Quando o Sepultura lançou Roots em 1996, o metal vivia um momento de transição. O thrash havia perdido força comercial, o grunge ainda projetava sombras sobre a cena pesada e uma nova geração começava a experimentar com groove, afinações mais baixas e abordagens menos técnicas. Foi nesse cenário que um grupo brasileiro decidiu não apenas se adaptar, mas redefinir o jogo.
Roots não foi apenas uma mudança sonora. Foi uma mudança de perspectiva.
A banda abandonou de vez a velocidade cortante de álbuns como Arise (1991) em favor de riffs mais densos, repetitivos e tribais. “Roots Bloody Roots” já anunciava a transformação: menos virtuosismo, mais impacto. O peso vinha da cadência, da pulsação quase ritualística. O metal deixava de ser apenas agressão técnica para se tornar experiência física.
Produzido por Ross Robinson, figura central no surgimento do nu metal, o álbum capturou uma crueza emocional que dialogava com o que bandas como Korn começavam a explorar. Mas ao contrário de simplesmente seguir uma tendência, o Sepultura foi além: incorporou percussões brasileiras, gravações com indígenas Xavante e a participação de Carlinhos Brown em “Ratamahatta”. Não era estética superficial: era identidade.
E é aqui que mora sua revolução.
Até então, o metal de alcance global era majoritariamente moldado por referências anglo-americanas. Roots quebrou essa lógica ao provar que era possível soar extremo, contemporâneo e universal sem abrir mão da própria cultura. O disco legitimou a ideia de que o metal poderia absorver tradições regionais sem perder peso ou relevância.
O impacto foi profundo. A ênfase em groove e percussão influenciou diretamente a consolidação do nu metal no fim dos anos 1990 e ecoou em nomes como Slipknot, além de inspirar abordagens rítmicas mais orgânicas em bandas posteriores como Gojira. Mais do que riffs, Roots influenciou mentalidades.
Comercialmente, o disco se tornou o maior sucesso da carreira do grupo e levou o metal brasileiro a um patamar inédito de visibilidade internacional. Artisticamente, abriu portas para experimentações que antes poderiam ser vistas como arriscadas demais.
Também marcou o fim de uma era: foi o último álbum com Max Cavalera antes de sua saída. Esse fato adiciona uma camada simbólica ao disco: ele é ao mesmo tempo ápice e ruptura.
Trinta anos depois, Roots permanece atual porque sua proposta não era seguir moda, mas expandir fronteiras. Ele mostrou que o metal podia ser tribal, político, culturalmente enraizado e ainda assim global.
Mais do que um grande disco, Roots foi um divisor de águas. Um álbum que não apenas acompanhou a transformação do metal nos anos 1990: ele ajudou a conduzi-la.
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