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Hear’n Aid (1986): o maior encontro de estrelas do metal dos anos 1980


Em meados dos anos 1980, o mundo da música vivia uma onda de grandes projetos beneficentes. O sucesso de iniciativas como Band Aid e USA for Africa mostrou que artistas populares poderiam usar sua visibilidade para mobilizar milhões de pessoas em torno de causas humanitárias. No entanto, havia uma cena inteira praticamente ausente daquele movimento: o heavy metal. Foi justamente dessa percepção que nasceu o Hear’n Aid.

Idealizado por Ronnie James Dio ao lado de Jimmy Bain e Vivian Campbell, então integrantes da banda Dio, o projeto tinha um objetivo claro: reunir a comunidade hard rock e heavy metal em uma campanha beneficente voltada ao combate à fome na África. Mais do que arrecadar dinheiro, o Hear’n Aid também serviu para mostrar um lado solidário de uma cena frequentemente caricaturada pelo excesso, pela rebeldia e pela estética agressiva.

O coração do projeto foi “Stars”, single gravado em maio de 1985 nos estúdios A&M e Sound City, em Los Angeles. A música seguiu a fórmula dos grandes encontros beneficentes da época: versos divididos entre diversos vocalistas, refrão grandioso e clima épico. A diferença era que tudo aqui soava amplificado pela energia do metal oitentista: guitarras distorcidas (as bases foram gravadas por Vivian Campbell e a dupla do Iron Maiden, Adrian Smith e Dave Murray), vozes agudas, bateria explosiva e uma sequência de solos que parecia uma olimpíada da guitarra.

O elenco reunido impressiona até hoje. Participaram músicos de bandas como Judas Priest, Queensrÿche, Dokken, Twisted Sister e Mötley Crüe. Entre os vocalistas estavam Ronnie James Dio, Rob Halford, Geoff Tate, Kevin DuBrow e Don Dokken. Já os solos reuniram guitarristas como Yngwie Malmsteen, George Lynch, Vivian Campbell, Neal Schon e Brad Gillis.


“Stars” rapidamente se transformou em um clássico cult do heavy metal dos anos 1980. O videoclipe ganhou espaço constante na MTV, especialmente no Headbangers Ball, e até hoje a música é lembrada como a versão metálica de “We Are the World”. Existe até certo exagero divertido, com dezenas de astros dividindo microfones e solos em uma explosão de egos, cabelos armados e jaquetas de couro, mas justamente esse excesso acabou se tornando parte do charme do projeto.

Em janeiro de 1986, o Hear’n Aid foi expandido para um álbum completo. O tracklist funciona como uma coletânea beneficente composta majoritariamente por gravações ao vivo e faixas previamente lançadas, reunindo artistas representativos da cena hard/heavy daquele momento. O repertório inclui performances de Accept, Motörhead, Rush, Kiss, Scorpions, Dio e Y&T. O álbum abraça a diversidade do metal dos anos 1980: tem heavy metal europeu, hard rock melódico, metal tradicional, rock progressivo e até a crueza acelerada do Motörhead.

Esse talvez seja o aspecto mais interessante do disco. Hear’n Aid funciona quase como uma cápsula do tempo. Ao ouvir o álbum hoje, é possível perceber como o universo hard/heavy daquela época ainda era relativamente integrado, antes da fragmentação em dezenas de subgêneros que marcaria os anos seguintes.

O tracklist é um tanto irregular, algo inevitável em uma coletânea montada com materiais de origens tão diferentes. “Stars” permanece como o grande destaque, tanto pelo impacto histórico quanto pela energia contagiante. As faixas ao vivo ajudam a reforçar o clima grandioso da época, especialmente “The Zoo” do Scorpions, “Distant Early Warning” do Rush, “Up to the Limit” do Accept e “On the Road” do Motörhead, que poucos meses depois seria lançada com outra letra no álbum Orgasmatron (1986), rebatizada como “Built for Speed. Já “Hungry for Heaven”, em versão ao vivo anteriormente inédita, oferece um ótimo retrato da força que Ronnie James Dio vivia naquele período.

Outro detalhe curioso é a inclusão de “Can You See Me”, do The Jimi Hendrix Experience. A presença da faixa funciona como uma homenagem às raízes do hard rock e do heavy metal, lembrando a influência monumental de Jimi Hendrix sobre praticamente todos os guitarristas envolvidos no projeto.


Embora o Hear’n Aid nunca tenha alcançado o impacto comercial gigantesco de “We Are the World”, o projeto arrecadou milhões de dólares para ajuda humanitária. Segundo Wendy Dio, parte importante dos recursos foi direcionada à compra de equipamentos agrícolas para comunidades africanas, buscando oferecer soluções mais duradouras do que simples ajuda emergencial.

Com o passar do tempo, o álbum ganhou status cult entre fãs de rock e metal, principalmente por ter sido lançado apenas em LP e cassete, e nunca ter ganhado uma edição em CD. A única versão no formato é a edição japonesa, objeto de desejo entre os colecionadores. A boa notícia é que Wendy Dio, que administra o catálogo de Dio, confirmou em entrevista ao radialista Eddie Trunk que está trabalhando em uma reedição do álbum junto com a gravadora Metal Blade, além de um livro de fotos sobre o projeto.

Hear’n Aid permanece como um documento fascinante de uma era em que o heavy metal dominava arenas, a MTV e a cultura pop, um marco histórico e em que algumas das maiores estrelas do gênero decidiram deixar os egos de lado para tocar juntas em nome de uma causa maior.

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