Gullivera, de Milo Manara, chegou ao Brasil em 2006 pela Pixel Media como parte de uma aposta da editora em quadrinhos europeus voltados ao público adulto. A edição nacional, em formato de álbum e com bom padrão gráfico, apresenta ao leitor brasileiro uma das obras mais leves e irônicas do autor italiano, livremente inspirada em As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, mas reinterpretada a partir de um olhar declaradamente erótico.
Aqui, o protagonista clássico dá lugar a Gullivera, uma jovem que naufraga e passa a vivenciar encontros com povos diminutos e gigantes, sempre em situações que exploram o contraste de escala como motor narrativo e, sobretudo, visual. Manara usa essa estrutura para criar cenas que misturam humor, fantasia e sensualidade, apostando menos na crítica social afiada de Swift e mais em jogos de sedução, voyeurismo e composição corporal. O roteiro é simples, quase episódico, funcionando como fio condutor para uma sucessão de quadros pensados para valorizar o corpo feminino e a fluidez do traço.
É justamente no desenho que Gullivera encontra sua principal força. O traço elegante de Manara, com linhas precisas, anatomias idealizadas e um domínio absoluto da narrativa visual, sustenta a leitura mesmo quando a história se mostra superficial. A edição brasileira valoriza esse aspecto com impressão colorida competente e papel de boa gramatura, além de incluir um ótimo texto contextualizador do pesquisador e escritor Gonçalo Júnior, que ajuda a situar a obra dentro da trajetória do autor e da tradição dos quadrinhos eróticos europeus.Gullivera não é um dos trabalhos mais ambiciosos de Milo Manara em termos narrativos, mas cumpre bem seu papel como exercício de estilo e fantasia. Trata-se de uma HQ que se sustenta mais pelo prazer estético e pela leveza do tom do que pela profundidade do enredo, algo que pode frustrar quem busca uma releitura mais crítica de Jonathan Swift, mas que agrada aos leitores interessados no Manara mais lúdico, sensual e descompromissado.
Para colecionadores e fãs do autor, a edição da Pixel permanece como um registro importante de uma fase do mercado brasileiro em que álbuns europeus adultos ganharam espaço e tratamento editorial à altura.



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