Após o impacto causado pelo debut Opus Eponymous (2010), o Ghost deu um passo ousado em Infestissumam (2013) ao expandir sua proposta estética e sonora, apostando em uma abordagem mais ambiciosa, teatral e, acima de tudo, menos previsível.
Gravado em Nashville com produção de Nick Raskulinecz, o álbum enfrentou obstáculos curiosos desde sua concepção. Corais locais recusaram participação devido ao teor lírico abertamente satânico, obrigando a banda a registrar essas partes em outro estúdio. O episódio, além de ilustrar o compromisso do Ghost com sua identidade, reforça o caráter provocativo que sempre permeou sua obra.
Infestissumam representa uma guinada em relação ao disco anterior. Se o primeiro álbum apostava em uma sonoridade mais direta e sombria, aqui o grupo amplia o espectro com arranjos mais ricos, maior presença de teclados e um uso marcante de corais. A influência de nomes como Blue Öyster Cult se torna ainda mais evidente, mas há também uma surpreendente incorporação de elementos pop e melodias que, em certos momentos, flertam com a leveza de ABBA, sempre em contraste com letras que evocam rituais, blasfêmia e iconografia anticristã.
Essa dualidade é o coração do álbum. Faixas como “Year Zero” sintetizam com precisão essa estética: corais grandiosos e quase litúrgicos sustentam uma celebração explícita do ocultismo, enquanto “Monstrance Clock” encerra o disco com um clima cerimonial que reforça a ideia de uma missa profana conduzida ao longo da execução.
Na época de seu lançamento, Infestissumam dividiu opiniões. Parte da crítica enxergou no álbum uma evolução natural, elogiando sua ousadia e o refinamento das composições. Outros, no entanto, apontaram uma perda do senso de perigo e da atmosfera mais crua que caracterizava o trabalho anterior. Ainda assim, o disco conquistou reconhecimento significativo, incluindo prêmios importantes na Suécia e destaque em listas de melhores do ano.
Com o passar do tempo, a percepção sobre Infestissumam se tornou mais generosa. Hoje, é possível enxergá-lo como um elo fundamental na construção da identidade do Ghost. É aqui que a banda abandona qualquer resquício de rótulo restritivo e assume plenamente sua vocação para o espetáculo, incorporando influências diversas em um formato que dialoga tanto com o rock clássico quanto com o pop mais sofisticado.
Infestissumam é uma obra de transição e, como toda transição, carrega imperfeições. Mas são justamente essas arestas que tornam o disco tão interessante: ele documenta o momento em que o Ghost deixa de ser apenas uma promessa cult para se transformar em uma força criativa singular dentro do rock contemporâneo.
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