Poucas parcerias no rock foram tão intensas quanto a construída entre Alex e Eddie Van Halen. Em Irmãos, o baterista revisita essa relação sob uma perspectiva profundamente pessoal, entregando um livro que funciona menos como uma biografia tradicional e mais como um testemunho emocional sobre família, música e perda. No Brasil, a obra foi publicada pela editora Belas Letras em capa dura, 240 páginas e tradução de Marcelo Vieira, tornando acessível ao público nacional um relato que mistura memórias afetivas e reflexões sobre uma das duplas mais importantes da história do rock.
Desde as primeiras páginas, fica claro que o foco do livro está na formação da identidade musical e pessoal dos irmãos. Alex relembra a infância na Holanda, a mudança para os Estados Unidos e a influência decisiva do ambiente familiar na aproximação dos dois com a música. Esse percurso culmina na criação do Van Halen, banda que redefiniu parâmetros técnicos e criativos do hard rock a partir do final dos anos 1970.
A narrativa se destaca pelo tom intimista. Alex constrói o texto a partir de lembranças e reflexões, enfatizando a cumplicidade que sustentou a parceria criativa com Eddie. O desenvolvimento musical do guitarrista, a química entre os irmãos e o impacto emocional da morte de Eddie, em 2020, aparecem como os principais pilares do livro. A inclusão de fotografias do acervo pessoal do baterista reforça essa proposta, aproximando o leitor do universo privado da família.
Apesar das qualidades, Irmãos apresenta limitações que podem frustrar leitores interessados em um panorama mais abrangente da história da banda. O livro se concentra basicamente na fase clássica do grupo com David Lee Roth e avança apenas até o lançamento do álbum 1984, deixando de fora períodos posteriores fundamentais para a trajetória do Van Halen.
Outro ponto que chama atenção é o espaço reduzido dedicado a personagens importantes da formação clássica. O baixista Michael Anthony aparece muito pouco ao longo da narrativa, enquanto Sammy Hagar praticamente não é citado. Embora o livro não tenha a proposta de ser uma biografia completa da banda, essas ausências acabam gerando estranhamento e reforçam o caráter parcial do relato.
Essa escolha narrativa também contribui para uma sensação recorrente durante a leitura: mesmo não sendo propriamente um livro sobre o Van Halen, a obra desperta expectativa de maior aprofundamento na história do grupo. Ao priorizar quase exclusivamente a relação entre Alex e Eddie, o livro deixa em segundo plano elementos fundamentais da evolução artística, dos conflitos internos e das transformações que marcaram a carreira da banda ao longo das décadas.
Ao final da leitura, Irmãos é uma obra que encontra sua maior força justamente em sua proposta pessoal. Trata-se de um retrato sensível sobre irmandade, memória e legado musical. Para fãs interessados nos bastidores emocionais que ajudaram a moldar uma das bandas mais importantes do rock, o livro oferece momentos tocantes e reveladores. Por outro lado, leitores que buscam uma reconstrução detalhada da trajetória do Van Halen podem sentir falta de uma abordagem mais ampla e aprofundada.



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