Better Than Raw (1998) representa o momento em que o Helloween deixou definitivamente para trás qualquer sombra da crise criativa dos primeiros anos da década. Se The Time of the Oath (1996) havia recolocado a banda nos trilhos, aqui o grupo soa confiante, pesado e artisticamente maduro, talvez como não soava desde o auge oitentista.
A principal diferença está na produção. O trabalho conduzido por Tommy Hansen enfatiza guitarras mais graves e encorpadas, bateria com pegada seca e direta, e menos brilho “fantástico” típico do power metal tradicional. O resultado é um álbum mais agressivo, quase flertando com o heavy metal tradicional em alguns momentos.
“Push”, que abre o disco, é praticamente um manifesto: riffs cortantes, andamento veloz e Andi Deris cantando com ataque e personalidade. Deris, aliás, é um dos grandes trunfos do álbum. Sua interpretação aqui é mais emocional, explorando nuances que vão do sarcasmo à introspecção, ampliando o espectro lírico da banda.
Um dos aspectos mais interessantes de Better Than Raw é a variedade interna sem perda de coesão. “Falling Higher” mantém o espírito melódico clássico, mas com linhas vocais menos previsíveis. “I Can” entrega um refrão imediato e energético, power metal em estado puro, porém com arranjos mais enxutos e menos ornamentais do que nos anos 1980. “Revelation”, com seus mais de oito minutos, é a peça estruturalmente mais ambiciosa: mudanças de andamento, climas contrastantes e uma construção quase progressiva. A banda também se permite momentos mais soturnos. “Midnight Sun” é densa e dramática, sustentada por uma atmosfera quase melancólica. Já “Hey Lord!” revela um lado reflexivo pouco explorado anteriormente, com letra menos fantasiosa e mais humana.
A dupla Michael Weikath e Roland Grapow trabalha com riffs mais pesados e menos “alegres”, o que contribui para o caráter mais sério do disco. Há menos floreios neoclássicos e mais foco em peso e groove. A bateria de Uli Kusch merece destaque: dinâmica, técnica e cheia de personalidade, especialmente nas transições de “Revelation” e “Time”. Markus Grosskopf, frequentemente subestimado, ajuda a sustentar a densidade do som com linhas de baixo que reforçam a base harmônica, especialmente nas faixas mais cadenciadas.
Outro ponto de evolução está nas letras. O Helloween sempre transitou entre fantasia e humor, mas aqui as composições revelam preocupações mais concretas: conflitos internos, fé, frustração, identidade. O tom é menos escapista e mais introspectivo, refletindo uma banda que amadureceu musical e pessoalmente.
Dentro da fase Deris, Better Than Raw costuma ser apontado como um dos pontos mais altos. Ele equilibra acessibilidade e peso, técnica e emoção. Não tenta replicar o passado glorioso, mas também não rompe com a essência da banda. Se os álbuns clássicos definiram o power metal europeu, Better Than Raw mostrou que era possível evoluir dentro do gênero sem perder identidade. É um disco que soa menos festivo e mais musculoso, menos “fantasia” e mais realidade.
Um título essencial para entender a transição estética do Helloween nos anos 1990. Não apenas um ótimo álbum, mas um registro de reinvenção consciente: pesado, variado e artisticamente sólido.
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