Poucos autores trabalham com o desconforto de forma tão consciente quanto Suehiro Maruo. Em O Vampiro que Ri, essa inquietação vinha acompanhada de algo essencial: uma história. Havia atmosfera, havia progressão, havia um fio narrativo que sustentava o impacto.
Em Paraíso: O Vampiro que Ri Vol. 2, esse elemento desaparece. A continuação retoma o universo do primeiro volume, acompanhando Kounosuke e Luna em um mundo ainda mais degradado, onde violência, perversão e vazio existencial dominam cada página. A proposta é intensificar tudo o que já estava presente antes. O problema é que, ao fazer isso, a obra abandona o que a tornava funcional. Aqui, não há exatamente uma narrativa, mas sim uma sucessão de episódios, imagens e situações extremas que se acumulam sem progressão dramática. Falta estrutura, falta desenvolvimento, falta propósito narrativo. O que se vê é um encadeamento de cenas chocantes que não constroem nada além do próprio choque.
No primeiro volume, o grotesco tinha função. Ele ajudava a construir um clima, a desenvolver personagens e a dar sentido àquele universo. No segundo, o grotesco se torna o próprio fim. Sem contexto ou consequência, o impacto se dilui e o leitor deixa de se envolver.
A sensação predominante é de um material fragmentado, quase como um exercício visual ou conceitual levado ao limite, mas sem preocupação em contar uma história. Pode-se argumentar que essa escolha dialoga com o ero-guro, estética que o autor domina, mas isso não resolve a questão central: sem narrativa, a leitura perde sustentação. E é inevitável a comparação. Porque O Vampiro que Ri Vol. 1 prova que Maruo é capaz de equilibrar forma e conteúdo, impacto e construção. Já Paraíso rompe esse equilíbrio e entrega uma obra que soa excessiva, repetitiva e dispensável dentro do conjunto.
Não se trata de falta de qualidade técnica, pois o traço continua refinado, elegante e perturbador. Mas o desenho, por si só, não sustenta uma história em quadrinhos. E aqui, ironicamente, o que falta é justamente isso: uma história.
Publicado pela Pipoca & Nanquim, trata-se de um volume caprichado do ponto de vista gráfico, alinhado ao padrão premium da editora, o que contrasta com a fragilidade do conteúdo narrativo.
Paraíso: O Vampiro que Ri Vol. 2 é um caso raro em que a continuação não expande nem aprofunda a obra original, apenas intensifica seus excessos. Ao abrir mão de uma estrutura narrativa minimamente consistente, o mangá transforma impacto em repetição e provocação em vazio. Para quem valorizou o primeiro volume justamente pela combinação entre atmosfera e história, a sensação é de decepção, pois o que se perde aqui não é um mero detalhe, mas o elemento fundamental que faz uma HQ funcionar.



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