Heavy metal: as regras infantis de um estilo consumido por quarentões


Escrevo sobre música desde 2005. E quando digo “música” estou falando, predominantemente, sobre heavy metal, este gênero que amo e consumo desde os meus 15 aos. Hoje estou com 48, então já são trinta e três anos inserido nesse universo.

Uma das minhas maiores críticas ao metal é em relação ao público do metal. O estilo é maravilhoso, variado, plural, incrível e sem igual. Porém, seu público praticamente não possui nenhum desses adjetivos. O público de metal, aqui no Brasil, é predominantemente conservador em relação ao estilo que ouve, preconceituoso em relação a outras formas de música e infantil e limitado quando se trata de defender seus pontos de vista, com argumentos que beiram o ridículo. “Não gostou dessa banda porque é pagodeiro”. “Achou o disco ruim, só pode ser funkeiro”. “Falou m ..., viado do caralho”. Esses são apenas alguns argumentos que podem ser lidos facilmente em qualquer matéria ou vídeo que traga a mínima crítica a qualquer ídolo dessa nação de “metalêros”. E só pra constar, caso você não tenha visto, ali em cima escrevi a palavra “predominantemente”, ok?

Escrevi esses dois parágrafos introdutórios pra falar, na verdade, sobre uma música. Ela se chama “Dar as Mãos” e foi composta e gravada por Rafael Bittencourt, líder do Angra, ao lado de diversos músicos como Família Lima, Carlinhos Brown, Toni Garrido, MC Guimê e outros. A letra fala sobre a situação inédita que vivemos desde março de 2020, quanto a pandemia de coronavírus afetou todo o mundo e mudou de maneira profunda a maneira como nos relacionamos, consumimos e vivemos, e de formas que ainda nem percebemos direito. Rafael, na minha opinião, é o maior compositor da história do metal brasileiro. Musicalmente único, criativamente sempre ativo, tecnicamente diferenciado. Basta dar uma checada nos álbuns do Angra e nos clássicos que todo mundo conhece pra ver quantos saíram da mente de Bittencourt.

Obviamente, uma música como “Dar as Mãos”, que não possui os elementos e nem as características associadas ao heavy metal, mas foi composta e é cantada por um dos maiores representes do estilo no Brasil, recebeu críticas. E que foram devidamente amplificadas pelas participações de nomes de fora do nicho pesado como Toni Garrido, Carlinhos Brown e, principalmente, MC Guimê.

A reviravolta que mudou o Brasil e fez várias pessoas que admiramos e éramos amigos elegerem um indivíduo totalmente incapaz como esse que ocupa a presidência de nosso país possui capítulos e ingredientes claros. Porém, a lavagem cerebral profunda e muitas vezes irreversível pela qual essas pessoas passaram merece análises extensas e variadas nos próximos anos. E um dos principais públicos a vestir a capa do conservadorismo e da hipocrisia foi o público rockeiro, o público de heavy metal. Aquele cidadão amigo seu que passou a vida toda ouvindo The Wall e ficou surpreso com o posicionamento político de Roger Waters em seus shows (imagino que essa pessoa imaginava que o álbum falava sobre construção civil ou algo parecido). O mesmo público que brada aos quatro ventos que “música não deve se misturar com política”, e que demonstra uma ignorância histórica absurda ao declarar tal asneira. O mesmo público que brada aos quatro ventos que não se faz mais música como antigamente, mas que pensa justamente assim por ter a cabeça limitada ao seu próprio umbigo.

Adorei “Dar as Mãos”. A canção é muito bonita e a letra exterioriza o sentimento coletivo de solidão e incapacidade de reverter o que estamos vivendo, mas sem jamais perder a esperança de que dias melhores virão. E, ainda que eu e meu filho Matias sempre brinquemos porque a letra canta “abraçar foi proibido” ao invés de “abraçar foi cancelado”, isso não passa de um pequeno detalhe em uma canção que transmite uma sensação imensamente boa e que adoramos ouvir.

A mensagem segue a mesma desde o início da Collectors Room: abra sua mente, viva a música, experimente o mundo. Tudo vai passar. Inclusive a pandemia de COVID e a pandemia de ignorância. 

Comentários

  1. Lindíssimo texto e realmente expõe a verdadeira situação de alguns fãs, porque por mais que esses sejam a minoria infelizmente são os que mais fazem barulho.

    Até hoje eu não consigo entender como tem metaleiro que não aceita novos gêneros, ou as vezes nem novos, mas alguns consolidados como Metalcore e Alternativo.

    Mas posso dizer que essa onde de fãs ignorantes não é presente só em metal, mas sim, infelizmente, na maioria das mídias. Escrevo sobre animes, também um universo de nicho, e os mesmos discursos, ou muito semelhantes, são presentes. E vejo o mesmo em discussões sobre jogos, filmes e séries.
    Me parece um problema de educação e ausência senso crítico.

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    1. No nicho de HQs chega a ser insuportável.

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    2. Na verdade, Fábio, são insuportáveis. O combo ambiente tóxico + preços abusivos fez com que eu me afastasse totalmente não só dos fóruns sobre quadrinhos mas também do consumo desses produtos. Ficou inviável financeira e mentalmente.

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    3. Verdade. Os preços estão impraticáveis em várias coisas...só garimpando e esperando promos. Eu continuo nas HQs...mas sem neuras de completismo e pegando uma coisa aqui e outra ali bem devagar (tenho lido bastante por scans....há um tesouro escondido na internet de coisas muito interessantes). Sobre os fóruns...realmente é lamentável no que os "nerds" e "geeks" (se bem que eu odeio esses rótulos) se transformaram.

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  2. Irei publicar novamente, pois, acho que a primeira postagem não foi.

    Enfim, isso que “metaleiro” é o povo mais intolerante com outros estilos é uma falácia que muitos costumam dizer e acaba se tornando “verdade “

    As pessoas que gostam de metal que eu conheço escutam muitos outros estilos, porém, apenas não gostam de misturar na mesma música metal com outros estilos.

    Se você perguntar para uma pessoa que gosta de pop, sertanejo e afins, quase todos irão dizer “ aí sou eclético, só não gosto de rock pesado “ .

    Se você for a uma festa que não tem gente do metal e você colocar metal, a música não vai durar 10 segundos e vão começar a te xingar .

    O pessoal da mpb fazia passeata contra guitarra elétrica, Tom Jobim dizia abertamente que rock era uma bosta, quando os Beatles surgiram o pessoal da bossa nova dizia que aquilo nem era música e eu nunca ouvi ninguém dizendo que eles eram cabeça fechada com outros estilos

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    1. Verdade, a maioria dos "ecléticos" ficam nas mais ouvidas do Spotify e detestam metal. Ninguém questiona o fato do cara não ouvir Cannibal Corpse numa manhã de domingo, mas não venha encher o saco quando não quiser ouvir MC Guimê também. Poucas pessoas têm verdadeira paixão por música hoje em dia, escutam álbuns inteiros, e verdadeiramente selecionam o que ouvem, e essa minoria ainda é criticada por não querer ouvir o que o resto ouve enquanto ignora o seu gosto.

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    2. Exatamente !
      Esses questionamentos para a pessoa ser cabeça aberta só parte de dentro do pessoal do metal, os outros estilos não fazem a mínima questão de se misturar com metal.

      Apesar de sempre sermos taxados de “conservadores e fechados”, se analisarmos bem, o metal tenta se misturar com outros estilos. Sepultura e Angra sempre misturaram ritmos brasileiros, uma infinidade de bandas mistura com música clássica e afins.



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  3. Canção bonita demais, diz tudo sobre o momento! Juntos, do jeito que dá, mostrando como as coisas são, e o que temos que esperar: tudo isto vai passar!

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  4. Ao mesmo tempo eu gostaria de ser respeitado por ser membro de uma igreja batista e ter um acervo de discos e cds de metal que deixariam todos vcs de queixo caído. Também me cansa ver posts e críticas atacando sem trégua a minha fé, e me calo, pois o meu direito de comentar se transformaria em desentendimento, e EU estaria errado.

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  5. Muito legal o texto e a iniciativa do Rafael. Mas convidar o MC Guimê pra cantar numa canção que fala sobre ser solidário na pandemia é bem estranho, já que esse cidadão foi flagrado num cassino clandestino em São Paulo, durante a quarentena. Então pergunto: pra quem que ele está dando a mão?

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    1. não era ele, meu amigo. você está se referindo ao MC Gui...

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  6. Amo Sepultura e Black Sabbath, mas também amo Milton, Lo Borges e Paulinho da Viola. Simples assim...

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  7. Eu achei a letra muito bonita. Em relacao à canção, ele sugere, em complemento ao conteúdo lirico, uma junção de artistas o que se sobrepõe ao resultado final. Particularmente não gosto,sob o ponto de vista musical, de algumas participações, mas isso seja talvez preciso relevar em função da mensagem. Não há dúvidas, no entanto , que a música ficaria muito bonita se cantada por um grande vocal, embora perdesse parte do impacto buscado pela intenção principal. De qualquer forma, eu saúdo a iniciativa.

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  8. Não vou entrar no mérito da intolerância dos headbangers no Brasil...Essa intolerância existe desde que o heavy metal chegou nestas terras e quem reclama disso apenas agora desconhece a história do estilo neste triste país. Não sei como é o público do estilo em outros países, mas no Brasil este público majoritariamente sempre foi reacionário, conservador e de direita, por mais contraditório que isso possa parecer. A redação da Rock Brigade, que moldou, para o mal, a cabeça do "metaleiro brasileiro" era um antro de reacionarismo e eu já li editorial da Roadie Crew elogiando Caio Coppolla muito antes de Bolsonaro ser presidente, então nada de novo nisso aí...Quanto a música DAR AS MÃOS, ela é tão ruim que me causa constrangimento. Lembrando o pior do pior de um Diante do Trono, repleta de clichês tanto em seu arranjo quanto em sua letra, ela é medonha, uma choradeira "gospel" desconectada da realidade! Sei que este comentário, dado o histórico de muitos de meus comentários anteriores neste espaço, não será publicado, mas tudo bem, mesmo que por vias tortas, de um jeito ou de outro eu acabei participando desde bate-papo extremamente necessário...

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  9. Caro Ricardo,

    Neste caso, discordo dos dois pontos principais:

    - Não acho que o fã de heavy metal seja necessariamente mais radical. Pode ter sido verdade no passado, mas hoje em dia acredito que a proporção de pessoas com a mente fechada no metal seja semelhante aos outros estilos musicais, como rap, MPB, música eletrônica, etc.

    - Achei a música muito ruim. Letra fraca, música e clipe piegas, parece até uma paródia. O final é constrangedor no quesito pieguice. Me parece mais uma egotrip do Rafael e uma vontade de estar inserido no mundo da música pop.

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