Hardwired… To Self-Destruct (2016) chegou com a responsabilidade de recolocar o Metallica nos trilhos depois do turbulento St. Anger (2003) e do ambicioso Death Magnetic (2008). Era o primeiro álbum da banda em oito anos e o primeiro em muito tempo que não parecia movido por crise interna, culpa criativa ou necessidade de provar algo a alguém. De certa forma, é o trabalho mais confortável do Metallica desde os anos 1990 — e, paradoxalmente, justamente por isso ele soa tão seguro de si.
A banda atravessava uma fase estável: turnês gigantes, reputação consolidada e uma dinâmica interna mais saudável. Sem a pressão de retornar ao thrash (como em Death Magnetic) ou desconstruir a própria imagem (como em Load), o Metallica pôde simplesmente soar como o Metallica. Isso explica a estética híbrida do álbum: ele visita o passado sem nostalgia barata, mas também assume a faceta pesada e moderna que o grupo lapidou ao longo dos anos.
Musicalmente, Hardwired… To Self-Destruct funciona como um catálogo das influências históricas da banda. A faixa-título abre o disco com um thrash direto, quase punk, remetendo à urgência do Kill ’Em All (1983). “Atlas, Rise!” invoca o espírito de Master of Puppets (1986) com riffs entrelaçados e um senso épico que lembra a parceria Hetfield/Ulrich no auge. “Moth Into Flame” é o ponto alto absoluto: veloz, melódica e com um refrão pensado para arenas lotadas, parece sintetizar três décadas de DNA metal em quatro minutos perfeitos. Já “Halo on Fire” recupera o lado mais atmosférico e expansivo do grupo, algo entre o peso dramático do Black Album (1991) e os arranjos mais abertos do período Load/Reload (1996-1997). A segunda metade, embora menos inspirada, ainda guarda bons momentos — “Spit Out the Bone”, por exemplo, é o ataque mais feroz que o Metallica produziu desde os anos 1980. Há excessos? Sim. O álbum poderia facilmente perder 15 minutos e se tornar mais conciso. Mas mesmo nos tropeços há identidade, algo que muita banda veterana perde com o tempo.
É um disco imperfeito? Claro. Mas é também um dos capítulos mais sólidos e conscientes da discografia da banda — e, por isso mesmo, um trabalho essencial.
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