Pular para o conteúdo principal

As Aventuras do Jovem Hellboy: uma releitura pulp e mitológica para o universo de Mike Mignola (Mike Mignola, Thomas Sniegoski e Craig Rousseau, 2025, Mythos Editora)


As Aventuras do Jovem Hellboy
é uma minissérie publicada originalmente em 2021 e 2022 pela Dark Horse Comics e lançada no Brasil pela Mythos Editora em um volume único de capa cartonada, com 228 páginas em papel semelhante ao usado pela Panini na coleção DC de Bolso – o formato também se assemelha, sendo 14,5x21,7 cm. A obra expande o universo criado por Mike Mignola ao explorar a infância do personagem-título com uma abordagem diferente dos tons mais sombrios e melancólicos que marcam a série principal. Aqui, a proposta é mais leve, ágil e inspirada nos quadrinhos de aventura e ficção científica da Era de Ouro e Prata.

A HQ foi escrita por Mike Mignola e Thomas Sniegoski, parceiro frequente de Mignola em projetos paralelos do universo Hellboy. A arte fica por conta de Craig Rousseau, cujo traço mais estilizado e cartunesco acentua o tom aventuresco da proposta, sem deixar de carregar elementos grotescos e sobrenaturais que são a marca da franquia.

O volume reúne duas histórias: A Terra Oculta e Ataque ao Castelo da Morte. Na primeira, ambientada em 1947, Hellboy acompanha o Professor Bruttenholm em uma missão na América do Sul e, como não poderia deixar de ser, se mete em confusão ao se separar do grupo. O jovem demônio acaba envolvido com uma civilização perdida, monstros colossais, uma heroína inspirada em personagens pulp e uma vilã que ameaça a humanidade. A trama brinca com os clichês da literatura de aventura, evocando nomes como Tarzan e King Kong, mas sempre com o tom irônico e carregado de mistério que marca o universo Hellboy.

Já em Ataque ao Castelo da Morte, os autores mergulham ainda mais fundo no clima de contos góticos e histórias B de terror. Hellboy e Bruttenholm mudam-se para a nova sede do B.P.D.P. em Connecticut e são ameaçados por um assassino fanático que quer livrar o mundo da ameaça do pequeno filho do inferno. A ambientação lembra os primeiros contos de horror do personagem, misturando ação, humor e referências ao expressionismo alemão e ao horror universal — tudo filtrado pela curiosidade e coragem inconsequente do jovem Hellboy. Ambas as histórias se conectam e formam um arco muito divertido e que proporciona uma agradável experiência de leitura.


Craig Rousseau entrega uma arte dinâmica, colorida e expressiva. Sua abordagem mais "cartoon" dialoga bem com a juventude do personagem e torna a leitura acessível também para novos leitores, sem descaracterizar o universo criado por Mignola. As cores de Dave Stewart — parceiro de longa data da franquia — mantêm a aura sobrenatural através de uma paleta que transita entre o vibrante e o sombrio com equilíbrio.

Apesar de adotar um tom mais leve, as histórias não abandonam os temas centrais do universo Hellboy: o embate entre destino e livre-arbítrio, o ocultismo, a presença do mito em meio ao cotidiano e a convivência entre o humano e o monstruoso. A ambientação nos anos 1940 reforça a cronologia do personagem e serve como pano de fundo para elementos históricos e esotéricos recorrentes na série principal.

O jovem Hellboy retratado aqui já carrega traços de sua personalidade futura: é teimoso, curioso, cheio de compaixão e fascínio pelo desconhecido. Essa construção retroativa do personagem enriquece sua trajetória e oferece um olhar mais humano e até cômico sobre alguém que, no futuro, será encarado como uma figura quase messiânica. Além disso, reforça a relação entre Hellboy e o Professor Bruttenholm, em uma dinâmica que agradará muito os fãs da série.

As Aventuras do Jovem Hellboy funciona tanto como entretenimento divertido quanto como uma peça complementar na mitologia do personagem. Ao brincar com os códigos das aventuras pulp e do horror clássico, a HQ amplia o escopo do universo Hellboy e mostra que, mesmo em sua infância, o herói já encarava monstros, mistérios e ameaças sobrenaturais — e fazia isso com coragem, teimosia e um irresistível senso de aventura.


Comentários