Pular para o conteúdo principal

Eightball Completo: o desconforto como linguagem no mundo segundo Daniel Clowes (2025, Darkside)


Eightball Completo
revela Daniel Clowes no momento em que os quadrinhos alternativos deixam de ser apenas reação ao mainstream e passam a se afirmar como linguagem própria. Publicada originalmente entre 1989 e 1997, a série funciona como um laboratório contínuo, no qual Clowes testa limites narrativos, estéticos e morais. A leitura integral deixa claro que Eightball não foi pensada como uma obra coesa desde o início, mas como um espaço de liberdade total, e é justamente essa falta de unidade aparente que se transforma em sua maior força. O leitor acompanha um autor em permanente estado de inquietação, alternando entre o escárnio absoluto e uma sensibilidade surpreendentemente delicada.

O aspecto mais incômodo e mais potente de Eightball está na forma como Clowes encara seus personagens. Quase ninguém é apresentado de maneira simpática ou redentora. São figuras patéticas, ressentidas, socialmente deslocadas, muitas vezes cruéis ou ridículas. Mas, ao contrário de uma simples postura niilista, Clowes constrói uma empatia torta, que nasce do reconhecimento desses personagens como produtos de um mundo vazio, consumista e emocionalmente falido. Em histórias como Dan Pussey, o autor desmonta a indústria dos quadrinhos e o culto ao “gênio criativo”, enquanto em Ghost World a crítica se torna mais silenciosa e dolorosa, focada na dificuldade de amadurecer em um ambiente que não oferece pertencimento real.

Do ponto de vista formal, Eightball é igualmente radical. Clowes alterna estilos gráficos, ritmos narrativos e até registros de linguagem com uma liberdade que poucos quadrinistas da época ousavam experimentar. Há histórias quase abstratas, narrativas oníricas que recusam explicações lógicas como a surreal Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, páginas que simulam anúncios, capas falsas e piadas internas que dialogam diretamente com o leitor mais atento. Tudo isso reforça o caráter metalinguístico da obra: Eightball fala o tempo todo sobre quadrinhos, sobre contar histórias e sobre o fracasso inerente a qualquer tentativa de dar sentido pleno ao mundo.


A edição brasileira da DarkSide vem com capa dura e 544 páginas no formato americano, e potencializa essa experiência ao preservar o caráter cru e desconfortável do material. A tradução, assinada por Érico Assis, opta por não domesticar o texto, mantendo o sarcasmo, a aspereza e até o gosto amargo de certas passagens. Lido hoje, Eightball carrega marcas evidentes de seu tempo como referências culturais e posturas e provocações típicas dos anos 1990, mas isso não o enfraquece. Pelo contrário: transforma o livro em um registro honesto de uma geração que enxergava o futuro com desconfiança e o presente com ironia corrosiva.

Eightball Completo não oferece catarse nem respostas fáceis. É uma obra que exige paciência, disposição para o desconforto e, sobretudo, aceitação do fracasso como tema central. Daniel Clowes não está interessado em salvar seus personagens, e muito menos o seu leitor. O que ele oferece é algo mais raro: um olhar impiedoso, lúcido e profundamente humano sobre a solidão, o tédio e a inadequação.

Um clássico publicado na íntegra pela primeira vez no Brasil, e que mostra a sua força não por agradar, mas por permanecer.

 


Comentários