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Quadra (2020): o impressionante capítulo final da monumental história do Sepultura


Concebido como um álbum conceitual, Quadra (2020) se inspira na ideia do Quadrivium, conjunto de quatro disciplinas clássicas — aritmética, geometria, música e astronomia — e utiliza o número quatro como eixo estrutural e simbólico. O Sepultura dividiu o disco em quatro segmentos sonoros que dialogam com diferentes abordagens musicais, criando uma experiência que vai além da simples sequência de faixas e assume contornos narrativos e atmosféricos bastante definidos.

A primeira parte apresenta o Sepultura em sua forma mais agressiva e direta. Faixas como “Isolation” e “Means to an End” entregam riffs cortantes, andamento veloz e uma energia que remete à herança thrash metal da banda, mas com produção moderna e extremamente detalhada, assinada por Jens Bogren. O peso surge renovado, com uma precisão que ressalta o entrosamento do quarteto.

Nos segmentos seguintes, o disco amplia sua paleta sonora. O groove característico da banda ganha mais espaço, acompanhado por uma forte presença rítmica que evidencia o trabalho impressionante de Eloy Casagrande. A bateria se destaca como um dos pilares de Quadra, transitando com naturalidade entre passagens técnicas, momentos tribais e conduções mais progressivas. Ao lado dele, Andreas Kisser e Paulo Jr. constroem uma base sólida, alternando entre brutalidade e refinamento melódico.

O álbum também explora territórios menos previsíveis. Elementos acústicos, arranjos orquestrais e atmosferas mais contemplativas aparecem com naturalidade, ampliando a dinâmica do trabalho. Essa diversidade sonora reforça o caráter conceitual do disco e demonstra a disposição do Sepultura em evitar fórmulas fáceis, apostando em contrastes e texturas que enriquecem a audição.

Derrick Green entrega uma de suas performances mais convincentes. Seu vocal alterna agressividade, intensidade emocional e versatilidade interpretativa, contribuindo para a coesão narrativa do álbum. Ao longo das faixas, sua presença reforça a identidade contemporânea do Sepultura, consolidando essa formação como uma entidade artística plenamente estabelecida.


Do ponto de vista temático, Quadra dialoga com ideias de organização social, padrões culturais e o papel do indivíduo dentro de estruturas coletivas. Embora não seja um álbum excessivamente literal em sua narrativa, o conceito funciona como fio condutor e ajuda a dar unidade ao trabalho, transformando o disco em uma experiência que convida a audições completas, e não apenas fragmentadas.

Mais do que provar relevância, Quadra mostra uma banda confortável em explorar sua própria evolução. O Sepultura consegue equilibrar tradição e experimentação sem soar preso ao passado ou desconectado de sua essência. O resultado é um álbum forte, coeso e criativo, frequentemente apontado como um dos pontos mais altos da fase moderna do grupo.

Quadra é um retrato claro de uma banda que encontrou estabilidade artística justamente ao aceitar sua própria transformação. Ao abraçar múltiplas influências e estruturar o disco de forma conceitual e ambiciosa, o Sepultura entregou um trabalho que dialoga tanto com sua história quanto com o futuro. O fato de o álbum ter se transformado no fechamento da discografia da banda só reforça o quanto a banda brasileira foi e seguirá sendo um dos nomes mais importantes, criativos e influentes do metal mundial.


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