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Fashion Beast - A Fera da Moda: glamour, distopia e caos na HQ esquecida de Alan Moore (2014, Panini)


Poucas obras de Alan Moore carregam uma aura tão estranha quanto Fashion Beast - A Fera da Moda. Concebida originalmente em meados dos anos 1980 como um roteiro de cinema idealizado ao lado de Malcolm McLaren, a história permaneceu engavetada durante décadas até finalmente ganhar forma como HQ pela Avatar Press em 2012. E talvez justamente por essa origem incomum Fashion Beast provoque uma sensação permanente de deslocamento: é uma obra que parece existir entre o cinema, os quadrinhos, a moda, o punk e a distopia.

A trama funciona como uma releitura sombria de A Bela e a Fera, ambientada em um futuro decadente onde a aparência virou mecanismo de poder e sobrevivência. A protagonista Doll Seguin é uma jovem marginalizada que acaba sendo recrutada para trabalhar na misteriosa Casa Celestine, comandada pelo estilista Jean-Claude Celestine, figura reclusa, perturbada e cercada de excessos. Ao redor deles surge um universo onde gênero, identidade, desejo e performance social se misturam em um espetáculo tão sedutor quanto desconfortável.

O que mais impressiona em Fashion Beast é como a obra soa contemporânea mesmo tendo sido concebida há mais de quarenta anos. Moore utiliza a moda não apenas como estética, mas como linguagem política. Tudo aqui gira em torno de máscaras: a roupa como armadura, a beleza como mercadoria e a identidade como construção pública. Em muitos momentos, a HQ parece antecipar discussões atuais sobre gênero e expressão visual. Existe humanidade, dor e contradição em praticamente todos eles.

A arte de Facundo Percio ajuda bastante na construção dessa atmosfera. Seu traço mistura decadência glam, erotismo, sujeira urbana e exagero teatral de maneira bastante eficiente. Há páginas que lembram editoriais de moda destruídos por uma explosão punk, o que conversa perfeitamente com o espírito da narrativa.



Ao mesmo tempo, Fashion Beast está longe de ser uma leitura fácil. A origem como roteiro cinematográfico pesa em vários momentos. Alguns diálogos são excessivamente longos, certas sequências parecem mais preocupadas em apresentar conceitos do que em desenvolver ritmo, e a narrativa ocasionalmente perde fluidez. É possível perceber que a obra não possui a mesma precisão estrutural encontrada em trabalhos mais celebrados de Moore.

Ainda assim, talvez seja justamente essa natureza imperfeita que torne Fashion Beast tão interessante. A HQ pulsa como uma obra marginal, experimental e provocadora, carregando uma energia caótica rara até mesmo dentro da bibliografia de Alan Moore. É uma HQ que provoca desconforto, desafia padrões e mergulha o leitor em um conto de fadas distorcido, sensual e profundamente melancólico.

Fashion Beast permanece como uma das experiências mais curiosas da carreira de Alan Moore: uma obra cult, estranha e excessiva, que transforma glamour em pesadelo e faz da moda um espelho brutal da sociedade.

A HQ foi publicada no Brasil em 2014 pela Panini em uma edição de 272 em formato americano e capa brochura.

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