Review: Edu Falaschi – Vera Cruz (2021)


Vera Cruz
, primeiro álbum solo de Edu Falaschi, foi vendido como um novo clássico do metal brasileiro, o que gerou um nível de expectativa altíssimo. Com o seu lançamento concretizado, a pergunta é inevitável: o disco entrega o que prometeu? A resposta não é simples.

Para quem é fã de power metal, Vera Cruz soará como um trabalho perfeito. Ao lado de uma banda fenomenal formada pelos guitarristas Roberto Barros e Diogo Mafra, pelo baixista Raphael Dafras, pelo tecladista Fábio Laguna e pelo baterista Aquiles Priester, Falaschi entrega um álbum extremamente técnico, com uma sonoridade épica e grandiosa que revisita e se inspira em seus trinta anos de carreira, alcançando um resultado que agradará em cheio quem acompanha a trajetória do vocalista.

Musicalmente, percebe-se uma clara inspiração no já clássico Temple of Shadows, segundo álbum de Edu e Aquiles com o Angra e que saiu em setembro de 2004. Os timbres dos instrumentos e a própria estrutura das músicas trazem à mente o disco de quase duas décadas atrás, mas isso não compromete o resultado final. Outro ponto é que a abordagem de Temple of Shadows é intensificada em Vera Cruz, com destaque para a parte técnica, que explora a fundo a virtuosidade dos músicos. Esse aspecto aproxima o álbum do universo do Dragonforce, como se o novo trabalho de Edu Falaschi fosse o fruto da união entre o Angra e a banda inglesa liderada pelo guitarrista Herman Li. O que se ouve é uma espécie de power metal extremo, com todas as características do estilo devidamente acentuadas. Por essa razão, quem não é apreciador desse tipo de música provavelmente não irá gostar de Vera Cruz, já que sua sonoridade não faz concessões e, como já dito, mergulha de maneira profunda no lado técnico, que pode ser entendido como “fritação” exagerada e desnecessária por parte do público.

No aspecto conceitual, o disco explora o descobrimento da Ilha de Vera Cruz pelos portugueses em 1500. Essa área compreendia parte da costa nordeste brasileira, localização do Monte Pascoal, a primeira porção de terra do Novo Mundo avistada pelos lusitanos e relatada na histórica carta escrita por Pero Vaz de Caminha e enviada à coroa portuguesa. A Ilha de Vera Cruz acabou evoluindo e tendo mais áreas descobertas, revelando-se uma porção de terra gigantesca que viria a ser batizada como Brasil. O conceito das letras foi criado por Edu Falaschi e desenvolvido por Fabio Caldeira, vocalista do Maestrick. O disco foi produzido por Thiago Bianchi (Noturnall, ex-Shaman) e mixado por Dennis Ward (que trabalhou com o Angra na trinca Rebirth, Temple of Shadows e Aurora Consurgens, além de inúmeros outros nomes como Voodoo Circle, Unisonic e Tribuzy).

Vera Cruz abre com a introdução “Burden”, que conta com narrações e efeitos sonoros que apresentam a história. “The Ancestry” entra a seguir e é a música mais rápida do disco, e nessa canção a abordagem das guitarras chega a incomodar um pouco, pois os dois guitarristas entregam solos rapidíssimos durante toda a faixa. Mas essa sensação acaba sendo minimizada pela capacidade de Edu Falaschi em criar melodias vocais e pontes melódicas, habilidade que sempre esteve clara em toda a sua carreira e que aqui ameniza um pouco a sensação de “fritação” e conduz para um refrão forte e que deve ser cantado a plenos pulmões pelo público nos futuros shows. Apesar dos excessos da dupla de guitarristas, “The Ancestry” é inegavelmente uma excelente abertura para o disco.

O power metal puro dá as caras em “Sea of Uncertainties”, onde outra vez Falaschi mostra o talento para criar composições com ganchos fortes e que ficam na cabeça do ouvinte desde a primeira audição. A parte central conta com trechos instrumentais de tirar o fôlego, além de solos que conseguem equilibrar melhor melodia e velocidade. “Skies in Your Eyes” é a primeira balada do álbum e traz o vocalista trilhando um caminho onde sempre se saiu bem, vide exemplos do passado como “Heroes of Sand”, “Wishing Hell”, “Bleeding Heart” e “Breaking Ties”. E aqui não é diferente, com Falaschi mostrando o quanto sabe compor canções que agradam o ouvido e tem todos os requisitos para se transformarem em hits.

A velocidade volta à ordem do dia em “Crosses”, que é antecedida pela épica introdução “Frol de la Mar”. Com o pé no fundo, a banda brilha em uma das melhores faixas de Vera Cruz. Power metal extremo com instrumental primoroso e uma bela interpretação de Edu. O único ponto que me incomodou um pouco é que a bateria de Aquiles, sempre criativa, aqui soou mais convencional do que o habitual, talvez pelo ritmo hiperativo que acaba impossibilitando viradas e experimentações.

A sempre bem-vinda união entre música brasileira e heavy metal dá o tom em “Land Ahoy”, que chama a atenção de imediato como uma das grandes canções de Vera Cruz. Beirando os dez minutos, entrega a melhor interpretação vocal de Falaschi em todo o álbum, mostrando que o vocalista superou totalmente os problemas com a voz que enfrentou no passado. Os trechos com violão são muito bonitos, assim como os solos. Além disso, o trabalho rítmico e a inclusão de outros instrumentos como flautas e percussão deixa a sonoridade ainda mais rica, além do coro de vozes que imprime dramaticidade e emoção. Belíssima composição!

“Fire with Fire” explora um andamento quebrado conduzido pela cativante linha vocal, enquanto orquestrações engrandecem a música. Elementos étnicos voltam no meio da canção, e os solos, mesmo esbanjando técnica, conquistam o ouvinte e funcionam muito bem. Merece destaque também o trabalho de bateria, onde Aquiles cria uma linha percussiva riquíssima. O resultado é uma música grandiosa e de muito bom gosto, que deve se transformar em uma das favoritas dos fãs. A banda entrega uma espécie de prog power em “Mirror of Delusion”, onde as guitarras e violões se destacam, além de mais uma melodia vocal bastante criativa de Falaschi. “Bonfire of Vanities” é uma balada que conta com um solo de Tito Falaschi, irmão de Edu, e mais um refrão pra cantar junto.

A parte final de Vera Cruz traz duas participações especiais bastante impactantes. Max Cavalera divide os vocais com Edu Falaschi em “Face of the Storm”, mas senti falta de uma presença maior da voz de Max, que poderia cantar também outros trechos além dos que cantou. A canção é excelente, com um refrão fortíssimo e o esmerilho instrumental já esperado. O fechamento se dá com “Rainha do Luar”, que conta com os vocais de Elba Ramalho ao lado de Edu. Aqui, a comparação com Temple of Shadows é inevitável, especificamente com “Late Redemption”, que em 2004 trouxe Milton Nascimento dividindo os vocais com o então vocalista do Angra. A estrutura é semelhante, com a letra sendo cantada em inglês e português e um clima de conclusão da história. Elba está demais na música, com sua voz arrepiando até o mais careca dos headbangers, enquanto Edu também canta muito bem. A parte central apresenta orquestrações que imprimem um clima meio Disney para a música, o que torna a canção ainda mais forte. Lindo encerramento!

Vera Cruz é um trabalho que demanda várias audições para ser absorvido em sua plenitude. Escutar o disco de maneira casual, além de não fazer jus à grandiosidade do projeto, inevitavelmente levará à construção de análises apressadas e equivocadas, que provavelmente repetirão o mantra da “fritação exagerada e sem alma”. Não é por aí. Rico em sua musicalidade, com ótimas ideias e soluções melódicas (algo habitual nos álbuns de – e com – Edu Falaschi), além de um trabalho de composição irretocável, é um disco fortíssimo e repleto de qualidades, ainda que peque em alguns exageros instrumentais, principalmente no trabalho de guitarras. Pessoalmente, gostei muito de Vera Cruz e o álbum atendeu, na minha opinião, a enorme expectativa criada em sua campanha de lançamento. 

Se será ou não um clássico no futuro, isso só o tempo dirá. Mas agora, no presente, sem dúvida é um álbum excelente e que já faz história ao marcar o renascimento artístico de Edu Falaschi, que deixa para trás os problemas com a voz e as polêmicas desnecessárias do passado e mostra-se um artista muito mais maduro e completo.


Comentários

  1. Vamos lá.

    Sinceramente nas primeiras faixas achei o parte vocal "baixa" e talvez com alguns efeitos que me incomodaram bastante.

    Ao longo do disco, parece que a parte vocal do Edu vai melhorando, talvez isso foi feito propositalmente, ou talvez ouve algum problema na mixagem ou o uso de algum software de forma errada.

    Musicalmente o disco é muito bom, na minha opinião um 8.7 pelo conjunto da obra.

    Porém, entretanto, todavia, está longe de ser um TOS.

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  2. Estou de acordo com a sua review, principalmente do que se trata dos excessos de guitarras que há no disco, o que já era de se esperar de um disco de power metal que é um gênero bem arroz com feijão e é o que nós ouvintes do gênero queremos, por isso a expectativa foi sim suprida! No fim das contas é um ótimo disco que flerta com todas as influências que Edu produziu no passado e sem deixar de experimentar lindamente a mescla do prog, power e música brasileira.

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  3. Gostei muito do disco. Mas concordo com Tiago, na primeira audição, achei a voz de Edu um pouco estranha, principalmente em Ancestry. Depois passa :)

    No geral, é difícil escolher as melhores músicas, pois são todas muito boas.

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  4. Tenho uma provocação/reflexão.

    A carreira do Edu pós-Angra não simboliza exatamente aquilo que sempre foi alvo de críticas (acertadas, diria eu) na Collectors? Talvez menos na perspectiva do próprio Edu, mas sim na dos fãs?

    O cara tentou seguir com o Almah e o público (os chupadores de rola gringa, alguém se lembra? rsrs) não deu bola. Então ele entendeu que o público gosta do Edu apenas em relação ao Rebirth/ToS e se rendeu a isso. Turnês apostando na nostalgia e agora um álbum milimetricamente construído para fazer referência (e reverência) ao seu único momento de sucesso.

    Eu entendo o cara, é a forma dele de conseguir êxito. Mas não cabe, mais uma vez, o velho puxão de orelha aos fãs, que só querem mais do mesmo?

    Cabe lembrar que o Angra, com a MESMA FORMAÇÃO do ToS, não tentou repetir o sucesso do álbum (e consequentemente colheu a apatia do público, evidentemente). Algo digno de nota.

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    1. Oi, Alípio. Legal você ter tocado nesse ponto. Com o passar dos anos, minha visão foi mudando um pouco e deixando de ser radical. A música não é só inovação e não precisa reinventar a roda todas as vezes. Percebi isso, e hoje sei valorizar trabalhos que, mesmo explorando caminhos já desbravados, fazem isso com incrível qualidade. E, para mim, isso acontece aqui no Vera Cruz, que também soube inovar dentro de um gênero que muitos classificam como limitado, mas que para mim só soou dessa maneira quando as bandas não foram criativas o bastante. Vera Cruz é uma prova de criatividade dentro de um estilo já definido, e, na minha opinião, é um dos grandes álbuns dos últimos anos.

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    2. Legal a resposta. Consigo te entender. Um abraço.

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  5. Uma delicia de álbum. Minha última referência do Edu foi o último disco do Almah. Melhorou muito! Para mim o ponto alto da carreira dele foi o Motion do Almah (opinião de fã). Eu já sabia que o Aquiles estaria nesse álbum, mas depois da primeira audição fiquei impressionado com o desempenho técnico dos outros músicos (não os conhecia de nome). Uma delícia para apreciar. E concordo com vocês: não é para banalizar a audição.

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  6. Esse negócio de banda ter que mudar pra ficar boa não tem nada a ver.

    Existem centenas de caminhos pra se seguir dentro de um msm formato, coisas como dinâmica, crescendos e fluência são ignoradas por analistas de música, que se limitam a dizer " parece com outro álbum"

    Quem me dera que angra fizesse 20 nova eras e 30 carry ons.

    Quanto a esse álbum, tô achando bom e algumas músicas dignas até de botar na playlist.

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  7. Não sei se tiveram esta sensação, mas como soou pra mim que nosso saudoso André Matos seria perfeito para "The Ancestry".

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    1. Ficaria e acredito que ele até toparia.

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  8. Louco para ver como fica isso tudo AO VIVO.

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  9. Gostaria de parabenizar a Collector pela excelente e detalhada análise. Aproveito para parabenizar e agradecer ao Edu pelo seu grande trabalho no, já clássico, Vera Cruz.
    Destaco ainda a belíssima canção "Land Ahoy". Que acredito não deixar a dever em nada para nenhuma banda gringa - tamanha sua qualidade. Essa música poderia estar, perfeitamente, em qualquer disco do Angra da fase do Maestro André Matos. Estamos muito felizes com esse grande trabalho, parabéns e sucesso Guerreiro Edu Falaschi.

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  10. Analisamos as parte técnicas ,mixagens,virtuosidade dos integrantes ..a comparação com outros álbuns ..mas naverdade o que conta no final é que sensação certa canção causa em nossas vidas..no meu caso..felicidade total..uma nova vontade de viver e apreciar e entender mais de cada música ..numa época de morte esse álbum veio pra trazer reflexão ,vontade de viver..

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  11. É difícil não fazer comparações, com álbuns anteriores, não só feitos pelo Edu, mas sem o Edu tb, Vera Cruz não tem apenas uma alma de ToS, mas tbm muitas músicas, poderiam ser encaixadas em outros álbuns e partes remetem a lembranças de outras músicas, depois da "fritação" inical em The Ancestry, tem todo um ar de Nova Era, o início de Sea of Uncertainties tem o "q" de Angels and Demons, Land Ahoy poderia muito bem entrar no álbum Holy Land, Fire with fire no final da intro, a pequena pontezinha instrumental lembra muito a ponte da Crossing indo pra Carry On e finaliza muito parecida com Running Alone e Rainha do Luar mesma estrutura de Late Redemption. Isso tudo o que digo é apenas para salientar como há inúmeras boas referencias musicais. E devemos entender que é parte de muitas coisas que o próprio Edu fez la atrás, faz parte do processo de criação do cara e tende a ser muito parecido em alguns momentos. O que eu digo não é nenhum tipo de crítica, são observações que achei interessantes e que cada vez mais o Edu nos surpreende com seu talento. Parabens ao time Edu, por esse trabalho magnífico e por ser tão guerreiro para passar por todos os problemas e ser cada cez melhor.

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  12. Mais duas semanas de audição. Mas desde o início lembro do Holy land (pela temática) e do Temple of Sadows (pelas participações). O Edu bebeu na fonte de dois grandes clássicos. Muito bom.

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  13. Que grata surpresa esse álbum!! . Me fez lembrar o Angra que eu ouvia na adolescência (2001-2005), época de descobertas e que a música tem papel fundamental nessas lembranças.
    Eu diria que esse álbum é a continuação que o Angra deveria ter realizado depois do TOS.
    O Edu passou pelo Angra e vejo que o Angra ficou com o Edu.

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  14. Gostei bastante do álbum. Acho que foi o melhor que o Edu conseguiu fazer levando em consideração todos os fatores (um álbum de power metal em 2021, o apego dos fãs ao passado e a limitação do estilo). Achei a produção muito boa, bem como a voz dele (vamos ver como se sai ao vivo, né). Mas as fritadas na guitarra e o grande número de musicas speed metal quebram um pouco... Mesmo assim, o resultado final me deixou com um sorriso de orelha a orelha.

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  15. Considero esse o melhor album de power metal dos últimos anos. Talvez seja o melhor não só de power metal, mas de metal em geral. Esse album com certeza ajudou a dar uma revigorada no velho e bom power metal, usando um elemento ou outro do metal progressivo, mas mantendo o caráter sempre empolgante e cativante das canções que são típicas do power metal. Para mim esse álbum já é um clássico.

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  16. Excelente álbum!! Linda arte na capa do disco, lindas melodias, técnica, velocidade, ótima temática, tudo que um fã de Power metal espera, achei que está lembrando mais angra que o próprio Angra. Lembra sim Temple of Shadows nas melodias e Holy land na temática.. E daí? Confesso que achei linda a voz do Edu, mas nos tons mais altos está soando meia espremida na minha opinião, acredito que ele não conseguirá cantar alto assim ao vivo, mas o álbum é tão bom que isso passa desapercebido.

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  17. Uma coisa é se inspirar nos trabalhos anteriores, outra é fazer CTRL C - CTRL V. Esse álbum não me desce, me decepcionou tanto a musicalidade como a história de Jorge, rasa e maniqueísta. Sei lá, me parece birra com o conceito do TOS, que ele deturpou na turnê In Concert (cantando "God is Love" em Angels and Demons, "not mine" depois de "God's abandoned this world" em Late Redemption, criando uma arte onde São Jorge de fato mata o dragão). Ele tem capacidade pra fazer melhor, e os excelentes músicos que o acompanham também.

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