Domingos: lembranças, saudade e a vida cotidiana na HQ de estreia de Sidney Gusman (2025, Pipoca & Nanquim)
A estreia de Sidney Gusman como roteirista de quadrinhos acontece de forma profundamente pessoal em Domingos, publicada pela Editora Pipoca & Nanquim. Conhecido por décadas de atuação como jornalista especializado e como editor responsável por projetos marcantes do mercado nacional, incluindo a revitalização da Mauricio de Sousa Produções com as Graphic MSP, Sidney opta por iniciar sua trajetória autoral com uma narrativa intimista, centrada em memórias familiares e na passagem do tempo.
A história gira em torno da relação do autor com seu pai, Domingos Gusman Gimenez, utilizando os domingos como eixo simbólico para construir a narrativa. Esse dia da semana, tradicionalmente associado aos encontros familiares, funciona como fio condutor para episódios que atravessam diferentes décadas da vida do autor, indo da infância até a maturidade. Cada capítulo apresenta um recorte específico — um almoço em família, um jogo de futebol, uma conversa aparentemente banal — que, somados, formam um retrato sensível da vida cotidiana.
A estrutura da obra se aproxima mais de um mosaico de lembranças do que de uma narrativa linear tradicional. São fragmentos de memória que, gradualmente, revelam as transformações nas relações familiares, as marcas do envelhecimento e o impacto inevitável da perda. Ao lidar com esses temas, Sidney evita o sentimentalismo fácil e constrói uma história marcada por honestidade emocional, algo que contribui para a identificação do leitor com os acontecimentos narrados.
A arte de Jefferson Costa desempenha papel fundamental na força da obra. O artista já demonstrou grande sensibilidade em trabalhos anteriores, como os três volumes de Jeremias na já citada Graphic MSP, e aqui entrega páginas carregadas de atmosfera e expressividade. Seu traço valoriza gestos, silêncios e pequenos detalhes cotidianos, ampliando a dimensão emocional da narrativa. Em muitos momentos, a arte comunica tanto quanto os diálogos, reforçando a natureza contemplativa da história.Domingos funciona como uma reflexão sobre memória, família e identidade. Ao revisitar momentos aparentemente simples do cotidiano, a obra revela como esses episódios banais acabam se tornando os pilares das nossas lembranças mais duradouras.
O resultado é uma graphic novel delicada e profundamente humana, que encontra força justamente na simplicidade de sua proposta. Ao transformar experiências pessoais em uma narrativa universal sobre afeto, convivência e despedida, Domingos confirma que as histórias mais íntimas também podem ser aquelas que ecoam com mais intensidade entre os leitores.
Bela estreia, Sidão. Já quero ler os próximos projetos!
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