Mágico Vento Vol. 2 (Editora 85) dá sequência à republicação de um dos títulos mais autorais e atmosféricos da Bonelli, reunindo as edições italianas 6 a 10 em um único tomo de 484 páginas. Este volume consolida a identidade da série ao aprofundar seus pilares: espiritualidade, choque cultural e horror inserido no coração do western.
A abertura com “Faca Comprida” marca um ponto de virada emocional. A morte do xamã Cavalo Manco não é apenas um evento dramático, mas um catalisador narrativo que força Ned Ellis a lidar com o luto, a culpa e a responsabilidade espiritual que carrega como Mágico Vento. Gianfranco Manfredi trata a perda com sobriedade e respeito, evitando soluções fáceis e reforçando o tom adulto da série.
“O Filho da Serpente” amplia o conflito ao colocar em choque sistemas espirituais distintos. O embate entre a magia sioux e elementos de outras tradições místicas não soa exótico ou gratuito: faz parte da visão de mundo fragmentada e violenta do Oeste retratado pela série. Aqui, Mágico Vento se afirma menos como herói clássico e mais como mediador entre forças que não se compreendem.
“Wendigo” leva o horror a um primeiro plano. Inspirada diretamente no folclore indígena, a história trabalha o medo como manifestação simbólica da degradação humana, mantendo a narrativa ancorada tanto no mito quanto na brutalidade histórica. O resultado é uma das histórias mais sombrias do volume, reforçada por uma arte que privilegia sombras e silêncio.
O arco se encaminha para um tom mais físico e psicológico em “Cara de Pedra” e “Esqueletos”, que introduzem e solidificam antagonismos recorrentes. A violência aqui é menos ritualística e mais concreta, refletindo a escalada de ódio e intolerância que permeia o cenário do Velho Oeste. Manfredi mostra domínio absoluto do ritmo, alternando introspecção e tensão sem quebrar a coesão do conjunto.
Editorialmente, o Volume 2 da Editora 85 é um acerto. O formato omnibus valoriza a leitura contínua, essencial para perceber a construção temática desse arco, e reforça o caráter literário da série. Trata-se de um volume fundamental para entender por que Mágico Vento é frequentemente citado como um dos trabalhos mais maduros e ambiciosos da Bonelli.
Este é o ponto em que Mágico Vento deixa definitivamente de ser apenas um western com elementos sobrenaturais e se afirma como uma obra sobre identidade, perda e espiritualidade em um mundo em colapso. Um volume forte, denso e indispensável para quem busca quadrinhos que dialogam com história, mito e emoção real.



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