5 razões pelas quais os CDs precisam retornar (e não devem morrer)


Os CDs nasceram em 1982 de um esforço colaborativo entre a Philips e a Sony. A intenção era apresentar uma nova forma de ouvir música, e o Disco Compacto de Áudio Digital impressionou e dominou o mercado por mais de duas décadas. No entanto, a popularidade dos CDs tem diminuído constantemente desde a década de 2000, quando dispositivos como o iPod, aplicativos de streaming como o Napster e muitas outras plataformas de mídia digital ficaram a alcance dos ouvintes.

Hoje, as vendas de CDs são apenas 10% do que eram no final dos anos 1990, de acordo com a Recording Industry Association of America. Como qualquer outra forma de tecnologia, a maneira como a música é entregue ao público simplesmente evoluiu. Essa evolução mudou de maneira profunda a relação entre o artista e seus fãs. Os serviços de streaming hoje respondem por mais de 85% do consumo de música nos Estados Unidos, maior mercado fonográfico do planeta.

Abaixo estão cinco grandes razões que explicam porque os CDs não devem morrer e precisam retomar a sua força de venda.


AS BANDAS E ARTISTAS

Os artistas são a razão pela qual temos música para ouvir. Além de merchandising e shows, os músicos obtêm sua receita principalmente com royalties pagos a eles por unidades vendidas, distribuídas, veiculação na mídia ou monetizadas de qualquer forma. Esses royalties são então divididos entre os compositores, editores, gravadoras e, claro, os próprios artistas. São muitas mãos no mesmo pote de biscoitos, e de forma merecida, pois é preciso uma boa equipe para produzir um álbum de sucesso.

A maioria dos serviços de streaming paga menos de um centavo por stream para o artista. YouTubers de sucesso podem ganhar muito mais do que isso por visualização de seus vídeos. Frequentemente, os fãs reclamam que seus artistas favoritos pararam de produzir músicas inéditas, mas esses mesmos fãs não param para analisar o contexto e perceber que os músicos podem não ter mais condições financeiras para gravar novos álbuns, ou que lançar músicas novas não dá o retorno financeiro que os shows focados em clássicos do passado oferecem. Um artista independente que vende seus CDs online ou em seus shows pode ter quase todo o lucro de um CD vendido, diminuindo o custo de fabricação. Um artista contratado por uma gravadora ainda pode extrair de 6 a 7% do valor de varejo do CD depois que todos que fazem parte do bolo tiverem obtido sua parte, o que ainda é significativamente mais do que eles ganham atualmente de todos os serviços de streaming combinados.

Se você ama um artista e gosta de sua música, comprar seu CD não é apenas uma ótima maneira de apoiá-lo em termos financeiros, mas também de ter uma parte física de seu trabalho que você pode desfrutar quanto o wi-fi estivar ou não disponível.

A NOSTALGIA

A nostalgia pesa muito quando falamos de CDs. Se você nasceu no final dos anos 1980, os CDs são a forma como você ouvia música. Quer você tivesse um sistema de som Aiwa ou o mais novo discman, era dessa maneira que você consumia suas músicas e bandas favoritas, e você adorava isso. Não consigo nem lembrar quantas vezes esperei na fila para comprar um novo lançamento ou as horas que passei procurando itens em minhas lojas favoritas.

Uma loja de discos clássica produz uma poderosa sensação de nostalgia. Penso frequentemente nos momentos em que entraria nessas lojas e veria os pôsteres nas paredes, sentiria o cheiro de incenso e olharia para as fileiras e mais fileiras de CDs e LPs esperando para serem descobertos. Na humilde opinião deste escritor, esta é uma experiência que não deve ser negada às gerações futuras.

Agora, a razão mais importante pela qual a música tem uma relação direta com a nostalgia é um estudo que tem sido explorado por muitos. Quando uma pessoa ouve uma música específica de seu passado, isso pode desencadear uma memória implícita, que são memórias armazenadas no fundo do seu inconsciente, mas que ainda podem ser recuperadas. A música tende a excitar as partes do cérebro que evocam emoções, então é razoável supor que ela pode ter benefícios incríveis para pessoas que querem apenas dar um passeio no caminho da memória ou realmente ajudar aqueles que têm problemas para se lembrar de experiências do passado.


O SOM

A qualidade do som dos CDs ainda é muito respeitada até mesmo pelos mais exigentes audiófilos. Muitos colecionadores de vinil argumentarão que a qualidade de uma prensagem dos anos 1970 ou uma prensagem remasterizada de alta qualidade quase sempre será superior à do CD. No entanto, com o recente culto que o vinil experimentou nos últimos anos, os preços dos LPs dispararam para lucrar com a alta demanda.

Além disso, os CDs são muito menos frágeis do que os discos de vinil. Eles são mais difíceis de arranhar e não deformam facilmente. Você pode obter um som muito mais consistente de um CD, e você está apenas abrindo mão do ritual que acompanha a audição de um disco vinil. Os CDs oferecem uma faixa dinâmica mais ampla e mais resposta de graves do que o vinil, então, a menos que você seja um grande fã do calor do som analógico ou das pequenas imperfeições que a experiência física do LP fornece, o som do CD é superior.

Muitos irão proclamar que as novas faixas de alta resolução disponíveis para transmissão no Tidal e na Amazon HD são superiores aos CDs. No entanto, em alguns casos, um player de CD de última geração pode exceder em muito a experiência de som fornecida por esses serviços de streaming.

E não esqueça: sempre confie em seus ouvidos. Se você está satisfeito com o streaming, ele deve ser a plataforma perfeita para você.


AS SELEÇÕES GRAVADAS EM CD

As lendárias seleções gravadas em CD-Rs ainda podem ser encontradas nos racks de armazenamento de mídia ou nas estantes de muitos millennials mais velhos. Uma boa amiga ainda tem um case cheio de páginas e páginas de CDs que ela gravou em seus tempos de colégio e com mixes que antigos crushes deram para ela, bem como seleções de viagem quando era hora de pegar a estrada e ouvir suas músicas favoritas.

Entendo que a tecnologia e os avanços nos proporcionaram a conveniência de criar playlists em todas as plataformas de streaming de música. No entanto, as playlists digitais provavelmente nunca terão o impacto que entregar a alguém uma mixtape ou CD com a emoção e a intenção por trás daquele gesto teve para essas gerações.


A OPORTUNIDADE

A oportunidade que temos pela frente é clara e presente. A indústria da música precisa de um influxo de receita, os artistas precisam receber mais pelo seu trabalho árduo e o público mais jovem poderia experimentar um pouco mais de variedade em seu consumo diário de música. Imagine se o CD tivesse a mesma ressonância que o vinil está tendo com os colecionadores hoje? Seria um frenesi encontrar títulos vintage dos anos 1980 e 1990. Os artistas seriam motivados a fazer música novamente sabendo que as pessoas seriam atraídas a comprar seuS CDS, porque eles poderiam muito bem ser itens de colecionador algum dia.

Haveria uma oportunidade para designers gráficos e artistas visuais criarem os conceitos gráficos e as artes das capas. A arte por trás de nossas ofertas atuais de streaming de música tornou-se algo quase desnecessário e sem sentido. Lembro-me de folhear e ler o encarte enquanto a música do meu CD recém comprado fluía pelos meus fones de ouvido.

Isso criaria uma oportunidade para que as lojas atuais prosperassem e para que mais lojas físicas começassem a ser abertas. Isso poderia significar o retorno de lojas gigantes como as de alguns anos atrás em shopping centers.

Esse empreendimento beneficiaria também as indústrias que estão relutantes em produzir novos CD players devido ao destino incerto da mídia física.

Para encerrar, só o interesse e o tempo dirão se o CD continuará sendo uma relíquia do passado ou se há uma nova aventura que aguarda essa amada e (quase) esquecida forma de mídia.

Por Mike Perez, do Audio Arkitekts

Tradução de Ricardo Seelig


Comentários

  1. Eu compro CD, não ligo.
    Ontem mesmo comprei uns cds bem bacanas que achei por R$ 4,99 cada nas Lojas Americanas.

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  2. Bom texto, assunto bem relevante, um tapa bem no meio da cara dos negacionistas: sim o CD está mais vivo do que nunca.

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  3. Uma coisa é o meu desejo e outra muito diferente é a realidade...Eu particularmente gosto muito do CD, mas sei que esta plataforma de se consumir música caminha para o seu crepúsculo. Isso pode ser triste e melancólico, mas significa apenas que o mundo está seguindo o seu percurso e que muitas coisas "morrem" para outras "nascerem". Tenho certeza absoluta de que muitas coisas que minha avó e meus pais adoravam não existem mais e que eles devem se sentir tristes por isso. Mas a vida é assim...

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  4. Acho que toda midia cultural física (música, filmes, livros etc) deve ser defendida. Deixar tudo isso em nuvens comandadas por megacorporações de entretenimento dizendo o que você deve ou não consumir (isso sempre ocorreu, mas talvez nos próximos anos aumente ainda mais) por algoritimos não me parece ser algo muito saudável.

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    1. Eu defendo todas as mídias físicas, mas elas se tornarão produtos de nicho e de luxo em um futuro muito próximo. O consumidor que estiver disposto a bancar o privilégio de tê-las deve se preparar para enfiar a mão no bolso. O modo de se consumir cultura sempre foi empurrado goela abaixo do consumidor pela tecnologia disponível e apenas os ingênuos acham que "consomem cultura do jeito e na mídia que querem". A verdade é que as novas gerações já não possuem o hábito de ter o produto físico de qualquer linguagem artística, e evidentemente foram "conduzidas" a esta atitude pela tecnologia, que no fundo "obriga" até os artistas a se adaptarem e divulgarem seus trabalhos dentro dos parâmetros tecnológicos disponíveis...Eu não dou 10 anos para o produto físico ser coisa de "velho jurássico" ou uma moda hipster "chique" qualquer, se já não o é!

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  5. Concordo contigo...mas adiciono apenas que no caso da midia fisica pelo menos somos donos do acervo. Penso na midia fisica também como uma forma de manter obras que não são mais interessantes para o mercado e que podem acabar se perdendo. Claro que estou falando de coisas oficiais, não vou entrar no mérito do compartulhamento de arquivos como forma de disseminar uma ciltura que não é mais interssante para o mercado de massa.

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  6. Não há mais volta. Cds serão apenas um nicho de colecionadores, assim como os discos de vinil. Achei os argumentos fracos (seleções em cd, nostalgia), chega a ser ridículo. Já vendi meus vinis há décadas. Mantive algumas centenas de cds. Fora isso, o formato digital, além da praticidade, me permite ouvir música em qualquer hora e qualquer lugar. Nunca ouvi tantos álbuns como nos últimos 10 anos. Ouço de 5 a 10 por dia. Coleção de mais de 100 mil álbuns, sejam cds, vinis, ou não. Não importa.
    OBS: Comentei como anônimo, porque pelo google não apareceu. Talvez seja porque o dono deste singelo site gosta de excluir comentários que não o agradam.

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    1. Cara, não quero te julgar, mas você é o retrato perfeito do consumidor de música moderno. Para que vou querer 100 mil álbuns? Certamente não ouvirei 5% disso até minha morte! Você parece encarar o ouvir música como competição: "tenho mais de 100 mil discos", "ouço de 5 a 10 discos por dia"...Só faltou você pedir para darmos um like no final! A música para você parece ser algo totalmente descartável e desimportante. Evidentemente que a vida é sua e você ouve música como quiser, mas me dá uma melancolia quando vejo discursos iguais ao seu, porque, apesar de você achar que suas palavras são as de um "amante incondicional" da música, seu discurso denota na verdade é desprezo por ela...Quanto ao CD você está correto e só não vê a morte do formato quem não quer!

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    2. Bem, já postei uma resposta para você, mas por motivos alheios a minha vontade, não consta do site. Garanto a você que em mais de 40 anos ouvi dezenas de milhares de discos. E outra, ouço porque gosto. Música é arte e não é descartável. Não dou valor a várias edições do mesmo disco, bonecos, fotos, autógrafos, objetos etc, nada disso. Sou amante incondicional de música sim. Lamento decepcioná-lo.

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  7. O que pode ocorrer no futuro é um apagão musical por imposição dos sistemas operacionais. O CD-Rom é um claro exemplo. Depois que o windows retirou do ar o flash player os cdrooms com jogos foram juntos. Exemplo. Dei fim a minha coleção da revista bizz e adquiri o CD ROM da mesma revista pra ficar mais prático. Agora ela não roda mais pela imposição. Isso é o que pode acontecer com a música. Espero que não.

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  8. Gostaria de acrescentar um motivo: a materialidade. A música em si é som, algo que provoca sensações e eleva nosso espírito em sua profundidade, mas que, em si, não possui uma forma material que possa fixar essa interação. Esta fixação, por sua vez, se concretiza no projeto físico dos álbuns, que são em essência a concepção material daquela visão que o artista procura oferecer ao seu fã. Logo, ter o álbum em suas mãos (em CD ou LP) é, a meu ver, uma experiência de emoção. Pois dela nasce todo o contato mais profundo com a obra do artista (som + arte visual + materialidade) que deve ser o sumo do consumo musical. Sem isso, resta à cadeia arte/produção/consumo/aprendizado apenas o empobrecimento de conceitos, o que degenera a musica cada vez mais e mais.
    Acrescento um exemplo: sou professor, lido com adolescentes diariamente, e tenho notado um interesse (daqueles que gostam de verdade de música) lento e crescente na materialidade dos discos, mesmo que por feitiche raso. Apresentei para alguns deles os discos físicos, e a reação foi muito positiva, para uma geração que nasceu dentro do streaming . Já é uma esperança, né.
    Do mais, concordo bastante com os demais motivos citados no artigo e reitero a importância de todos eles para reanimar a mídia física, embora esteja ciente de que esta é uma briga desproporcional, talvez até utópica. Sonhemos.

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  9. Bem, eu não volto para a mídia física nunca mais. A praticidade do streaming é invencível. Ficar limpando a coleção é um pé no saco, o CD arranha, o vinil arranha, para se conseguir um vinil em bom estado é preciso desembolsar uma verdadeira fortuna, muitos vendedores já tentaram me passar a perna oferecendo preços abusivos para discos usados nacionais só porque vinil agora é coisa de hipster, para descobrir música nova é muito fácil com o streaming. A quantidade de bandas novas que eu conheci com o Spotify é inimaginável. Mídia física é um hobbie da elite. Pagar por 35 reais para ter um CD que mal vem com um encarte decente é acintoso. O streaming veio como uma solução para os dois lados. O mercado mudou e os artistas precisam se adaptar. Por isso muitos descontam no valor dos shows, que hoje em dia é muito maior que antigamente. Meu total respeito para quem investe tempo e grana em discos, mas dessa fase eu já passei. Sem falar que não adianta pagar 200 reais num vinil se a agulha é de má qualidade e a vitrola é de segunda categoria, o não é o meu caso, pois o equipamento que tenho em casa é de excelente qualidade.

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    1. Eu ainda gosto de comprar uns CDs...mas bem escolhidos. Adoro o ritual de abrir o CD colocar em um bom aparelho de som e relaxar. Sei lá...35 R$ tem gente que gasta no Mc Donalds então é tudo uma questão relativa. Também curto o streaming...gosto dos dois mundos. Vinil já não tenho vontade, pelo menos não no momento.

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    2. Arranha se a pessoa não sabe usar, meus cds e dvds só pego pelo furinho lateral, tenho cds e dvds de mais de 20 anos q estão como novos

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