformando-se em uma das imagens mais icônicos da banda.

O disco traz onze músicas e possui uma produção bastante carregada, com timbres típicos daquela metade da década de 1980. A sonoridade é um tanto artificial, com o uso exagerado de teclados e baterias eletrônicas que não contribuem para a percepção mais orgânica do material. Entre as faixas há bons momentos como o single “Learning to Fly”, a climática “The Dogs of War”, a balada “On the Turning Away” e “Sorrow”, que fecha o álbum. O excesso de interlúdios e o trabalho de composição abaixo do que a banda sempre fez foram percebidos pela crítica, que recebeu o LP com avaliações medianas. O público, no entanto, estava sedento por material inédito do Pink Floyd e conduziu A Momentary Lapse of Reason para o terceiro posto nos Estados Unidos e na Inglaterra, com o disco vendendo mais de 5 milhões de cópias em todo o planeta. Analisado com o distanciamento do tempo, A Momentary Lapse of Reason mostra-se bastante inferior ao que a banda faria sete anos depois em The Division Bell (1994), já sem todo o contexto da briga com Waters e mais leves para criar algo que sobrevivesse ao teste do tempo. Mesmo assim é um disco que reserva bons momentos, como as faixas citadas acima.


A turnê gerou o duplo Delicate Sound of Thunder, primeiro álbum totalmente ao vivo do Pink Floyd – Ummagumma, de 1969, possui apenas um de seus dois LPs com gravações ao vivo. Lançado em 22 de novembro de 1988, se tornou um sucesso de vendas e audição obrigatória nos toca-discos da época, com uma performance primorosa de David Gilmour, Nick Mason, Richard Wright e banda.

A Momentary Lapse of Reason foi remasterizado em 2011 e incluído no box Discovery, além de poder ser adquirido separadamente. Com ele, o Pink Floyd teve a sua terceira troca de comando. Os tempos sob o crivo de Syd Barrett ficarem distantes, a epopéia criativa de Roger Waters transformou a banda em uma lenda e a condução de David Gilmour manteve essa lenda viva e pulsante para uma nova geração de ouvintes.

Comentários

  1. Pra mim o Pink Floyd acaba no The Walking.

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  2. Assino embaixo da matéria. Está muito bem escrita. O disco tem seu valor, mas o melhor ficou para depois: o Delicate Sound of Thunder e o grande Division Bell. É interessante que o próprio Nick Mason faz uma autocrítica na sua autobiografia Inside Out, se arrependendo de não ter tido pulso para assumir as baquetas.

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