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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Megadeth (2026): um ponto final coerente para uma carreira marcada pelo confronto

A decisão de encerrar a discografia com um álbum autointitulado diz muito sobre a forma como o Megadeth escolheu se despedir. O disco não soa como um testamento emocional nem como uma tentativa de revisitar glórias passadas a qualquer custo. É, antes de tudo, um trabalho que mostra Dave Mustaine consciente de suas limitações, mas também seguro da identidade que construiu ao longo de mais de quatro décadas. O álbum aposta em uma linguagem deliberadamente clássica. Os riffs são secos, diretos, ancorados no thrash metal que sempre foi a espinha dorsal da banda, enquanto os solos mantêm o caráter técnico e agressivo que distingue o Megadeth desde os anos 1980. Não há aqui a ambição conceitual de Rust in Peace (1990) ou o refinamento estrutural de Countdown to Extinction (1992) , mas existe um senso de eficiência quase pragmático: as músicas dizem exatamente o que precisam dizer, sem adornos desnecessários. Nesse contexto, algumas faixas se destacam com mais clareza. “Tipping Point”,...

A Própria Carne – Escrito com Sangue: o horror como herança e consequência (2026, Pipoca & Nanquim)

A Própria Carne – Escrito com Sangue  reúne duas das principais referências da cultura pop brasileira: o portal Jovem Nerd e o canal e editora Pipoca & Nanquim. A HQ não é apenas um produto derivado do filme produzido pelo portal: é uma expansão conceitual que entende o terror como algo múltiplo, fragmentado e profundamente humano. O quadrinho assume desde o início sua natureza de antologia e transforma essa característica em virtude, não em limitação. A obra reúne seis histórias curtas que orbitam o universo do filme A Própria Carne , mas evita a armadilha do simples “material complementar”. Cada capítulo funciona como um recorte específico de trauma, obsessão ou ruptura moral, explorando personagens e situações que antecedem ou tangenciam os eventos centrais da narrativa cinematográfica. O resultado é menos explicativo e mais atmosférico, algo que dialoga muito bem com a tradição do horror psicológico. A HQ aposta na diversidade. Os roteiros variam entre o horror ritualís...

Six Degrees of Inner Turbulence (2002): o Dream Theater entre a grandiosidade e a fragmentação

Six Degrees of Inner Turbulence (2002) é, acima de tudo, um álbum sobre excesso, não apenas de duração ou complexidade técnica, mas de ideias, emoções e intenções. Diferente de Scenes from a Memory (1999), que canaliza sua ambição dentro de uma narrativa rígida e controlada, aqui o Dream Theater opta por um formato mais fragmentado, quase errático, que reflete diretamente o tema central do disco: a instabilidade interna. O primeiro disco funciona como um laboratório emocional. “The Glass Prison” estabelece um ponto de partida brutal, tanto musical quanto lírico. Os riffs angulares e a estrutura opressiva traduzem a sensação de aprisionamento psicológico, enquanto a banda assume um tom mais cru do que o habitual. É uma música que privilegia impacto e tensão, mesmo quando flerta com a repetição, e deixa claro que o virtuosismo aqui não é apenas ornamental, mas parte do discurso. “Blind Faith” amplia esse escopo ao explorar a dúvida como motor narrativo. A música cresce lentamente, ...

Never Surrender (1982): o álbum em que o Triumph foi além do óbvio e expandiu seus horizontes

Lançado após o sucesso de Allied Forces (1981), Never Surrender (1982) não tenta simplesmente repetir a fórmula que havia funcionado, mas amplia o alcance sonoro e temático do Triumph, equilibrando hard rock melódico, peso consistente e uma surpreendente ambição estrutural. Logo na abertura, “Too Much Thinking” deixa claro que este não será um disco apenas festivo. O riff é direto, quase urgente, e a letra traz um olhar crítico sobre excesso de informação, pressão social e alienação, temas pouco comuns no hard rock mais radiofônico da época. Essa veia reflexiva reaparece em vários momentos do álbum, especialmente em “Writing on the Wall”, que flerta com um tom quase apocalíptico. O Triumph, porém, nunca abandona seu lado mais melódico. “A World of Fantasy” surge como uma das grandes baladas da banda, conduzida por um vocal emotivo de Rik Emmett, que aqui demonstra total domínio entre suavidade e intensidade. Já “All the Way” representa o Triumph mais acessível e direto, com refrã...

Metamorfose: duas faces do horror existencial em Dylan Dog (2026, Mythos Editora)

A edição 46 de Dylan Dog, publicada no Brasil pela Mythos Editora com o título Metamorfose , reúne duas histórias escritas por Claudio Chiaverotti que representam com precisão um momento específico e muito particular da fase anos 1990 do personagem. Ao colocar lado a lado “Metamorfose” e “O Mosaico do Terror”, o volume funciona quase como uma obra dividida em duas partes sobre identidade, fragmentação e a perda de controle diante do horror. Em “Metamorfose”, o ponto de partida é simples e profundamente perturbador: Rebecca Stanford, uma mulher bem-sucedida, acorda um dia presa em um corpo que não é o seu. A transformação física não é apenas um artifício grotesco, mas o gatilho para uma narrativa que mergulha no medo da dissolução do eu. Chiaverotti conduz a história de forma deliberadamente onírica, criando uma sensação constante de deslocamento e estranhamento. Nada parece sólido ou confiável, nem mesmo a própria identidade. É um terror mais psicológico do que explícito, potencializ...

Elements Pt. 1 (2003): a ambição sinfônica do Stratovarius em sua fase mais divisiva

Concebido como a primeira metade de um álbum duplo, Elements Pt. 1 (2003) é um dos momentos mais ambiciosos da discografia do Stratovarius e amplia de forma explícita a veia sinfônica da banda, apostando pesado em orquestrações, corais e estruturas longas. Uma decisão que, até hoje, divide fãs e críticos. Logo na abertura, “Eagleheart” entrega um Stratovarius reconhecível: power metal melódico, refrão forte e clima otimista. Faixas como “Soul of a Vagabond” e “Learning to Fly” reforçam esse lado mais direto e eficiente do álbum, equilibrando peso, melodia e os vocais característicos de Timo Kotipelto. Já “Stratofortress”, instrumental veloz e técnico, funciona como vitrine da precisão e do entrosamento da banda em seu auge técnico. O grande ponto de ruptura de Elements Pt. 1 está nas composições mais extensas e sinfônicas. “Fantasia” e, principalmente, a faixa-título “Elements” apostam em grandiosidade, corais épicos e desenvolvimento lento. Para alguns ouvintes, são o coração c...

Dreaming Neon Black (1999): entre paranoia e luto, o álbum mais sombrio do Nevermore

Dreaming Neon Black (1999) marca um dos momentos mais intensos e pessoais da trajetória do Nevermore. Muito além do que um simples álbum de metal, trata-se de uma obra conceitual sombria, construída a partir de uma narrativa de perda, obsessão e colapso emocional, elementos que atravessam o disco do primeiro ao último minuto. A história gira em torno de um homem que perde a mulher que ama e passa a afundar em um estado de paranoia e desespero, flertando com a loucura e o suicídio. Essa trama não surge do nada: ela dialoga diretamente com experiências reais do vocalista Warrel Dane, o que confere ao álbum um peso emocional raro, quase desconfortável em alguns momentos. Não há aqui distância entre o intérprete e o personagem: tudo soa visceral. O Nevermore opta por um caminho menos direto do que em trabalhos anteriores. O peso continua presente, mas agora dividido espaço com atmosferas densas, passagens melancólicas e uma sensação constante de opressão psicológica. As guitarras de J...

Balance (1995): o último capítulo da era Sammy Hagar no Van Halen

Balance (1995) é frequentemente rotulado como um disco irregular, mas essa definição simplifica demais o que ele realmente é. Mais do que um conjunto de músicas com altos e baixos, o álbum funciona como um retrato cru de um Van Halen em estado de esgotamento criativo e emocional, tentando manter sua identidade enquanto o mundo ao redor, e dentro da própria banda, mudava rapidamente. A começar pelo contexto: o início dos anos 1990 já não era mais um terreno naturalmente favorável ao hard rock clássico. O grunge havia deslocado o eixo do mainstream, e bandas associadas ao virtuosismo e ao excesso precisavam se reinventar. Em Balance, essa pressão externa se soma a conflitos internos bem documentados, especialmente entre Eddie Van Halen e Sammy Hagar. O resultado é um disco que soa menos confiante, mais introspectivo e, em muitos momentos, tenso. Eddie assume um papel ainda mais central. Seu trabalho de guitarras e teclados é elaborado, por vezes quase obsessivo, e revela um músico m...

Tex Willer nº 58 - O Ídolo Maldito: templos, sacrifícios e Tex em contato com o lado sombrio do Velho Oeste (2025, Mythos)

Tex Willer nº 58, publicado pela Mythos Editora, marca a chegada ao Brasil de uma das histórias mais atmosféricas da fase jovem do ranger criada por Mauro Boselli. Em O Ídolo Maldito , acompanhamos Tex ainda em processo de formação moral e emocional, lançado em uma aventura que mistura faroeste clássico, tensão mística e ecos de horror ritualístico, elementos que dialogam diretamente com a tradição mais ousada da Bonelli. A trama gira em torno de Tesah, jovem princesa pawnee atormentada por pesadelos recorrentes, que funcionam como presságios de um perigo real e iminente. Esses sonhos levam Tex ao encalço de uma seita ligada a um antigo ídolo asteca, associado a sacrifícios humanos e a um culto violento comandado pela implacável sacerdotisa Yogar. O que começa como um mistério de fronteira logo se transforma em uma corrida contra o tempo, com Tex tentando impedir que Tesah seja oferecida em um ritual macabro. Boselli constrói a narrativa com habilidade, equilibrando ação, suspense ...

Mágico Vento Vol. 2: quando o western encontra o horror (2025, Editora 85)

Mágico Vento Vol. 2 (Editora 85) dá sequência à republicação de um dos títulos mais autorais e atmosféricos da Bonelli, reunindo as edições italianas 6 a 10 em um único tomo de 484 páginas. Este volume consolida a identidade da série ao aprofundar seus pilares: espiritualidade, choque cultural e horror inserido no coração do western. A abertura com “Faca Comprida” marca um ponto de virada emocional. A morte do xamã Cavalo Manco não é apenas um evento dramático, mas um catalisador narrativo que força Ned Ellis a lidar com o luto, a culpa e a responsabilidade espiritual que carrega como Mágico Vento. Gianfranco Manfredi trata a perda com sobriedade e respeito, evitando soluções fáceis e reforçando o tom adulto da série. “O Filho da Serpente” amplia o conflito ao colocar em choque sistemas espirituais distintos. O embate entre a magia sioux e elementos de outras tradições místicas não soa exótico ou gratuito: faz parte da visão de mundo fragmentada e violenta do Oeste retratado pela ...

A estranha geração de músicos sem discos

Ao longo de entrevistas com músicos e a partir de experiências pessoais acumuladas ao longo de anos, uma constatação tem se tornado cada vez mais frequente: há um número crescente de músicos que não colecionam discos, não se interessam por mídia física e, em muitos casos, sequer demonstram curiosidade por álbuns como obras completas. Para quem cresceu entendendo a música como algo que se descobre, se pesquisa e se acumula não apenas em quantidade, mas em significado, essa realidade soa profundamente estranha. É quase como se escritores afirmassem não se interessar por livros. Durante décadas, fazer música e ouvir música eram atividades indissociáveis. Colecionar discos fazia parte do processo de formação do músico: conhecer referências, entender linhagens estéticas, perceber evoluções técnicas e criativas. O disco não era apenas um suporte, mas um espaço de aprendizado. Hoje, essa relação parece rompida. Muitos músicos se formaram em um ambiente no qual a música nunca precisou se...

Metal Sobre Rodas: a jornada sobre duas rodas de Fábio Laguna (2025, Lagunation)

Metal Sobre Rodas: Aventuras Entre o Heavy Metal e o Pedivela poderia facilmente ser apenas mais um livro de bastidores de estrada. Mas Fábio Laguna, conhecido pelo trabalho como tecladista no Angra, Hangar e ao lado de Edu Falaschi, escolhe um caminho bem menos óbvio. Em vez de focar exclusivamente nos palcos, ele desvia para as ruas, trilhas e estradas do Brasil, equilibrando turnês de heavy metal com longos percursos de bicicleta. O livro nasce a partir de uma turnê de 38 dias, passando por 11 estados e o Distrito Federal, mas funciona mais como um diário de experiências do que como um registro cronológico de shows. Laguna transforma o pedal em ferramenta de observação: das cidades, das pessoas, do próprio corpo e da mente em movimento constante. O heavy metal está sempre presente, mas não como protagonista absoluto: ele divide espaço com o cicloturismo, a contemplação e a busca por liberdade fora do óbvio. Um dos maiores méritos da obra é justamente essa fusão pouco explorada....

Alto Volume, de Henrique Inglez de Souza: um diário de bordo do jornalismo rock (2025, Independente)

Alto Volume: Bastidores e Conversas com Ícones do Rock/Metal Mundial , de Henrique Inglez de Souza, é um livro que se impõe menos como uma simples coletânea de entrevistas e mais como um relato autoral de vivência no jornalismo musical. Ao longo de suas páginas, o autor transforma décadas de encontros com grandes nomes do rock e do metal em uma narrativa fluida, que privilegia contexto, percepção e memória, elementos que raramente sobrevivem ao formato tradicional das revistas. Aqui, as conversas não aparecem de forma engessada ou protocolar. Henrique reconstrói ambientes, descreve atitudes, revela bastidores e, sobretudo, interpreta o que foi dito e o que ficou subentendido. O resultado é um livro que se lê como uma sucessão de histórias conectadas por uma mesma paixão: a música pesada e tudo o que orbita ao redor dela, do glamour ao desgaste, do mito à realidade. Um dos grandes méritos de Alto Volume está na humanização dos ícones. As figuras lendárias surgem não apenas como per...

Ayreon em 01011001 (2008): quando a tecnologia tenta recriar a alma

Em 01011001 , Arjen Anthony Lucassen leva o Ayreon ao limite de sua própria ambição. Lançado em 2008, o álbum não é apenas mais uma ópera-rock dentro do já complexo universo criado pelo músico holandês, mas um ponto de convergência narrativa, estética e filosófica de tudo o que o projeto vinha construindo desde os anos 1990. Trata-se de uma obra gigantesca em duração, elenco e ideias, que exige do ouvinte tempo, atenção e disposição. A história gira em torno dos Forever, uma raça alienígena imortal que, ao alcançar um grau extremo de evolução tecnológica, perde justamente aquilo que os tornava vivos: as emoções. Na tentativa de recuperá-las, eles criam a humanidade como um experimento, usando seu próprio DNA, esperando observar sentimentos como amor, dor, medo e empatia à distância. O problema é que a experiência sai do controle. A humanidade acelera seu desenvolvimento tecnológico, repete os mesmos erros dos criadores e caminha para a autodestruição. A ironia é cruel e central para ...

The Metal Opera (2001): Tobias Sammet e a ambição que redefiniu o power metal

The Metal Opera (2001) não surgiu apenas como um álbum de estreia, mas como a apresentação de um conceito ambicioso que ajudaria a redefinir o power metal no início dos anos 2000. Idealizado por Tobias Sammet, então conhecido pelo trabalho no Edguy, o Avantasia nasceu já como algo maior do que uma banda tradicional: um projeto narrativo, coral e teatral, pensado como uma verdadeira ópera em forma de metal. A proposta é clara desde os primeiros minutos. The Metal Opera é um álbum conceitual que acompanha uma história de fantasia com fortes referências religiosas, conflitos de fé, amor e destino. Cada personagem ganha voz própria por meio de convidados que, à época, representavam o alto escalão do metal melódico europeu. Michael Kiske, Kai Hansen, Andre Matos, David DeFeis e Sharon den Adel não aparecem apenas como participações especiais, mas como peças essenciais da narrativa, reforçando a ideia de encenação sonora. E, em relação a Kiske, o disco tem ainda outro significado, pois m...

Fabio Lione fala sobre passado, presente e desgaste no Angra

A saída de Fabio Lione do Angra, após 13 anos como vocalista, não foi apenas o encerramento de um ciclo. Em entrevista recente à Rolling Stone Brasil ( leia aqui ), o cantor italiano deixou claro que sua decisão envolve mais do que o hiato anunciado pela banda: trata-se de uma leitura crítica sobre narrativa, legado e, principalmente, futuro artístico. Segundo Fabio, a explicação pública dada por Rafael Bittencourt de que ele preferiu sair para continuar ativo enquanto o Angra entra em pausa, é verdadeira, mas incompleta. Para o vocalista, trata-se de uma “verdade confortável”, construída de forma diplomática, que evita aprofundar divergências internas sobre os rumos da banda. Sem ataques diretos, Fabio aponta para uma diferença de visão: enquanto ele defende movimento e criação constante, o Angra parece cada vez mais ancorado na celebração do passado. Esse ponto se torna central quando o cantor fala de sua própria passagem pela banda. Foram três álbuns de estúdio, o trio Secret Ga...

Dystopia (2016): foco, maturidade e a reafirmação criativa do Megadeth

Quando Dystopia (2016) foi lançado, a discussão em torno do Megadeth já não girava mais apenas em torno da qualidade de cada novo disco, mas da própria capacidade da banda de permanecer artisticamente relevante dentro do thrash metal. Diferente de nomes que passaram a viver quase exclusivamente da nostalgia, Dave Mustaine sempre tratou cada álbum como uma tentativa, bem-sucedida ou não, de reafirmação criativa. Dystopia se destaca justamente por transformar essa necessidade em método. A entrada de Kiko Loureiro representa uma mudança profunda. Seu estilo não tenta emular Marty Friedman nem competir com o passado. Ele trabalha com fluidez, precisão técnica e uma abordagem mais racional dos solos, que não são apenas momentos de virtuosismo, mas extensões narrativas das músicas. Eles dialogam com os riffs, ampliam tensões e, muitas vezes, funcionam como comentários musicais sobre a própria estrutura das faixas. Chris Adler, por sua vez, traz uma abordagem rítmica mais contemporânea,...

Masterplan (2003): uma estreia moldada por experiência e personalidade

Lançado em 2003, Masterplan chegou cercado de expectativas. Não era apenas o álbum de estreia de uma nova banda, mas a reunião de músicos experientes como Roland Grapow e Uli Kusch, recém-saídos do Helloween, e o vocalista Jørn Lande, que carregavam consigo um passado relevante no metal europeu. O risco, nesses casos, costuma ser alto: ou o projeto soa como uma extensão previsível do que já foi feito antes, ou se perde tentando provar demais. Masterplan evita essas duas armadilhas com notável segurança. O disco se ancora no power metal melódico, mas não se limita a ele. Há peso, velocidade e refrões fortes, mas também espaço para estruturas mais elaboradas e momentos de densidade emocional que fogem do padrão mais épico ou fantasioso do gênero. Desde “Spirit Never Die”, que abre o álbum com energia e confiança, fica claro que a proposta é direta, mas não simplista. Os riffs são sólidos, a base rítmica é precisa e a produção favorece a clareza sem sacrificar o impacto. O grande di...

Animals (1977): o Pink Floyd em um estudo sobre poder, alienação e ruptura

Aprofundando a escuta de Animals (1977), fica cada vez mais claro que este é um dos álbuns mais coesos e radicais da discografia do Pink Floyd não apenas pelo discurso, mas pela forma como música, letra e estrutura trabalham juntas para transmitir desconforto. Trata-se menos de um álbum conceitual clássico e mais de um manifesto sonoro, onde cada escolha estética reforça a visão amarga de Roger Waters sobre a sociedade e, em certa medida, sobre a própria trajetória da banda. Diferente de The Dark Side of the Moon (1973), que usa metáforas universais, ou de Wish You Were Here (1975), que se ancora na melancolia e na ausência, Animals é direto, acusatório e pouco interessado em sutilezas. Waters assume o controle criativo quase total, e isso se reflete tanto na agressividade das letras quanto na rigidez estrutural do disco. Aqui, não há espaço para abstrações confortáveis: tudo é conflito, hierarquia e sobrevivência. A sonoridade é mais seca, menos espacial, com uma presença maio...

Beco do Rosário: Ana Luiza Koehler e a Porto Alegre que os mapas apagaram (2020, Veneta)

Beco do Rosário , de Ana Luiza Koehler, é uma daquelas graphic novels que dialogam com a história de forma profundamente incisiva. Ambientada na Porto Alegre dos anos 1920, a obra reconstrói um espaço real, o antigo Beco do Rosário, para refletir sobre memória urbana, exclusão social e os custos humanos dos projetos de modernização das cidades brasileiras. A narrativa acompanha Vitória, uma jovem negra que vive no beco e sonha em ser jornalista, em meio a um contexto marcado por racismo estrutural, desigualdade de gênero e transformações urbanísticas que empurram comunidades inteiras para fora do centro. A cidade cresce, se “europeíza”, mas deixa para trás histórias, afetos e identidades. Esse contraste entre progresso e apagamento é o eixo central do quadrinho. O grande diferencial de Beco do Rosário está na forma como texto e imagem se complementam. O traço delicado aliado à aquarela suave cria uma atmosfera contemplativa, quase melancólica, que convida o leitor a observar cada ...